Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

As portas de Kafka e a morte do Modesto

por Danilo Ferreira

1.

Sempre fiquei na dúvida se conheço Kafka. Afinal, o Kafka que conheço sempre será o Kafka do Modesto.

2.

Descobri hoje pela manhã que o Modesto faleceu. O velório será no corredor onde trabalho. A notícia foi dada por Ana. Ela é a primeira pessoa que eu encontro todos os dias ao entrar no prédio. Percebi que Ana estava assustada com a ideia de que passará o dia ao lado de um morto. É o seu primeiro velório aqui?, perguntei. Sim, ela disse. Enquanto caminhávamos pelo corredor, contei que o Modesto escreveu um livro chamado Resumo de Ana. É um livro que se passa em Sorocaba, cidade natal de Modesto e na qual passei uma parte da minha vida.

3.

A obra de Kafka é um castelo de rascunhos. Nenhum outro autor desejou tanto que suas obras ficassem apenas nos velhos cadernos que preenchia com seu garrancho — o termo é dele, segundo o Modesto. Alguns desses rascunhos foram escritos em uma minúscula casa, na cidade de Praga, ao pé de um castelo enorme, labiríntico, que talvez seja o maior castelo do mundo.

4.

Quando li Resumo de Ana fiquei na dúvida: A escrita do Modesto carrega o estilo de Kafka? Ou será que o estilo do Kafka traduzido para o nosso vernáculo carrega a escrita de Modesto?

5.

No dia 3 junho de 2015, eu estive na casa 22 da Viela Dourada, onde o poeta de Praga viveu alguns anos com a irmã. Naquela noite, antes de dormir, fiz a seguinte anotação: Passei pela porta, olhei o pequeno aposento, a mesa, a cadeira, saí logo em seguida com aquele mórbido sorriso de turista feliz. Hoje faz 91 anos que Kafka morreu num sanatório, tuberculoso, aos 40 anos de idade.

6.

Resumo de Ana é um livro delicado e triste. Ao apresentar as desventuras de sua avó e de seu tio Ciro, Modesto narra as vicissitudes de pessoas humildes numa geografia interiorana. A cidade de Sorocaba se transforma num castelo. Ana e Ciro são os personagens que poderiam ter um K. gravado na pele. Eles vivem numa dimensão onde os acessos estão sempre suspensos, interrompidos, negados. Caminham no rumo incerto de um inseto, orientados pela fatalidade de se entrar frequentemente numa porta que era tão-somente uma passagem para outra escolha, outra porta, outra derrota.

7.

Quando estudava na USP, Modesto descobriu Kafka numa aula de análise sintática da língua alemã. Muitos anos depois, numa conferência em Salvador, ele esclareceu a epifania: “Terminei meu curso de direito, não exerci a profissão, entrei num curso de letras e travei contato com a linguagem de Kafka através de um conto intitulado ‘Diante da lei’.” Naquela noite, no velho prédio da rua Maria Antônia, o neto de Ana encontrava uma porta.

8.

Passear por Praga é ver sempre o castelo no alto do morro. Entrar no castelo é descobrir que ele não é uma edificação única, mas uma sequência de espaços contíguos, que vão se desdobrando e se expandindo sem muita lógica: pátios, corredores, ruelas, portas que atravessei, confesso, com certa preguiça — eu anotei no dia seguinte.

9.

Há duas cenas no Resumo de Ana que eu nunca esqueci. A primeira é quando Modesto encontra Ciro numa praça do centro de Sorocaba, onde estão colocados dois canhões fundidos na Real Fábrica de Ferro de Ipanema. Ao ver o tio sentado num banco, Modesto, que à época já era um intelectual, tenta explicar a história daqueles canhões e da Revolução Liberal de 1842. Nessa tentativa professoral, Modesto entende apenas que seu tio passou a vida toda circulando pela cidade, numa sina alucinada pela sobrevivência, e que, assim, ele nunca teve tempo para saber a história daquelas ruas, praças e monumentos. Modesto percebe, com alguma tristeza, que não tem muito o que compartilhar com o tio. Foi a última vez que eles se encontraram.

10.

“Levar lentamente, progressivamente, a língua para o deserto. Servir-se da sintaxe para gritar, dar ao grito uma sintaxe. Não há nada tão grande, nem tão revolucionário, quanto o menor. Odiar toda literatura de mestres. Fascínio de Kafka pelos servidores e pelos empregados”, escreveram Deleuze e Guattari.

11.

A segunda cena marcante do livro, eu segui contando para Ana, é justamente o velório de Ciro. Modesto descreve com delicadeza a morte e o enterro daquele homem de pouca sorte. Na manhã seguinte, a família foi avisada que Ciro havia sido enterrado na cova errada. Modesto então escreve: “O revés acompanhou Ciro até a última hora.”

12.

“Foi pela análise sintática das frases de ‘Diante da lei’ que vi concretamente como o modo kafkiano de narrar, pautado pela transparência, colide em cheio com a obscuridade do que é narrado. Diante de uma cisão dessa ordem, o melhor que um tradutor poderá fazer é ficar próximo à letra, sem no entanto se deixar iludir pelo comodismo da literalidade, que, como todos nós sabemos, mais trai do que traduz”, escreve Modesto em Lições de Kafka, o livro que li durante minha breve estadia na cidade de Praga, onde fiquei hospedado num apartamento com muitas portas e uma estreita vista para o castelo.

13.

‘Diante da lei’ é um dos textos mais enigmáticos da história. Uma parábola sobre um camponês tentando acessar à lei por meio de uma porta. Na frente dela, porém, há um porteiro que impede a entrada, alegando que ainda não é a hora certa. O homem, paciente, aguarda. Os anos passam, ele envelhece, e no momento de sua morte pergunta ao porteiro por que nunca ninguém havia tentado acessar à lei por aquela porta. O porteiro responde: “Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e eu fecho-a.” Segundo Modesto, esse é um dos poucos textos que Kafka não pediu para queimar.

14.

Aos 45 anos Modesto começou a traduzir Kafka. O primeiro texto foi ‘Pequena fábula’, um miniconto no qual um rato narra em apenas uma frase toda a sua trajetória até se perceber correndo para um canto estreito, onde paredes convergem, uma para a outra, e uma ratoeira o espera. “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o. Modesto explica o seu fascínio: “Para mim esse foi um bom começo. O principal aqui, além do humor patibular, são a concisão e o efeito calculado, como o final tragicômico. A morte certa não é apenas um dado de realidade, mas um escárnio absoluto.”

15.

Não consigo tirar o Modesto da cabeça desde quando encontrei Ana no estacionamento. O velório está acontecendo no salão nobre. O prédio permanecerá o dia todo com agitação. O expediente, no entanto, não é suspenso quando acontecem velórios por aqui. Por esse corredor cumprido e com teto baixo onde trabalho todos os dias, os familiares de Modesto cruzarão com servidores carregando teses, processos e requisições.

16.

Tenho um amigo que, assim como o Modesto, é sorocabano e, assim como eu, admira muito o trabalho do Modesto e os livros do Kafka. Um dia ele resolveu tatuar na barriga a gravura de uma porta entreaberta que ilustra a primeira edição alemã de A metamorfose. Incomodado com a dor, resolveu desistir no meio. Então a porta entreaberta ficou inacabada, sem final, como são os grandes romances de Kafka.

17.

A história começa mal e termina pior. Essa é uma definição clássica das principais narrativas de Kafka. No entanto, para além do pesadelo e da premonição do horror, a escrita kafkiana pode ser vista como um ato político e, sobretudo, de alegria. Segundo Deleuze e Guattari, Kafka “é um autor que ri, profundamente alegre, de uma alegria de viver, malgrado e com suas declarações de palhaço, que ele estende como uma armadilha ou como um circo (…) Jamais houve autor mais cômico e alegre do ponto de vista do desejo.”

18.

Depois de muito meditar, eu resolvo sair da minha sala e caminhar pelo corredor até chegar à última porta do prédio onde trabalho. Hesito na entrada do salão nobre. Não sei se devo. Não sei se quero. Com discrição, apenas observo de longe o velório do homem que traduziu a obra de Kafka e que fez dessa tarefa a sua própria obra. O escritor sorocabano que me fez conhecer e amar a vida de Ana e de Ciro. Ainda parado diante da porta, com um processo amarelo nos braços, eu penso no quanto aquele homem riu ao traduzir os rascunhos do palhaço de Praga.

19.

No final do dia, eu entreguei as minhas notas para Ana. Ela ficou surpresa com a crônica e, com um sorriso no rosto, disse: “Até tinha me esquecido do velório.”

20.

“Há esperança suficiente, esperança infinita, mas não para nós”, escreveu Kafka. Nenhuma frase resume bem o terror e o humor da escrita kafkiana. As portas estão sempre abertas e essa é a pior parte, eu penso ao voltar para minha sala.

NOTA: Texto escrito como uma modesta homenagem a Modesto Carone Netto (1937–2019).

Foto por Tiago Tranjan