Inquietudes para o homem comum Vinícius de Castro Soares

A compleição dos anêmicos

por Vinícius de Castro Soares

Suponhamos que a nossa presente época adotasse um andarilho típico como porta-voz de seu espírito. Que ele fosse um incapaz aos olhos de muitos, mas capaz de permear os grilhões que acometem a todos. A tópica, manjada, é contudo eficaz ao nos mostrar o tendão que une o motor do mundo à miséria dos homens: hoje, a escalada dos frágeis veste o véu da força, e não se pode caminhar pelas ruas do mundo sem se deparar com o culto à eficiência, na mesma proporção em que os tempos românticos se distanciam de nós. A cada esquina, uma academia, não aquela feita de gênios, mas a dos escravos da mecanização do corpo; na loja esportiva, em um canto paira a imagem do jogador enfuriado; no outro, a do tenista com a musculatura rasgada de um rosto pouco amigável; guina-se um pouco, e lá está o boxeador em posição de vitória; no canto que restou, o casal atlético, esses amantes aeróbicos que nos sufocam; ao centro, os vendedores e vendedoras, derrotados no mundo árduo do trabalho competitivo, que conversam entre si as pequenas rotinas do dia, munidos do leitor de código de barras. Nessa sociedade de fortes frágeis, só o nosso paradoxal andarilho pode revelar a bússola que nos descaminha. Tão pobre e tão nobre, ele nos ensina que o alpinismo dos laborais busca um ócio do reflexivo, para que nele permaneçam ocupados.

Competição. Se muitos se queixam de ir à academia, por que tantas pessoas se prestam a essa tarefa? Por que se vê essa tendência para os negócios do corpo? Essa dedicação aos recintos de culto ao fit, nas ruas, shoppings, parques e onde mais couber nos negócios da cidade? Um esboço de resposta pode ser feito com o empréstimo da lição de Thorstein Veblen sobre como se institui o alpinismo social, tema tão urgente ao momento atual, afeito que somos à escalada dos direitos, ainda que estes se resumam apenas ao direito de consumir. Aprendemos com o autor que o princípio da honra costura o funcionamento das sociedades, desde as bárbaras até a nossa civilização de matriz industrial e urbana, e daí o sentido de emulação, gesto que carrega as marcas da vida pecuniária. Um gesto a encharcar nossos ossos, drenando os nossos espíritos. Emulação.

Se pudermos extrair disso uma ideia de respeitabilidade, notaremos, hoje, o quão dotada ela é do semblante da honra, essa virtude um bocado estética. Ser respeitado, nos parece, tem se resumido a ser percebido, um fantasma que não se cansa de atormentar os espíritos, os mais débeis sobretudo, dada a exigência de reconhecimento que nos persegue a todos. Amiúde, o youtuber que precisa dos likes, a massa de trabalhadores que precisa ser bem avaliada, o empreendedor que deve mostrar os resultados, o político que tem de se garantir, a nação que há de honrar a sua história. Ao homem comum, frágil diante de tanta exigência, é preciso buscar o seu parco reconhecimento enquanto alma viva, e se um dia o prêmio foi a cabeça do inimigo, hoje o troféu é bem mais modesto: a luta se rebaixa à mera aquisição de uma musculatura sintética, destituída de todo sentido de plasticidade de composição. O mundo do trabalho enfraquece a todos que a ele estão submetidos, e a rigidez do desejo de músculos rígidos se mostra inútil. O novo Mefistófeles devora os espíritos, torna-os anêmicos ao exigir deles uma flexibilidade venal, e pouco se incomoda se acaso os corpos são bem definidos.

Esse jeito de apreciação das formas é o cartão de visitas de nosso tempo. E quem participa desse novo trend há de transmutar o desejo de beleza ao desejo de culto a si mesmo. E eis aqui o fenômeno sobre o qual se debruça nosso andarilho: um caminhar por entre os alpinistas do reconhecimento estético imediato. Esses corriqueiros que correm famintos na alma, entupidos que estão por esse desejo do culto ao corpo. Aqui está o rito da emulação, o motor invisível do corpo-a-corpo possível no caos urbano, emergindo daí um esbarrar a todo instante não com outros andarilhos, mas com os andantes de calça legging e shorts pretos. Das ruas aos recintos, a morada desse rito é o crossfit, o muay thai, o power ioga, os ingressos para um show pirotécnico da luta de artes marciais em sua versão industrial. Da loja de produtos esportivos ao descampado da cidade, observa-se a amostragem bruta e mesquinha do que um dia fora designado por mundo corpóreo.

Esse conjunto de transeuntes sintéticos compõe um ornamento, formando, por assim dizer, um “motivo” pictórico da experiência urbanística. Um ornamento da massa. Palavra que vem bem a calhar, porque o corpo é massa, porque um amontoado de gente há de ser igualmente massa, ainda que o termo já tenha sido absorvido o suficiente, do cientista social ao homem comum. Massa corpórea que nos compõe, sujeitos que somos enquanto massa: o culto ao corpo, um corpo político de culto ao líder; do sujeito particular à coesão de indivíduos, a paisagem urbana é a compleição da variedade de sujeitos que se particularizam enquanto mentes iguais, enquanto corpos iguais, enquanto massa. Iguais. Compromissados com os desejos imediatos, resulta disso uma estética primária sem a varinha mágica para se escavar a nobreza oculta da qual a vida é banquete.

* * *

Sejamos claros: viver é, sem dúvida, ir adiante, avançar, adquirir, desejar, vencer, ainda que isso signifique, a muitos, a conquista de alguns bens. E que assim seja, que cada um, ao existir, junte os seus montinhos de terra do barro que nos compõe, porque nem todo alpinismo social há de semear uma montanha em erosão. Ao nosso andarilho, o admirável consiste na tragédia de uma escalada em direção ao abismo, no trágico dilema do ganhar algo para se perder tudo: em troca da própria alma, os corpos estão a bailar pelas engrenagens do labor cotidiano; em marcha, jaz o atrofiamento do espírito em benefício da robustez mais visível da pele. Nutre-se a massa corporal de uma forma a ser vista, a ser reconhecida como forte, vazia fortaleza de nossos andantes, o homem comum esvaziado de si mesmo.

Ainda com o espírito de uma antropologia intuitiva, talvez possamos considerar que a solidariedade seja o primeiro sinal de civilização em uma cultura. Menos do que panelas de barro ou pedras de amolar, e menos ainda do que as armadilhas que unificam um grupo nômade ou um povoado, civilizar-se seria participar de um núcleo de forças que se organizam para cuidar de enfermidades. Uma perna quebrada, uma mulher em trabalho de parto, as variáveis são muitas quando o assunto é o mal-estar de se encontrar em uma situação vulnerável. E o ato de ajudar alguém é por onde a civilização começa, porque os músculos a serem exibidos podem conferir um sinal de saúde, mas não bastam quando se é carne acessível para animais famintos, a rondar em bandos. A força do princípio de solidariamente generosa é mais forte do que os fortes.

Nosso andarilho, pasmo, nota as andanças que denotam o princípio de incivilidade, a saber, o desejo de ser forte para sobreviver, associado àquela ideia nada nova de que só os fortes sobrevivem. De tempos em tempos, esse princípio é renovado, e poderia ser tido por um sintoma recorrente das civilizações, uma espécie de recaída ao barbarismo que denota a sombra inevitável de toda iluminação. Quando a luz cresce, cresce junto a sombra, em um paralelismo que se angula de acordo com os raios que emanam dos processos históricos. Após um século que se destinou por inteiro ao homem comum, acreditávamos que o projeto do esclarecimento, apesar dos descrentes, nos traria os frutos mais doces da democratização da crítica, quando, a bem dizer, parece ter constituído uma sociedade mundial de trapaceiros. Enquanto campo de julgamento das ideias, essa cultura dos valentes não carrega consigo os princípios da benevolência, porque o ato de ser bom tem mais a ver com uma posologia do auxílio e não passa pela ideia de melhor performance honorífica.

Nosso andarilho não é um patrulheiro do demérito da matéria, nem um revanchista ideológico posicionado ao lado dos espiritualistas e contra o corpo. Tal qual um brincante das ruas, também não lida com o tema enquanto especialista do óbvio, pois o que lhe salta aos olhos é a perda do senso de realidade, quando o culto grosseiro ao corpo, iludido pela ideia de força, se desaloja do princípio de composição do indivíduo ao contexto. Situação que deve ser aceita como um fato (embora talvez não ainda como um fato totalmente consumado), pois os resíduos dessa estética do espírito podem ser encontrados em todos os terrenos pelos quais se caminha. Não há homens que não sejam humanos, e não há espírito ausente por completo, e o reencontro do homem com a carne é um ponto de partida de nosso nascimento a ser reconciliado com o nosso ponto de chegada inevitável. Isso nos ensinaram os tempos de outrora, mantra que até hoje não caduca, nos tornando íntimos da polivalência do existir, ao evocar a elegância atemporal e servir de contraponto às tendências de nossas ruas. Mente sã, corpo são: técnica antiga para intuições do hoje.

Foto por Tiago Tranjan