A palavra poética Ana Joaquim

Muitos tons para um amarelo

por Ana Joaquim

Para o Carlinhos e para a Drika,
o meu imenso afeto e gratidão

Eu não sei bem dizer se eu ainda era criança aos treze anos. Nessa idade pouco se sabe para além das imposições de um desentendimento sobre a própria condição transitiva: os seios começam a crescer, o quadril é subitamente alargado e a menstruação tarda, me deixando ansiosa diante das minhas amigas a quem o vermelho já coloria com promessas fatais o interior dos tumultos. Fato é que nunca se sabe ao certo quando é que se deixa de ser criança. O erotismo e a crueldade – qualidades demasiado humanas que aprendemos a elaborar com requinte na idade adulta – atravessam a infância na sua deformidade feroz, de modo que tampouco esses clichês serviriam para traçar uma linha divisória.

Hoje mesmo, no ápice da minha muita infância acumulada, sou ainda a mesma criança deslumbrada com os olhos acesos ao avistar, distraída e acidental, uma mosca amarela que pousa sobre a minha perna esquerda e lá se aninha por entre os pelos, colada à minha pele de trinta e cinco verões entusiasmados (depois voou em direção à luz, a mosca — como eu mesma tantas vezes tive de fazer — e parou no parapeito da minha janela, onde consegui finalmente fotografá-la).

Mas é verdade que nem tudo é deslumbramento ou entusiasmo nesse meu jeito de ir sendo criança. Assim como o erotismo e a crueldade, o medo e o tédio são gradações fundas que nos entretêm em todas as idades.

Aos treze anos, há uma criança que começa a entender algumas coisas de importância sobre a amizade. Vive em São Paulo em meio à algazarra fulgurante dos banhos de espuma, dos passeios de patins na garagem do condomínio, das danças da vassoura (onde o erotismo discreto busca vasão), mas vive também em meio ao tumulto familiar, essa espécie de condição existencial que faz oscilar os matizes do escuro. Aos treze anos de idade é subitamente retirada do seu nicho identificável, a ecologia dos afetos é alterada por um tsunami de nome mudança abrangente, pois além de todos os hormônios que passam a correr corpo adentro, há também outra paisagem citadina que serve de cenário para a imensidão confusa das entranhas. Entre móveis e imóveis, sou deslocada para a cidade feitiço. Não de todo me era estranha, pois nela e nos seus arredores eu já havia passado todas as férias da minha infância. Aos treze anos, passa a uma nova morada de onde espera ansiosa a chegada de cartas das amigas sampãs, e quando não, senta-se familiarizada entre as jaulas de um casal de leões e uma família alargada de macacos, a quem se percebe como igual. Sou uma onça fora da selva, um bicho não domesticado, um animal familiar insolente, desprovido de seu contexto.

Há um pequeno zoológico ao lado da sua nova casa e, ao lado desse zoológico, um teatro – o único da cidade – onde um curso de atuação teatral se desenrola. Aos treze anos de idade, pouco se acumulou de repertório acerca de como se deve habitar a escuridão, tanto mais enjaulada num perímetro de 120 mil habitantes. Então é apurar o ofício de mosca: voar atrás de alguma luz e logo tropeçar nos muitos tons de um único amarelo que se dilata.

São tons ainda por nomear.

Da minha parte, assumo a tarefa de avistar a plateia ao longe, massa de gente informe a ser informada, aqueles que me presenteiam com a sua atenção. Eu, no centro do palco, chegava a tremer. Tremia como tremem os cães que farejam o humano amado a se aproximar. Uivaria até, não fosse eu tão tímida. Um uivo de libertação, uivo pleno de amarelos. Eu então ouvia a voz do Carlinhos ao longe, vinda como se viesse de um sonho bom, vinda de fora do palco, desse lugar que eu ainda não sabia habitar e talvez nunca chegue a aprender. Eu sequer precisava olhá-lo (eu agora percebo, fui sempre movida a palavras), aquela voz me acalmava.

Outras tantas vezes encontrei abrigo na firmeza da Drika, no fato dela nunca ceder quanto à escolha da música a servir de trilha para o nosso imaginário ainda sonâmbulo, o imaginário de um certo mundo por vir. No fato de ser ela a conduzir o carro em todas as caronas em que eu escapava à intensidade do sol (isso me parecia tão admirável numa pequena cidade cheia de grandes e óbvias convenções).

Eu, por vezes, encontrava-me no centro do palco, ou mesmo nas suas bordas. Do que se trata o centro do palco quando é possível ultrapassar as jaulas de um pequeníssimo zoológico numa cidade ainda menor do que isso, no interior de São Paulo? Trata-se de uma imposição de voz autorizada pelo convívio. Quem convive nesse convívio? Muitos e diferentes. Eu mesma, numa confraternização de fim de ano, quando fui Frida Kahlo, tive a chance de estar cara a cara com o Freddie Mercury, e também com uma hippie engraçada — sósia minha, pois nessa altura eu andava deslumbrada com a ideia de ter paz e ter amor, que por alguma qualquer distração me parecia uma ideia extremamente possível. Com direito aos deliciosos quibes da Vera, claro. Há coisas que um paladar não esquece, e coisas assim, como um quibe de forno todo úmido de tomates, me fazem lembrar o meu pai, para sempre devoto dessa alegria.

Também convivem nesse convívio pessoas menos famosas, como as quatro palhaças de um circo decadente em busca de… convívio! E convivíamos nós, nessa nossa ferocidade juvenil que tantas e tão múltiplas verdades transportou para dentro do humano em que nos íamos moldando, como se a nos prepararmos contra tanta bestialidade do mundo presente que agora jaz. Os amigos que o teatro me ofertou: a Lívia, parceira de tantíssimas intensidades e confissões, aventuras em fuga e primeiras bebedeiras; o Tales, com quem sigo convivendo nas esquinas desse imenso mundo; o Hugo, uma beleza que como eu se debruçou diante das complexas filosofias humanoides; a Viviane, com sua sensibilidade para o que há de mais enovelado nas nossas experiências; a Vivian e seu silêncio reservado traduzido em exuberantes imagens fotográficas; a Fernanda, quem de nós melhor soube reter o sorriso do picadeiro; a Ju a dissolver equações sobre as rodas da bicicleta; a Joyce, Janis Joplin das canções do retorno para casa; o Formiga com seu dom precoce de corpo e voz; a Jaque, que chegou antes de todos e foi me ensinando o ofício fêmeo; a Carol com o lápis e a tinta a desenhar nossos rostos; a Liliana, intimamente reflexiva no seu modo de ser afeto; os dois Lucas: o engraçado pela distração e o “mascote” pela juventude. Sobretudo isso, eu convivia obstinadamente com aqueles que foram o dom maior da transmissão lúdica: a Drika e o Carlinhos, espécie de família que adotei para o ofício mágico dos dias insossos. Marcaram para sempre a formação dos meus ideais. Eu os acompanhava participando de três grupos de teatro que eles conduziam: o do MIS, o do Colegião e o do Arte e Luz, além de assistir às peças com as quais eles nos iam presenteando, sempre plenas de entendimento sobre as cores mais pungentes. Formação em que muitos anos se sucedem e a infância os ladeia.

Quanto a mim, eu era tímida e rebelde. De uma rebeldia tímida, ia arrastando as assimetrias de uma adolescência mal começada, de uma infância que nunca chegou a se cumprir de uma vez por todas. Eu era rebelde de uma rebeldia seletiva, que se expressava quase exclusivamente contra os argumentos do Carlinhos. Eu ia dando forma inconformada ao que era meu, uma espécie de inteligência nascente para a insubmissão, e nisso o Carlinhos me acompanhava, me estimulava, me elogiava. Com ele aprendi, entre outras coisas, a gostar daquilo em que eu ia me tornando. Mas eu era sobretudo tímida. Então o teatro me apresentava esse poderoso truque de ilusionismo: eu fingia que era outras. Por meio da voz alheia – que me era tão própria – eu tinha assim a coragem de dizer o que a cada um de nós compete dizer. Sendo essa competência relativa, também é relativa o que ela extrapola em ato ou em potência. Acho até mesmo que foi no excesso dessas possibilidades, que eu aprendi a gostar de poesia. Não só do Pessoa (o mais plural personagem de todos os líricos), que entre muitos outros grandes me trouxe tantas vezes a Portugal, mas da poesia que em tudo me permite encontrar um poema. Até mesmo numa mosca amarela, no amarelo-ovo, no amarelo-manga.

Antes mesmo de eu chegar ao fim, é preciso dizer que houve sim um princípio. Foi quando entrei pela primeira vez no Teatro Municipal de Catanduva para fazer um curso de teatro ministrado pelo Carlinhos Rodrigues. Como todos os alunos, fui convocada a subir ao palco para participar de uma corrida às avessas: ganharia aquele que se movimentasse mais lentamente, aquele que chegasse por último. Eu, encolhida na tristeza desengonçada dos meus treze anos; eu, que nunca tinha sido vitoriosa em nada até então e costumava fugir das aulas de educação física por falta de resistência para correr sempre mais rapidamente, me esforcei imensamente para encontrar o tempo justo da vitória. E assim tem sido desde então, com muitos desvios para o amarelo. Pois a vitória mesmo nunca chega a acontecer. É apenas uma paleta de cores que vamos dispondo sob os nossos passos pacientes.

Porto, tarde de 09.09.19