Inquietudes para o homem comum Vinícius de Castro Soares

As birutas e o norte

por Vinícius de Castro Soares

         Até mesmo os aeroportos, uma espécie de território standard sem afeição a poesias, são capazes de nos fornecer uma alegoria de nossa prosa diária. Antes da pandemia assolar o mundo, o mercado aéreo comemorava números brilhantes: 230 mil voos em um só dia e mais de 7 milhões em um ano. É incrível como o modo desse ir e vir, atestando o sucesso dessa indústria caríssima, tecnológica – ainda que nem sempre sustentável financeira e ambientalmente – dependa de um instrumento tão rudimentar: a biruta. Esse simples medidor de vento está na base de todo pouso e decolagem, e é parte constitutiva desse sucesso globalizado dos mercados, a nos movimentar pelas tendências e contratendências dos destinos. Temos aqui uma alegoria da condição da cultura atual, que, imiscuída à política, nos desenha um cenário dos movimentos de opinião. Direcionado pelos homens-biruta, o grande mercado da opinião pública guia e se deixa guiar por aqueles que se voltam para onde os ventos apontam.

         É fascinante como fenômenos complexos podem ser feitos por um constituinte simples. Em seu funcionamento, do mesmo modo que o fenômeno da aviação tem nas birutas a sua condição de eficiência, no campo de julgamento das ideias ocorre o mesmo, ao notarmos que os opinadores ambulantes funcionam como termômetro ativo de um mundo frenético. E podemos ir mais adiante em nossa alegoria. As birutas, em geral, são cônicas, fincadas à beira das pistas de pouso, dotadas de um tecido sintético e de cor flamejante, com os nós-de-vento que, inflados, indicam a intensidade e direção dos ventos. Já os homens-biruta, se nos é permitida a sinestesia, nadam para onde o vento sopra. Enquanto escravos das tendências, tendem a se perder com a mesma proporção que os ventos mudam de direção. Ao inflar e desinflar seus pareceres com incrível sentido de prontidão, ignoram, em muitos casos, todo e qualquer princípio de não-contradição. São, portanto, voluntaristas.

         Fazer da morada essa constante mudança de ventos caracteriza esse voluntarismo, fincado na ideia de que a mera vontade de algo é um critério de verdade. Defendo o que quero, critico o que não gosto, esse parece ser o lema. Um efeito colateral dessa relação é a ilusão de que informação demais dispensa uma formação. Assim, notamos que na era digital os conhecimentos teóricos chegam a ser uma afronta ao voluntarismo das opiniões. No YouTube, terraplanistas exaltam a si mesmos; em um outro canal da mesma plataforma, os cientistas, que há pouco tinham de se defender da pecha de positivistas incorrigíveis, agora celebram o fazer científico como um fim em si mesmo e oposição ao grupo antivacina; na sala de aula, do ensino fundamental à graduação, o alunado quer achar coisas e defende uma educação que seja mais atual, pareada com as falas espontâneas – e voluntárias! Finalmente, chega-se às ruas, onde o homem comum, perdido no mercado das opiniões variadas, busca um repouso, um espelho inofensivo de si, ao celebrar uma corrente de opinião ou quando se aloca a uma trend opinativa da semana.

         Às vezes, o fenômeno se dá diante da identificação com o líder político, hoje travestido de mero opinador, igual ao homem-biruta, igual a outrem, a qualquer um. Mas, em outros momentos, isso ocorre pela rejeição, como casta que contempla a si mesma em uma solidariedade mórbida. Nesse gesto solidário entre enforcados, observamos tanto senhores que desejam os valores antiquados e irracionais de outrora, como jovens que adotam com rapidez pautas sobre as quais pouco conhecem. Em comum no conflito geracional, a opinião imediata emerge como um direito sagrado.

         Ao contrário do que se supõe, o fenômeno da opinião é um bocado recente, como nos ensina o sociólogo Gabriel Tarde. Sendo um movimento essencial da moda, o ato de opinar está profundamente grafado com a inserção da imprensa, presentificando-se nas linhas e entrelinhas da conversação corriqueira para adquirir, nos últimos dois séculos, o status de uma demanda inequívoca, de um direito inato. Podemos dizer, por exemplo, que as democracias do último século, tão celebradas, assentam-se bastante nessa ideia do livre opinar. O produto que deriva dessa recusa do conhecimento pode ser melhor precisado em nossos dias nublados, sob a recusa do conhecimento como uma teoria, a bem dizer, a recusa da própria teoria.

         O voluntarismo opinativo, inconsequente, leva o ato da conversação a um paradoxo, o de que a era da informação seria afeita ao desconhecimento, um eclipse que paira em nossas conversas, ofuscando o ato de conhecer. Uma crise heurística. Pois, nos descaminhos do pensamento, o retorno ao valor da opinião como um valor de verdade é um regresso a um estágio pré-filosófico, tendo nessa regressão um valor em si mesmo. A cultura, distante da Filosofia e refém do culto à opinião, apresenta-se, do ponto de vista da forma, enquanto crise das máximas. As asserções que hoje conduzem o homem comum parecem estar meramente fundadas na fé do imediato, na fé do prático, sem que o saber lhe seja um acompanhante fiável. Entregue à admissão de um subjetivismo imediato, a pista de pouso e decolagem da cultura abre-se ao descampado de superstições e devaneios, tão presentes na cultura youtuber, um dos bastiões da rejeição do pensar teórico.

         O prumo na cultura, a saída, poderia residir na reinvenção do valor que se atribui ao pensamento especulativo. Trata-se de retomar o sentido de investigação teórica, na medida em que a teoria é a melhor prática quando se requer máximas dotadas de conhecimento investigativo. É sabido que, diante dessa defesa, os devotos da concretude e da percepção imediata nos imputarão um suposto descrédito, o de participar de um intelectualismo estéril. Nossa resposta? A aposta lógica de que, sem se especular, não se pode pensar, ainda que não falemos aqui da pessoa “encontrada”, residente no casarão da razão estável. Muito menos do sujeito “fixado” nos mesmos dogmas que nem a maior das ventanias o arranca do solo duro. Afinal, pouco sabemos de nosso corpo sem os espelhos, assim como pouco atingimos nosso espírito sem a reflexão, sem o ato especulativo. Da imagem refletida brota o significado; e, do significado, a vida. Por isso, uma boa teoria a respeito da vida pode ser mais interessante do que a própria vida.

         Se as máximas bem fundadas são proporcionadas pela razão, andemos com elas. Mas em que medida? Em uma boa medida, se se deseja a reflexão ajuizada e segura. Um conhecimento imediato ou uma opinião produzem saber quando permitem a derivação de outros conhecimentos, conectando-se um ponto a outro: ao se partir de uma dada região no céu, podemos encontrar as restantes, pois, se vejo o sol no céu e sei que agora é meio-dia, saberei encontrar o sul, o oeste, o norte e o leste. Eis o princípio lógico, razão sadia, cuidadoso vínculo entre a experiência e a abstração pura, ensinamentos do bastião da Aufklärung em seu antigo sonho de propulsão do intelecto humano. Justo contraste com o tipo de oferta cognitiva corrente, abastecida de analogias bizarras, lógicas arbitrárias, birras, maniqueísmo baixo, relações mais que canhestras e gratuitas. Tal é o caldo de cultura do mundo digital, prato feito para os homens-biruta nesse mercado de pareceres sobre qualquer coisa.

         Falamos aqui do sujeito ignorante, mas sobre isso é preciso nos desvencilharmos de algo que se ignora: a ignorância em si mesma é a causa dos limites, mas não dos erros em nosso gesto de conhecer. A crise heurística, da qual falávamos, requer o manejo das máximas bem cultivadas, que, compartilhadas, promovem a boa brisa, um fluxo de pensamentos que não machuquem tanto o princípio da razão – termo que hoje parece um tabu. Isso porque, em linhas gerais, sem as máximas, abre-se um flanco nebuloso ao mundo da opinião ordinária, em que as contradições passeiam livremente, um claro-convite a uma espécie de cinismo instrumental, preenchendo a vida pública com amostragens mil: um país que precisa mudar para melhor, ainda que seja pelas mãos de um néscio; o militante que relativiza a tudo, menos a sua própria perspectiva; aquele que justifica a sua própria causa pela recusa das causas alheias; um outro que faz da mesquinharia terrena um pari passu com a ordem elevada dos astros e da história, forças essas que ameaçam a civilização; por fim, os destemidos que não toleram aquilo que não conhecem.

         Gostamos de nos pactuar com o homem comum, e o fazemos na medida em que demarcamos as nossas diferenças, preservando-as. Com a disposição dos meios para a opinião, intensamente estimulada, seria um saudosismo em vão nos remetermos ao escopo cultural dos monges copistas, ou exigirmos um ostracismo dos opinadores convictos na era da democracia de massas. A coação civil que retira a liberdade de comunicar retira também a liberdade de pensar, e sem a liberdade de pensar não há consciência moral possível, o que torna abjeto fazer o papel do tutor teórico daqueles que decidiram estender sua vida espiritual às impressões iniciais. Cabe a tarefa de manejo da cultura aos homens de capacidade espiritual e de vistas largas, lembrando que a largura reside na capacidade de reflexão da razão sobre si mesma, e para isso se requer um sentido de apropriação da miséria, o que significa digerir esse apelo à imediatez para solucionar ele próprio. Nisso há um tipo de humor temperante, sério, porque investiga, mas entregue ao riso porque sabe que a teoria é um equívoco provável diante da concretude. Acerca da racionalidade, o sujeito grande movimenta-se no reto sentido do humor, que tem suas razões diante das brincadeiras que nos levam ao metafísico. Sem se repousar nas luzes ou nos dogmas, a teoria é boa quando transcende, quando admite o imediato como um ponto de partida e de chegada. Este é o norte, a despeito do rumo dos ventos.

Foto por Natália Pina @painntl