Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

Vergar o tempo: riso, boemia e reencontro

por Danilo Ferreira

Saudade da risada de bar, disse uma amiga num áudio. Tal risada não se refere à embriaguez, ela explicou. Também não é uma risada que decorre apenas de uma boa companhia, afinal, é comum rir com os amigos em qualquer espaço. A combinação das duas coisas, rir embriagado com os amigos, também não é a risada de bar. Segundo minha amiga, confraternizar em casa é ótimo, mas nunca chegará o momento daquele riso que surge do nada e vai se sobrepondo ao ruído da rua, ao burburinho das outras mesas, ao barulho dos copos sendo lavados atrás do balcão… Depois de mais algumas tentativas, ela finalizou: não sei direito, é risada de bar e pronto.

Minha amiga tem razão. Há coisas que só podemos no bar. Até chorar lá é diferente, um pranto qualificado, algo entre a vergonha pública, o colapso emocional e a glória de ser o legítimo personagem de uma canção dilacerante. Por fim, há coisas que só vemos no bar. Exemplo? A incrível risada que os nossos amigos só podem dar no bar. É assim e pronto.

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Segundo o psiquiatra norueguês Finn Skarderud, o corpo humano tem um déficit congênito de 0,05% de álcool. Seria o equivalente, em termos práticos, a duas taças de vinho. Um encadeamento dedutivo desse pressuposto leva o autor a sugerir essa medida como solução para a maior parte dos nossos problemas interpessoais — provocados, na verdade, pela forçada sobriedade que o mundo nos impõe. Para testar tal hipótese, quatro professores dinamarqueses de meia-idade levaram adiante o experimento. Esse é o cenário de Druk, filme de Thomas Vinterberg.

Não é difícil imaginar que viver sob efeito etílico acarretará efeitos imprevisíveis. Por um lado, a embriaguez intensifica o desejo, a vida e, inclusive, a boa convivência. Os perigos, todos sabem: o que pode liberar os bons afetos também pode se tornar uma muleta para a existência, um agente escravizador sem o qual já não se consegue viver ou desejar. Os incansáveis corretores da conduta alheia vão julgar Druk como um mau exemplo, sobretudo se destacarem que boa parte do mundo sofre com um grave problema: o alcoolismo. Não faltaram críticas com essa perspectiva. Também não faltaram os que diagnosticaram nos personagens de Vinterberg a síndrome de Peter Pan.

Um diagnóstico bastante apressado. Os personagens do filme, na verdade, estão cansados de desempenhar o enfadonho roteiro que a sociedade criou para essa produtiva faixa etária: adultos felizes, pais responsáveis, bem-sucedidos pagadores de impostos. Quem nunca se incomodou com esse modo fatal de ser adulto? No filme, o experimento torna-se então uma frágil linha de fuga. Há uma provisória alegria. Há o despertar de sensações adormecidas. Há uma sutil (e mais digna) reaproximação com os mais jovens. Contudo, há também o irreversível descarrilhar. Desastradamente, o prolongado efeito do álcool degrada os frouxos laços institucionais, que muitas vezes permanecem atados por pura inércia. Tacinhas de vinho não livram os professores do drama da solidão e da morte. É preciso mais. O que seria?

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É famoso o experimento no qual se baseia o discurso proibicionista. Cientista colocaram ratos isolados em gaiolas e forneceram água, ração e cocaína. Resultado: 9 entre 10 ratos morreram de overdose. Haveria, portanto, um elemento químico que leva ao vício degradante. Alguns anos depois, pesquisadores canadenses resolveram aperfeiçoar o experimento. Colocaram grupos de ratos em gaiolas com incríveis brinquedos, boa comida e, claro, cocaína. Para surpresa dos investigadores, nesse novo cenário nenhum rato ficou viciado.

Surgiu então uma nova hipótese: não é o elemento químico, ou pelo menos não é ele sozinho, o que produz a dependência, mas sim a desconexão das relações afetivas. Há outros exemplos que ajudam nessa hipótese: 1) viciados em jogos de azar; não há nenhuma substância química envolvida, mas os efeitos degradantes são similares. 2) pacientes que tomam por longos períodos diamorfina (poderosa variante médica da heroína) não desenvolvem o vício depois que o tratamento acaba. 3) a descoberta de que adesivos de nicotina são ineficazes contra o tabagismo — o fumante não está conectado com a nicotina, seu vício é também um gestual, toda uma performance que o conecta ao cigarro.

Todos esses exemplos foram citados por Johann Hari, autor do best-seller Na fissura (Companhia das Letras, 2018). Para o autor, o oposto de vício não é a sobriedade. É a conexão humana. Se fizermos um paralelo com Druk, podemos dizer que não é o álcool que degrada relações familiares. Muitas vezes, inclusive, são as degradadas relações sociais que levam certos indivíduos ao escapismo melancólico e violento da bebida. Afinal, não há como viver bem sob relações sufocantes ou trabalhos exaustivos. São as especificidades das gaiolas, e não substâncias, que jogam os adultos na berlinda das emoções interditadas. É bom lembrar que até 2020, uma outra epidemia preocupava a OMS: a solidão contemporânea, caracterizada como um estado crônico no qual os indivíduos sentem-se isolados e sem vínculos afetivos.

Em meio a toda essa complexa trama (que também envolve relações de gênero, raça e classe) seria ainda possível fazer um sóbrio elogio da embriaguez como o preconizado por Finn Skarderud?

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“É preciso estar sempre embriagado. Aí está: a única questão. Para não sentir o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra”, escreveu Baudelaire, o autor que melhor encarnou a figura romântica do boêmio trágico. A relação da literatura com o álcool é extensa. Faulkner, Bukowski, Hemingway, para citar os mais famosos. Este último teria dito a frase clássica: “Eu nunca bebo antes do café da manhã.” Paira sempre a dúvida sobre como os grandes clássicos puderam ser escritos sobre o efeito da bebedeira desenfreada. Será que se não bebessem esses autores teriam sido ainda mais geniais? Não há resposta. Indiscutível é a potência desses corpos ébrios. Para além desses ícones, sempre houve uma mítica proximidade entre a escrita e a boemia, pelo menos desde o século XIX.

E aqui podemos arriscar uma distinção importante: boemia e bebida não são sinônimos. Há quem beba sem ser boêmio e há boêmios que nunca se embriagam. Qual a diferença? A boemia é uma relação ampliada, um convívio frequente, uma recusa à produtividade laboral, uma conexão com práticas que subvertem as convenções impostas pelo relógio, os compromissos protocolares, as obrigações de desenvolvermos grandes projetos ou de estarmos confinados entre paredes. A palavra boemia, que por muito tempo esteve vinculada aos ciganos da Europa e que só depois passou a representar um estilo de vida relacionado aos artistas e escritores, carrega sempre a ideia de um movimento, um devir errante que perambula pela noite. Nada mais distante da boemia do que a figura do alcoólatra depressivo, do beberão melancólico trancado dentro de casa, do embriagado que se recusa a se arriscar pela aventura de se perder pela cidade.

A boemia, no sentido que pretendo destacar aqui, é a alegria de estar conectado a um universo no qual não faltam encontros, sorrisos, abraços, amigos, dança, desejos e, claro, bebida. Ela também é, em tese, acessível aos diferentes extratos sociais. A roda de samba no terreiro, o baile da comunidade, o churrasco na laje e até uma cerveja dividida com o vizinho na porta da casa são manifestações dessa alegria de estar junto. Por outro lado, nada menos boêmio do que maratonas de séries de TV, tempo em redes sociais, práticas de consumo e dispositivos terapêuticos de autoconhecimento ou de adequação para a produtividade.

Finalmente, é preciso dizer que todo boêmio é um saudosista da (própria) boemia perdida. Afinal, essa força está indisfarçavelmente preenchida pela ideia de ser jovem. Quando pessoas de mais idade se arriscam nos desvios boêmios não são raros os olhares de reprovação. Mas qual o problema de Peter Pan e Baudelaire atravessarem a vida numa expansiva risada de bar?

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Depois do primeiro experimento, os pesquisadores deixaram camundongos isolados consumindo entorpecentes por 57 dias. Passado esse período, os ratinhos viciados foram para as gaiolas coletivas onde a festa seguia animada. Com a possibilidade de amigos e diversão, os roedores deixaram de se interessar pela droga. O resultado, claro, é contraintuitivo para nossa percepção acostumada com a tese farmacêutica na qual se baseia a guerra contra as drogas.

Na sequência, os pesquisadores ainda fizeram um estudo com os veteranos da Guerra do Vietnã. No front, mais de 20% dos soldados eram viciados em heroína. A expectativa que atormentava a população estadunidenses era a de que o regresso desses militares traria o caos ao país. Contudo, para surpresa de todos, ao voltarem para suas casas, 95% dos que se viciaram durante a guerra deixaram a dependência em menos de um ano. Johann Hari então conclui que ratos na solitária e soldados no Vietnã não estavam dominados por substâncias químicas, mas por uma condição de vida insuportável. Quando o sentido da vida foi restaurado eles não tiveram grandes dificuldades para se livrar da heroína.

De modo análogo, viviam os professores de Druk. Eles não sofriam da síndrome de Peter Pan; ao contrário, tinham amadurecido de modo insuportável, aquartelados na trincheira tediosa de ser adulto.

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Se aqui estivermos afinados com a prática da boa filosofia, aquela que nos instiga aos bons acontecimentos da vida, podemos dizer que a força da juventude é a ebulição do movimento. Isso é atemporal e nem sempre coincide com o esperado para as faixas etárias. Há vidas de 20 anos absolutamente estáticas, assim como há nonagenários que movimentam lindamente o corpo e o pensamento. Não é gratuito que no preâmbulo e no epílogo de Druk assistimos a jovens se deslocando ao ar livre. No início, eles estão sozinhos. Ao final, num modesto carnaval escandinavo, os jovens encontram seus professores.

Minutos antes, houve um acontecimento decisivo para o protagonista do filme. Passada a trágica catarse do experimento etílico, ele, ainda enlutado, recebe uma mensagem no celular. Na leitura daquelas palavras, o depressivo professor se reconecta à jovialidade da vida. Seu corpo se levanta e, pela primeira vez, encontra uma festa ao ar livre, e seus gestos, outrora tão enrijecidos, se expandem ao som de uma canção: Que vida, que noite, que lindo passeio. Não sei onde estarei em cinco anos, mas sou jovem e vivaz. Dane-se o que estão dizendo. Surge, enfim, a leveza de poder vergar o tempo com a dança do corpo.

Numa época de isolamento forçado, é um alento saber que é possível, mesmo depois de situações extremas, se reconectar ao fluxo dos afetos extraviados. Contudo, o fundamental é perceber que apenas garantias sanitárias não serão suficientes para resgatar o tempo sequestrado pelo período pandêmico. Precisaremos de mais.

Gravura por Bella Biltoveni (@bella.bilto)