Pensamento e clínica Thiago Leite

Aprender a rir

por Thiago Leite

Mais de uma vez Nietzsche convidou seus leitores a uma grande seriedade. Não é a única coisa grande em sua filosofia: há também a grande política, a grande saúde… O grande aponta para uma inversão valorativa, dado que não significa grande em tamanho ou extensão, mas algo pequeno dito grande por dizer respeito a dimensão afetiva (real) dos problemas que enfrentamos. É grande em valor, importância. Se a seriedade é comumente figurada segundo os signos do grave, do profundo, onde algo sério só pode ser tratado de maneira densa, é somente por encenar valores morais enrijecidos nas formas dominantes. Basta colocar um pensador profundo em uma igreja gótica para nos darmos conta de que o pensamento do sério está submetido às formas graves da seriedade. Em todo caso, um problema, uma realidade qualquer, não se reduz a um ordenamento discursivo e conceitual, que dificilmente escapa a um decalque do senso comum; ele é antes promovido por uma vivência íntima, plural, muitas vezes um estranhamento, medo, nojo, atração, encanto, que mesmo o mais tenaz raciocínio não consegue inibir e que é, enfim, o lastro do que vivenciamos e elaboramos na linguagem como problema.

Rir, chorar: não é verdadeiramente levar algo a sério? Vamos assumir, e com honestidade admitir, que no riso (e no choro) há sentido e valor reunidos em um gesto afetivo, cognitivo e fisiológico na particularidade de uma vida. Signos da alegria e da tristeza, os afetos mais sérios e fundamentais da nossa vida, o riso e o choro são a ponta, a porta de saída, para rompermos com formas dominantes de sentir e pensar. E por sério, enfim, queremos dizer real.

É comum, ao ouvirmos certos comediantes, rirmos pensando: é verdade! Ele rompe, assim, um verniz da vida cotidiana liberando o estranhamento de sermos generalizados em experiências comuns e ao mesmo tempo singulares na possibilidade de romper o banal. Quando o corpo está assim envolvido nas questões, a coisa fica séria, partimos, por assim dizer, para a veemência. É o caso, portanto, de considerar o riso como expressão sintomatológica que, produzida por uma seriedade do corpo, envolve elementos simultaneamente conceituais e fisiológicos. A ética (uma vida afirmativa), se ela é possível, deve aliar o riso às atitudes e escolhas, vencendo a carcaça da moral sem cair no individualismo rabugento. Olhando bem a nossa volta, ninguém negará que precisamos de uma grande seriedade constituída na alegria e no riso para enfrentarmos os problemas que a vida nos impõe.Mas existem riscos.

Que os problemas da razão, do pensamento, da existência, do humano, possam – ou poderiam de direito ser – considerados de um ponto de vista ridente, zombeteiro, é algo que não desce redondo pelas entranhas da tradição filosófica. Nelas, o riso é sempre tomado pela luz da razão reguladora. Não surpreende que seja Platão (sempre ele…) o responsável pela herança maldita. Ao expulsar o riso do caráter do guardião da cidade, consequentemente do pensamento e da filosofia, Platão cria o modelo celebrado pelo cristianismo e pela própria tradição filosófica daí decorrente (República, livro III, 388e): o riso nada vale. Porém, autores como Shaftesbury, Stendhal, Voltaire, Diderot, Hume, Nietzsche e recentemente Bataille, Klossowski, Deleuze e Foucault, são alguns exemplos elogiosos e verdadeiras forças moventes do riso e do cômico como parte do estilo, como componente do próprio pensamento e principalmente como elemento indispensável à vida afirmativa. São autores que deixaram para a filosofia o estilo leve e afirmativo de filosofar como prova de que o pensamento, para falar a “verdade” e lidar com problemas “sérios” da vida, não atinge a potência do singular sem aliar-se ao riso. Que riscos, então, existem nessa saída cômica da vida?

Demócrito foi considerado o filósofo que ri. Dizia que o riso torna sábio. Mas Demócrito foi o primeiro atomista e devemos considerar o que ele entendia por sabedoria. Que relação se estabelece entre a teoria do átomo de Demócrito e seu riso? O atomismo talvez tenha levado Demócrito a uma realidade mais profunda, indiferente, sem finalidade, a partir da qual a atividade humana afundou em um nebuloso sem-sentido: “os primeiros princípios do universo são o átomo e o vazio; tudo o mais apenas se pensa que existe”, é o que escreve Diógenes Laêrtios sobre Demócrito. Este tudo o mais exprime a irrelevância que o resto adquire. Demócrito riu, mas bem poderia chorar. Henri Bergson, em seu comentário sobre Lucrécio, o mostra: o determinismo lucreciano, nascido do atomismo de Demócrito, o levou a uma profunda melancolia.

Nessa perspectiva intelectual, todos os seres são constituídos por átomos e uma realidade profunda e indiferente decerto tem a potência de tornar ridículas nossas aspirações, nossos costumes. Parece que a consideração do mundo como um cego mecanicismo radical anula a realidade sensível das coisas singulares, roubando-lhes a importância e o relevo; faz com que a admissão do átomo anule as aspirações humanas. A ‘verdade’ do átomo, elemento secreto que constituiria todo ser e toda realidade, talvez fosse o segredo do riso de Demócrito, sua redução ao absurdo, sua chave secreta para uma perspectiva cômica do mundo… Testemunho de uma potência acachapante do pensamento, a matéria bruta do átomo era infinitamente superior à fina camada de realidade do homem.

Nesse sentido, lembremos Nietzsche. Poucos títulos trazem consigo uma significação tão forte quanto humano, demasiado humano: esse título-lamento, título-suspiro, expressão de um sentimento filosófico, de um modo de pensar a realidade viva do ser humano. “Como? Tudo somente humano, demasiado humano? Com este suspiro dizem que um leitor sai de meus livros”. A expressão funciona como síntese de um sentimento que é ao mesmo tempo um pensamento.

Nietzsche, nessa época de sua vida, era um tanto pessimista. Considerava, a partir de um senso histórico materialista, que todas as atividades humanas (mediados por valores morais) eram relativas ao tempo e, assim, irrelevantes para a consideração metafísica de uma essência de seja lá o que for. Parece que tanto Heráclito quanto Demócrito sentiram de forma semelhante a partir de suas conclusões filosóficas: a tendência de o devir e o átomo ultrapassarem o valor da vida humana para jogar a experiência comum no absurdo e na falta de sentido. É um certo tipo de misantropia que parece surgir ao se tomar os homens pela vacuidade de suas atividades, revelando a estupidez de seus motivos e a nulidade de suas esperanças: juízos que são sobretudo resultados de questionamentos e interrogações dos pressupostos e justificativas destes mesmos homens.

Não estaríamos, então, diante do risco de ver no riso, na leitura cômica, a fuga da interioridade da experiência do corpo, da realidade? É, pois, o cômico quem lê sem dar espessura ao texto? Que ri de forma a dizer “tudo é igual, nada tem importância”, tornando efêmeras as manifestações da vida? Ele é recriminado como superficial. Corremos o risco, enfim, de aliar a potência do riso à irrelevância das atividades e acontecimentos humanos, construída, por sua vez, pelo pensamento na medida em que concebe o mundo “profundo” como indiferente à vida humana. O risco de sentirmos o mundo em uma espécie de efêmera sequência de nadas, porque no fundo uma realidade mais dura suprime as suas cores.

Mas, aliado à potência do corpo, dos afetos, livre de uma consideração genérica sobre a essência do mundo, o riso é o único que, em uma surpreendente honestidade com seu corpo, produz um sentido que escapa aos códigos da cultura e da ciência, que escapa às necessidades lógicas, morais e metafísicas e que, sem perder a alegria, brinca com o “já dado”.Tal postura coloca na luz do meio dia todo o jogo da superfície com o fundo, a relação dos signos com os modos de produção. E o cômico faz disso um método, travando as rodas do progresso e causando curto-circuito no esperado.

Pois bem. Se assim o é, parece viável que o riso construa uma possibilidade de vida afirmativa, dando relevo para as escolhas e tempo para a alegria. O riso sendo forma de avaliação de um corpo, serve aos impulsos produtores de ações singulares. Ele se emparelha a elas, de modo que serve a este ou aquele sentido avaliativo, considerando a situação presente, suas aberturas para a produção da alegria e os entraves que os sedimentos do mundo “já dado” constroem como orientação de nossas percepções e sentimentos. A condição especial do riso é a de que ele é um elemento avaliativo, o dispositivo revelador e libertador; instrumento de seleção e medida das forças. O riso é sua própria autoridade.

Tragédia e Comédia (II d.C.) Pallazzo Nuovo, Roma.