Giovane Rodrigues No princípio era o caos

No princípio era o sentido

por Giovane Rodrigues

[Fausto, traduzindo o primeiro versículo de João:]
Escrito está: “No princípio era o Verbo!”
Hesito, sem um guia em rumo incerto.
Isso é dar ao verbo muita atenção,
Preciso ainda d’outra tradução.
Se pelo espírito sou instruído, escrevo:
No princípio era o Sentido.
(Goethe, Fausto, 1224-1229,
tradução do autor)

Antes mesmo de haver mundo, havia a palavra; a palavra criou o mundo; a palavra é Deus. Ideias estranhas essas de João Evangelista, essas dos cristãos. Ideias infantis, eu disse há alguns meses. Mas costuma haver algo de verdade até mesmo nas mentiras, e, se reviramos bem a metafísica joanina, encontramos o que se esconde nas estranhezas do quarto evangelho. Sejamos caridosos com ele: Não é que o verbo estava lá desde o princípio, palavra pairando no nada aguardando o momento em que faria tudo; é que precisamos agir como se tudo tivesse uma essência estável e firme; e, aí, ajuda pensar que Deus vive em cada coisa e garante sua permanência. Mas não há Deus, nem emana dele esse abracadabra — provavelmente até mesmo João desconfiava dessas suas invencionices. Não obstante, suas ficções cumprem um propósito: a palavra, tornada metafísica, é um antídoto contra o caos. Um antídoto ilusório, é claro; como que a tentativa de cobrir a bagunça do mundo com o lençol da gramática: — ele segue bagunçado, mas parece arrumadinho. Como disse, todo o procedimento lembra brincadeiras de criança, ou suas estratégias para escapar de seus medos. O caos segue pulsando no âmago da realidade, mas nós fazemos de conta que ele não está lá.

Como funciona o antídoto? Para seguir usando a linguagem figurada (à maneira de João): nós introjetamos a palavra em todas as coisas. É difícil falar literalmente aqui, então sigo com metáforas: ao longo de milênios de evolução, passamos a ver o mundo pelas lentes de nossas categorias verbais. Então é natural que confundamos, e confundamos necessariamente, aquilo que é nosso e aquilo que é do mundo. Isso não quer dizer que o mundo é linguagem, ou que o mundo foi feito pelos homens — e menos ainda que ele foi feito para os homens. Quer dizer apenas que tivemos que falsificar o mundo para poder viver nele. E se, no fim das contas, alguém chegar a dizer que a linguagem criou o mundo (!), nos entenderemos: esse agirá como o falsário que aceitou a cédula forjada por ele próprio.

Dizendo isso, explicamos um pouco da função da linguagem para os animais que somos. Quer dizer, isso explica mais do que se disséssemos, como se costuma fazer, que falamos para nos comunicar. Mais que isso, a linguagem é um instrumento para nossa acomodação ao mundo, que nos permitiu seguir adiante na luta pela sobrevivência e, ao mesmo tempo, pela sanidade — a convivência permanente, e de peito aberto, com o caos, nos levaria ao desespero e à loucura. Por isso preferimos a ilusão, necessariamente tingindo de constância, por meio de nossas categorias linguísticas, o caos que compõe o mundo. Vivêssemos no caos, pereceríamos; gozando da ilusão, prevalecemos.

* * *

O poder da palavra, dizemos. Mas é realmente a palavra o que tem poder? Bem, vocês viram lá em cima, na epígrafe, que o doutor Fausto, a demoníaca personagem de Goethe, desconfia. A palavra — este sinal escrito nesta página, ou as ondas que saem de sua boca, leitor, quando você a profere — é algo muito grosseiro; algo muito incompleto ou, o que dá no mesmo, muito imperfeito. Fica difícil ver como então essas marquinhas inócuas podem fazer o que esperamos delas, ou o que de fato as vemos fazer. Talvez por isso a tradição cristã, na solene figura do mais famoso tradutor da Bíblia para o português, João Ferreira d’Annes de Almeida, tenha preferido traduzir o termo usado por seu homônimo (João, o Evangelista) por Verbo, assim, com a inicial maiúscula. Isso afasta a palavra de seu lugar trivial, e aí talvez até vejamos nela alguma perfeição. Ou talvez seja menos que isso. Como Almeida não usou, em sua tradução, o original grego, mas a versão latina de Teodoro de Beza, ele não deu muita atenção ao logos de João, e foi diretamente do Verbum latino para o lusitaníssimo “Verbo”.

Mas aí vemos como a tradução é algo traiçoeiro. Perdemos demasiado ao eleger apenas um aspecto do termo grego. Logos, em grego, significa, sim, palavra. Mas também sentença, discurso, estória, reza, escrito; e regra, motivo, princípio, argumento, pensamento, razão (e a lista poderia seguir). É por isso que o diabólico doutor Fausto recusa a tradução usual (Martinho Lutero, o primeiro tradutor alemão, também escolheu Wort, palavra); e é por isso que ele segue tentando. Ele quer fazer justiça à ideia de João, e fazer justiça é uma das metas da tradução. “Sentido” é a sua escolha. Essa segunda das versões que Fausto oferece ao logos de João parece ser justa às pretensões metafísicas de João: não é a palavra material de Deus o que nos protege do caos, mas sua contraparte imaterial, sua alma, sua essência, aquilo que há de propriamente divino na palavra, o sentido.

* * *

Que seja dada razão, então, ao pobre João, mas o trazendo de volta ao chão, e sem abracadabra: Ser humano é ir além do dado, além do concreto, a cada palavra; usar signos é fantasiar que eles contêm muito mais em si do que mera materialidade. E não há mais bela e mais útil fantasia! Essa é nossa habilidade mais primordial, aquela que compõe a linguagem. Para nós, humanos, algo sempre pode significar alguma outra coisa. Quando vemos riscos no papel, ou marcas escuras sobre um fundo branco numa tela, quando ouvimos os sons de nossos semelhantes, percebemos mais que riscos e marcas e sons: vemos linguagem. Nossa fantasia, nossa imaginação, nossa potência de criar faz com que passemos de matéria a símbolos. Mas bastam dois segundos de reflexão para percebermos que os símbolos não estavam lá nas marcas: nós as transformamos em outra coisa. Eis aí o mistério, a mágica propriamente humana, aquilo que nos torna especiais entre todos os animais (se somos sapiens — aqueles que sabem — é porque somos dotados de logos). Ocorre que há uma disposição diante do mistério da linguagem que nos leva mais ao chão que ao céu. Imbuídos desse espírito, abandonamos os devaneios de João e perguntamos: como saltamos da materialidade desses riscos para a idealidade do símbolo? o que fazemos para que a articulação de alguns barulhinhos fale significativamente conosco? qual poder infunde vida em matéria antes morta? ou, finalmente, como atribuímos sentido às palavras?

Devagar vocês verão, amigos, que basta perguntar desse jeito, sem hocus pocus, e já descemos do céu à Terra. No fenômeno mais fundamental da vida humana, os crentes preferem ver apenas o mistério, e alucinam, acreditando que o verbo infunde realidade às coisas; que o verbo, tornado divino, é a realidade das coisas. Quero crer que são mais fortes, mais honestos, mais realistas aqueles que olham de frente para o que acontece em cada palavra; e, em vez de dizer “foi Deus” dizem “fomos nós” — ainda que precisem admitir, com isso, muita coisa que frequentemente preferimos manter escamoteada. Nós atribuímos sentido ao mundo ao afastar o mundo do caos, ao lhe conferir, na medida de nossa capacidade, alguma estabilidade. Aí está nossa força, e também nossa responsabilidade.

“Força”, aliás, é a terceira tentativa de Fausto para a tradução de logos. Ainda falaremos sobre isso.

Foto por Natália Pina @painntl