A história natural do conceito Herivelto Souza

Horrorismo à brasileira: uma hipótese

por Herivelto P. Souza

 “A escuridão as repetia em um sussurro persistente a toda nossa volta, em um sussurro que parecia emergir ameaçador como o primeiro sussurro de um vento iminente, ‘O horror! O horror!’” A conhecida exclamação que aparece nos movimentos finais de No coração das trevas, de Joseph Conrad, não raro ecoa ainda hoje, em espectadoras atônitas diante de nossa crescente indigência. Dos elogios a chacinas em favelas às apologias de rupturas institucionais desastrosas como as do golpe de 1964, a obscena retórica que quer legitimar violações de direitos bastante seletivas vai-se naturalizando como parte da atmosfera em que respiramos. Tais celebrações escarnecedoras, no entanto, não se tornam menos tóxicas por nos acostumarmos à sua presença. E muito embora não seja difícil compreender a força sedutora de um triunfalismo lúgubre como esse, é inquietante pensar com que força e facilidade ocorre sua adesão às crenças de certos sujeitos, sem aparentemente deixar lacunas mais evidentes. Há uma drástica mobilização afetiva aí em jogo, de modo a tornar aceitáveis, ou mesmo desejáveis, certas atrocidades que aparecem como única saída para lidar com uma certa situação de crise.

Já não é novidade que “crise” nada mais seja do que uma das estratégias recorrentes de governos autoritários, pois engendra uma subserviente aceitação de quaisquer medidas sob a alegação de que, caso não sejam tomadas, o que aguarda a população é o colapso econômico e o caos social. A eficácia da mobilização de afetos como o medo para o exercício do poder é um expediente bem conhecido do pensamento político. O que é sempre renovado nesse velho e desgastado recurso são as ameaças concretas, ou nem tanto, às quais o governo ‘corajosamente’ se dispõe a enfrentar para garantir a defesa da sociedade. Entretanto, qualquer uma que desconfia resolutamente de abstrações acaba aqui se deparando com a seguinte questão: mas o que exatamente se quer preservar e o que se está disposto a sacrificar nessa “defesa da sociedade”?

A categoria de liberdade é aquela mais recorrentemente evocada para responder a tal questionamento, ao lado de outros termos como Deus, Brasil, crescimento econômico. Eis aí um palavrório que tem funcionado muito bem para encobrir cadáveres, obstruir a justiça, e já deixar no horizonte alguma próxima operação letal. E em nenhum lugar alguém se dá ao trabalho de tentar explicar com precisão o que esses termos significam: há apenas um regozijo logólatra. E já não estamos cansadas de saber quantas coisas horrorosas podem ser, e são, feitas em nome de idealizações (divindades, pátrias, heróis)?

* * *

Em 2007 a filósofa italiana Adriana Cavarero publicou um livro no qual defendia o conceito de horrorismo como uma categoria política capaz de delinear o modelo do horror indispensável para compreender o nosso presente. Uma de suas motivações era deslocar a análise de parte dos atos extremos de violência do já indistinto, e, portanto, pouco útil, modelo do terrorismo para essa matriz simbólica do horror. Diferentemente do terror, que evoca uma reação de fuga e pânico diante de um perigo de morte iminente ou presente, o horror consiste antes na paralisia e repugnância despertadas pela visão de um esfacelamento físico, pela aniquilação da unidade corporal de uma pessoa, e, portanto, da singularidade de uma figura humana desprovida agora de qualquer dignidade ontológica. Nesse caso, não é exatamente a morte em si que causa o horror, mas a desfiguração, a massa já disforme de uma consistência orgânica perdida.

Esse núcleo horrorífico da violência permite articular duas reflexões fundamentais. A primeira, ontológica, é que essa destruição da própria condição de singularidade do vivente, que está exposto a se desfazer em fragmentos cadavéricos, coloca em primeiro plano a radical e constitutiva vulnerabilidade de todo singular: “o único é por definição vulnerável”. Essa condição de estar entregue ao vulnus, à ferida, ao dano decorrente do ataque de outrem, é decorrente da intrínseca relacionalidade do singular: o caráter único de cada individualidade é resultado do feixe de relações que desde sempre a constitui, não de seu isolamento, que nada mais é do que uma operação abstracionista.

A contrapartida ética dessa condição ontológica é que a vulnerabilidade exige modalidades relacionais orientadas pelo cuidado. E aqui não se trata apenas das ações que precisam ser dispensadas a quem está em vias de se recuperar de um ferimento, ou seja, que quer se curar de dano físico ou moral. Trata-se também, e mais primordialmente, dos cuidados necessários à própria sobrevivência de quem depende de outrem para não perecer. Bebês e crianças são aqui os casos paradigmáticos dessa dimensão mais extrema, mais fundamental de nossa intrínseca vulnerabilidade: são indefesos, estão na condição mais exposta a outrem, uma vez que dependem em todos os aspectos de relações de cuidado para que possam permanecer existindo e se desenvolver adequadamente.

A tese de Cavarero é a de que o horrorismo se mostra relevante enquanto categoria porque nos permite delinear modalidades específicas de violência, que são as intimidações, ofensas e danos causados por um ataque desnivelado, unilateral direcionado a alguém que não tem condições de se defender; em outras palavras, horrorismo é aquela violência direcionada ao inerme. Etimologicamente, inerme significa desarmado, e é um termo utilizado para indicar que se está desprovido de arsenal para atacar ou contra-atacar. “Inerme é substancialmente quem se encontra em uma condição de passividade e sofre uma violência à qual não pode fugir nem responder”, define a autora. Se por um lado somos todas intrinsecamente vulneráveis, por outro estamos indefesas em circunstâncias determinadas, e em níveis variados. Claro, bebês, certos idosos mais frágeis, doentes graves ou em estado terminal são exemplos de uma inermidade que não depende de uma situação específica. Mas as circunstâncias que tornam alguém indefeso podem ser de diversos tipos, e vão desde violências ocasionais, não intencionais, como em acidentes, até os casos mais nítidos de horrorismo, com sofrimentos intencionais infligidos a uma vítima incapaz de resistir, como nas torturas ocorridas nos porões da ditadura.

A hipótese para a qual gostaria de apontar aqui é a de que o horrorismo é um conceito útil e necessário para pensarmos as maneiras pelas quais o autoritarismo brasileiro assume atualmente inequívocas feições necropolíticas. Não apenas pelo tipo de gestão política da vulnerabilidade que se descortinou claramente em decorrência da pandemia: negligente, inepta e irresponsável, sobretudo para com quem se encontra mais desprovido de recursos. O horrorismo à brasileira parece se mostrar mais nitidamente na saturação de nossa sensibilidade a tudo aquilo que é repulsivo na violência sobre o inerme. A aversão e a repugnância despertadas por atos de violência desproporcionais são silenciadas e desqualificadas, sempre com a vaniloquência de que se trata de bandidos que não deveriam merecer a pena de um cidadão de bem. Além disso, há fascínio, a esperança — um tanto ingênua, um tanto cínica — de que se munir de um armamentário poderia contornar definitivamente nossa inermidade, e quem sabe até nossa vulnerabilidade. O horrorismo à brasileira parece ser aquele que se fascina, e se dispõe a celebrar justamente o que deveria inspirar repúdio, luto e indignação. Recorre-se então à mera responsabilização das vítimas por seus infortúnios, atualizando orgulhosamente a ampla carga de preconceito e moralismo da qual somos historicamente herdeiros.

O horrorismo à brasileira é uma estratégia de governo, de gestão do medo que pretende tornar aceitável o recurso sistemático a formas de violência impostas a certas parcelas mais vulneráveis da população, que se supõe que devam mostrar-se obedientes a uma autoridade cuja legitimidade efetiva foi corroída por buscar sustentar-se no horror. Incitados pelo governo à aquisição de armas, seguimos fascinados pelo horror que até pouco tempo atrás era sobretudo um diuturno espetáculo televisivo. Parece uma convocação para o massacre. Não estaríamos há tempos sendo preparados a nos acostumar à nossa própria carnificina?

Foto por Natália Pina @painntl