Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

Carta para depois do fim

por Danilo Ferreira

Antes de falar da morte, quero lhe contar uma história sobre pássaros. Eu sempre gostei de observar passarinhos e talvez você já saiba que há no mundo uma legião de pessoas fanáticas por esse hábito. Não é uma questão de ornitologia, mas de pura contemplação. Pois bem. Hoje pela manhã eu observava os sabiás ciscando na grama da praça quando, de repente, um deles foi apanhado por um carcará. No susto, pensei em intervir para espantar o predador. Não levei isso à frente. Fiquei só observando um bando de outros pássaros que logo passou a sobrevoar o gavião. Eles tentavam assustá-lo com rasantes ousados para que o sabiá, sob as garras da ave de rapina, tivesse uma chance de escapar da morte. Eu me compadecia do sabiá, claro, mas também me encantava a força do enorme carcará. Nada o abalou. Ele permaneceu indiferente aos protestos dos outros pássaros, seguiu seu rumo, sempre no solo, e devorou o sabiá sem mais cerimônias. 

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Pode soar estranha a narração dessa cena de morte como preâmbulo de uma carta. No entanto, há mais de um ano a morte não sai dos noticiários.  Li que recentemente o número de óbitos superou pela primeira vez o número de nascimentos em nosso país. Também constava na matéria que a expectativa de vida do brasileiro diminuiu dois anos com os efeitos da pandemia. Para completar, o Ministério da Saúde recomendou às mulheres o adiamento dos planos de gravidez. Já o ministro da Economia afirmou que o problema das contas públicas é a longevidade dos brasileiros. Por fim, o presidente da República, ao ser questionado sobre a catástrofe sanitária, respondeu com uma certeza inflexível: “Todos nós vamos morrer um dia.” 

Diante desses episódios, como pensar os dias futuros? Ao tentar imaginar uma resposta, nada encontrei além da vã especulação sobre uma realidade ainda não nascida. Por isso, logo em seguida, resolvi escrever para você. Afinal, durante todo esse longo período de suspensão do presente, as nossas imprecisas projeções, mais ou menos otimistas, tornaram-se um parco alento para as incertezas cotidianas. 

Por falar em projeções, há alguns meses eu me deparei com uma notícia curiosa sobre o futuro da vida. Segundo a reportagem, os cientistas apostam que os nascidos nestes anos de peste terão contato com a amortalidade: um baixíssimo risco de morte natural, o que aumentaria assustadoramente a expectativa de vida e poderia levar nossos recém-nascidos a conhecer os séculos. Achei tal prognóstico profundamente irônico perante o momento que estamos enfrentando. Como de costume, fiquei com um pé atrás sobre essas promessas de um tempo que não terei oportunidade de testemunhar. Sou meio desconfiado. Ainda mais agora, em meio a essa névoa mortífera que nos circunda. 

Não sei como está a situação por aí, mas olhando daqui para o passado eu posso garantir que o mundo sempre pertenceu aos adoradores da certeza inabalável — para os quais a mínima desconfiança é uma afronta mortal. No entanto, e apesar disso, sempre houve os que torceram o nariz para a clausura ritualística das verdades mais imediatas, arcando com os riscos dessa decisão afrontosa. No fundo, há sempre quem suspeite que a segurança de uma gaiola nem sempre vale mais do que a aventura de ciscar ao ar livre. Isso vem de longe, talvez desde que alguém ousou não saber nada diante daqueles que creem saber de tudo. A partir de então, a vitória dos postulados absolutos correu paralela a uma outra história: a história da suspeita, da dúvida, e, por que não, da desobediência. 

E qual a vantagem da desconfiança? Nos tornar menos apegados ao violento delírio do inquestionável. Pelo menos em tese, porque a minha desconfiança, claro, é hiperbólica e autoaplicada. No fim das contas, os dogmas mais difíceis são aqueles que professamos convictos, agarrados ao osso duro de certezas frouxas, como se fossem ingênuas constatações sobre a ordem natural e imutável do nosso agir. Não sei se essa lição tem alguma utilidade por aí. Suspeito que você esteja rindo desse meu tom professoral, pois desconfio que nada à minha volta servirá ao mundo que se reerguerá pelas décadas vindouras. Que utilidade terá a dúvida filosófica para uma vida que pode não ter fim? 

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É curioso pensar que os últimos mortais deixarão de viver às vésperas da obsolescência da morte. Estará extinta, então, a velha garantia de que a morte é a única certeza. Tudo se torna mesmo obsoleto com o passar do tempo: objetos, leis, palavras de ordem. De um dia para o outro, por exemplo, as cartas se tornaram uma ferramenta do passado. Eu mesmo nunca enviei uma carta pelo correio. Contudo, ao longo dos séculos, o ato epistolar sempre foi uma prática de remeter ao futuro do destinatário. No automatismo do nosso presente, esse diálogo entre temporalidades distintas se extinguiu por completo. A própria escrita, bem sabemos, talvez não dure mais um século. 

Por isso, antes de acabar o rascunho desta carta, eu cheguei à conclusão de que os amortais vivem sua pequena eternidade num mundo ágrafo — imagino, porém, que a conversão desses velhos símbolos fonéticos não seja nenhum mistério para os dispositivos tecnológicos. O que talvez não tenha ficado claro é por qual razão escolhi justo você como destinatário. Explico: em algum momento entre o anúncio da amortalidade e a notícia do número de óbitos superando o de nascimentos, sua inusitada imagem de recém-nascido surgiu como a mais ambígua criatura, algo entre a esperança da vida continuar e o espanto dela nunca mais se acabar. 

Desprotegido como um passarinho na grama da praça, sua vida poderia ter sucumbido às garras da morte. No entanto, com toda a sorte que o jogo do acaso lhe reservou, você seguiu ileso, sem muito pensar sobre o passado mortífero que lhe pariu. Ocorre que agora, por alguma razão, eu imagino seu corpo já vincado pelas tormentas da rotina, ou até mesmo sua alma absorta num fastio denso e inquebrantável. Entre tantas meditações sobre as sombras informes da sua figura, não me sai da cabeça o fato de que o futuro pode lhe proporcionar uma vida livre da morte, mas não necessariamente livre das velhas práticas de manter à baixa temperatura as nossas mais impetuosas intensidades. Valerá a pena? Enfim, isso vai longe, tão longe quanto o tamanho das minhas inquietações neste momento em que o tempo de tantos corpos tem sido abreviado por uma febre virulenta.

Para terminar, queria dizer que eu ficaria contente se um dia, aí do outro lado dos séculos, desfrutando das benesses de uma vida vacinada contra todos os males, você enviasse uma resposta com curiosidades sobre a sua existência sem finitude. E não se esqueça, claro, de contar algo sobre os passarinhos que ciscam em seu quintal.

São Paulo, abril de 2021

Ilustração por Bella Biltoveni (@bella.bilto)