Notícias do exílio? Pedro Cattai

Da singularidade da literatura

por Pedro Barnez Pignata Cattai


“O próprio campo da literatura está vazio.” Ouvi um senhor dizer a outro senhor, enquanto eu passava por eles indo ao encontro de um amigo em um dos corredores frios da faculdade. Sou conhecido como “o primeiro aluno da modalidade EAD da Faculdade de Letras”. Mas isso não vem ao caso. “O próprio campo da literatura está vazio”. Coleciono frases soltas, perdidas no vento, há algum tempo (essa aí, por exemplo, tem oito anos). Frases sem antes ou depois, em contextos escassos, de pessoas desconhecidas. Como fossem minhas, no momento oportuno faço saltar algumas delas pela minha boca ou escrita. Na mesa do restaurante, saindo do cinema, no meio de uma discussão, no texto de uma revista, na reunião do trabalho, no elevador… Eis a frase perdida no vento, disparada por alguém desconhecido, invadindo o mundo mais uma vez. Não é sempre assim? Todas as máximas, frases, ideias. Isso que estou dizendo já foi dito antes por outra pessoa. Mas por mim é a primeira vez. Enquanto não morrermos, não tem mistério, é sempre isso e um dia acaba, de qualquer maneira, é essa a desgraça, esse é o milagre, é nessa ousadia que nos colocaram sem saber e não nos resta outra decisão. Repetir ao nosso modo.

Naquela tarde em que os dois senhores cruzaram meu caminho deixando o rastro de uma frase desconexa, não encontrei imediatamente meu amigo. Ele precisava resolver “pendências”, a saber, pegar os livros esquecidos pelos estudantes nas salas de aula vazias. Roubar. Esperei na biblioteca. O cemitério repleto de lápides extensas. Epitáfios consagrados ou mais ou menos abandonados de mortos sem vala comum. Naquela tarde, não li livro. Entre as estantes, eu anotara: “Em qual lugar se encontram as frases, os impulsos, os feitos de tudo o que se perdeu? O que viveram os que viveram antes de nós, o que atravessaram? O que deixaram e, sobretudo, o que levaram consigo? Algum sonho incomunicado; alguma visão própria; algum gosto específico; alguma percepção peculiar; alguma dor, qual dor, qual amor, que tipo de vivência, qual vocação, qual singularidade, qual desperdício, afinal?” Desci as escadas, passei pelo detector de livros, peguei minha mochila, sentei em um dos bancos sob o céu imensamente azul. Os dois senhores, olha só, passaram novamente por mim, mas dessa vez não ouvi palavra. Eu estava com fone no ouvido e escutava músicas do Jimi Hendrix. O ritmo, a ausência de profundidade, as quebras que ele produz. Anotei: “É uma viagem rumo ao sol, ou qualquer coisa assim.” Lembro da história de que Hendrix era excessivamente perfeccionista, levando à exaustão a si mesmo, aos músicos e aos técnicos de som durante a gravação de seus discos. Em uma delas, quando finalmente concluído, Hendrix ficou com a única cópia do disco e o esqueceu no banco de um táxi para nunca mais ser encontrado. É o destino, afinal, de todo esculacho, de todo perfeccionismo, de toda tristeza, de qualquer literatura, de toda beleza.

Meu amigo acenou, nos abraçamos e fomos ao bar ao encontro de outros amigos. Isso aconteceu há oito anos. Mas escrevo agora, oito anos depois, sob o mesmo céu, em um mundo radicalmente diferente.

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“Enquanto você mesma não perceber o quanto você é incrível, ninguém vai notar o seu verdadeiro valor.” – Clarice Lispector.

Nos últimos anos, os grupos de WhatsApp e as redes sociais foram palco da propagação de citações de autores anônimos atribuídas à Clarice Lispector, ao Fernando Pessoa ou a outra sumidade do campo literário. A falsa atribuição dessas autorias costuma aumentar o valor do texto, a possibilidade de ele ser lido e compartilhado; o contrário do que geralmente acontece quando a citação aparece sem autoria ou com um autor ordinário. Se, por um lado, há algo de ridículo (ou de sábio) em atribuir uma autoria consagrada a uma frase qualquer, por outro, há algo de ridículo (ou de sábio) naqueles que, para validar seus argumentos, em um texto ou em uma conversa, cavam aspas e citam autores para embasar sua argumentação. Chama a atenção, aí, nem tanto a atribuição falsa ou verdadeira da autoria de algumas frases, mas a forma, e em função do que usamos essas citações.

Há alguns anos, embora com um outro erro, um quiz na internet (“Britney ou Nietzsche?”) fez a alegria de muitos de nós. No quiz, há citações do filósofo alemão que, no entanto, soam mais apropriadas na boca da cantora e dançarina americana; e o inverso também. Algumas citações de Nietzsche, que estão no jogo, são frases que o filósofo colocou em contextos escassos, a saber, em seus “aforismas” ou em suas “máximas e flechas”. A ausência ou escassez de contexto pode fazer uma frase adquirir sentidos variados de acordo com quem, quando e onde ela é lida (e também de acordo com a atribuição dada a quem a escreveu, em que momento e onde). Justamente por isso, esse tipo de frase pode ganhar, a cada vez que alguém a lê, um sentido singular. O mesmo ocorre com uma frase que pertence a um contexto mais amplo. No que se refere às citações de passagens literárias, por maior que seja a autoridade de quem a escreveu, a frase em questão não representa (nem intenta representar) uma verdade geral, sendo, portanto, sob esse aspecto, desprezível nomear um autor a ela, uma vez que a frase necessariamente se liga (e daí adquire maior ou menor interesse) a um ponto de vista de um certo narrador ou de uma determinada personagem.

Isso porque a literatura tem sempre uma visão restrita. Um recorte limitado. Um ponto de vista específico, que enxerga e nota um campo circunscrito. Qualquer literatura conta com esse destino. E começa daí. Narrar, seja lá o que for, a partir de uma visão dada, de uma visão peculiar. Mesmo quando se produz um narrador onisciente, é evidente, o narrador não apenas é produzido sob certas circunstâncias, mas, também, não nos conta tudo: entre tudo o que supostamente sabe, narra somente aquilo que considera mais importante. Ainda que supostamente saiba tudo, o narrador onisciente conta com um conjunto limitado de páginas para discorrer sobre o todo e sucumbe (ou melhor, se possibilita) um número reduzido de personagens, com questões igualmente localizadas, desenvolvidas em um ambiente restrito no qual determinadas ações transcorrem. A condição de existência da literatura advém justamente da “restrição” de um mundo singular. Não existe universal na literatura: inclusive aqueles livros que supõem descrever o universal estão dispostos na escrita de um narrador específico, com uma visão de mundo característica ou na boca de uma personagem que percorre um determinado espaço e ali, naquele ambiente peculiar, profere enunciados que estão dizendo, na realidade, apenas um ponto de vista. Esse “apenas” é o que há de mais convidativo, o que há de mais radical.

Afinal, o próprio campo da literatura está vazio?

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O senhor com quem cruzei o caminho há oito anos estava convicto de alguma coisa quando lançou aquela constatação? Por que disse aquilo? Citava, naquele momento, ele também, somente a frase de uma outra pessoa?

Agora, às 16h18 do dia 17/05/2021, lançando essas perguntas, lembro-me do “O Mestre e Margarida”, de Bulgákov, o último livro pelo qual me apaixonei. O que mais me impressionou nele é que, apesar da (ou talvez por causa da) escassez de frases dignas de citação, o livro é composto por ideias e capítulos maravilhosos. A partir disso, fico pensando nesses livros em que as frases, em si mesmas, são banais, ao passo que o conjunto formado por elas constitui um contexto incrível. Penso, também, nesses livros ordinários que não se valem de frases impactantes, ao mesmo tempo em que não formam um conjunto arrebatador. Por fim, penso nesses livros feitos com fragmentos interessantes, sem nenhum desejo de agrupá-los em um clarão unificador (pelo contrário).

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O coronavírus havia me levado à UTI, meu corpo já havia me tirado de lá. Depois de vivenciar in loco a batalha entre a vida e a morte e de ter, sob a mesma UTI, dividido o espaço com desconhecidos que morreram antes, depois e durante minha estada ali, meu passado tornara-se uma história fictícia vivida por mim. Foi quando, em casa, ainda convalescente, recebi uma encomenda com textos que eu havia escrito em 2013. Minha existência foi invadida por algo como a própria existência. Daqueles textos saiu o mundo que percorri anos atrás e que no entanto constitui agora um lugar do qual sou estrangeiro. Pois eu é um outro. Li o que escrevi em 2013; aquilo que fui tornou-se realmente um personagem. Dali saíram os primeiros fragmentos deste texto.

No começo de 2020, logo no início da quarentena e da pandemia no Brasil, exatamente um mês antes de sentir os primeiros sintomas da Covid-19, também comecei a escrever, a exemplo de muitos, um diário. Quando uma guerra, uma revolução, uma pandemia ou qualquer outro acontecimento totaliza o imaginário de uma sociedade, ainda que se narrem outros feitos, contamos todos a mesma história. A graça é a maneira singular como cada um de nós participamos da banalidade, não é? No dia vinte e dois de março de 2020, às 16h37 (duas semanas antes de sentir os primeiros sintomas da covid-19), escrevi: “Atravessei tempos incertos. Passei de uma a outra desordem. No entanto, é curioso o quanto nossa cultura toma a vida como uma situação entre outras e age nela como algo dado, geral, garantido. Há algo de vergonhoso nisso, algo de uma covardia sorridente. Essa cultura faz questão de tirar o entusiasmo, a vontade, o interesse de toda percepção singular. Pertenci à revolta e a cumpri a meu modo: eis o epitáfio que poderia jazer na minha sepultura, embora o anonimato de uma vala comum, de um corpo desaparecido, seja o que desejo ao meu gesto derradeiro.”

Foto por Elis Coelho (@elismsc)