Notícias do exílio? Pedro Cattai

Do exílio

por Pedro Barnez Pignata Cattai

Quando entreguei o primeiro texto para o editor deste O Farolete, não esperava que ele o considerasse interessante. É de imaginar, portanto, a surpresa que me assombrou quando fui noticiado da enorme repercussão que o texto causou e das impressionantes celeumas e confusões em que se meteu. Sempre ouvi dos escritores que, quando finalmente entregam uma obra, ela passa a ter vida própria. É com isso que me guardo: não tenho mais nada a ver com aquilo. A polêmica não me pertence. Ela é exclusividade do mundo.

Neste segundo texto, penso assim: é condição de todo vivente a experiência do exílio. Basta estarmos vivos para presenciarmos coincidências, mas também afastamentos daquilo que consideramos nosso. Cá entre nós, quem dirá que essa pandemia não nos exilou? Mudando de cidade ou permanecendo na mesma, todos ficamos afastados do que nos era próprio. Inclusive os negacionistas estão em um mundo bastante diferente do que percorriam. E, no entanto, a inevitabilidade do exílio é mais radical e trágica para alguns do que para outros (há os que precisem exilar-se por questão de vida ou morte).

Este texto é dedicado a todas e todos os desterrados.

* * *

Uma vez tive uma amiga bárbara. Surgiu e sumiu na minha vida como uma estrela cadente. Desculpe a metáfora cafona. Mas o que posso fazer se ela realmente desapareceu deixando o fulgor de uma coisa admirável? Minha amiga pensava de um jeito inusitado e falava, às vezes engolindo as palavras, como se palavras não fossem necessárias para sair de si e encostar no mundo. Antes de desaparecer, minha amiga entregou-me um papel amarfanhado com o email dela e disse desse jeito estranho “me escreve, meu chapa, e vem lá me visitar”. Não demorei mais que um ou dois meses para escrever e, quando enviei a ela minha mensagem, o endereço estava errado. Tentei todas as opções possíveis, mas não houve jeito. Todos os emails que foram, voltaram sem resposta: “Ei, o que foi buscar, achou?”.

Fico imaginando o que ela poderia ter me respondido. De todo modo, em madrugadas como esta, uma espécie de gosto me faz sentir minha amiga, e não é recordação propriamente: o silêncio e as algazarras da noite dentro da noite; uma certa vontade de tomar cerveja… Minha amiga que se embrenhou no mundo surge em mim, mas onde ela estará? Por onde anda? O que presenciou, o que viu? Estará viva?

Às vezes, sondo a hipótese de pegar essa estrada e, como um personagem de road movie, ir buscar tudo o que se perde. Pensando bem, qualquer viagem que faço é um pouco isso, como se tudo o que eu descobrisse (uma empada de jiló em Minas Gerais, o horizonte de uma estrada do Uruguai, um boteco carioca…) fosse como experimentar o que talvez minha amiga tenha encontrado pelo caminho.

Minha amiga sabia (gostava de) viver. Hoje me visitou de um jeito que nunca antes tinha me encontrado: dormindo. Sonhei com ela e acordei no meio da noite precisando abrir a janela, correr ou gritar. Aqui estou inundado por alguma coisa distante. Tentando construir pontes. O sonho começava justamente com uma ponte curiosa e difícil de explicar, porque embora habitemos muitas iguais a ela, nunca vi uma como aquela no mundo, seja de pedra, madeira ou aço. No sonho, acontecia de você subir na ponte e alguma coisa sucedia que por ela você não chegava do lado de lá. Você se punha a atravessar a ponte e, quando supunha chegar na outra margem, ela lhe trazia de volta para o lado de cá. Senti o calafrio da loucura e tive medo de sucumbir à solidão. Desdobrei um papel amarfanhado que levava no bolso da calça (não é divertido como esses estratagemas surgem naturalmente nos sonhos?) e, nele, vi um mapa que era um desenho arquitetônico, o projeto da ponte e talvez ele contivesse o segredo para cruzar o limite. Mas acontecia de o desenho ilustrar uma ponte como todas as outras pontes e não aquela em que eu estava e que me fazia mais banal que o mais ordinário dos homens. E ali, paralisado no meio da ponte, incapaz de cruzar a linha, minha amiga surgiu apressada, pegou-me pela mão e, sem dizer palavra, contou que precisávamos correr. “A gente nunca busca nada, estamos sempre fugindo, isso sim”, foi o que saquei enquanto corria com a mão esticada, agarrado à mão dela, que me puxava até nos tornarmos forasteiros. Assim que me vi parado do lado de lá, provavelmente porque ainda guardava os hábitos da margem à qual a ponte insistia em me devolver, perguntei: “e aí, minha chapa, qual é o segredo?”

* * *

“Meu chapa, estou em pé na trincheira. A revolução avança; eu a acompanho como sendo óbvia: de fato não tenho dúvida sobre certo ou errado. Os dias avançam sobre mim e não tenho nenhuma, absolutamente nenhuma arma tirante meu corpo, meu pulso, as passadas curtas, destemidas, e a inusitada sensação de pisar na terra, no concreto, na grama, nas poças d’água, e, durante minha queda ao chão, quando ouço soar o estampido seco cortando o vento explodindo as ideias, na última oportunidade em que me dou conta, antes de me sacudir decididamente solta, dissolvida no mundo, saco esse poema sem salvação: venho de uma guerra dentro da outra, você sabe, venho das margens do Império, do lugar em que todas estamos, eu vim daqui, mas não pertenço a este lugar, minha casa, não é novidade, está distante cravada em um estado de espírito que me habita e que me faz enfrentar as tormentas e os atalhos. Atravesso um exílio dentro do outro, um afastamento constante de onde estive (é a única maneira possível de soprar no mesmo tempo da vida), não é uma descoberta, é o que está disponível e eu seria desonesta se dissesse que, afora os instintos adquiridos, guardei alguma sabedoria.”

* * *

Agora, acordado e ainda em cheio nesse sonho, neste trinta de maio de 2021, 04h34, releio o poema:

Chega um momento
do modo como um momento chega
que, então, é preciso partir
– e partir não é dizer “adeus”,
é ir:
não voltar.

Desses versos, penso assim: é o mesmo de dizer que não se entra duas vezes no mesmo rio, só que diferente. Isso começa com a percepção do exílio. Do êxodo urbano. Da condição de desterrado.

Certa vez, há alguns anos, tive um aluno refugiado. Permaneceu menos de um mês na escola. Ficaram dele duas memórias: a imagem de seu rosto com uma cicatriz; o sotaque “professor, vou partir outra vez”. Não faço ideia aonde anda. Naquele mesmo ano, pouco tempo depois, chegou uma aluna (Magnólia), para quem dei um ou dois meses de aula: era nômade, a família circense, de modo que (imagino) tornava-se a atração de toda turma por onde passava, nas mais variadas cidades, sem fincar raízes, estabelecendo vínculos de pouca duração. Quando seguiu seu rumo, deixou o coração de um colega de classe, o Carlos Eduardo, partido. Desconfio que ele tenha perdido aquele ano letivo por isso. No ano seguinte, seus colegas foram adiante, para o ensino médio, e ele ficou sozinho no meio de uma turma que já se conhecia. Não faço ideia de como Magnólia permaneceu após deixar São Paulo para trás. Um ano antes, eu conhecera minha amiga bárbara, que chegou como uma exilada e partiu na mesma condição. Um dia, engolindo as palavras, me disse “não sei se todo conterrâneo é parecido, mas um desterrado é sempre diferente do outro”.

* * *

Nesta madrugada, no meio desta pandemia, caminho aqui até a janela do quarto andar deste prédio. Embora existam coisas para além deste apartamento, “lá fora” é o mesmo que dizer “antigamente”. Ainda não completei quarenta anos, mas vivo como se tivesse oitenta e o mundo não fosse mais que histórias e memórias (como a única cópia do disco perfeito do Jimi Hendrix, perdido em um táxi). Eu costumava ser um funcionário público; há quase dez anos trabalhava como professor na rede pública de ensino do município de São Paulo. Gostava da profissão, principalmente de meus alunos, da estabilidade, da metade do dia livre e do salário que, a bem da verdade, contemplava meus gastos. Não me imaginava fora, e eis que estou de mudança: desempregado, rumo a uma cidadezinha, em uma outra rotina. Enquanto espio pela janela as ruínas do mundo de antigamente, me pergunto o que estou indo buscar, afinal. O mundo já não é o mesmo. Está certo: nunca foi. Há mudanças, no entanto, que se impõem de tal forma que, inclusive aquilo que se assemelha com o que havia antes, é, ainda assim, uma outra coisa. O coronavírus manterá intacto o aparato de determinadas pessoas; o meu foi estilhaçado. A transformação foi mais abrangente que a falta de ar vivenciada por mim no ano passado. Deflagrou-se o fracasso das cidades que eu insistia em amar com devoção. A) Um vírus trancafia dentro de casa milhões de indivíduos do mundo liberal e globalizado. B) Talvez nunca tenha havido tão competente distribuição mundial de algo, para cada um de seus indivíduos, quanto a presença desse vírus mortal. É uma piada mal contada e é também a realidade ela própria. O mundo se transforma de todos os jeitos; principalmente por acaso. Faz uma semana que pulo da cama pela manhã e a sola dos meus pés doem quase a ponto de não me permitir ficar em pé. Uma novidade estranha. Fato é que decidi abandonar o mundo que me abandonou: chegou o momento em que só consigo ler em pé. Desde então, a novidade aberta diante de mim tem me deixado a ponto de não suportar nem mesmo meu peso. Ao mesmo tempo, é a primeira vez, em bastante tempo, que sinto meu corpo sustentado pelo meu corpo. ‘Eu tô indo embora’, falo em voz alta. Um dia eu volto, quem sabe, mas as pessoas, o tempo e a cidade seremos radicalmente outros (já não somos?), de modo que não há retorno possível. Cair fora ou permanecer no mesmo lugar são ações idênticas: não há salvação, resta apenas assumirmos a forma de praticar a resignação e, na medida do possível, a ressignificação da vida após as mortes. O exílio, dou-me conta, para pessoas como nós, é a própria experiência de estar vivo. A ideia de que o mundo me abandonou é apenas uma constatação atrasada: o mundo não cessa de se transformar. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, não é mesmo? De funcionário público a forasteiro. Uma aventura percorre essa decisão sem decisão. É curiosa a forma como, de repente, isso se torna real: a gente nunca busca nada, estamos sempre fugindo, isso sim.

Foto por Maira de Cinque