Pensamento e clínica Thiago Leite

Bolsonaro, a transgressão e os limites da inteligência

por Thiago Leite

Contrariando todas as evidências, direi que Jair Bolsonaro é inteligente. Ele é um ser humano, no sentido biológico, e possui — nos agarremos à biologia — as faculdades básicas que permitem a um ser humano atuar no mundo em que vive. Ele busca a cadeira quando alguém pede, atravessa a rua sem ser atropelado, é capaz de pôr pilhas no controle remoto e — aqui já começo a duvidar um pouco — montar um quebra cabeça. O aparato mínimo de um ser inteligente é sua capacidade de realizar atividades cotidianas, inventar instrumentos e resolver problemas práticos.

A definição de inteligência que sustenta essa afirmação consiste em dizer que ela surgiu das mãos da natureza, concomitante à evolução dos vertebrados até o ser humano, possibilitando a ele a habilidade de criar ferramentas (garras e venenos “artificiais” que a natureza não lhe deu). Mas, para alcançar seus objetivos, ela procede um ato peculiar: a inteligência concebe um espaço vazio, onde os objetos podem ser apreendidos como simultâneos. Continente de todos os conteúdos, a noção de espaço possibilita a distinção dos objetos, torna decomponíveis as suas partes e infinitas as suas relações. Em outras palavras, a inteligência é fruto da evolução biológica e da adaptação do ser humano à matéria que o cerca, e o ato, o salto, que ela dá é o de conceber, sob as coisas, um espaço ideal para, enfim, relacionar e agir sobre eles. A inteligência está essencialmente ligada à ação, assim como a ação está ligada ao conjunto músculo-medula-cérebro. Ela responde, portanto aos estímulos do meio externo e se orienta segundo os interesses e preferências do corpo. Para poder agir, ou seja, selecionar no meio externo aquilo que lhe interessa, ela achata a realidade, como o urbanista precisa terraplanar uma área, eliminando todo o relevo, todos os objetos, todas as vidas, lá onde ele pretende construir uma estrada. A inteligência concebe ideias para realizar uma ação. E a ciência, nesse sentido, nada mais é que a forma superior da inteligência, que organiza com método, experimentação e abertura ao erro, as tendências já formativas da inteligência natural. A inteligência, ainda, sendo um instrumento da espécie humana, é correlata da sociabilidade, da comunicação; elas são filhas de um mesmo impulso da espécie para viver, agir e crescer em um determinado meio. É sempre social. Assim, ela é, enfim, o pensamento do senso comum, não no nível da opinião, mas naquele que se confunde com o próprio corpo, seu aparato perceptivo e móbil, cujo elemento é a ação eficaz, segundo diversas ordens de interesse, numa sociedade organizada. Mas, uma última palavra: advinda assim no seio da socialização e depositando-se no indivíduo, a inteligência é também o veículo de um conflito no interior do social: emersa das emoções mais violentas da vida individual, nasce a tendência de atomizar e mobilizar a inteligência contra seu fundamento social.

 Pois bem, a ideia de que a terra é plana pode ter encontrado muitos experimentos científicos que buscavam a sua prova desde a antiguidade, mas ela é uma ideia (geral) do senso comum, uma proposição irrefletida da inteligência a partir de uma percepção simplória. Somente a ciência rigorosa, contrariando as sugestões da percepção, provou ser a terra redonda. Pueril e quase ingênua, a hipótese da terra plana nasce das branduras automáticas da inteligência e, ao mesmo tempo, aplica-se sobre a pertença do ser humano à Terra como concepção de mundo. Mas numa época em que havia uma disputa sobre a geomorfologia terrestre, tudo estava em jogo. Quando a hegemônica ideia da terra redonda finca e alastra suas verdades, ela torna-se norma, e, portanto, a imagem geral que arredonda os limites da nossa pertença.

Direi então que a ideia do terraplanismo contemporâneo, nesse sentido, é um “defeito” da inteligência natural quando levada ao extremo pela necessidade delirante da ação. Essa necessidade, por sua vez, é inteiramente concebida dentro — e contra — uma espessura cultural já constituída e hegemônica. O terraplanista atual faz “ciência”, levando percepções simples ao estatuto de ideias gerais, ignorando o método e os critérios do rigor: alcança, com isso, uma energia, uma violência, para a ação contra a hegemonia da cultura que ele nega. Pois negar os limites arredondados da Terra equivale a romper o círculo e tracejar esses limites em uma linha infinita que almeja refundar o lar em um plano de reticências, tirando-nos de um anel de recursos finitos para nos lançar na terraplanagem sem fim. O que se quer, em absoluto, é “zerar” a cultura, “começar tudo do zero”. A inteligência social (produtora de ideias gerais que possibilitam a ação) encontra, assim, a antiprodução, a linha de abolição do contorno. Se, no interior do contorno arredondado da cultura terrestre a vida é variada, plena de contrastes, diferenças, o terraplanismo propõe, então, um recorte brutal por cima da própria realidade, planificando não apenas a geomorfologia, mas toda e qualquer diferença, relevo, que viesse a ser um obstáculo a um plano de ação radical. Isso equivale a dizer que já não importa o real estatuto da geomorfologia terrestre: trata-se de conceber, e negar, o ponto a partir do qual a cultura em geral desenha o contorno mais amplo de seu corpo.

Afirmo, portanto, que a ideia do terraplanismo é como a metáfora da inteligência negadora da vida social em geral. Pois ela viceja precisamente onde a cultura procurou alinhar-se a uma positividade do social, afirmando valores coletivos e mais democráticos. Logo, no contexto de um desespero paranoico, que berra por atitudes radicais,  produzido pela crença em uma dominação global-comunista, por exemplo, essa ideia não é arbitrária. Tudo passa a ser um complô, um plano vindo de outro lugar, de fora. Não é à toa que o conservadorismo radical e a extrema direita flertam com o terraplanismo. É como se a redondeza da Terra fosse a mentira global mais poderosa que a cultura pôde sustentar, a crença mais ignóbil que nos enganou e que, caso derrotada, nos libertaria de uma hipnose profunda. Sendo o terraplanismo, então, a coroa de uma atitude essencial que pretende terraplanar tudo quanto é nuance da vida real para simplesmente fazer passar um plano de ação, um interesse prático — em função da conspiração obscura, ramificada e feroz que avança contra o ideal ocidental — ele é forma geral de uma recusa do social. Em função da ação subordinada a um plano de grandes proporções que engloba o “todo” humano, sua história e seu porvir, o terraplanismo significa, proporcionalmente, o aplainamento de todo relevo da vida, cultural, moral, afetiva, histórica e política.

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Jair é inteligente, eu dizia. Mas o é na medida em que essa inteligência está subordinada a seus interesses macabros, sua patologia delirante e conspiratória contra a sociedade. Sua notável personalidade fascista responde à maneira pela qual ele precisa aplainar as relações para fazer passar seu interesse. O interesse do ser inteligente Jair é, por sua vez, terraplanista: negar a cultura, os valores democráticos e as diversas manifestações da vida coletiva. É verdade que sua personalidade se constitui nos resquícios ideológicos da ditadura militar (nos seus porões, como diz Celso de Barros) e que durante décadas o discurso aniquilador foi seu único instrumento de sobrevivência política, convergindo, em alguns nichos sociais, o desejo de abolição de tudo quanto é obstáculo à realização cega e imediata da vontade individual conformada a um ideal ocidental caricato e hiperbolizado (homem-branco-hétero-cristão). Ora, como se trata de negar o mais amplo conjunto de valores, na borda do círculo que cresce a cada nova invenção humana, Jair se encontra enrascado. O grande arco que ele quer negar (e que se experimenta como impossível de negar) exige um maníaco e delirante ato contínuo da negação. Há uma teleopatia, uma teleopatologia (doença dos fins), que consiste em levar seu interesse até o limite: e tudo, hoje, no delírio bolsonarista, é um “ir até o fim”.

Como entender, então, sua condição de pequeno homem engrandecido? O esquema do seu interesse? As diferenças e marcas que singularizam sua existência na política nacional exigem pensar a integração do desejo de aniquilação (sob a forma de um desejo de abolição da coesão e liberdade social) com o isso mesmo que ele deseja aniquilar. Ou ainda: pensar em que a inteligência subordinada ao delírio terraplanista precisa se sustentar para garantir a si mesma sentido e longevidade. Dois elementos me parecem importantes.

Assim, em primeiro lugar, a transgressão (tomada em um sentido amplo como ato formal com relação a um estabelecido). O discurso com que Jair cavalgou até a presidência nunca teve um objetivo, pois sempre foi apenas a aplicação de uma atitude, a repetição de um gesto: aplainar os valores democráticos, transgredir tudo o que a sociedade democrática vinha assimilando como valores positivos. Encarnando um curto-circuito da inteligência natural, Jair é o animal social confuso que encontrou na negação da cultura democrática um meio de sobrevivência e de crescimento. E o transgressor seduz, como um adolescente que fuma escondido na escola. Não é de espantar que, como em outros casos, exista até certo erotismo ligado à sua figura, certamente presente nas imagens (que circulam entre seus apoiadores) de um herói musculoso e forte, cavalgando a potência da transgressão. Jair ultrapassa com frequência as linhas do bom senso e dos valores democráticos, concentrando em si o valor de um sujeito veraz e corajoso. Mas ele é ainda aquele que fala merda na solenidade e manda para o diabo a decência e a civilidade em uma reunião oficial. E não perde nunca a ocasião para forçar essa aparência. Ele não apenas angariou a insatisfação das classes médias; o que ele fez, profundamente, foi seduzir uma grande parcela da população que sente tesão com transgressão: sobretudo quando essa transgressão está direcionada contra o estabelecimento de limites e concessões concernentes às questões identitárias (indenitárias). É bem um método, mas com fim em si mesmo, que lhe rendeu uma sobrevida política por trinta anos e depois, por intensificação das contingências, a presidência.

Em segundo lugar, a assimilação formal de aspectos da esquerda organizada (alguns elementos discursivos, mas manifestações de rua, sobretudo). O discurso da transgressão sempre esteve associado aos revolucionários, que encontravam tanto na moral quanto nas instituições a carne de uma cultura e uma política dos privilegiados, bem como o aparato mantenedor da exclusão e da miséria. A forma criada pela revolta contra o estabelecido oligárquico e autoritário legou para a cultura a forma mesma de atacar qualquer estabelecido: a massa nas ruas, ataques a certas personalidades representativas do inimigo, palavras de ordem, bordões). Ao preencher tal discurso com as sandices da antiprodução social, Jair tornou-se o líder de um “movimento” anticultural.

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Mas o bolsonarismo não é um movimento. Não devemos usar o termo bolsonarismo para algo que é uma tendência (certamente passageira em seus aspectos mais superficiais, já que o fascismo que eles abraçam é uma doença inerente ao corpo social brasileiro); uma tendência, uma direção ético-política destrutiva e corrupta do próprio laço social que, formalizada na revolta, encontrou ecos nesta nossa sociedade tarada por transgressão, pois traumatizada pela violência, pela instabilidade, pela exterioridade radical das instituições com relação à vida social. Sim. O brasileiro goza da transgressão, pois se vinga da sociedade que lhe aflige sem compensações; e o gesto encarnado por Jair é antes uma linha de abolição do social que um movimento político abrangente, totalitário, cuja ideologia construísse além de uma política assassina e vazia, uma ciência, uma arte. Ele macaqueia o fascismo. Não há nenhum indício de uma arquitetura bolsonarista que ousasse projetar um Volkshalle (ainda que circule uma certa “estética” bolsonarista nas representações imagéticas que fazem o verniz heroico do mito).

Jair, desejando substituir uma ordem por outra, imaginou a desordem como horizonte primeiro, seu meio, mas não percebeu que era só a desordem o que ele almejava. Pois queria a ausência de uma ordem em proveito de uma ordem idealizada, e desejou antes a aniquilação da ordem mesma do que a instauração daquela que fantasiava. Seu interesse antissociedade, indo até as últimas consequências da inteligência planificadora, encontra tão somente a ausência de ordem, ausência de positividade social, laço. Seu único desejo real é a transgressão contínua e programática da ordem que ele — em razão de sua sobrevivência — não pode abolir; quer somente, ao terraplanar a vida, nutrir-se no contraste com a produção incessante de relevo, ou seja, a vida real com todas as suas diferenças, criações proliferadas, processos fugidios e fermentação afetiva. Ah, ele quer uma ditadura? Pode até ser, mas jamais desejou seus pormenores e jamais entendeu como consegui-la. Não saberá o tempo certo de começá-la: será “muito cedo” ou “tarde demais”. Ela não passou de uma fantasia adjacente ao plano transgressor sem fim de um desejo de abolição, máquina de transgredir que se confunde com seu combustível (o que difere em natureza de uma transgressão positiva). Nem uma ditadura instaurada nem a abolição plena daquilo que ele “combate” garantiria seu combustível: é preciso manter as linhas que tornam possível sua transgressão.

Transgredir os limites da inteligência (bom senso) confunde-se com a transgressão da própria coesão social. É o terraplanismo: afirmar algo absolutamente errôneo porque viola um consenso cultural de base. A tendência fascista que atravessa o Brasil se conjuga com a ultrapassagem de limites democráticos, e o tesão sedutor e sem freios que aí se produz energizam uma cruzada sem fim (eles falam mesmo em “luta espiritual). Daí todo bolsonarista ser um pequeno Jair envaidecido, brigando pelo seu “direito” de transgredir (porque é somente o que ele quer, fazer questão de chamar alguém de gordo simplesmente porque “não pode”).

Qualquer país sério, todos dizem, já teria deposto Jair. Mas um país fascinado pela transgressão, pela exploração do trágico (Datenas que se multiplicam), não desprezaria tão facilmente o espetáculo diário de um imbecil disposto a pôr a si mesmo na pedra dos sacrifícios para garantir o exercício cego da transgressão fundamental contra a cultura democrática. Não é gratuita, portanto, a análise de Maria Homem com relação a fase anal que fascina Jair: sua questão são os limites que ele nega e por isso ele está “cagando” para você e, ele mesmo, anda constipado. O autonomeado messias brasileiro é um parricida de si mesmo. Atirou a primeira pedra em si mesmo. Não sabemos muito bem como vai acabar, o Jair. E nossos problemas são na verdade o legado desse sobrenome que designa, agora, uma tendência destrutiva da inteligência social e um conjunto de atitudes que visam solapar valores minimamente necessários para o convívio social. Mas sabemos de uma coisa: sua casa finalmente se chama “Casa de vidro” — o que sempre foi — e está para quebrar.

Ilustração de 1922, da revista sueco-norueguesa Allers Familj-Journal