Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

Para um amigo

por Danilo Ferreira

Conheci Fabrício numa aula de História Antiga. Quando terminamos a faculdade, ele começou a perambular pelo mundo. Nosso contato se manteve por e-mail e, mais recentemente, por WhatsApp. Já chegamos a passar anos sem informações um do outro, mas ele sempre volta a me mandar notícias.

Desde que se tornou médico do Programa de Saúde Indígena, ele me convidava para ir visitá-lo na floresta. Já estava tudo planejado quando surgiu a pandemia. Durante esse período, eu permaneci recluso e ele seguiu desbravando a vastidão amazônica.

Entre todos os meus amigos, e talvez entre todas as pessoas que já conheci, Fabrício é de longe a mais excêntrica e, por isso mesmo, a que menos se parece comigo. Por outro lado, há algo que nos une firmemente, quem sabe uma admiração mútua, quem sabe o compartilhar de algumas ideias e de alguns autores que temos o hábito de citar, revisitar, deturpar. Quem sabe apenas a mania de escrever e de nos corresponder.

Depois de uma troca de mensagens sobre suas experiências na selva, eu decidi entrevistá-lo.

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A história dessa entrevista tortuosa começava assim:

“Estou indo pro mato e quando me perder irei me encontrar! Mentira, eu não quero me encontrar porque nunca me senti perdido, mas tenho que falar essas frases de efeito para justificar aos olhos dos outros as decisões que lhes soam estranhas.” É assim que Fabrício conta como foi a reação de seus amigos quando decidiu trabalhar na Amazônia. “Chocá-los me fez perceber que havia uma descomunal rota livre pela frente e naquele instante ficou claro para mim qual era meu sonho: Quero trabalhar pelado como os índios.”

Natural de Minas Gerais, Fabrício viveu um conturbado período logo após se tornar Bacharel em História pela USP. Atuou como controlador de radar de trânsito, escrivão de polícia e segurança de inferninho.

Em busca de novos desafios, ingressou no curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará, em 2010. Foram seis anos de estudos em Fortaleza, um ano de intercâmbio na Holanda, mais inúmeras horas atendendo em hospitais até ter direito ao Registro do Conselho Regional de Medicina. Em 2018, partiu para sua maior aventura: atender populações indígenas isoladas na região do Alto Rio Negro.

Depois de dois anos, já não esconde as decepções: “Achei que aqui poderia trabalhar pelado, mas os índios são quase todos evangélicos e até para tomar banho no rio eles usam roupas.”

A frustração pessoal só não é maior do que aquela ao perceber na prática o destino dos povos indígenas: “São aculturados e miseráveis como toda população periférica dos grandes centros e dos rincões brasileiros. E para se manterem brasileiros pagam alto preço: 14 reais por dois litros de Coca-Cola, 20 reais por uma carteira de cigarros, 25 reais por um quilo de calabresa; já a HAS, o DM-2 e a Covid-19 não têm preço, vêm de brinde.”

A seguir, ele fala sobre a vida na floresta e o impacto da pandemia nas regiões em que atua: “Já peguei o vírus duas vezes, minha saturação de oxigênio chegou a 69 e a UTI mais próxima estava a três dias de barco. Não sei se vou sair vivo daqui”, comenta entre uma tosse e outra.

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O trecho acima foi escrito em dezembro de 2020 e era o preâmbulo para a entrevista que eu havia idealizado. Fabrício se mostrou empolgado com a iniciativa, mas sua rotina na floresta e sua personalidade anárquica o impediram de responder às questões que eu ingenuamente lhe enviava. Por outro lado, passei a receber uma quantidade enorme de informações via WhatsApp: observações etnográficas, especulações filosóficas, áudios aleatórios trocados com diferentes pessoas que depois ele me reenviava sem apresentar nenhuma informação sobre o contexto das conversas.

Também recebi longos relatórios institucionais e fragmentos de um diário que ele construía enquanto estava acampado nos rincões da selva. Suas expedições médicas no Alto Rio Negro duram 30 dias. Nesse período ele permanece isolado, sem acesso à internet. Suas correspondências, portanto, sempre foram fragmentadas; entre o envio de um texto e outro podia se passar bem mais de um mês.

Quando eu menos esperava, aparecia uma notícia: “Dizem que eu ando escrevendo muito e que isso causa uma má impressão. Mas eu preciso escrever ao invés de dormir. Sobretudo no mato. Não sei se escrever é melhor do que apenas pensar com vistas a manter na memória certas conexões. Porque, se por um lado, o que eu penso nunca mais vou pensar de novo, aquilo que escrevo provavelmente nunca farei o esforço de reler. Ninguém gosta de ler o que foi por si mesmo escrito. O tempo para se reler é o tempo para escrever o inescrito.”

Tais mensagens eram apenas sinais para que eu soubesse que ele não havia esquecido da nossa entrevista. Contudo, não demorei a perceber que ela jamais aconteceria da forma planejada. Minha função seria outra: arquivar suas pegadas na floresta, seus contatos com a morte, seus acidentes de barco pelos igarapés, suas noites insones escrevendo numa rede que fedia gasolina. Quem sabe eu poderia meditar em um artigo sobre a sua prática de escrita, passei a cogitar com a retomada da nossa conversa.

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No dia seguinte, recebi outra mensagem: “Tenho exercido a função de carimbador de papel e dador de comprimido. Mal encosto nos pacientes. Não é para isso que me dispus a trabalhar aqui. Vivo escrevendo relatórios que nunca são respondidos. Quanto às minhas aspirações como produtor de conhecimento elas são negativas. Não espero que meu trabalho possa ter valor significativo que redunde em transformação da realidade.

“A dura peleja por melhores condições não nubla a satisfação pessoal de cada instante que experimento na floresta. Me divirto vendo que os indígenas estão cagando para as nossas orientações paternalista de saúde e para as pastilhazinhas coloridas que a gente despeja neles todo mês. Acho que a gente deveria era ser flechado como exemplo.

“Eu não tenho medo de morrer. Tenho medo de ficar preso à ideia de que preciso fazer do tempo algo útil. E isso me deixa ansioso. Não quero nada útil. Quero gastar a vida. Relaxadamente. Quero devorar a vida sem sentir culpa. Igual as piranhas. Queria saber fazer isso, mas fui ensinado a vida toda a ser útil. É esse o meu grande drama.

“Já são 22:23, alta madrugada na floresta. Quando estou aqui dá vontade de escrever. Desenvolvi uma alegria há mais ou menos 18 meses. Preciso insistir nessas relações senão eu sucumbo. Encontrei no celular uma ferramenta para registro desses pensamentos. É bom demais estar vivo! E você, onde está?”

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Além de médico, Fabrício é um grande escritor de rascunhos. Então me dei conta de que podia encontrar todas as respostas para as minhas perguntas revirando os textos enviados do seu celular. A entrevista já estava em curso há muito tempo, à revelia do entrevistador. Eu só precisava editar as mensagens se quisesse manter a forma dominante nas práticas jornalísticas.

Perguntei se ele me concederia o direito de roubar sua escrita e transformá-lo num personagem. Ele disse que sim. Depois, acrescentou: “Compila tudo o que escrevo e que se publique com a seriedade que o absurdo conclama para o simples e puro fim de nos fazer rir durante todo o processo. Que te parece? Relatos com zero contexto. Comprometidos com a audácia e a prepotência em nome do gozo. Pra galera achar que a gente é louco mesmo. Sem reservas, Danilo. Seria um escândalo a todos os que não entendem nem dançam!”

Foi a última mensagem que ele me enviou de seu celular. Durante mais de três meses insisti em perguntar como ele estava, mas seu telefone continuava desligado ou fora da área de cobertura. Não me pareceu um bom sinal.

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Ao contrário desse meu amigo, eu gosto de reler o que escrevo. Por isso, voltei agora à entrevista que editei meses atrás. São 21 perguntas respondidas com trechos garimpados nas nossas conversas. Um depoimento importante sobre vários aspectos da situação indígena em nosso país. Depois de pronta, decidi não publicá-la. Afinal, não era uma entrevista de fato, mas uma montagem canhestra sobre o rascunho alheio.

A decisão de voltar hoje ao texto foi motivada por uma mensagem que recebi logo pela manhã. Era um número desconhecido, não havia foto no perfil nem assinatura ao final. Comecei a ler e logo percebi que era Fabrício me enviando suas filosofias paridas na solidão da mata. Em seguida, escreveu: “Manda de novo aquelas perguntas, porque perdi meu celular quando a voadeira virou no rio.”

Respondi que enviaria, pela quarta vez, as mesmas 21 perguntas. É com esse artifício trapaceiro que vamos trocando nossos rascunhos. Então decidi fazer do antigo preâmbulo da entrevista abortada o prefácio de um livro secreto, que agora vou compilando aos poucos, na esperança de que a história se prolongue ao máximo.

Será mesmo um escândalo. Inclusive para mim, que ainda não cheguei à floresta e jamais aprendi a dançar.

Fotografia por Peter West Carey