Notícias do exílio? Pedro Cattai

Da escrita

por Pedro Barnez Pignata Cattai

É incrível. Mas aconteceu. Juliana começou a falar simultaneamente à alfabetização. Antes disso, ela balbuciava palavras inventadas, numa espécie de idioma próprio. Mesmo naquela língua, falava pouco. Ameaçavam-na, chantageavam-na. E ela seguia quieta. Ou, pior, falando aqueles sons “oiatis”, “assômio”, “alagudu”… 

Aos quatro anos, começou a falar português, enquanto escrevia as primeiras palavras nesse idioma. No final da adolescência, como aconteceu com alguns de nós, rabiscou os primeiros poemas, lançou-se a inventar um ou outro conto. Nunca li um sequer. De lá para cá (ela, agora, tem trinta e seis anos), deu por concluído quatro ou cinco livros, e cada um deles teve o mesmo destino: o lixo, tendo sido preservada, a cada vez, uma ou outra página, que integrou o livro subsequente, indo, finalmente, parar no mesmo lugar. É um gesto com o qual ela se acostumou e não se surpreende com o fato de seguir escrevendo. Quando perguntei “como assim?”, Juliana me contou:

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“É só o que sei fazer, é minha verdade. Meu vínculo com a vida. E, no entanto, se eu soubesse mesmo escrever, é óbvio, ao menos um livro teria sido preservado do lixo: já são duas décadas de escrita. Às vezes, um pensamento me ocorre: se escrever não fosse essa obsessão, o que será que eu viveria, sob qual perspectiva o mundo me percorreria? E aí nasce uma ideia ou uma personagem, com a qual convivo um tempo, até considerá-la pronta. Uma alegria silenciosa me domina. Respiro como um novo vento. Um tempo depois, abro o arquivo, leio o livro concluído, considero-o péssimo, mas não suficientemente péssimo. Compreendo-o promissor. É quando me sinto ao mesmo tempo decepcionada comigo e feliz pelo reencontro e ponho-me a trabalhar nas melhorias: repenso a estrutura, mudo alguns trechos de lugar, fico um tempo anotando ideias sobre as velhas ideias arruinadas, toco a vida e, enfim, reescrevo tudo. Até que um dia percebo que aquele projeto era impossível, preservo algumas páginas e o resto vai para o lixo. Aí acontece tudo de novo.”

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Esses dias, enquanto eu tomava banho — Juliana espera os momentos mais estranhos para falar —, em meio ao vapor, disparou: “não sei como é ter escrito um livro meu. Sei menos ainda o que é ter escrito uma obra-prima. Mas o terror e o privilégio dos escritores eu sei precisamente como são: apesar dos resultados serem evidentemente distintos, nós todos, tanto medíocres quanto geniais, percorremos o mesmo campo e nos valemos do mesmo instrumento. Não é fácil escrever uma obra-prima (também não o é escrever uma obra-fracasso ou mesmo uma obra-inconclusa) e, no entanto, para quem escreve, é o que há de mais natural, o que ocorre da forma mais necessária. Inclusive diante de todas as dúvidas, de todas as angústias, de todo o medo, de todo o assombro, um desejo evidente se mantém. É com isso que se escrevem as obras memoráveis e é exatamente com isso que se escrevem as obras que não serão lidas.”

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Há alguns anos, por uma mixaria, experimento outra forma de escrita, radicalmente distinta da que Juliana pratica: escrevo livros para outros. Autores e autoras contratam-me para escrever a obra que gostariam de publicar. Às vezes, trazem um esboço; às vezes, uma ideia; às vezes, apenas a vontade de publicar e de ser artista. Sempre, um contrato. Sou um escritor-fantasma. De alguma forma, ainda que indiretamente, dei entrevistas (em algumas me saí bem, em outras tive a sorte de ter outro corpo e outra voz), ganhei concurso, fui palestrante na Flip e em outras feiras literárias, mas não precisei cumprir o enfado de comparecer a nenhuma dessas cerimônias. O segundo livro escrito por mim, publicado com outro nome, ganhou leitores. Não sofro pelo anonimato, angustiam-me as mudanças a que o livro foi submetido, sem que eu pudesse reivindicar nada (um capítulo fundamental inteiramente arrancado; uma frase modificada na última página; o título completamente transformado…). Solicitaram que eu escrevesse outra obra para a mesma pessoa. Dessa vez, eu ganharia um bom dinheiro. Fiz questão de recusar. Por perversidade, é verdade, mas também por uma genuína curiosidade: como se daria, sem mim, o desdobramento daquele projeto literário? Participei de outros dois trabalhos nesses moldes (eu entrando com o texto; a pessoa que me paga, com o nome). Da última vez, aconteceu de Juliana ajudar-me a escrever o livro que não seria nosso (dividimos a mixaria em contas e supermercados). Até que aconteceu de ela escrever um trecho que considerou precioso. E, como se roubasse algo dela mesma, o arrancou. Guardou para seus próprios livros. Que jamais são concluídos. Que, uma hora ou outra, têm o mesmo destino do capítulo fundamental de “meu” livro premiado. 

Há uns meses, lembro como se fosse agora, Juliana me acordou no meio da madrugada, “posso desabafar?”. Então me perguntou se um dia ela conseguiria dar por concluído um de seus projetos literários. “Honestamente?”, perguntei. Ela assentiu. “Não sei.”, respondi. Ela enfiou nossas cabeças debaixo do lençol e confidenciou: “Estou desesperançosa. Acho que nunca darei por concluída a junção de meus fracassos. Por que insisto em escrever, por que sigo fazendo isso? É um gesto de uma burrice sem limites, eu sei. É também o que guardo de mais precioso.”

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É incrível. Mas aconteceu. Chegamos a esta cidadezinha sem muita convicção. Nenhum de nós a havia visitado antes. Ouvimos seu nome apenas duas semanas antes de nos mudar. Juliana esteve na cidadezinha pela primeira vez no dia em que fizemos a mudança. Uns meses depois, dias atrás, demos uma volta e, do alto, avistamos uma imensidão de água. (Embora valham por muito mais, as quase setecentas páginas do Moby Dick já seriam um monumento pelo primeiro — e curto — capítulo.) Juliana e eu descemos a montanha até encontrar a planície. Sentamos na terra. No silêncio. Talvez tenham se passado horas, talvez uns poucos minutos. Não posso afirmar com certeza. Pois, como todos sabem, — é o que Melville diz — a meditação e a água estão casadas para todo o sempre. Então, ouvimos vozes: um casal descia a montanha, e, quando depararam conosco, a moça é Teresa, que havia estudado comigo há muitos anos. “Pedro!”, e nos contou que, embora não gostasse de ler e não nos falássemos há quinze anos, tinha encarado minhas palavras publicadas nesta revista. Eu andava com a ideia de inserir, no meio do próximo texto, umas frases sem sentido, talvez uma pornografia descontextualizada, a fim de averiguar se alguém de fato lê isto aqui. Então, é claro, fiquei surpreso. Mas, o que mais me impressionou foi quando Teresa: “fiquei pensando enquanto lia seus textos, será que é verdade as coisas que Pedro está contando?”. Ri, mas ela insistiu, e eu não soube o que dizer. Ela acendeu um cigarro. Tragou. A fumaça no vento. Quando restava apenas a bituca, apagou-a na sola da sandália e guardou a sobra no bolso do short jeans. O silêncio cobriu-nos os quatro. Ficamos ali, olhando a água. Uns minutos, ou horas; definitivamente, não sei. Até que, como se assistisse a tudo de fora, lembrei-me da pandemia, lembrei-me de toda a loucura pela qual estamos passando, de toda loucura que nos está atravessando: encostei no corpo de Juliana e me percebi realizado. Viver é mesmo muito perigoso, mas estar vivo não tem questões. Alguma coisa doía em mim. Eu sofria um pouco, e era alegria o que eu sentia. 

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Todo texto que escrevo — e até mesmo os que leio — acaba por se haver com a ficção. Inclusive um verbete enciclopédico, uma definição de dicionário: por maior que seja a precisão reivindicada, é evidente, a palavra não é a coisa. É claro que, assim como a gente se liga às pessoas, aos objetos, aos sons… as palavras se ligam às coisas, de modo que os textos que me interessam não são mentiras de mentirosos, são mentiras de gente aguçada a algum vínculo. Sair de cena, percorrer um mundo. Uma vez, embora não tenha sido exatamente eu, dei uma entrevista (com outra voz, outro corpo, outras ideias) sobre um livro que escrevi, cujo capítulo mais importante fora arrancado: “tudo o que vivi, quando percorre meu texto, se transforma em ficção; e toda mentira, no momento em que escrevo, se torna verdade.”

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Esses dias, de manhãzinha, no lixo do escritório, vi uma folha amassada com palavras escritas na caligrafia da Juliana. Abri, li, reli, amassei e joguei de volta. Lá se lia: 

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“DA ESCRITA

Aprender ou tentar aprender outra língua deixa isto suficientemente claro: você entende as coisas mais ou menos à sua maneira, nunca está certa o bastante de que compreende fidedignamente o que lê ou ouve e, não obstante, adquire como que uma ousadia de poeta e sai sentindo e sacando o que escuta ou lê antes mesmo de entender e significar exatamente o som estrangeiro que lhe chega e, de repente, percebe que, como seria diferente?, o mesmo ocorre na sua própria língua: é sempre você quem constrói o sentido daquilo que lhe assalta olhos e ouvidos. Quando o vento uiva como um lobo e a onda estoura como um trovão e quando um pássaro solta-se como uma ideia, e uma montanha, feito uma mulher grávida, mantém-se firme em sua transformação lenta e quando uma diversão se propaga feito um raio do sol, e um vulcão derrama fogo como um amante desesperado, você vivencia isso tudo com um certo frio na espinha porque, você sabe, nem tudo se assemelha, mas algumas coisas funcionam como feitas uma para a outra.”

Foto por Teresa Gonçalves