Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

A escrita das amizades

Há algum tempo meu amigo Luís mencionou uma notícia da BBC cujo título era: “Amigos que odiamos estressam mais que inimigos”. A matéria informava que “uma pesquisa revelou que as ‘relações ambivalentes’ — amigos com quem costumamos ter uma relação de amor e ódio — podem ter um efeito muito nocivo na nossa saúde. Na língua inglesa existe até um termo para descrever esse tipo de pessoa: “frenemy” — uma combinação das palavras “friend” e “enemy”. Segundo Julianne Holt-Lunstat, da Bringham Young University, metade das pessoas que conhecemos, em média, são pessoas com quem mantemos esse tipo de relação”.

Naquele dia, resolvemos escrever juntos um texto sobre essas ambivalências. Desde então, começamos a colecionar artigos sobre o tema da amizade. Tal projeto continua sendo só uma ideia, certamente uma dessas ideias que nunca chegarão ao menor esboço de um rascunho. Mas, apesar disso, gostamos de retomá-la em nossas conversas. E há mesmo muitas questões envolvidas.

Haveria uma ideia romântica da amizade? Quais as mutações da amizade no mundo atual? Como ficarão nossos amigos depois da peste? Quanto tempo dura o luto de uma amizade perdida?

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Quando li a matéria da BBC, eu me lembrei do seguinte episódio:

Encontrei por acaso um amigo na rua. Ele se mostrou feliz, disse que estava com saudade e lamentou o prolongado tempo em que não nos víamos. Nostálgico, enumerou três festas memoráveis (o adjetivo é dele) em minha casa, e em seguida ainda se lembrou do meu aniversário no ano anterior no qual ele se encontrou com velhos amigos. Por fim, falou, com uma exaltada sinceridade, que precisávamos marcar mais encontros…

Foi aí que eu o interrompi. Expliquei que todos os eventos citados foram minhas iniciativas. “Talvez seja a hora de você marcar”, completei. Ele ficou assustado com minha sugestão, alegou que a vida estava uma correria, pediu desculpas, e prometeu que ia combinar algo em breve. Eu acreditei, mas ele nunca mais falou comigo.

É assim que se perde um frenemy, eu penso até hoje.

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Meu amigo Giovane, editor desta Revista, ficou empolgado quando eu informei o tema deste artigo. A ideia surgiu quando ele disse, no meio de uma conversa, a seguinte frase: “Eram amizades descartáveis”. Não me lembro do que ele falava, e a frase não era nada além de uma banalidade na sua narração. Ainda assim, ela me pegou. Isso porque tal formulação insere uma dimensão temporal na amizade, algo que não é comum na forma de se pensar a relação que temos com nossos amigos. Mais do que isso, ela afirmava que existem amizades programadas para desaparecer muito depressa.

De todo modo, é inegável que há sempre o tempo pulsando em toda relação. E é o tempo que vai nos desvelando, na contingência da sua duração, o grau de intensidade que estabelecemos com nossos amigos na produção de uma memória comum. Seria ilusão achar que as amizades estariam incólumes aos desarranjos do tempo. Se temos a ideia de que a imutabilidade de uma relação é o que nos faz reconhecer um grande amigo, talvez seja porque romantizamos mais a amizade do que o próprio amor romântico, cujo mito da durabilidade eterna já foi há muito tempo dilacerado na maioria dos corações.

Por outro lado, o popular conceito de melhor amigo parece justamente se fundamentar nessa presença permanente. “Se deixou de ser meu melhor amigo é porque não era o meu melhor amigo”, eu escutei uma amiga falar certa vez. Mas talvez esse seja o erro. Os melhores amigos podem deixar até de ser amigos. É muito provável, aliás, que o melhor amigo da maioria das pessoas mudou ao longo da vida. Sorte daquele que teve para sempre o seu melhor amigo. 

Ou melhor, que azar. Quantos outros poderiam ter surgido se essa grande amizade tivesse em algum momento se rompido?

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Desde que minha amiga Carol soube que eu e Luís estávamos colecionando informações sobre amizades, ela me ajuda com novas informações. Certa vez, citando Freud, disse que o problema das amizades é que elas são marcadas pelo “narcisismo das pequenas diferenças.” Como as narrativas psicanalíticas estão fora do meu raio de interesse, não fui pesquisar o que isso quer dizer. Mas gostei da formulação, pelo menos naquilo que posso intuir.

Quando comecei a rascunhar este artigo, escrevi logo para ela. Falei que não sabia por onde começar. “Conta uma das suas histórias dramáticas”, ela recomendou. Fiquei pensativo e depois enviei um rascunho sobre a história do pior amigo do mundo, cujo título é justamente esse: “A história do pior amigo do mundo”. Carol respondeu gargalhando num áudio. “A história é triste”, eu disse. “A história é ótima, publica assim, não precisa mudar nada”, ela falou. Fiquei mais pensativo ainda.

Uma lição importante: os grandes amigos e amigas nem sempre são bons conselheiros. Então fica para uma próxima. Não seria conveniente contar aqui essa história sórdida, um amigo em comum poderia suspeitar ou reconhecer o tal do pior amigo do mundo.

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A fina arte de perder amigos, disse Luís ao sugerir um título para o artigo que ainda não escrevemos. Em seguida, ele me mandou um texto que circula pelas redes sociais. Muita gente se reconhece nele, mesmo que ao final haja simplesmente a informação de autoria desconhecida. Segue o texto:

“Eu gostaria de dizer que existe uma coisa chamada frequência afetiva. A minha é bem baixa. Eu amo meus amigos, mas não preciso estar com eles o tempo todo. Eu não preciso de relacionamento high maintenance, eu só preciso saber que aquela pessoa é minha amiga e ela saber que a recíproca é verdadeira. Se precisarmos, temos um ao outro.”

“Toda relação que me ‘cobra’ presença me exaure e me faz escolher me afastar. Não estar presente significa que eu posso não estar em um bom momento ou que eu só prefiro ver você em outra ocasião. Eu não ‘esqueci’ de você. Sempre foi assim. Nem todo mundo entende, mas juro que vale a pena entender.”

Como muitos textos apócrifos que circulam na internet, ele procura comover o incauto leitor. Perguntei para o Luís se nós éramos os amigos da alta frequência afetiva que o texto problematizava. Tão lúcido quanto direto, Luís respondeu: “é um texto para mostrar a bunda-molice desse povo furão.”

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Isabella me pergunta sobre o que estou escrevendo. Eu falo do tema e a certa altura ela diz com convicção: “Namorados não são amigos”. Sim, é verdade. Mas isso é mesmo verdade? Há muito preconceito nessa constatação. Dizer que o namorado é o melhor amigo pode parecer que o casal vive uma relação sem muita paixão. As coisas andam meio mornas, para se dizer o mínimo. Já ouvi muita gente dizer que terminou um relacionamento porque tinham se tornado apenas amigos.

É estranho como o diagnóstico de amigo nesse contexto denota baixa intensidade de uma relação afetiva. Vai ver é isso o que mantém uma grande amizade, tudo a baixas temperaturas, sem arroubos dramáticos ou encontros frequentes, como reivindica o autor desconhecido, que como amigo prefere não estar presente feito um mero desconhecido.

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Meu amigo Bruno, ao contrário, gosta de amigos de alta frequência. No entanto, para ele nada é mais indigno do que uma pessoa com muitos amigos. Um minimalismo convicto e irremediável é sua principal característica. Também não gosta de fazer novos amigos, nem que seja para substituir uma amizade recém destruída. A meia dúzia de amigos que ele possui já é suficiente. Não é raro Bruno reclamar que Giovane ou Luís têm muitos amigos. “Não levem ninguém para o bar”, ele fala ao fazer um convite.

Uma vez cheguei ao bar e um dos poucos amigos do Bruno tinha levado outro amigo. Nessa situação não seria surpreendente imaginar a cara fechada do Bruno. Mas a cena foi mais dramática. Ele simplesmente estava olhando para a parede. O corpo todo retorcido, a cadeira na direção contrária à mesa, tudo para que não houvesse dúvida de que ele só estava esperando o amigo do seu amigo ir embora.

Por tudo isso, nenhum amigo do Bruno consegue imaginar como é que acabou por se tornar um dos poucos amigos do Bruno.  

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Giovane recomenda que os textos não ultrapassem 1.500 palavras. É difícil, porque ao me lembrar de um amigo penso logo em outro, com outras histórias dignas de nota. Desde o início, eu queria falar, na verdade, sobre a escrita das amizades, que nada mais é do que perceber o quanto há dos amigos nas palavras que escrevemos. Para isso, eu precisaria contar mais sobre a força dessas relações, suas potências e suas ruínas, porque algumas amizades vão mesmo morrendo aos poucos, às vezes em um falecimento diário, pequenas rusgas, ressentimentos, ainda que possam sobreviver na memória ou em encontros esporádicos, cujos efeitos podem encobrir com vivos afetos as lacunas construídas pelos acidentes cotidianos.

Não há mais espaço. E olha que a ideia inicial era falar dos estranhos — e incríveis — personagens-amigos de Beckett. Ou falar da amizade entre alguns filósofos, citar Derrida e Levinas, Erasmo e Morus, Marx e Engels. Então me lembro que Giovane sempre diz para evitar citações. Vou desobedecê-lo agora apenas para terminar esta elegia-elogio com um trecho certeiro de Derrida, o autor que melhor entendeu a política das amizades e sua inerente tragédia: “Ter um amigo, olhá-lo, segui-lo com os olhos, admirá-lo na amizade, é saber de maneira um pouco mais intensa, sempre insistente, inesquecível cada vez mais, que um dos dois fatalmente verá o outro morrer.”

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