Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

A guerra e o mal: entre enforcados e esquecidos

Na crônica do nosso tempo, o mal é escrito em diferentes escalas. Alguém invadiu uma escola e assassinou crianças com uma adaga. Alguém matou a pauladas um imigrante congolês. Alguém deixou faltar oxigênio nos hospitais. Alguém asfixiou um homem no supermercado. Alguém comemorou uma chacina. Alguém negociava vacinas superfaturadas. Alguém riu da asfixia dos doentes. Alguém mandou bombardear civis.

Alguém faz o mal – o que é mais espinhoso nesta constatação?

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Hanna Arendt cunhou o termo banalidade do mal ao analisar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, em 1961.  Com essa expressão a filósofa alemã não estava descrevendo a natureza do mal ou criando uma síntese para esse antigo problema das teodiceias. Arendt destacava algo mais simples: o mal não se expressa necessariamente por meio de uma forma monstruosa.

Isso porque não tinha sido um psicopata o responsável pela logística da Solução Final contra os judeus. O homem julgado em Jerusalém era um medíocre funcionário da engrenagem estatal, sem nenhum desvio de personalidade. Eichmann, em sua defesa, alegava que apenas cumpria ordens de seus superiores.

A banalidade do argumento de Eichmann se confunde com a sua própria “ação banal” que resultou em milhares de mortes e o condenou à forca. Por outro lado, há nesse argumento torto uma ingrata constatação: seguimos cumprindo ordens; seguimos recriminando quem não as cumpre; seguimos ensinando que as ordens precisam ser seguidas. É obvio que o fluxo das obediências nem sempre é ruim. São dimensões incomparáveis, lembrará, com razão, o bom senso. No entanto, essa relação deve nos colocar em alerta. Afinal, não é raro o bom senso se esquecer que aceitou a disseminação do mal nessa anônima legião dos alguéns.

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A guerra voltou à Europa na última semana. Além de destruição e assassinatos, os bombardeios abalam o volume morto da história, rasgam cicatrizes mal fechadas na memória coletiva e chacoalham a nuvem de esquecimentos que com o tempo encobre os crimes mais atrozes. Na incalculável geopolítica de um corpo dilacerado por um artefato bélico, a banalidade do mal voltará à cena, seja como terror gratuito, seja como indignação ou muleta discursiva para nossos lamentos humanos.

Mas não haveria algo de banal no uso do conceito de banalidade do mal?

O problema do emprego exaustivo desse termo é que ele pode nos levar a equívocos. Em primeiro lugar, considerar que o mal é banal. Não é. Para além de uma significação moral, num jogo dicotômico com seu oposto, o mal deve ser entendido aqui como a materialização de uma engrenagem destrutiva, cuja natureza é sempre dolorosa e mortífera. Além disso, a associação da categoria universal de mal com a ação de um homem particular (Eichmann ou qualquer outro) pode fixar uma imagem no senso comum desse alguém ordinário que, cumprindo ordens, pode apenas perpetrar maldades.

Muitas vezes gostamos de associar a esse tipo social a pecha de burocrata. Os burocratas, entre outras coisas, não seriam capazes de pensar para além das ordens. O problema é que esse alguém comum, no tumulto do cotidiano, é muita gente. Quem não é um burocrata no interior de uma ordem burocratizada?

Não se trata, claro, de procurar um Eichmann em todos nós. A questão central é perceber que quando utilizamos essa palavra veiculamos uma injúria ao outro e quase nunca uma autocrítica a nossa cumplicidade com esses mecanismos. Gostamos de disseminar a caricatura de alguém burocrático como se ela estivesse externa a nós. Nossa predileção é por pessoas metódicas que escrevem letras mortas em documentos destinados aos arquivos. Até porque esses sujeitos têm o mau hábito de nos atrapalhar em muitos momentos. Por isso, sempre nos divertimos com a sátira desses personagens insensíveis a qualquer argumento que não se fie na geométrica precisão da ordem a ser cumprida.

Nos divertimos na mesma medida em que nos desesperamos com os labirintos burocráticos que nos conduzem pela guerra morna da nossa normalidade.

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A literatura e o cinema têm um apreço especial por esse funcionário comum da repartição. Às vezes, porém, tal caricatura cria outra perspectiva que não a da banalidade do mal ou a da morosidade das engrenagens administrativas. O exemplo mais famoso talvez seja o escrivão Bartleby, de Melville: um solitário funcionário que um dia prefere não mais escrever para desespero do seu chefe. A atitude é tão inusitada que Bartleby se tornou objeto de escrita para muitos filósofos.

No filme A vida dos outros também nos deparamos com esse desvio de conduta ao acompanhar um espião da Stasi encarregado das escutas instaladas no apartamento de um dramaturgo. De vida solitária, o introspectivo militar resolve escrever em seus relatórios o oposto do que ouvia. Essa subversão perigosa acaba por salvar a vida do artista. Anos depois, com o fim do regime na Alemanha Oriental, o dramaturgo se tornou um escritor de prestígio. Já o espião seguiu solitário e desempregado. Sua pequena redenção foi descobrir que o dramaturgo, ao perceber que se salvou pela improvável atuação de um anônimo, escreveu um livro dedicado a ele, cujo título era Sonata para um homem bom.

O último exemplo que trago aqui é o personagem John May, do filme Uma vida comum. Sua função como funcionário público era investigar parentes de pessoas que morreram solitárias. Quando não encontra nenhum familiar disposto a organizar o funeral do morto, ele mesmo se encarrega de todos os detalhes, escrevendo, inclusive, o discurso a ser lido pelo sacerdote, numa cerimônia que apenas May acompanha. Sua vida minúscula se desenvolve assim, tentando, no rigoroso cumprimento das tarefas, garantir uma última dignidade para a morte de uma pessoa esquecida.

Nesses três exemplos há tanto a caricatura do funcionário metódico como o destaque de suas atitudes potentes. Os três personagens também têm na escrita (a tecnologia responsável pelo nascimento de toda burocracia) o espaço do desvio. No entanto, John May se diferencia de Bartleby e do espião da Stasi, pois sua singularidade não está na recusa da ordem. A sua estranheza foi se dedicar com tanto afinco às suas obrigações, indo além do exigido. Um homem bom, poderíamos dizer, que quase nunca se pergunta por que faz o que faz. Levou uma vida comum, sem heroísmo ou infâmia. Na contingência do seu dever, ele praticava apenas a trivialidade do bem. Morreu solitário e ninguém escreveu uma sonata em sua homenagem.

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Hanna Arendt afirma que o passatempo preferido de Eichmann era escrever suas memórias. Apesar disso, o funcionário nazista tinha sérios problemas de esquecimento. Ele não se lembrava, por exemplo, em que ano teve início a guerra. Ao ser capturado na Argentina, escreveu uma declaração na qual destacava: “como não me lembro de todos os detalhes, e como parece que misturo fatos, solicito assistência que ponha a minha disposição documentos e depoimentos que me ajudem em meu esforço de buscar a verdade.”

Para os juízes do caso, as confusões de Eichmann eram produto da mentira. Já Hanna Arendt acreditava que o acusado não era tão sofisticado. Ele realmente acreditava na verdade de que não mentia e, especialmente, na verdade de que só cumprira ordens. Um indício dessa banalidade era a linguagem de Eichmann, repletas de clichês e de engraçadas confusões sintáticas (talvez porque ele desejasse ser mais sofisticado do que de fato era). Ao subir no cadafalso, escolheu para seu último respiro gritar palavras de ordem.

Arendt foi muito criticada por essa interpretação, e sobretudo, pela expressão banalidade do mal, que adulteraria o conceito kantiano de mal radical. O curioso é que a expressão mais popular da autora aparece apenas na última linha do livro: “a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos.” Um pouco antes, porém, a filósofa dá destaque a outras duas lições mais importantes: a primeira foi o fracasso dos nazistas em destruir os vestígios do genocídio (a escrita da burocracia, com seus milhares de escritores anônimos, produz muitos arquivos), assim como foi em vão todos os esforços para fazer “seus oponentes desaparecerem em silencioso anonimato”; a segunda lição é que no momento da catástrofe “a maioria das pessoas se conformará, mas algumas pessoas não” [grifo da autora].

É possível apreender, portanto, que mesmo na brutalidade de tempos espinhosos uma memória será escrita a despeito das engrenagens da guerra e de seu texto destrutivo. Muitas vezes, inclusive, é na trivialidade da repartição que surge uma inesperada prática de resistência à banalidade do mal. Isso porque, entre enforcados e esquecidos, o decisivo jogo da história se desenrola em numerosas batalhas nas quais a irreflexão do carrasco, a subversão do espião e as desapercebidas atividades do bom funcionário estão sempre em disputas.

A única certeza é a de que, não havendo a destruição total e escorrido o sangue das trincheiras, muitos terão de se lembrar, talvez por bastante tempo e com muita dor, dos esquecimentos de alguém.