Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

A nossa falta de tempo

“O tempo não existe. Só o que experimentamos é lugar depois de lugar”, constata o escritor Gerald Murnane. Ontem, depois de ler essa frase, resolvi caminhar um pouco para pensar melhor. Ter momentos peripatéticos durante o dia, desobrigado de permanecer no mesmo lugar, é construir no espaço (geográfico e subjetivo) o meu tempo mais caro, pelo menos é o que penso enquanto brinco de filosofar a céu aberto.

Mas voltando à frase do Murnane… A ideia de que o tempo não existe pode ser retomada de muitos modos. Entrelaçar o tempo com o espaço também é uma realidade já consolidada na ciência. Não vou desenvolver aqui esses detalhes. Queria falar de coisas mais simples.

Começo por dizer que nossa questão atual talvez não seja a falta de tempo, mas um excesso de espaços. Vivemos sob a distração permanente de um lugar depois do outro. Muitas vezes mais de um lugar no mesmo instante. Se dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, o sujeito contemporâneo criou uma novidade brutal: muitos espaços ocupam um mesmo corpo de forma simultânea, graças a nossa capacidade de nos conectarmos a dispositivos que sobrepõem realidades.

Tenho a impressão de que boa parte da nossa falta de tempo vem dessa estranha relação com a ocupação dos lugares de produção, recreação ou consumo. Sem relativizar o produtivismo cruel e as injustiças que esmagam a vida em muitas esferas, vou explorar aqui este tema para além da obviedade de que estamos todos presos a uma máquina sistêmica que transforma o tempo em valor. 

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“Assinei mais três plataformas de streaming”, escreveu uma amiga, “se você quiser eu passo a senha, porque eu mesma não tenho tempo para ver nada”. Foi a partir dessa conversa que decidi rascunhar estas notas sobre o excesso de lugares que retém nossa perspectiva do tempo. Essa é uma equação simples, óbvia, mas com a qual não temos conseguido ter uma relação amigável nos últimos anos. Estou sem tempo tem sido uma reclamação constante entre meus amigos e parece condenar uma geração inteira a viver sem tempo para a própria vida. Como isso é possível justamente numa época marcada pela velocidade da tecnologia e da comunicação?

Em uma pesquisa pela internet, confirmo uma suspeita inicial: o Brasil é um dos três países que mais permanece em redes sociais. O tempo médio varia de 3 horas e 42 minutos a quase 5 horas diárias, a depender do levantamento. O Brasil também ocupa a vice-liderança mundial em tempo conectado à Internet, mais de 10 horas por pessoa ao dia. Em termos gerais, descobri que gastamos em média 30 horas por mês em conversas no WhatsApp, mais 15 horas com o Facebook e outras 28 horas entre o Instagram e o Tiktok. Isso sem falar na rede mais utilizada entre nós, o YouTube.

Não é difícil constatar que a disseminação dessas redes trouxe uma lógica gravitacional que não para de nos atrair (ou de nos empurrar) para outras plataformas digitais de lazer, compras e relacionamentos. Trafegamos por esses espaços em meio ao eterno retorno da rotina de trabalho ou dos cansativos afazeres domésticos, o que congestiona ainda mais as nossas experiências temporais.

A sensação é a de que o empilhamento dos espaços em múltiplas tarefas simultâneas tem nos derrotado constantemente na velha busca pelo tempo perdido. No final, quantas horas gastaremos em cada uma das três plataformas de streaming para procurar o filme que não veremos? Podemos escapar desse círculo vicioso da falta de tempo diante da nossa imensa coleção de lugares e obrigações?

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Tenho um amigo que foi morar numa agrofloresta para levar uma vida mais tranquila. Depois de alguns meses, ele me escreveu: “a vida na roça é cheia de obrigações, não tenho mais tempo para filmes, livros… Mal anoitece e já dormi, fico exausto”, ele informou um tanto decepcionado com a nova forma de administrar a velha falta de tempo.

Ao fim da conversa, comecei a especular sobre esse outro lugar distante da lógica veloz que nos consome em conexões produtivas. Tal dimensão estaria vinculada à lenta temporalidade dos ciclos naturais, o que possivelmente nos traria vantagens na luta contra os relógios mecânicos.

Por outro lado, fiquei pensando: talvez os camponeses do passado, na verdade, tivessem muito menos tempo do que temos hoje numa vida urbana média, recheada de produtos e serviços tecnológicos. É fácil romantizar a rotina de um mundo pré-industrial numa perspectiva bucólica e sossegada. É possível, porém, que tal idealização nos venha apenas porque não somos camponeses sobrevivendo do duro manejo da terra, ou porque os camponeses de antigamente não reclamavam tanto da falta de tempo, em parte porque eles não se deslocavam para além da realidade de suas lavouras. Tinham, portanto, um déficit de lugares e com isso não sentiam o tempo como uma sucessão de faltas. 

Se o tempo é uma ilusão, como dizem poetas e cientistas, a nossa falta de tempo atual também pode não passar de uma quimera ingrata, produzida em grande medida pelo nosso desejo de ocupar e de usufruir dos muitos lugares disponíveis em nossas demandas de produção e de conexão.

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“Dizem que as pessoas chegam à meia-idade quando descobrem que nunca vão ler Em busca do tempo perdido”, escreveu Alison Bechdel. Eu nunca consegui ler a obra de Proust. É um lugar que provavelmente não acessarei em idade alguma. Foi ficando para depois e na sucessão implacável dos agoras ela não teve vez. Alguém pode dizer que essa obra monumental era de outra época, na qual supostamente nossa atenção não se distraía tanto com dispositivos luminosos. Ler, nesse outro mundo, era se deslocar pela geografia árida, às vezes indômita, da palavra escrita: uma superfície irregular, cheia de declives, que não combina muito com o rápido deslizamento da navegação virtual.

Por outro lado, eu já gastei muitas horas de vida relendo obsessivamente um mesmo livro, que por diversos motivos prende minha atenção desde a primeira vez. Na história de O som e a fúria, um melancólico universitário adia seu suicídio para o fim do período letivo, pois não queria desperdiçar o dinheiro da anuidade paga de antemão pela família. Seu irmão mais novo, devido a limitações mentais, não percebe a passagem do tempo, preso a um trágico presente contínuo. O outro irmão, ao contrário, vive o tempo do ressentimento infinito, no qual as mágoas doentias do passado impõem uma vida mesquinha e sem futuro.

A clássica narrativa de William Faulkner, no entanto, não é apenas sobre esses homens arruinados. É também sobre a potência de algumas mulheres que, mesmo malsinadas, desafiaram limites e transgrediram o tempo no qual deveriam estar aprisionadas. Acima de tudo, a linguagem do romance dá materialidade ao fluxo complexo da memória humana, exemplificando aquilo que os físicos modernos sempre destacam: o tempo não é único, tem muitas durações, é tecido com diferentes velocidades, sem distinção exata entre o presente e o passado.

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“Eu adoraria ler seus artigos se tivesse tempo, estou atolado de coisas”, escreve todo mês um amigo. Resignado, sigo enviando minhas notas, escritas com a esperança de que um dia ele consiga ter mais tempo, não para os meus rascunhos, mas para se desatolar de tantos lugares. Já chegando ao fim deste texto, percebo que essa falta de tempo do outro é muitas vezes mais terrível do que ter todo o tempo do mundo e não saber como gastá-lo. Mais do que relativo, o tempo é relacional nos instantes mais sublimes.

É por isso que, da relatividade de Einstein à gravidade quântica em loop, o tempo seguirá com seus segredos insondáveis para o alcance limitado da minha subjetividade. Afinal, a única certeza é a de que para além desses mistérios físicos, há a nossa breve existência biológica, que todos os dias nos faz com um pouco menos de tempo. Não sei se um dia será possível viajar pelos séculos, regressar ao passado ou recuperar os instantes desperdiçados em paixões tristes, desentendimentos e intrigas (para isso parece que nunca nos falta tempo). Por outro lado, é inegável que estamos todos viajando de modo acelerado para um futuro incerto.

E o futuro que agora se insinua com seus metaversos é o mesmo que provavelmente não nos dará o direito a uma vida mais sossegada ou peripatética. Teremos então novos lugares sobre o velho espaço dos corpos; um corpo cada vez mais estático, mais cansado, talvez ainda como elemento central de toda a dinâmica de produção do nosso sistema econômico.

Mas, no fim das contas, o que será da nossa falta de tempo atual diante do vislumbre do fim do tempo?

Sim, o tempo, essa dimensão enganosa para a nossa escala de vida, pode estar próximo de sua extinção. Os homens, ou uma parte deles, gastaram tanta energia transformando o tempo em maravilhas modernas que agora temos uma nova era geológica diante de nós. A consolidação do antropoceno, segundo seus estudiosos, não é o fim do tempo, mas certamente será o início do fim de muitas formas de se viver e de se pensar o tempo.

Entre tantos prognósticos sombrios desta nova era, acabo de descobrir que poderemos ter um mundo no qual não haverá mais nuvens no céu. Diante dessa possibilidade, encerro por aqui. Não tenho mais espaço nem tempo. Vou me distrair um pouco sob a fina garoa que cai lá fora.