Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

Da ilha do medo à volta dos manicômios

Internações psiquiátricas involuntárias cresceram 340% em SP, diz a manchete do jornal publicada em março de 2022. As razões mais comuns para as hospitalizações foram distúrbios psicóticos e esquizofrenia.

Já em abril, outra notícia teve destaque: o Governo Federal, por meio da Portaria 596, extinguiu o Programa de Desinstitucionalização, e, ao mesmo tempo, lançou um edital de financiamento para construção de Hospitais Psiquiátricos, o que, na prática, pode significar a volta da “indústria da loucura” depois de décadas da Luta Antimanicomial no país.

Li essas matérias logo após rever Ilha do medo, de Martin Scorsese, o que me levou ao Paciente 67, de Dennis Lehane, livro que deu origem ao filme. A partir disso, resolvi pesquisar as interpretações dessas obras feitas por resenhistas e youtubers. Esse conjunto de narrativas me fez rascunhar as notas abaixo sob o efeito de uma questão: o que garante que não seremos trancafiados por conta dos nossos delírios?

Mais do que a dúvida sobre se escaparemos da degradação da loucura, alimentamos talvez uma recôndita certeza de que dificilmente escaparíamos de um hospício se nele ingressássemos. A loucura, muitas vezes, é um ponto sem retorno e lutar contra a maquinaria que a confina quase sempre só reforça, aos olhos dos peritos normativos, a gravidade dos delírios mais perigosos.

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Dois policias chegam a um manicômio instalado numa ilha. Eles foram até lá para investigar o desaparecimento de uma paciente. No entanto, a motivação do protagonista do filme é maior. Ele quer encontrar o assassino de sua esposa, assim como investigar uma denúncia sobre os experimentos sórdidos daquela instituição.

Depois de alguns dias, o detetive passa a ter delírios e sonhos com a morte de sua esposa. A tragédia familiar do personagem é recontada em flashes de memórias para demonstrar o possível efeito do trauma na produção de sua loucura. Todos esses eventos começam a dar outra dimensão à narrativa. O policial, na verdade, seria um paciente psiquiátrico e toda a história até ali narrada não passava de um psicodrama encenado pelas autoridades médicas?

Para o espectador que prefere o apaziguamento, é natural que tal revelação seja bem-vinda. Mas quem a revela? As autoridades psiquiátricas, claro. No entanto, em duas cenas do filme, o protagonista trava diálogos com internos rebeldes que vivem trancafiados ou escondidos.

Numa dessas conversas, uma ex-médica que havia questionado os métodos da instituição, entre eles a lobotomia, informa: “Dizem ao mundo que você é louco e todos os seus protestos confirmam o que eles dizem. Quando o declaram como doente mental tudo o que você faz é visto como parte da doença. Protestos plausíveis são ‘negação’; modos autênticos, ‘paranoia’.”

Essa é a mecânica do poder psiquiátrico – e de tantos outros saberes psis – na sua face mais temida, porque tudo se torna a confirmação de uma mesma historieta destinada a legitimar a intervenção, a medicação e o confinamento. A médica refugiada numa caverna com uma fogueira a sua frente (sim, o mito platônico) traz então a verdade sombria das práticas de controle psicológico: “Dirão que algo do seu passado é o motivo de ter perdido a sanidade e até seus amigos vão acreditar e confirmar sua loucura.” Com muita clareza nos argumentos, a fugitiva descreve as graves consequências políticas da lógica manicomial e pontua, sobretudo, que ninguém está livre de ser trancafiado. Basta um ‘delírio’, um protesto, uma resistência.

Por fim, a mulher ainda informa que os delírios do protagonista são o resultado dos remédios que os psiquiatras estão escondendo na comida e até nos cigarros que o policial consome desde que chegou à ilha. “Você nunca vai sair daqui. Você não tem nenhum amigo”, ela finaliza. A solidão é sua real condição de ‘novo louco’. Até seu parceiro era, na verdade, um psiquiatra disfarçado de policial para lhe imputar a loucura.

Temos então duas narrativas em disputas. De um lado, a dos psiquiatras que tentam convencer o protagonista – e o espectador – de que ele é um doente e não um detetive; de outro, a dos internos rebeldes denunciando as sórdidas práticas das quais são vítimas no interior do manicômio. Qual delas se confirmará?

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Ao terminar de ler o livro, comecei a buscar resenhas e vídeos que comentam as obras. O que me surpreendeu foi que em todos esses comentários desvendar a “verdade” da história era recontar o enredo psiquiátrico sobre os delírios do personagem. Em nenhuma delas encontrei ao menos a sugestão de que a riqueza do filme é justamente essa disputa pela versão dos fatos e a complexidade que isso pode nos causar na nossa condição de espectadores.

Entre a versão dos médicos (todos homens com ternos) e a dos “loucos” (uma mulher descalça e maltrapilha), todos preferem a primeira. Sim, tudo no enredo era uma encenação ao redor do protagonista. Mas seria uma encenação para ajudar o paciente a ter uma vida melhor ou, ao contrário, produzir criminosamente a loucura em um homem que investigava as denúncias contra a instituição?

Sem possibilidade de fuga, o detetive se rende à narrativa psiquiátrica. Acontece então o momento crucial em toda instituição disciplinar: o exame confessional. O detetive reconhece, perante o tribunal da perícia médica, que sua história é mesmo a de um trauma cuja experiência produziu sua loucura. Com a confissão, ele poderá ter uma vida ‘produtiva’ dentro do hospital e escapará da lobotomia destinada aos pacientes resistentes.

No entanto, na manhã seguinte, o protagonista pergunta ao seu psiquiatra: O que seria pior, viver como um monstro ou morrer como um homem bom?

O consenso entre os resenhistas do filme é que o personagem, resignado, quer se voluntariar à lobotomia para deixar de viver como um monstro. Ora, ele não diz que quer a lobotomia. Pelo contrário, ele diz de novo, e com todas as letras, que quer sair da ilha. O que a frase final talvez revele é que o protagonista não conseguirá manter a dissimulação de que é um louco comportado, acreditando na narrativa médica sobre seus traumas. Assim, ele prefere viver como um monstro a se render a uma vida medicada, e por isso suas expressões de superioridade enquanto caminha em sua última possibilidade de forjar uma fuga impossível.

Se a sua lucidez não condiz com as normas da instituição psiquiátrica, resta ao poder médico aplicar a monstruosidade da lobotomia impondo definitivamente sua verdade sobre o silêncio do louco que imaginava bem governar.

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Ao ler as críticas ao filme, que em geral reproduzem conceitos psis e espalham nosografias como se falassem de cosméticos, me pareceu espantoso como toda a denúncia das atrocidades das práticas manicomiais, assim como a luta pela desinstalação dos hospícios nas últimas décadas, ainda não são suficientes para olharmos para uma obra cinematográfica que trata de um manicômio numa ilha isolada, em 1954, sem pelo menos reativarmos a suspeita de que nunca houve grandes benevolências do poder psiquiátrico ao tratar os trânsfugas do nosso mundo social.

Será que temos medo dessa ambiguidade acerca da loucura e da política do encarceramento? Ou quem sabe já estamos tão acomodados aos diagnósticos médicos para nossas angústias – com seus encaminhamentos naturalizados e reivindicados o tempo todo – que não conseguimos mais resistir ao enredo de uma narrativa única sobre o delírio vivo do real. Isso me pareceu tão preocupante quanto os projetos do atual governo para financiar a volta dos manicômios.

Um grande retrocesso nunca vem apenas por decreto. Os maiores pesadelos sociais, quase sempre, se alastram a partir de pequenas ilhas de resignação, consenso e medo. E o medo é contagioso, está escrito na capa do livro de Dennis Lehane.

NOTA: Hoje, 18 de maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial no país. A data simboliza a luta e a mobilização de diferentes setores da sociedade pelo fechamento dos manicômios e pela instauração de outras práticas de tratamento que não passem pelo aprisionamento.