Notícias do exílio? Pedro Cattai

Do fim do mundo e outras trivialidades

Para o júbilo o planeta está imaturo.
É preciso arrancar alegria  ao futuro.

(Vladímir Maiakóvski)

Estávamos em 2021, no meio da pandemia que ainda nos atormenta. Eu espreitava o mundo da fila da barraca de pastel e ouvi a história que uma moça contava para a amiga: “Às vezes, não sei se pelo momento em que leio, ou se pela forma dos livros, acontece das frases terem um cheiro de pólvora.” É claro que me assustei. A moça, que não notava minha existência, seguiu: “As frases lançam ideias e traçam um plano entre elas: só que o plano não reúne nenhum clarão unificador, nenhum sentido unitário. Pelo contrário, escancara as portas para o mundo.”

Falou sem nenhuma afetação, na mesma naturalidade com que pediu o pastel (de alho poró). “Mas essas frases precisam estar contidas em um livro, encadernadas, reunidas: é o meio para aquilo não se transformar em loucura ou aleatoriedade”, lançou alguma coisa assim, foi o que consegui entender, enquanto pegava o caderno para anotar. Achei que a amiga da moça estivesse distraída, porque mirava o horizonte, olhando o nada. Mas irrompeu participativa: “E o que acontece na aleatoriedade, na loucura?”

Pastéis lançados no óleo e a pergunta suspensa até ela mesma completar: “Essa ideia me intriga”. Tirou a máscara com uma mão e, com a outra, acendeu o cigarro; tragou e depois devolveu a máscara ao rosto esfumaçado. A moça que contava a história permaneceu em silêncio — eu não ouvia mais nada da algazarra que nos rodeava — até a amiga completar que a ideia não lhe intrigava por acaso: “Eu vivo ali, sabe como é? Sinto meu mundo perto do fim.”

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“O mais louco é que se eu estiver mesmo no fim do mundo, você também está”. E riu de um jeito que parecia capaz de passar a eternidade ali. Depois, quando já comiam o pastel em silêncio, e a conversa se dissolvera, entrou com a naturalidade de uma vidente: “É curioso, porque, apesar de ser um acontecimento evidentemente coletivo e global, algum mundo restará, então ele é uma experiência singular, comunitária, local”.

Ouvi isso na espreita e não soube o que pensar. Mas me senti imediatamente vivo. Mordi o pastel (por aquele sabor, arriscava uma queimação de estômago): estava mais gostoso do que eu esperava. Desde que as amigas partiram da feira e caminharam em direção a sabe-se lá qual fim de mundo, a sabe-se lá qual novidade, penso na conversa que tiveram, penso naquelas duas pessoas, penso naquela amizade.

Hoje lembrei-me novamente disso tudo, porque li um comentário do cineasta Béla Tarr: “O apocalipse é um acontecimento enorme. Mas a realidade não é assim. Em meu filme, o fim do mundo é muito silencioso, muito fraco. Assim, o fim do mundo chega como eu o vejo chegar na vida real – lenta e silenciosamente”.

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“Estou em um ambiente de pedras, piche, cimento e aço. Atravesso um mundo de vírus e gás carbônico. Caminho nos escombros de uma civilização, em cima dos escombros de vidas que tentaram e sumiram no avanço do progresso (que se apressa em nos massacrar).”

Um pensamento delirante anotado, com a caligrafia da Juliana, bem no canto inferior da página 185 do livro de Maiakóvski, cheio de poemas delirantes.

Ao que parece, ela sonda a escrita desse livro impossível: aquele produzido ali na loucura, na aleatoriedade, aquele que não procura o clarão unificador, que se lança solto ao mundo e, com as ideias dela, invoca em quem lê as próprias ideias; esse livro que provoca um tipo de leitura apaixonada, sem ambição de totalidade alguma e que faz tudo entrar no espaço da simultaneidade, que recoloca o gesto mais filosófico e mais trivial em andamento: viver, começar de verdade.

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Notícias do fim do mundo em cinco fragmentos:

  1. “Um romance, atualmente, é quase qualquer coisa que se ponha entre uma capa e uma contracapa”, diz Mario Levrero em seu Romance Luminoso.
  1. Em uma entrevista com Ailton Krenak, o cantor Emicida diz que quando os homens das cavernas desenhavam nas paredes estavam enviando cartas ao futuro, e que artistas estão sempre deixando cartas para o futuro. Não seria uma ingênua arrogância supor que os neandertais tinham por nós tão preciosa consideração? Qual espécie de interesse um artista nutre pela arte e pela própria existência quando furta-se do presente para solicitar que o porvir lhe dê alguma importância? Por outro lado, neste mundo com excesso de fim, não deixa de ser bonita a crença do cantor em um futuro qualquer.
  1. Recebi de um amigo um episódio de um podcast, cuja sinopse diz: “entre 500 e 1500 não há praticamente geração que não acredite ser a última, e o mais notável é que quem faz essas previsões não são só profetas loucos ou marginais, mas os mais importantes bispos, teólogos e autores de três religiões, duas delas cada vez mais dominantes desde a Ásia Central até a Europa Ocidental. A crença no fim do mundo para breve, para hoje, para este ano, até para ontem, não é uma maluqueira das franjas da sociedade, mas um fato perfeitamente assumido por essas sociedades a partir do topo da sua hierarquia religiosa, num tempo em que a religião foi-se tornando o discurso determinante, ou até mesmo o pensamento único.”

    É curioso notar que, agora, mais de mil anos depois, as previsões do fim do mundo não são uma maluqueira das franjas da sociedade, não são feitas por profetas loucos ou marginais, mas pelos mais importantes cientistas, justamente na época em que, inclusive entre terraplanistas, a ciência parece ter substituído a religião como discurso dominante.
  1. Ele vivia na Europa, depois de nascer no Brasil. Sonhava em ter filhos. Dizem que teria sido um bom pai. Mas recusou-se a gerar ou cuidar de crianças porque, cedo, entendera que o mundo estava prestes a acabar. Há alguns anos, quando as previsões dos cientistas confirmaram as suas, excedeu-se em remédios e bebidas, até morrer alguns anos depois. “Um mártir” foi o que disse minha amiga Bárbara, quando ouviu a história. “A quem espera um fim do mundo, talvez seja melhor tomá-lo ocorrendo agora”, falou, de pé, e quase caiu — minha amiga nunca derrubava nada, mas movia-se de um jeito que me dava a certeza de que ela ou alguma coisa seria estilhaçada no chão.
  1. No fim, parece haver algo vital. Uma espécie de começo, de surpresa, de descoberta. Por exemplo, quem escreve — escrever sem porvir. Como são as experiências, como soam os testemunhos de quem presencia o fim de tudo? Afinal de contas — com ou sem fim de mundo —, testemunhar e experimentar o que acontece antes da morte não constitui o fascínio por seguir respirando?

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Passei a noite lendo reflexões, notícias, previsões e relatórios sobre o fim do mundo. Senti o estômago queimar, vi-me em um vazio absoluto, as pernas começaram a tremer. Depois, sem pensar, notei que, embora o mundo estivesse em perigo, ainda era possível respirar e eu respirava com uma alegria e uma volúpia tão desenvoltas que meu sangue circulava pelo corpo como que pela primeira vez. Fui percorrido por um desejo incontido de correr ou gritar. Mas comecei a rir quando surgiu nas minhas ideias uma vontade de escrever. Como se sabe, no entanto, não se escreve uma única palavra sozinho.

Então li que Maiakóvski viveu na era das novidades. O verbete de seu nome expressa que ninguém mais do que ele compôs a Revolução de Outubro. Sua vida cruzou o período do entusiasmo irrefreável, da crença plena no futuro. O nome de Maiakóvski, não sei se pela sonoridade, por alguma memória infantil, ou por uma ligação atemporal, sempre encheu meu peito de fogo. Ainda antes de ter lido algum poema seu, sentia que seus versos me reivindicavam e, até hoje, a verdade é que li sete ou dez de seus poemas. Mas esse nome MAIAKÓVSKI segue me fascinando, como uma paixão louca e sem precedentes, talvez porque um escritor, um poeta seja uma categoria de gente que não é gente, é éter, fumaça ou riacho com a certeza de alimentar oceanos.

Maiakóvski viveu na era do progresso: o futuro glorioso, mas (num impulso urgente) se matou trinta e seis anos depois de nascer. Sob a névoa fina desta noite tempestuosa, no clamor rápido de um relâmpago revoltado, leio na atmosfera do meu corpo: “Pedro, você que está na era do futuro arruinado, do futuro medonho, do assombro da angústia dominante, bem pode (num ato súbito e necessário) encontrar a vida.”