Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

A muralha e suas metáforas: Abramovic, Borges, Kafka

1.

Duas mulheres estão à minha frente. Entre seus corpos nus há um estreito espaço por onde devo me espremer para acessar a exposição em homenagem a Marina Abramovic. Um pouco constrangido, eu passo pelas mulheres e sigo por um ambiente escuro, com divisórias repletas de fotografias, e logo me deparo com um filme sobre uma das mais famosas performances da artista.

Em 1988, Marina transformou o fim de um relacionamento em um ritual inusitado. Ela e o ex-namorado Ulay, com quem viveu por doze anos, caminharam pela Muralha da China, partindo de extremidades opostas. Depois de um percurso de dois mil e quinhentos quilômetros, que durou mais de três meses, eles se abraçaram e se despediram. Nunca mais se viram.

Um ritual inusitado ajuda a encurtar o tempo do luto? Há algo de realmente singular nessa caminhada sobre uma muralha milenar ou seria apenas a encenação de uma antiga metáfora sobre separações?

2.

Por qual razão surgiu essa ambição tão desmedida quanto irrealizável, tão desumana quanto patética?

Por muito tempo se pensou que a Muralha da China fora construída apenas para proteger o Império das invasões dos povos nômades. Essa versão é relativizada atualmente. O império não corria grandes riscos. Há várias hipóteses que no conjunto explicam o empreendimento secular que atravessou dinastias. A primeira delas, segundo os historiadores, é a obsessão dos imperadores chineses por projetos grandiosos que dariam visibilidade ao imenso poder acumulado.

Além disso, a construção servia para enviar prisioneiros para os trabalhos forçados, cobrar tributos e empregar soldados em tempos de paz. Por fim, a ideia central por trás da construção da Grande Muralha é a possibilidade de ataques futuros. Sim, todo o custo material e humano, todos os séculos de trabalho, todas as vidas perdidas nessa empreitada, não atendiam nenhuma necessidade imediata.

Foi pelo medo do futuro que os chineses levantaram o maior muro já construído ou imaginado.

3.

Vinte e três anos depois, Marina e Ulay se reencontraram em outra performance. O local, no entanto, não podia ser mais distante da Grande Muralha. Estavam no MoMa, em Nova York, e a performance da Abramovic consistia em compartilhar um minuto de silêncio com cada visitante que se sentasse a sua frente. Após um respiro com os olhos fechados, Marina se depara com Ulay; suas feições mudam, ela quase sorri, mas depois seus olhos se enchem de lágrimas.

Rompendo com a imobilidade prevista para a performance, Abramovic estica os braços na direção de Ulay e eles ficam de mãos dadas. O público aplaude. Depois de vinte e um segundos, que pela intensidade da imagem parece um tempo longuíssimo, eles se separam novamente. É notável que as expressões de Ulay demonstraram felicidade. No olhar dela, porém, há outro sentimento: a dilacerante surpresa ao se deparar com uma metáfora perdida na memória.

Talvez, naqueles breves segundos, ela tenha se lembrado da instransponível muralha que ambos construíram ao longo do tempo.

4.

Jorge Luís Borges, no livro Outras Inquisições, confessa ter se admirado ao descobrir que o imperador que deu início à Muralha da China também teria ordenado queimar todos os livros anteriores a ele. Quem desobedecia essa última decisão era enviado para trabalhar na obra da fortificação. De um só golpe, o imperador quis apagar o passado e se projetar no futuro, duas táticas que no conjunto almejavam o mesmo objetivo: a própria imortalidade.

Borges também especula se o imperador não pensou a muralha como uma metáfora. Por meio dela, ele condenava os adoradores do passado “a uma obra tão vasta quanto o passado, tão néscia e tão inútil”. Por outro lado, cercar o império e queimar bibliotecas podia ser apenas o artifício desesperado para silenciar uma única e torturante lembrança na cabeça desse homem.

A verdade é que pouco sabemos sobre a vontade de imperadores excêntricos. O que nunca nos passa desapercebido é a vontade de apagar aquela memória que nos amuralha em silêncio.

5.

Franz Kafka também tem um conto dedicado à Muralha da China. O narrador do texto, sem fazer usos de metáforas, formula questões sobre a maneira propositadamente descontínua da construção. O resultado é que por todos os lados existiam brechas e lacunas imensas. “Mas como uma muralha idealizada para proteção não é erguida de modo contínuo?”, pergunta o narrador.

Não podemos acessar a verdade de um projeto tão grandioso, ele parece se resignar. Somente o comando central saberá a resposta. Mas quem está no comando?

Diferente de Borges, Kafka não acredita na vontade de um homem específico. Com a estranheza própria do universo kafkiano, o texto cria uma dimensão fantasmagórica para o poder das decisões, destacando que não há clareza no funcionamento das instituições, ainda mais num território como o da China, com suas aldeias longínquas, que ignoram qual o imperador está vivo. Qualquer possibilidade de comunicação parece interditada neste labirinto confuso. É o próprio presente que parece congelado no tempo do Império, cujas fronteiras porosas não impedem os nômades de circular por todos os lados.

A muralha de Kafka, portanto, é uma metáfora política – e humana – mais complexa do que a sugerida por Borges. E, talvez, mais performaticamente poética do que a longa caminhada de Abramovic.

6.

A história universal é a história de poucas metáforas, escreveu Borges. Ou talvez seja a história de pequenas variações de uma mesma metáfora, o que não muda muita coisa. Ainda assim, não nos cansamos erigi-las como artefato de fuga ou proteção. É assim que cercamos nossos territórios de pânico, insuflamos nossas frágeis bolhas de futuros, e, sobretudo, ensaiamos nossos recomeços, sempre a temer os nômades que rompem com nossa cômoda ideia de horizonte.

Quando saí da exposição sobre Marina Abramovic, passei a caminhar por uma cidade com a qual eu tinha pouca familiaridade, afinal eu estava ali só de passagem, um turista qualquer perambulando nas férias. Lembro de ter ficado com a imagem da muralha (e de suas apropriações metafóricas) na cabeça, nesse desafio das despedidas, da necessidade de ritualizarmos nossos gestos de adeus, da ilusão, quem sabe, de percorrer nossos trajetos tumultuados com alguma serenidade ou beleza. Fazia muito frio e isso acentuava minhas aflições naquele momento no qual o passado e o futuro pareciam se bifurcar num estranho sentimento de distâncias mal percorridas.

Naquela noite, logo abaixo ao trecho que reproduzi na primeira seção deste texto, escrevi em meu caderno de notas: “haverá sempre uma grande muralha para separar nossos silêncios.”

Talvez essa seja apenas uma pobre metáfora entre as poucas metáforas da história universal. Ou quem sabe a única possível para o árido tempo no qual construímos, aos poucos e de modo descontínuo, uma insistente performance ao redor do que nos invade.