Há tantas concepções de filosofia quanto há filósofos. Mas há algo de intrigante nessa dispersão de ideias: por mais que cada um tenha uma ideia diferente do que é esse seu ofício, os filósofos seguem se reconhecendo uns aos outros como filósofos, como praticantes da filosofia. Há muita coisa a se aprender com isso. Uma delas é que seria pouco útil buscar uma definição do que seja “filosofar”. Filosofia, como diria um filósofo vienense, é um conceito sem fronteiras definidas, e as diferentes filosofias se parecem umas às outras não porque pertencem a um padrão seguramente identificável; se parecem como o seu irmão ou a sua prima se parecem com você: há algo no nariz, no olho, no formato do queixo, no jeito de andar ou não sei onde que denuncia que vocês pertencem à mesma família. Há algo no jeitão de Bergson que se parece com o de Hume, e Tomás de Aquino tem alguma coisa de Sêneca, e este de Arendt, mas é difícil dizer bem o quê. Nós dizemos que são filósofos, por mera semelhança de família, e não porque eles atenderiam aos critérios do que seja a filosofia, porque eles cumpririam a definição do que seja filosofar. 

Deixando de lado a modéstia exigida por uma etiqueta que rejeitamos, os autores d’O Farolete nos vemos como elos tardios da corrente que liga os filósofos de diferentes tempos e lugares; nos vemos como semelhantes aos filósofos e, por isso, filósofos. Não porque atendemos aos critérios de uma definição, mas porque exercemos o ofício a que se costuma dar o nome de filosofia. O ofício, estranho como tudo o mais em filosofia, consiste em pensar e falar de uma certa maneira, e escrever de uma certa maneira — maneira animada por uma disposição diante da existência comum a quase todo filósofo. O exame do cotidiano e dos grandes eventos, a busca por compreensão, por amplitude de visão, por sempre mais perspectivas. O apreço pela dúvida, o amor às perguntas e a insatisfação com respostas definitivas. Uma esperança incansável de dar voz ao universal que ultrapassa a particularidade — junto com as inúmeras e conflitantes respostas que essa questão convida. O interesse pela gênese, pelo valor, pela constituição histórica ou íntima de fatos e seres. Sempre o autoexame e o interesse pelo mistério da consciência, pelo mistério da liberdade, pelo mistério da veneração. Que o leitor monte o quebra-cabeça com essas peças, e terá uma figura mais ou menos identificável, que não tem um rosto, mas muitos. 

Tal como nos chegou, a filosofia é um ofício que depende de um jeito de pensar, falar e escrever. Em sua longuíssima tarefa, ela divisou muito método, organizou muito pensamento e orientou muito olhar, criou conceitos e se especializou em muitos diferentes modos de busca por objetos normalmente impalpáveis. Para isso, ela se assentou sobre um domínio muito rigoroso da linguagem; aliás, frequentemente teve de reconfigurar a linguagem — o que por vezes a torna difícil de seguir. Quem se lembra da experiência de ler pela primeira vez um grande filósofo, não importa em que idade, irá recordar a estranheza da experiência: às vezes palavras conhecidas, há cinco minutos muito familiares, tornavam-se completamente estranhas; sentenças aparentemente bem formadas, depois de lidas, pareciam mera justaposição de palavras, e não mais português; ou, no melhor dos casos, o que estava escrito era claro, mas por que raios o filósofo dizia aquilo? 

Assim como o filósofo insiste em falar como o estrangeiro de sua própria língua, também as coisas de que ele fala são pouco familiares. Aquele que é talvez o maior dos filósofos alemães pretendeu dar uma descrição final do conjunto desses objetos filosóficos: Deus, o cosmos, a alma, a liberdade. Temas que nos dizem respeito num nível muito profundo, mas que na superfície de nossas vidas nos escapam, ou mais: desaparecem. Esses objetos são incompatíveis com a vida prática do trabalho, da sobrevivência, do sexo, da diversão, e por isso os deixamos de lado, os adiamos para o momento em que teremos o tempo e paciência para eles. Mas o filósofo tende a insistir: trabalho, sentimento, sobrevivência, clima, sexo, vontade, diversão, os planos, os erros, o futuro, o passado — tudo depende desses objetos filosóficos, e um modo de vida que se exime de encontrar a relação entre esses termos apenas aparentemente desconexos não é digna de ser vivida — como disse um dos fundadores desse modo de pensar e viver que é a filosofia. 

Mas ainda que a filosofia dependa de uma linguagem própria e não possa se separar de seus objetos sublimes, isso não significa que a prática do filósofo esteja necessariamente confinada ao mundo das nuvens. As muitas perspectivas filosóficas têm impacto sobre a vida prática, depende dela e por isso está em constante diálogo com ela. E os autores que escrevem O Farolete estão convictos de que esse diálogo com o mundo da cultura pode ser tornado mais direto, mais claro. Não é preciso um mergulho de anos no mundo das palavras difíceis e dos objetos inalcançáveis, no estudo minucioso dos clássicos filosóficos, para que se veja o modo bonito como a filosofia lança novas luzes a um objeto conhecido. Aliás, foi provavelmente por ter visto esse belo fenômeno ótico, antes de qualquer estudo, que nos decidimos a dar o salto, e a mergulhar. Com isso, reproduzir esses momentos é não só possível mas necessário: pois se a filosofia deixa de iluminar diretamente, se ela não se liga mais ao mundo concreto, ela perde sua razão de ser. A luz que lança O Farolete não é um clarão que alcança Deus, a alma e a liberdade, mas que ilumina de perto e confere clareza ao trivial — e, com isso, convida aos claros enigmas escondidos no ordinário. 

Para fazer isso, as decisões editoriais que pautam a produção dos textos que aqui vão têm uma orientação não acadêmica, não técnica. Assim como cientistas escrevem excelentes livros de “divulgação científica”, ou seja, publicações bem informadas sobre as mais diferentes ciências, cujo tom acessível não trai a complexidade do tema, queremos produzir um análogo, uma “divulgação filosófica” que esteja à altura da melhor filosofia produzida pelos clássicos ou pelos melhores filósofos profissionais do presente. Com isso, não se trata de escrever sobre filosofia, sobre sua história ou sobre seus objetos mais sublimes, mas de remeter a eles ao escrever filosoficamente sobre os mais diversos temas — em especial sobre aqueles que nos tocam em nossas vidas cotidianas, pela experiência concreta, pelo contato com a arte, pelos temas da imprensa, pelas apreensões com a política e a vida coletiva, pelos impasses, dúvidas e certezas cotidianas.

O Farolete frequentemente (mas nem sempre) dependerá da pesquisa acadêmica de seus colaboradores — da calma ao ler, do rigor ao escrever, da produção científica ampla e amadurecida, de longos períodos em bibliotecas e escritórios que têm como resultado textos especializados, a respeito de problemas sutis e provavelmente pouco acessíveis ao público geral. Mas não é uma revista acadêmica. Ela é o espaço para aqueles que, feito esse trabalho de exploração e autoformação, querem aplicar esses resultados a problemas concretos, numa linguagem clara e em bom português, que pretenda se livrar de jargões, por ao menos dois motivos: porque o jargão, em geral, é uma abreviação para o pensamento — economizamos tempo e etapas ao nos valermos de conceitos técnicos que são transparentes à nossa audiência antes que o definamos e expliquemos com clareza; porque o jargão afasta a filosofia dos problemas concretos, problemas políticos, éticos, estéticos, epistemológicos envolvidos em nossas vidas. 

Os autores d’O Farolete se interessam profundamente pelas ideias de Platão, Espinosa, Hegel ou Derrida, e se nutrem delas. Mas aqui elas aparecerão apenas na medida em que estejam incorporadas à prosa de nossos textos. Nosso interesse imediato não é interpretar ou entender o pensamento de Maquiavel ou de Heidegger; mas se virmos as perspectivas abertas por esses autores aplicadas a novos objetos, objetos de nosso século, de nosso país, impregnados por nossos problemas específicos — aí esse pensamento se torna atraente. Citações e interpretações de ideias alheias são, sem dúvida, uma etapa fundamental na formação de nossos autores; e obras dedicadas a isso, contribuem imensamente para a nossa cultura e para o avanço de nossa compreensão a respeito de autores clássicos — que nos reapresentam o mundo e nos ajudam a pensá-lo. Mas nossa revista não é um espaço de estudos, e sim uma arena de disputas, ou um laboratório de ideias. 

Por motivos semelhantes, notas de rodapé não são usuais n’O Farolete. Num regime de produção científica, é fundamental citar fontes, garantir que as ideias sejam atribuídas a seus donos. Isso é parte dos padrões de honestidade no trabalho acadêmico. Essa prática, porém, tem alguns ônus: os textos se tornam pesados, por ter de prestar contas de si o tempo todo; o trabalho de referir é cansativo e esse esforço normalmente se manifesta nos textos acadêmicos como um fardo a ser carregado por autores e leitores. Mas O Farolete quer textos que não transpirem; não haverá aqui tours de force, monumentos de rigor e precisão. Queremos um outro tipo de ambiente, em que a criação também se faça por empréstimos. Para nós a honestidade intelectual é um pressuposto que se demonstra tacitamente na força do pensamento: uma ideia alheia pode ser apropriada, e será de tal modo incorporada aos propósitos e às prosas dos autores, que ao fim não será mais a ideia de um outro filósofo ou pensador. Ela terá nova aplicação, desenvolvimento, exercício; ou seja, será outra ideia, de outro filósofo, o que aqui escreve.

Esses filósofos da prosa clara são a matéria fundamental d’O Farolete, e sua base de sustentação são suas colunas. Elas são eixos temáticos definidos pelos autores, e que representam uma parcela de seus interesses. Que haja essas colunas é importante para que os eventuais leitores possam se situar no interior da revista, e entender as diferentes perspectivas que ela abriga. Mas, ao fim e ao cabo, é a personalidade do autor (seus temas e seu estilo) o que definem os limites temáticos da coluna. Daí porque O Farolete não se define por seus leitores — que sempre serão bem-vindos com o máximo de nossa hospitalidade. É que, uma vez determinados os seus princípios de clareza e foco na comunicação simples de ideias difíceis, nosso foco é estimular a escrita filosófica como criação literária. A leitura e o público leitor não são meta, mas consequência de nossos esforços. 

O Farolete é uma revista digital, mas não se confunde com uma rede social, e por bons motivos. Eles têm a ver com uma certa concepção a respeito do que significa “tornar públicos” textos filosóficos. Há, em nosso século, uma confusão entre o que significa publicar textos, confusão determinada pelo modo como essa palavra é usada em redes sociais. Para entender o modo como os autores d’O Farolete se comunicam, é importante não confundir a ideia de que nossos textos serão públicos com a ideia de que o direcionamento ao público é o impulso mais importante e o fundamento da escrita. O que se busca aqui é, antes de tudo, o exercício da expressão filosófica. Mas o que se comunica aí não é feito para o consumo, não é material expresso, não é feito para ser comentado, mas para ser refletido. E, se esse é o caso, a reflexão que deu origem ao texto já é fim, não meio. É claro que esses resultados — a obra, o texto — estão abertos a revisão; e é claro que a filosofia se beneficia do diálogo, mas não de comentários ao pé do texto. Assim como a reflexão filosófica posta num texto filosófico é o ponto final de uma longa reflexão, ele preferirá estabelecer diálogo com reflexões igualmente maduras — e não com curtidas ou comentários elogiosos ou críticos que se possam apresentar em caixas de diálogo, ou de comentários.

Dito isso, o contraponto: O Farolete não é inimigo das redes sociais. Como bons praticantes de nosso ofício, desconfiamos delas, mas não deixamos de nos valer de suas potencialidades. Não há diálogo filosófico possível na velocidade exigida pelas redes sociais, pois as ideias impressas em textos filosóficos exigem tempo para adentrar e sedimentar na alma do leitor. Mas mesmo a semente que demora a germinar precisa ser espalhada, e quanto mais longe do pé cair a semente, melhor a árvore cumpre sua missão.