As missas de Audálio Dantas

Na última terça-feira, 5 de junho, na Catedral da Sé, em São Paulo foi realizada a missa de sétimo dia do jornalista alagoano Audálio Dantas, falecido na última quarta-feira (30 de maio) aos 88 anos no Hospital Premiê, também na capital paulista, em decorrência de um câncer de intestino com o qual lutava desde 2015.

“Há 5 dias, da uma da tarde às 8 da noite, quase mil pessoas acorreram ao Espaço Vladimir Herzog do Sindicato dos Jornalistas para participar do velório que celebrava sua longa vida. Gente de todas as áreas, gerações, sensibilidades políticas, religiosas e filosóficas. E ali estava o Audálio, mais vivo do que sempre. Dizendo a esse mar de humanos (por sua história de lutas e seu jeito de ser) que agora, mais do que nunca, era preciso empenho redobrado — de todos e de cada um — pela Democracia, pela Justiça, pela Paz.
Que as nuvens ameaçadoras, que a tempestade, que os presságios devem ser afastados para bem longe. Que não basta Deus querer. É preciso que o homem sonhe para que a obra nasça. Deitado, sereno, em meio ao vozerio dessas tantas pessoas que ali se reencontravam, Audálio ostentava no peito uma camiseta que lhe foi dada de presente de aniversário no último dia 8 de julho.

Nela, três palavras bordadas remetiam a um pensamento de Santo Agostinho:
Indignação, Coragem, Esperança. Disse Aurelius Augustinus Hipponensis (354–430 d.C. ): ‘A esperança tem duas lindas filhas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las’. Esse foi Audálio Ferreira Dantas, que esteve por aqui durante 88 anos. Agora ficou eterno, como Vlado, Alexandre e Ricardo. Multiplicado em cada um de nós. Assim seja.”

Com essa fala carregada de simbolismos, o jornalista Sérgio Gomes encerrou a homenagem póstuma a Audálio, lembrando de outras mortes que foram veladas na mesma Catedral da Sé, “onde se chorou a perda e bradou-se contra a violência”: a do estudante Alexandre Vannuchi Leme (22), do jornalista Vladimir Herzog (38) e do carroceiro Ricardo Silva Nascimento (39).

Entre essas mortes, assassinatos cometidos por agentes da Ditadura Militar que se abateu sobre o país de 1964 a 1985, uma em especial liga o jornalista Sérgio Gomes à figura de Audálio Dantas, amigos próximos até o último momento: a de Vladimir Herzog.

“Começaram a prender jornalistas em outubro de 1975, e o Vlado estava na lista. Foram muitos mais, mas tinham doze jornalistas presos, na verdade sequestrados, todos eles foram levados para o DOI-Codi, sendo que o Vlado foi o último deles, era o décimo segundo. Houve aquele acordo pra ele se apresentar no dia seguinte, ele se apresentou e, no mesmo dia, 25 de outubro, foi morto sob tortura”, me contou Audálio em uma entrevista realizada em 2013.
Dos doze jornalistas presos naquela ocasião, Sérgio Gomes havia sido o primeiro, no dia 5 daquele mês. Na sequência vieram Frederico Pessoa da Silva, Ricardo Moraes Monteiro, Luiz Paulo Costa, Marinilda Marchi, Paulo Markun, Diléa Frate, Rodolfo Konder, George Duque Estrada, Anthony de Christo e José Vidal Pola Galé.

Nascido em Tanque D’Arca Audálio iniciou sua carreira em 1954 na Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo) e já havia escrito muitas histórias antes de se tornar ele próprio protagonista desta que envolveu a morte de um companheiro seu.

Na ocasião, Audálio era o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Foi a nota da entidade a primeira a atribuir ao Estado a responsabilidade sobre a morte do jornalista e a denunciar o sequestro dos demais colegas, em uma resposta à nota oficial do II Exército, sediado em São Paulo, que afirmava que Herzog havia se suicidado.

“Não obstante as informações oficiais fornecidas pelo II Exército, em nota distribuída à imprensa, o Sindicato dos Jornalistas deseja notar que, perante a lei, a autoridade é sempre responsável pela integridade física das pessoas que coloca sob sua guarda. O Sindicato dos Jornalistas, que ainda aguarda esclarecimentos necessários e completos, denuncia e reclama das autoridades um fim a esta situação, em que jornalistas profissionais, no pleno, claro e público exercício de sua profissão, cidadãos com trabalho regular e residência conhecida, permanecem sujeitos ao arbítrio de órgãos de segurança, que os levam de suas casas ou de seus locais de trabalho, sempre a pretexto de que irão apenas prestar depoimento, e os mantêm presos, incomunicáveis, sem assistência da família e sem assistência jurídica, por vários dias e até por várias semanas, em flagrante desrespeito à lei. Trata-se de uma situação, pelas suas peculiaridades, capaz de conduzir a desfechos trágicos, como a morte do jornalista Vladimir Herzog, que se apresentara espontaneamente para um depoimento”, dizia o texto.

Sediado ainda hoje na rua Rego Freitas, na Vila Buarque, em São Paulo, o Sindicato dos Jornalistas foi o palco das reuniões que definiram o enfrentamento, que num primeiro momento era apenas da categoria, mas que logo ganhou a adesão de outros setores da sociedade, contra o regime de exceção.

“O processo de reação da sociedade em geral contra o assassinato do Vlado se deu a partir dessa manifestação que ocorreu primeiro no velório. O número de pessoas era grande, principalmente de jornalistas e artistas. E depois, no dia seguinte, durante o sepultamento, já havia cerca de mil pessoas presentes, e o processo seguiu com manifestações de diversos setores da sociedade até a realização do culto ecumênico”, como contou Audálio na mesma entrevista concedida em 2013.

Audálio durante o velório de Vladimir Herzog. Fotografia de Elvira Alegre.

A imagem acima mostra Audálio Dantas durante o velório de Herzog e foi feita pela jornalista Elvira Alegre, ligada ao jornal Ex, publicação da mídia alternativa produzido entre 1973 e 1975, com periodicidade mensal. A edição de outubro de 1975 denunciava em sua capa o assassinato de Herzog, mas as fotos acabaram não sendo publicadas. A edição vendeu 50 mil exemplares e acarretou o fechamento do jornal pelos militares.

“Eu só fui conhecer a foto dez anos depois do acontecimento. Então, quando tomei conhecimento dela, procurei na minha mente restabelecer aquele momento e não consegui saber se eu estava dormindo, cochilando — porque eu estava há uma semana praticamente sem dormir — , ou se eu estava apenas numa atitude de meditação sobre o que deveria ser feito”, disse Audálio na entrevista.

 

Velório de Vladimir Herzog. Fotografias de Elvira Alegre.

 

O velório foi realizado no Hospital Albert Einstein no dia seguinte à morte de Herzog e contou com uma vigília de jornalistas ligados ao sindicato. O enterro aconteceu no dia seguinte, no Cemitério Israelita, e ao final foi convocada uma nova reunião na sede da entidade para definir os próximos passos. O momento foi assim registrado no livro de Audálio, As duas guerras de Vlado Herzog: da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil (Civilização Brasileira, 2012):

“Agora a urgência era para que o caixão descesse à sepultura. De repente, não sei a partir de que instante, vi-me segurando, com outras pessoas, uma corda que sustinha o caixão, que começou a descer. Imediatamente, munido de uma pá, o homenzinho começou a jogar terra na cova, atropelando a tradição [judaicaque dá aos parentes diretos do morto a primazia de atirar os primeiros punhados de terra.

Muitos carros que seguiram o cortejo ainda não haviam chegado ao cemitério, entre eles o que levava dona Zora, mãe de Vlado. Apesar da idade avançada, ela caminhava depressa, quase correndo, mas só conseguiu chegar ao túmulo quando os homens da kadisha jogaram as últimas pás de terra sobre o corpo do filho.

[…]

Um grito, que não se sabe de quem partiu, convocou:

— Vamos para o Sindicato!

Começava ali, imediatamente, a convocação para o que se transformaria numa formidável assembleia extraordinária. Alguém se aproximou de mim, perguntando a que horas seria a reunião. Não me detive a pensar, respondi automaticamente: ‘Às seis horas’. A convocação foi passando, em voz baixa, de boca em boca: ‘Reunião no Sindicato, às seis horas’.”

Naquela reunião, decidiu-se batizar o auditório com o nome do jornalista morto. O jornalista David de Moraes propôs a mobilização em torno de uma missa de sétimo dia, mas, sendo Vlado judeu, optou-se por um culto ecumênico, realizado na Catedral da Sé no dia 31 de outubro de 1975.

Naquele dia, Audálio teve a ideia de escrever um livro sobre o episódio do qual participara ativamente, projeto que só seria concretizado em 2012, mais de trinta anos depois — certamente sua reportagem mais longa.

“O projeto do livro nasceu no exato momento em que, descendo as escadarias da Catedral da Sé, em São Paulo, vi a multidão — 8 mil pessoas — que participara, em protesto silencioso, do culto ecumênico à memória de Vladimir Herzog escoar-se pelas esquinas da praça que, aos poucos, se esvaziou. Aquele vazio, no fim da tarde de 31 de outubro de 1975, estava carregado de simbolismos. […] O Brasil inteiro estava em suspenso naquele momento em que, na previsão sinistra de uma autoridade, tudo poderia acontecer. Mas o vazio da praça tinha o sentido de um marco na luta contra a ditadura que, no dizer de um dos oficiantes do ato ecumênico, dom Helder Câmara, começava a cair naquele instante. Ao descer as escadarias da catedral tive a certeza de estar vivendo o início de um novo capítulo na história das lutas do povo contra a opressão”, escreveu Audálio.

 

Audálio Dantas fala durante culto ecumênico em homenagem a Herzog. Imagens do documentário “Vlado — 30 anos depois” de João Batista de Andrade

 

A ditadura militar estava nas mãos do general Ernesto Geisel, que ocupava então a presidência do país. Naquele momento ainda não se sabia, mas Geisel havia autorizado, em 1º de abril do ano anterior — exatos dez anos após o Golpe de 1964 — a execução de opositores do regime que fossem considerados subversivos. A informação só foi revelada este ano em um documento da CIA tornado público recentemente pelo governo norte-americano.

Na missa de Audálio, a catedral não estava lotada. Nos bancos próximos ao altar se sentavam figuras históricas do jornalismo brasileiro, hoje já quase esquecidas pelo grande público, junto de quadros conhecidos da esquerda paulistana e familiares de Dantas. Quando dom Odílio Scherer encerrou a missa, houve muitos abraços fraternos, e então as pessoas logo se escoaram pelas portas da igreja e desapareceram pelas ruas do centro da cidade. Não houve gritos por “Diretas já”, nem “Lula livre”, e muito menos um cardeal pregando que nossa democracia em breve renasceria. Por isso mesmo, é preciso reviver Audálio. Audálio vive!

Dilma Rousseff

Um processo em andamento

O filme O processo, de Maria Augusta Ramos, trata de um tema caro à diretora, abordado por outros ângulos em sua trilogia sobre o sistema judiciário brasileiro: Justiça (2004), Juízo (2007) e Morro dos Prazeres (2014).

Se nesses trabalhos a diretora abre sua câmera para o rito judiciário, sessões de julgamentos, o sistema carcerário e a rotina dos personagens, em O processo seu olhar se volta para os bastidores de um acontecimento acompanhado por todo o país: o impeachment da presidente Dilma Rousseff, articulado por meio de um golpe parlamentar.

Diferentemente dos outros trabalhos, em que houve tempo para uma imersão maior na vida dos personagens, nesse novo documentário a diretora faz o registro dos acontecimentos ainda quentes: durante o desenrolar do processo que culminou na destituição da presidente.

Os personagens, em sua maior parte, são figuras carimbadas da vida pública brasileira, e o rito de julgamento extrapola a esfera jurídica: se dá principalmente na arena política e midiática.

Ao rever os acontecimentos de 2016 com um período curto de distanciamento, a sensação de assistir ao filme pela primeira vez é incômoda, como mexer em uma ferida ainda aberta, uma vez que seus efeitos continuam a reverberar na vida nacional.

É interessante analisar a trajetória de alguns personagens centrais dessa trama no lapso de tempo em que o Brasil voltou, pelo menos, vinte anos em dois. Eduardo Cunha, que deu início ao processo enquanto era presidente da Câmara dos Deputados, foi afastado de sua função ainda durante as filmagens. E permanece preso.

Dilma Rousseff deixa a presidência, mas preserva seus direitos políticos. O ex-presidente Lula tem poucas aparições na película, e em nenhuma delas como sujeito de fala, mas sua expressão grave denota a preocupação daqueles dias tenebrosos.

A apreensão de sua possível prisão permeia os debates internos de seu partido, o dos Trabalhadores, no Senado, transbordando também para as discussões envolvendo a defesa de Dilma. Esse espectro que paira ao longo da narrativa se concretizou este ano — informação acrescentada ao final do filme por meio de um letreiro. A imagem de Lula na tela faz lembrar sua ausência na vida real da política brasileira, principal sombra sobre o processo eleitoral de outubro próximo.

O senador tucano Aloysio Nunes (SP), uma das vozes ativas por parte da acusação durante o filme, assumiu, com o golpe já concretizado, o posto de ministro das Relações Exteriores, substituindo seu correligionário José Serra (SP). Assim como sua atuação no atual governo, a aparição de Serra na película é pífia. Não há nenhuma fala do senador, que aparece em uma única cena, de cabeça baixa, em um momento em que anota compulsivamente em um caderninho durante uma sessão no Senado.

Do atual presidente Michel Temer não há imagens no filme, apenas menções a seu papel na trama do impeachment feitas pela defesa da ex-presidente. E também no famoso diálogo, reproduzido na película, de Romero Jucá com Sérgio Machado, em que este diz que “a solução mais fácil era botar o Michel […] num grande acordo nacional”, ao que é respondido pelo outro “com o Supremo, com tudo”.

A fala custou a Jucá o cargo de ministro, mas não produziu efeitos jurídicos, nem mesmo foi analisada dentro do contexto do processo de impeachment no momento em que veio à tona. Mas, assim como o filme de Maria Augusta Ramos, tem lugar de relevo na historiografia sobre o período — o que não é pouca coisa.

É interessante constatar que outra fala de Jucá também chegou às telas — não às do cinema, mas às de computadores, tablets, celulares e televisores — , porém de uma forma pouco ortodoxa, senão com pitadas de Goebbels. A famosa constatação “é preciso estancar a sangria!” foi posta na boca do personagem que representa Lula na série ficcional sobre a operação Lava Jato produzida pela Netflix.

No momento em que esse conhecido diretor de cinema, José Padilha, joga contra a compreensão da história recente do país, em uma atitude canalha travestida de “efeito dramático”, é preciso reconhecer a importância histórica de um registro como O processo, um filme urgente sobre o acontecimento real. Um filme que precisava ser feito.

Enquanto Padilha se revela um personagem deletério de nosso cinema em uma produção que exacerba seu fetiche policialesco com personagens planos e diálogos repletos dos piores clichês, Maria Augusta Ramos dá um novo passo em uma trajetória de cinema documental cada vez mais necessário.

Junto com ABC da Greve, de Leon Hirzman — filmado em 1979 e concluído em 1990 — e Entreatos (2004), de João Moreira Salles, O processo dá sua contribuição para o registro da trajetória de Lula e do PT nos últimos quarenta anos, certamente o processo político mais significativo do período no país.

Se Hirzman conseguiu capturar o surgimento de Lula como grande liderança popular durante as greves do ABC em 1979, e Salles mostrou o momento em que Lula e o PT concordam em fazer as concessões necessárias para chegar ao poder durante a corrida eleitoral de 2002, Maria Augusta Ramos retrata o momento em que o acordo político é rompido e o PT se vê impedido de continuar no jogo — fato agravado com a prisão de Lula, que o impede de disputar o próximo pleito.

A diretora não faz comentários no filme que não sejam cinematográficos: a escolha dos planos, a fotografia e a edição que selecionou 2h e 20 min. de mais de 400 horas filmadas. Não existe narrativa em off, e os letreiros que ocasionalmente aparecem são estritamente informativos.

Em O processo, os personagens não são contextualizados. Parte-se do pressuposto de que são todos conhecidos do espectador, o que leva a uma reflexão de como esse filme poderá ser interpretado no estrangeiro no que se refere a situações como a da homenagem feita ao torturador Brilhante Ustra, pelo hoje presidenciável Bolsonaro, no momento da votação do pedido de impeachment na Câmara dos Deputados. Coisas bem brasileiras.

Se muitas das imagens das sessões realizadas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal relativas ao impeachment já haviam sido vistas pelo público por meio das TVs das respectivas casas, o mérito do documentário de Maria Augusta Ramos está nos momentos de bastidor que ela conseguiu captar. Alguns deles dão ar de comicidade à narrativa, como aquele em que a advogada de acusação Janaina Paschoal — personagem mais caricata da trama — saboreia um toddynho enquanto se prepara para entrar em cena.

Mas o instante em que a câmera consegue se deter por mais tempo e apreende momentos de maior significado documental para além da narrativa dos fatos é quando a diretora tem acesso às reuniões dos integrantes da defesa da ex-presidente no Senado.

A defesa sabia que o jogo estava perdido e se questionava em alguns momentos sobre qual a melhor atitude a ser tomada no desenrolar das discussões e as sucessivas derrotas na comissão encarregada de analisar o pedido de impeachment. A estratégia adotada é fazer a disputa simbólica, mesmo em um jogo de cartas marcadas.

Talvez o momento mais emblemático do filme seja em uma dessas reuniões em que o ex-ministro Gilberto Carvalho fala da necessidade de uma autocrítica necessária para o partido.

Carvalho toca em pontos que considera terem contribuído para pôr o PT na situação em que se encontra: a falta de atuação política com relação ao oligopólio midiático no país e a arrogância dos políticos petistas em relação às suas bases eleitorais.

No que se refere à mídia, Carvalho lembra que o partido — embora detivesse o comando da Secretaria de Comunicação da Presidência da República e do Ministério das Comunicações — continuou a renovar concessões, conceder novas e alocar enormes quantias em dinheiro nos grupos que compõem esse oligopólio.

Embora sempre tenha sido um tema caro, uma bandeira histórica do partido, a regulação dos meios de comunicação — assim como a reforma política — nunca foi realmente encampada pelos governos petistas. Um projeto chegou a ser elaborado por Franklin Martins no último governo Lula, mas nunca saiu do papel. Foi absolutamente esquecido durante todo o governo de Dilma Rousseff, apesar de a ex-presidente tocar no tema durante sua campanha eleitoral de 2014, ao falar na necessidade de uma “regulação econômica dos meios”.

A reflexão mais grave feita por Carvalho, no entanto, refere-se ao tratamento concedido pelos então governistas às bases do partido.

Principal interlocutor entre o governo e os movimentos sindicais e sociais durante os governos de Lula e o primeiro mandato de Dilma, Carvalho diz que encontrava dificuldades em conseguir uma agenda entre representantes da sociedade civil organizada e os ministros petistas, que muitas vezes os enxergavam como empecilhos para os projetos do partido.

Durante a fala de Carvalho, a senadora Gleisi Hoffmann (PR) apenas o fita, calada. Cerca de um ano depois, durante o 6º congresso do partido, ela defendeu que o PT não deveria fazer uma autocrítica para não fortalecer o discurso dos adversários. “Não somos organização religiosa, não fazemos profissão de culpa, tampouco nos açoitamos. Não vamos ficar enumerando os erros que achamos para que a burguesia e a direita explorem nossa imagem”, afirmou na ocasião.

Hoffmann ganha destaque no filme devido a seu protagonismo durante a defesa de Dilma no Senado. Está presente em todas as reuniões e discussões sobre o tema e talvez seja a personagem com mais tempo de fala na película, ao lado de seu colega de trincheira parlamentar, Lindbergh Farias (RJ).

Linha de frente na defesa de Dilma no Senado, ambos se projetaram dentro do partido e disputaram entre si a presidência da legenda pouco mais de um ano depois, durante o 6º Congresso do PT. Quem ganhou foi Hoffmann, com o apoio do ex-presidente Lula.

Ré na operação Lava Jato, ela é acusada, junto com seu marido, o ex-ministro Paulo Bernardo, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O tema é trazido para o filme por meio da ação da Polícia Federal no apartamento do casal em Brasília e da prisão preventiva de Bernardo, momento dramático para a senadora dentro da narrativa do filme.

Se em O processo vemos uma combativa Gleisi Hoffmann, um outro documentário recente, Martírio (2016), de Vincent Carelli, possibilita captar outra dimensão da senadora.

No filme de Carelli vemos uma ministra da Casa Civil no governo Dilma Rousseff, cerca de um ano antes dos acontecimentos de O processo, pouco afeita a atender demandas das populações indígenas afetadas em seus direitos básicos durante as construções da hidrelétrica de Belo Monte.

“Ainda temos índios fora de terras indígenas e muitos conflitos abertos. Também não podemos negar que há grupos que usam o nome dos índios, que estão apegados a crenças irrealistas que levam a contestar e tentar impedir obras essenciais ao desenvolvimento do país, como é o caso da hidrelétrica de Belo Monte. Temos que proteger e garantir os direitos indígenas. Mas quais são os limites impostos pelo tempo, pela conjuntura, pela realidade ou pela própria ação do Estado no passado?”, questiona durante uma reunião da Comissão de Agricultura, Pecuária e Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados.

Na ocasião, Gleisi fez um aceno à bancada ruralista ao dizer que pretendia solicitar ao ministério da Justiça “que suspenda estudos [de demarcação] para efeito de considerar também o parecer e o laudo de outros orgãos [além da Funai]”, no momento em que crescia no Congresso a articulação em torno da PEC 215, que tira do Executivo e passa para o parlamento a prerrogativa de demarcação de terras.

Já presidente do PT, a mesma Gleisi compareceu a uma sessão do Senado utilizando um cocar no “Dia do Índio”. Após a prisão de Lula, mais que o suposto nome que substituiria o ex-presidente no pleito, o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, a senadora tem sido a principal voz do partido. É ela quem realiza transmissões ao vivo de Curitiba utilizando a página do ex-presidente no Facebook e concentra as declarações petistas à imprensa.

O processo ainda não terminou.