Whatsapp para bitches

Substituir o amor pela carta de amor (?).

Desterritorializar o amor. Substituir o contrato

conjugal tão temido por um pacto diabólico.

G. Deleuze

A menstruação sonhava podre dentro delas

Herberto Helder

uma coisa p se agarrar em 27 do um de 2016

1 xereca iluminada

as esferas distintas — sobre perseguir algo obstinadamente –

bem aquilo de q falávamos

sem titubear

de casar ca literatura

– a hilda hilst faz contato com o absurdo

o q é felicidade p vc?

kaaaabum:

(olha eu queria saber em q parte do corpo se vive

p acender os leds na noite imensa)

mta pakera indescritível

amor no curral

drogas lisérgicas d alta qualidade

ensinar nossa neném a usar carabina fazer bomba

matar madeireiro — caminho aberto p os rato.

a indicação é ñ engravidar:

alopatia plástica e pelanca dps d ser embuchada.

– oi eu fiz neném

– tava na cara q era vc.

eu ñ recomendo casar c homi nenhum

eu tropeço em casamentos

eu tô só nesse avanço vertiginoso de pintos furta-cor

eu gosto d muléris

homem como categoria é algo detestável.

ñ posso alegar ignorância

casamento burguês é 1 formato falido

porém

viciante. amor livre é bom libertador

mas rola 1 coisa estranha:

mistura de ciúmes com hpv.

(a boca treme ao choque dos elos

a carne ascende ao mover do sangue

o sangue atiça o pomar do mundo:

há corpos contra corpos)

*

aki no Setor de Desemprego Contemplativo (SDC):

eu fui dormir às 4

eu vou escrever hj

eu curti a filosofia ativista e o virtual atual

eu tô de mau humor e devia fazer 1 rango.

qndo a gente passar num concurso público e cimentar nosso rabo

levaremo o copaum d cana p gabinete

e teremo várias muléris [someday somehow]

por agora

vender pênis de lentilha no lembylesby.com.

*

a donna haraway me ensinou a rezar:

sou eu no futuro enfática

meu deus

pfv quero sempre ser mulher

amém.

*

são paulo chove e tem sopa d beterraba

acabei d estender a ropa no varal

nasceu 1 espinha no meu queixo

ele quer saber a q hs fui dormir e pq.

(delicadas geografias percorrem nosso medo

cai no sono a ponta das têmporas

mãos imóveis peitos bruscos

ninguém sabe para onde soprar esse som devagar

espantoso)

*

o dia d hj é o anúncio do apocalipse

há placas d intranquilidade espalhadas por todos os lados

a vida tá passando hj msm já passou 3 meses

*

utilizar assuntos vigentes

p instaurar o lixorama:

meu breve lance c oswald de andrade

vem d qndo ele dizia q o brasil é uma república federativa

cheia de árvores e gente dando adeus. depois todos morrem.

*

oi

oi

oie

bom dia

boa noite

aki tá tudo escuro

por aki tb ainda ñ amanheceu…

*

xororô, angústia lacrimogênia

vamo lá tomá 1 negocinho?

tpm devastando td por aki

hj comi 5 kg de arroz

o psicológico

tb passa pela boca antes d chegar no estômago e virar excremento.

eu p. ex.:

escrevi uma redação qndo tinha 13 anos

levava umas palavras altas

impelidas pelo renque d luz

obra geral em q me punha diante da realeza

e dizia o qnto a torpeza diminui o mundo.

terminava assim:

“cadeia neles, cadeia!”

(agora:

volto aos tumultos dos dias tremendos

e me pergunto pelas putas que irão salvar o mundo)

*

volta pro quarto

toca 1 siririca

se vc prometer fazer isso

eu faço tb

eu tb

eu TAMBÉM

todas juntas:

vemmmmmmmmmmmmmmm

acendam suas pepekas

t esperamos toda nua

aew

cjefueiii

quenga

safada

q lyndo hackear a vagina dazamiga

vocação pazuzu

fucking happy

lésbica futurista com disposição p viver 1 xanhaça

*

ei vc tem 1 gato antropomiau 1 bicho bichano

alguém q respire e lance 1 luz inteligente sobre o mundo?

enquanto isso susan miller apenas sugere

que vc find a way to weave a memory that you and those

you hold close will always remember:

1 poema p. ex.

(a linha invisível sobre o papel em branco

surpreende o alfabeto de sangue

o sangue escorre pelas nossas pernas

e puras

manchamos os nomes em ritual de batismo)

*

mistérios gozosos

*

tudo se ajeita 1 dia seremos puro amor

mas agora ñ consigo

tô no meio dum raciocínio.

*

hello angels

aki umas lágrima de alegria & saudady a pretexto de uma flor.

minha alma foi estigmatizada após retornar d dias felizes

bora plis encontrar 1 jeito d resolver essa miséria

enfiar goela abaixo esse ovo q entupiu minha garganta.

*

OI

ganhei 1kg de mequenhe.

*

ele c pênis na mão e auréola de anjo

ele perdeu a cueca tal e coisa

ele ñ é mais o mesmo

ele casou e tal

ele tá comendo uma puta salvo engano

verme insolente

protozoário invertebrado

múmia purgante.

(por onde anda, por onde os pés sobre os perímetros, Peri?

princeso aceso em leds dégradée

músculo convulso pálpebra comprida

coseu em mim os dedos cravados

em mim as animalidades abertas à exaltação)

*

– vc é 1 cavalo alado

– eu deixei as asas no curral

– vc é 1 unicórnio c 1 pinto de borracha na cabeça

– eu perdi a cabeça

*

todos os buracos

fracos

lassos

contagem regressiva p amanhecer malsã

regresso ao só ao pó ao nó:

rosa choque nosso mais além

 

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Ana Cristina Joaquim é mestre em Filosofia (Unicamp, 2012) e Doutora em Letras (USP, 2016). Atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado em Teoria Literária (Unicamp, Fapesp). Com o objetivo de divulgar a poesia contemporânea escrita por mulheres, organizou três volumes da antologia Anamorfoses (vol. I: Annablume, 2014; vol. II: Lumme Editor, 2016; vol. III: Editóra Cóorego, 2018). Tem artigos sobre poesia portuguesa e brasileira publicados em periódicos especializados e escreve poemas com alguma regularidade.

Retrato da favela no diário de Carolina

Carolina Maria de Jesus vive num mundo de tábua e zinco que ela retrata com fidelidade. Seu diário constitui interessante documentário da vida na favela.

A favela do Canindé, em São Paulo, é o pequeno (e miserável) mundo de Carolina Maria de Jesus. Uma favela igual a todas as outras: suja, triste, turbulenta. E com a desvantagem de ter nascido na beira de um rio (o Tietê), que frequentemente invade tudo com as suas águas carregadas das sujeiras da cidade. Carolina vive mal, como vivem todos na favela. Profissão, não tem. Apanha papéis nas latas de lixo da cidade. Nem sempre há o que comer (para ela e três filhos menores) em seu barraco. Mas ela aprendeu a “ver” além da lama da “rua” e dos barracos escuros: tem o seu mundinho interior, no qual, às vezes, há sol e nuvens coloridas. Escreve versos ingênuos, enche cadernos de sonhos. Mas não se limita a sonhar. Não esquece o mundo sórdido que a cerca, a miséria de seus irmãos favelados — a sua própria miséria. Maria Carolina tem em seu barraco uma dezena de cadernos cheios da vida da favela, um diário fiel, sem artifícios, do dia a dia de sua comunidade marginal. Há longos anos, ela vem escrevendo a respeito do seu pequeno mundo, “fotografando” misérias, desencantos e, até, pequenas alegrias. Porque, segundo ela mesma comenta, “a gente que mora na favela também tem dia de alegria”.

Lata d’água na cabeça, como as Marias de todas as favelas.

A fome fabrica uma escritora

Mesa de caixote, caderno e lápis: Carolina retrata a favela.

O “diário” de Carolina é reportagem autêntica, retrato sem retoques. Carolina Maria de Jesus faz reportagem diária sobre a favela. Reportagem vivida e sofrida. Quando fala da longa espera na “fila da água” (há apenas uma torneira para o abastecimento de toda a população) é com o conhecimento de causa de quem permanece horas sentada numa lata, aguardando a vez de chegar à torneira. E quando escreve, com sua caligrafia nervosa, que não tem o que comer, é com o desalento de quem está de estômago vazio, e sem perspectiva imediata de enchê-lo.

Carolina Maria de Jesus tem 45 anos de idade: “23 anos de miséria na roça e 22 anos de miséria na cidade”, conforme ela mesma define a sua vida. Nasceu no interior de Minas (Sacramento) e está em São Paulo desde 1937, ano em que “estreou” na favela. Sozinha, sem experiência, encontrava todas as portas fechadas. Até que conheceu outros miseráveis, que lhe estenderam a mão. Foi na favela, onde vive até hoje, que encontrou um pouco de solidariedade. E, como marginal, começou a preocupar-se com o problema de outros marginais. Entre os papéis, que apanhava no lixo, sempre encontrava revistas velhas, livros dilacerados. Lia tudo. Um dia, tentou uns versos, achou bom e começou a sua “fase poética”.

Tudo era motivo para quadrinhas ingênuas que falavam de gente pobre, de gente rica, de gente boa e de gente ruim. Depois vieram os “contos” e os “romances” — histórias simples, mas sempre marcadas pelos tons negros da miséria.

Carolina vive dos papéis que apanha, e na miséria da favela acha motivo de inspiração

Diante da Academia Paulista de Letras: não é candidata.

Alguém viu os seus escritos e disse que eram bons, que ela procurasse os jornais. Carolina iniciou uma peregrinação pelas redações, mas nem sempre encontrava alguém com disposição para ler os seus cadernos. Dos jornais passou às editoras. Nunca chegou a ser recebida. Desistiu, mas não parou de escrever. Por necessidade de dizer algo ao mundo, gritar aos ouvidos surdos do mundo. Seu barraco está cheio de cadernos velhos, empoeirados. Cheio dos gritos roucos dos favelados.

Mas Carolina não é apenas uma mulher que grita contra o mundo. Tem os seus momentos de fuga, quando deixa o registro puro e simples das misérias da favela e se encontra com o seu “mundinho interior”. Olha através da janela do barraco e não vê a lama do terreiro. Nem ouve o choro do filho do vizinho. Descobre nuvens coloridas sobre os telhados de zinco, enche os olhos de sol e o coração de alegria.

Apanhar papel é ganha-pão. Vera Eunice, a filha, a acompanha.

É no “diário”, porém, que se encontra a autêntica Carolina Maria de Jesus, favelada falando da favela. Carolina só esteve durante dois anos na escola, mas sabe contar histórias. Suas frases curtas, muitas vezes incorretas, dizem muita coisa. Coisas de um pequeno mundo que se agita sob telhados de zinco. Eis alguns trechos do “Diário de Carolina”, escolhidos ao acaso:

“21 de julho de 1955. Despertei com a voz de D. Maria perguntando-me se eu queria comprar banana e alface. Olhei as crianças. Estavam dormindo. Fiquei quieta. Quando eles vê as frutas sou obrigada a comprar. […] Já habituei a beber café na casa de Seu Lino. Tudo que eu peço a ele emprestado ele me empresta. Quando eu vou pagar, não recebe. Fui torcer roupa e vim preparar o almoço. Hoje estou cantando. Todos nós temos o nosso dia de alegria. Hoje é o meu!”

“17 de maio de 1958. Levantei nervosa. Com vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver? Será que os pobres de outro país sofrem igual aos pobres do Brasil? Eu estava descontente que até cheguei a brigar com o meu filho José Carlos sem motivo.”

“19 de maio de 1958. Deixei o leito às 5 horas. Os pardais já estão iniciando a sua sinfonia matinal. As aves deve ser mais feliz que nós. São irracionais. Talvez entre elas reina amizade e igualdade. […] O mundo das aves deve ser melhor do que o dos favelados, que deitam e não dormem porque deitam-se sem comer. […] Havia pessoas que nos visitava e dizia: ‘Credo, para viver num lugar assim só os porcos. Isto aqui é o chiqueiro de São Paulo’. […] Lavei o assoalho porque estou esperando a visita de um futuro deputado e ele quer que eu faça uns discursos para ele. Vou encontrá-lo hoje às 10 horas. Ele disse que pretende conhecer a favela, que se for eleito há de abolir as favelas. […] Eu ando tão preocupada que ainda não contemplei os jardins da cidade. É a época das flores brancas, a cor que predomina. É o mês de Maria e os altares deve estar adornados com as flores brancas.”

“20 de maio de 1958. O dia vinha surgindo quando eu deixei o leito. A Vera despertou e cantou. E convidou-me para cantar. Cantamos. O João e o José Carlos tomaram parte.”

“28 de maio de 1958. Amanheceu chovendo. Tenho só 3 cruzeiros porque emprestei 5 para a Leila ir buscar a filha no hospital. Estou desorientada, sem saber o que iniciar. Quero escrever, quero trabalhar, quero lavar roupa. Estou com frio. E não tenho sapato para calçar. Os sapatos dos meninos estão furados. […] Passei uma noite horrível. Sonhei que eu residia numa casa residível [sic.], tinha banheiro, cozinha, copa e até quarto de criada. Eu ia festejar o aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu ia comprar-lhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo. Porque eu estava em condições de comprar. Sentei na mesa para comer. A toalha era alva igual ao lírio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade. Estava na favela. Na lama, às margens do Tietê. E com 9 cruzeiros apenas. Não tenho açúcar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha. […] Fiz a comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetáculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver na panela. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para elas.”

“12 de agosto de 1958. Deixei o leito às 6 e meia e fui buscar água. Estava uma fila enorme. E o pior de tudo é a maledicência, que é o assunto principal. Tinha uma preta que parece que foi vacinada com agulha de vitrola. Falava do genro que brigava com sua filha. Atualmente é difícil para pegar água porque o povo da favela duplicou-se. E a torneira é só uma.”

“23 de outubro de 1958. […] Agora o que passou a ser o encarregado da luz deixou de trabalhar. De manhã ele senta lá na torneira e fica dando palpite. Eu penso: ele perde porque a língua das mulheres da favela é de amargar. Não é de osso, mas quebra osso. Até o Lacerda perde para as mulheres da favela.”

“5 de dezembro de 1958. […] Fiquei horrorizada quando ouvi as crianças comentando que o filho do senhor J. M. foi na escola embriagado. É que o menino está com 12 anos. Eu hoje estou muito triste.”

“25 de dezembro de 1958. […] O João entrou dizendo que estava com dor de barriga. Percebi que foi por ele ter comido melancia estragada. Hoje jogaram um caminhão de melancia perto do rio. Não sei por que é que esses comerciantes inconscientes vem jogar seus produtos deteriorados aqui na favela para as crianças ver e comer.”

“31 de dezembro de 1958. […] Hoje uma nortista foi para o hospital ter filho e a criança nasceu morta. Ela está tomando soro. A sua mãe está chorando porque ela é filha única. Tem baile na casa do Vitor. Adormeci depois das corridas [refere-se à corrida de São Silvestre]. E fiquei pensando na minha vida no decorrer deste ano. […] O José Carlos e o João José estavam Jogando bola. A bola do Tonico. E a bola caiu dentro do quintal do V. E a mulher do V. furou a bola do menino. E os meninos começaram a xingar. Ela pegou um revolver e correu atrás dos meninos. E se o revolver disparasse?”

Eis uma pequena amostra do “Diário de Carolina”. São coisas que ela escreve e deseja que o mundo veja.

Nota da redação: foi respeitado o original.

Canindé — o seu mundo cheio de misérias e desencantos. Em seu barraco há cadernos que esperam o registro do que viu e sentiu.