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“Alô, Jorge Mautner?”

Publicado originalmente na edição #1 da revista FIGAS, em agosto de 2009.

São Paulo, véspera do feriado constitucionalista. Entrevista mais ou menos confirmada. Encontro em Guarulhos, cinco horas da manhã, para seguir viagem até o Rio de Janeiro em busca de Jorge Mautner. Vamos lá. Cinco no Fiat Uno, todo mundo apertadinho, trânsito superlento por causa de dois acidentes na pista. Resultado: chegamos à avenida Brasil carioca às 13h. Porém, uma vez no Rio em um dia ensolarado, e digo isso sem medo nenhum de cair no clichê, estávamos todos felizes.

O apartamento em que nos hospedamos fica no bairro do Catete, pertinho da praia do Flamengo. Durante o feriado, circulamos entre o Centro e a Zona Sul, onde se concentram as atrações turísticas e grande parte da renda da cidade. Difícil era não se lembrar das novelas do Manuel Carlos quando nos deparávamos com velhinhos da vizinhança (nem sempre amigáveis), a galera jogando futevôlei na praia, os porteiros boa-praça. Os prédios de baixa estatura se sustentam sobre o solo arenoso e por isso ficam bem colados uns nos outros. E o bairro do Catete conserva em seus fragmentos de um outro tempo aquele ar de um Rio de Janeiro que já passou. Inspirado por essa atmosfera, Richard, nosso editor, decide procurar um barbeiro que aparasse sua barba à navalha. Batendo aqui e ali, afinal encontramos uma cabeleireira do bairro . “Peraí. Vou levar vocês numa pessoa que faz”, disse, em tom quase maternal, se não fosse um pouco aborrecido. A passos largos, nos levou pela mão até uma pequena e genuína barbearia no mesmo quarteirão e logo desapareceu. Nem deu tempo de agradecer. A forma com que nos ajudou aquela senhora, expressando bem marca que folcloricamente distingue os cariocas dos paulistas – a capacidade de rapidamente criar uma espécie de familiaridade cúmplice, e que os mais mal-humorados chamariam de petulância e “folga” –, nos fez batizar esse evento, de brincadeira, como “a primeira estripulia carioca” da viagem.

Leio um livro de entrevistas de Mautner e assisto ao Pica-pau na TV enquanto o barbeiro cuida minuciosamente da barba um tanto selvagem do meu amigo. Distraidamente aceito o café já adoçado, que um moço, tentando me agradar, ofereceu. Tinha me esquecido que os cariocas são chegados a um café “bem docinho”. Tomei o café até o fim e o Richard foi ficando mais bonito e satisfeito com o resultado. Nossa intensão era fazer a nossa própria entrevista com Mautner naquele mesmo dia, mas estávamos todos ainda meio zonzos com a viagem de carro. Então recapitulamos as pautas, lemos em voz alta alguns trechos de outras entrevistas dele e de seus textos literários. Tudo nos instigava muito.

Vanessa Nicolav, nossa editora de vídeo, e Leandro Melito, nosso repórter, ao ar livre na Cidade Maravilhosa

 

Esperamos até meia hora antes do horário combinado para o encontro (calculamos com precisão esse intervalo, por medo de ser inconvenientes demais) antes de ligar para o entrevistado e combinar o lugar – até então, uma incógnita. No fundo já esperávamos o que viria: por telefone, ele nos disse estar cansado, depois de um dia inteiro de ensaio. A entrevista ficaria para o dia seguinte. Pelo menos agora tínhamos uma informação adicional: o encontro seria na casa dele. Não poderíamos mais fotografá-lo no teatro vazio, como o Leo já tinha planejado. “Quem sabe sentado na poltrona favorita dele… sei lá…” À noite, sem Mautner, fomos para a Lapa – segundo o guia turístico, a Montmartre carioca. Muita gente circulando, considerando que era uma quinta-feira. O que é mais notável na Lapa é sua vocação para a música. De qualquer lugar pode-se ver a pintura lateral do prédio da Escola de Música da UFRJ. Portentosa, a sala Cecília Meireles, a única reservada à música de câmara no Rio, divide o largo da Lapa com as rodas de samba, forró, choro, música eletrônica, rock – para ficar só nos mais evidentes.

Depois de uma cerveja com aipim frito, nos animamos para entrar no Cine Lapa, onde o rapper Emicida faria um show. Durou pouco: alguns de nós foram barrados porque não estavam com o RG. Passada a negociação frustrada com o segurança, mais um fracasso: nenhum motorista de táxi aceitou levar cinco no carro, por medo de multa. Lei, 2; FIGAS, 0. Fomos, então, esperar por uma van em uma esquina que achávamos ser um ponto. Chegou uma, toda branca – sem nenhuma marca de empresa ou regulamentação do transporte – indo para São Conrado. Não tinha lugar para mais cinco sentarem. “Nossa, mas é assim? Pode ir de pé?”, um de nós, mais fresco, perguntou. Ao que o homem gordo que espremia o Leo, único de nós que se sentou, respondeu “pode ir no teto, de lado, no colo… na van pode tudo!”. Todo mundo na van, e a maioria devia estar voltando de um dia de trabalho, ficou dando risada e fazendo outras piadas até chegarmos à nossa parada, no Catete, depois de dez minutos. Cada passagem, junto com as estripulias, nos custaram dois reais; mais barato e bem mais divertido do que a viagem de ônibus.

Na areia, garotos e garotas congestionavam a beira d’água em pequenas rodinhas. Ambulantes vendendo desde “mate de limão geladão” até biquínis tomara-que-caia – sensação do inverno carioca

Dia seguinte, paulistanos acordam loucos por uma praia. Todos no Uno, rumo a Ipanema. Grande erro. Depois de uma hora procurando desesperadamente um lugar para estacionar antes que o sol se fosse, o jeito foi usar um estacionamento, regiamente pago. Finalmente tirando chinelinhos e pisando na areia fofa do Posto 10. Delícia. De longe se podiam ver as várias bolas de futvolei no ar, futvolando de um lado para o outro. Na areia, garotos e garotas congestionavam a beira d’água em pequenas rodinhas. Ambulantes vendendo desde “mate de limão geladão” até biquínis tomara-que-caia – sensação do inverno carioca –, passando por amendoim, brinquinho, queijo, canga e toda a parafernália praieira. Atentos ao horário – e uma boa parte do tempo de maré havia sido comida por nosso passeio de carro – disciplinadamente, saímos da praia às 16h30. A reunião com Mautner seria às 19h, no Leblon.

Quando chegamos ao apartamento do Catete, descobrimos que nosso entrevistado havia telefonado, em vão, quatro vezes. Ligamos de volta e ele parecia bem agoniado ao dizer que, mais uma vez, teríamos de adiar a entrevista. Poderia parecer que ele estava nos enrolando, mas, ao contrário, percebemos que ele queria que nosso encontro não ficasse espremido entre seus inúmeros compromissos, para que tivéssemos mais tempo. E foi assim que a entrevista ficou para as 16h do sábado, na casa dele. Sem Mautner, pela segunda vez. Que remédio? De banho tomado, mais uma vez caímos na noite carioca. Um amigo que mora lá havia recomendado um bar, que funciona também como loja de discos de vinil, sempre na Lapa. Ali haveria uma apresentação de música eletroacústica. Antes de chegar ao bar, Vanessa, nossa editora de vídeo, me explicou que era um tipo de música que “se aproxima muito do barulho”.

Nosso editor, Richard Sanches, e eu, Yasmin, em roda de bar no Rio

 

A pequena loja, à meia-luz, estava cheia de discos e de pessoas – homens em sua maioria, cada um segurando sua lata de cerveja – atentas ao artista, sentado de pernas dobradas no tapete diante de algumas maquininhas parecidas com sintetizadores, de onde saía todo o som da apresentação. Como alguém que não conhece música atonal, digo que achei a música curiosa. Identifiquei alguma coerência nas frases, elas tinham suas tensões. Finda a apresentação, nos despedimos do amigo carioca informando que iríamos a uma balada de hip hop, onde o Emicida se apresentaria, em Copacabana (desta vez, todos com RG em mãos). Nosso amigo do Rio não poderia nos acompanhar porque tinha de trabalhar: ele promovia festas noite afora. Mas não deixou de entortar a cara, dizendo que não gostava do público fã de rap: “Lá em São Paulo rap é hype, né? Aqui não”.

O bar Clandestino parecia a nós uma boa pedida. O DJ residente de sexta-feira é quem disponibiliza discos de hip hop – que muitas vezes ouvimos repetidamente – para serem baixados em um blog chamado Só Pedrada. Além disso, tínhamos visto no jornal que o Emicida faria ali um pocket show; o Rio nos dava uma segunda chance para que víssemos o rapper no palco. A balada era como qualquer outra da Vila Olímpia, em São Paulo, no que se refere aos preços das bebidas, e ao repertório do DJ, bastante comercial. O jeito era esperarmos pela apresentação do Emicida.

Enquanto tentávamos nos esconder do segurança, que já não aguentava mais pedir para as pessoas da pista apagarem os cigarros, a global Cléo Pires (a Surya da novela Caminho das Índias) se acabava de dançar perto da cabine do DJ, no centro da pista. Ao lado dela, um rapaz alto de camisa polo tentava, perseverante, ganhar a noite com a princesa indiana. Voyeures que somos, acompanhamos a empreitada do moço. Mais tarde, quando fui ao banheiro, perguntei a uma moça se ela tinha visto que a Cléo estava ali. Ela se dirigiu com desprezo e pena dizendo: “Você não é daqui não, né?”. Respondi que não, e ela emendou: “Olha, aqui no Rio a gente vê artista a toda hora. É na academia, é no calçadão, na boate… Então pega mal ficar comentando, entendeu? Você é uma pessoa melhor se você não fala disso”. A partir daí resolvi ignorar, à maneira carioca, a presença de celebrities na balada.

O show do Emicida foi ótimo. Ele vendia a sua mixtape, gravada e envelopada em uma capinha carimbada à mão, por dois reais – compramos as nossas, já que ainda não tínhamos. Era um material importante, porque queríamos entrevistá-lo para nossa edição seguinte. Uma mulher de uns 40 anos, que ficava dançando em volta do rapper, dando eventuais belisquinhos na barriga dele, ganhou homenagem no improviso: “A tiazona tá caindo em cima”. Mas nem a menção especial nem as risadas a inibiam.

Acordamos só meio-dia no sábado. Não só porque ficamos até tarde na rua, mas também porque ficamos presos para fora do apartamento de madrugada. Dois de nós voltaram um pouco mais cedo e logo mergulharam em um sono profundo. Não ouviram a campainha e os chamados – discretos para não acordar a vizinhança. Com medo de ter acontecido alguma coisa com os dois, chamamos o chaveiro, que cobrou um preço alto por ter sido tirado da cama na madrugada de domingo. Como recompensa pelo inconveniente, os dois providenciaram pão, patê, queijo e até vinagrete para o nosso brunch do dia seguinte. Naquele dia só tínhamos tempo para comer, tomar banho e reunir todas as coisas para a entrevista, às 16h; nada de conhecer o Pedregulho, conjunto habitacional na Gávea, projeto modernista da década de 1940, destinado a funcionários públicos. Muito menos ir à exposição das Vanguardas russas no CCBB, como havíamos planejando no início da viagem. Ficariam para a próxima, porque, concluída a entrevista a partir da qual redigiríamos o perfil de Mautner, era hora de partir. A rotina paulistana nos aguardava.

A equipe toda (da esquerda para a direita, Leo Eloy, Yasmin, Richard, Vanessa e Leandro), com Jorge Mautner ao centro, logo após a entrevista

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Nossa amálgama

Publicado originalmente na edição #1 da revista FIGAS, em agosto de 2009.

Com a perna engessada e apoiado numa bengala, Jorge Mautner surgia com um largo sorriso na portaria do prédio em que vive, no bairro do Leblon, para nos receber. Era sábado, nosso terceiro dia de visita ao Rio de Janeiro, e a entrevista, que havíamos marcado e remarcado tantas vezes, parecia que finalmente se concretizaria. O sentimento de triunfo, após tantas idas e vindas, era tamanho que o fato de nosso entrevistado ter esquecido a chave no apartamento e ter sido obrigado a refazer o percurso de ida e volta, mancando pelas escadas, pareceu um contratempo menor.

A sala arejada do apartamento de Mautner estava repleta de livros. Livros espalhados pela mesa de centro, nos sofás, dividindo o espaço com os retratos na prateleira. Nas paredes, fotografias em preto e branco disputavam espaço com ilustrações do Rio de Janeiro colonial. Um computador ligado, no canto do cômodo, mostrava que Mautner estava trabalhando. Assim que entramos e nos assentamos, Jorge desligou o computador e nos perguntou: “Vocês acham interessante eu criar um blog?”. Após a resposta positiva, teve início a entrevista.

Jorge nasceu Henrique George Mautner, filho de Anna Illichi, de origem iugoslava e católica, e Paul Mautner, judeu e austríaco. “Eu nasci aqui um mês depois de meus pais chegarem ao Brasil fugindo do Holocausto”, nos contou ele enquanto se sentava numa poltrona sob a janela com vistas para o jardim. No Brasil, seu pai, mesmo tendo flertado com o governo de Getúlio, continuou atuando junto à resistência judaica. Sua mãe passou a sofrer de paralisia após o trauma decorrente da impossibilidade de a irmã de Jorge ter embarcado para o Brasil com a família. Assim, até os sete anos, ele ficou sob os cuidados de Lúcia, sua babá, que era Ialorixá e foi responsável por apresentá-lo aos batuques do candomblé.

Em 1962, Jorge Mautner teve publicado seu primeiro livro, Deus da chuva e da morte, o qual começara a escrever em 1956, aos quinze anos. O livro, que carregávamos para cima e para baixo durante a viagem ao Rio, foi o primeiro volume da trilogia hoje conhecida como Mitologia do Kaos, seguido por Kaos e Narciso em tarde cinza, publicados em 1964 e 1966, respectivamente.

No pós-guerra, as literaturas europeia e norte-americana estavam impregnadas pela crise espiritual de sua juventude, e certas correntes culturais, como o pensamento existencialista de Sartre e o zen-budismo, vieram em seu auxílio

“Ouvir rock, ver a chuva, beijar uns lábios, deitar com uma ou outra carne na cama e sentir o sexo.” Permeada pelo lema juvenil da época, sexo e rock ’n’ roll, a obra trazia os primeiros apontamentos filosóficos do jovem Mautner. No pós-guerra, as literaturas europeia e norte-americana estavam impregnadas pela crise espiritual de sua juventude, e certas correntes culturais, como o pensamento existencialista de Sartre e o zen-budismo, vieram em seu auxílio. É nesse contexto que surge a literatura de Mautner, como já foi constatado pelo crítico Mario Schenberg, para quem a trilogia do Kaos surgiu como um esboço da crença de que as bases do futuro da humanidade estariam na América Latina, na África, na Ásia e na Oceania. Jorge Mautner criou o Kaos – “Kaos com k”, como ele faz questão de frisar.

Na autobiografia Verdade tropical, Caetano Veloso diz que as conversas que tinha com Mautner quando moravam em Londres foram determinantes para os tropicalistas consolidarem sua oposição à esquerda nacionalista dominante na MPB. Se por um lado o movimento ambicionava a experimentação estética, por outro desejava chegar ao nível de difusão e técnica das produções norte-americanas e inglesas, e Mautner exacerbava essa oscilação. Quando ele passou a frequentar o número 16 da rua Redesdale (endereço onde viveram Gil e Caetano no distrito de Chelsea, em Londres), chegou a formar um grupo de estudos – uma “célula gramsciniana, mas brasileira”, como nos contou – em que ele, os tropicalistas e vários outros brasileiros exilados na capital inglesa se dedicavam à discussão de textos filosóficos. Assim surgia, em 1969, um primeiro esboço do projeto Figa Brasil.

Publicado no Jornal da Tarde em 1987, o texto-manifesto “Um caráter para Macunaíma” seria o responsável por dar forma ao movimento. E foi justamente esse texto, que havia surgido para nós quase por acaso no final de 2008, o motivo que havia nos levado até o Rio. Aquelas palavras se afinavam com as intenções do nosso grupo de maneira singular e resultaram numa empatia imediata. Ao propor uma discussão ampla sobre a cultura brasileira, Jorge Mautner convidava as pessoas a se reunirem para refletir e dialogar. E anunciava: “Está na hora do Macunaíma elaborar seu caráter”, o que implicaria reconhecer a presença da pluralidade cultural do Brasil em cada um de nós, de utilizá-la de maneira que contribuísse com toda a sociedade, e não apenas em benefício próprio. “Figa Brasil é o desejo de uma alquimia que faça encontrar os que estão separados. Que faça sambar os que só escrevem, que faça escrever os que só têm sambado!”, proclamava o manifesto.

O projeto ganhou expressão com o show O poeta e o esfomeado. “Eu brincava que o Gil era o poeta e eu era o esfomeado”, nos contou Mautner naquela tarde de sábado, em meio a gargalhadas e expressões de máxima seriedade. Após o show, os músicos convidavam o público a fazer parte do movimento. Mais de 7 mil pessoas se inscreveram, mas o projeto acabou não decolando da maneira prevista, pois Gilberto Gil foi eleito vereador em Salvador em 1988. Jorge ocupou o cargo de chefe de gabinete, ou de “antichefe do antigabinete”, em suas próprias palavras. “Mesmo assim, através de cartas – veja só, de cartas! –, mantivemos contato com os inscritos por algum tempo. Foi uma pena, mas o Gil teve que se distanciar por causa da candidatura. Mas pra mim ele realizou o Figa Brasil quando foi Ministro da Cultura”, explicou. Os princípios desenvolvidos em parceria com Gil – um dos amigos cujo retrato figura em sua estante de livros – deram vazão não só a obras artísticas, mas também tiveram continuidade como embasamento das plataformas do ex-ministro.

A amálgama tem uma qualidade flutuante segundo a qual cada geração de brasileiros e brasileiras tem o dom de reinterpretar tudo num segundo, incluindo pareceres contrários, achando o caminho do meio

O Figa Brasil corroborava uma ideia de cultura brasileira que é fundamentada pela noção de amálgama. Esse termo, que faz alusão ao processo de mistura de metais na formação de ligas, foi utilizado por José Bonifácio de Andrada e Silva para se referir à capacidade de, no Brasil, as diversas culturas terem gerado algo que ia além da miscigenação. “A ideia de ‘amálgama’ vem desde os discursos e sermões do padre Antônio Vieira, passa pelo Álvares de Azevedo, Castro Alves, continua com a antropofagia do Oswald de Andrade, que é a amálgama bem vociferante, com a Tropicália, e vem até os dias hoje. Isso se tornou nossa linguagem, tão complexa e tão incrível, de humanistas totais e sem diferenças apartheideanas”, definiu Jorge. “A amálgama tem uma qualidade flutuante segundo a qual cada geração de brasileiros e brasileiras tem o dom de reinterpretar tudo num segundo, incluindo pareceres contrários, achando o caminho do meio”, filosofou o artista. Essa ideia percorre toda a obra de Mautner e o e entusiasma até hoje. Sentado, mas sem parar de se mexer, ele passava rapidamente de um momento a outro da história, alternando o pensamento sem perder a linha de raciocínio, de quando em quando sorrindo e perguntando retoricamente, “Isso não é fantástico?”.

A amálgama começou no Brasil antes de nos tornarmos Brasil, antes mesmo das terras tropicais americanas serem encontradas pelos portugueses. Segundo Mautner, ela surgiu com os tupi: “Eles já haviam atravessado o Pacífico à procura da Terra sem Males. Vinham atrás de uma misteriosa palmeira azul. A ideia deles era a de que tudo é mistério, e o mistério os criou para que eles o desvendassem. Os tupis já chegavam ao território guerreando e se miscigenando. E os bantos, o primeiro grupo africano que chegou ao Brasil, se misturou logo com os índios e trouxe o zemba, que é o samba. Mas, antes disso, já havia aqui o samba original dos nossos índios, com chocalhos. O Brasil é forjado por esses chocalhos e pelos tambores. Essa é a visão da amálgama”, concluía Mautner com empolgação. Ainda segundo ele, mesmo os portugueses já teriam chegado aqui amalgamados:

Em Portugal, eles já tinham essa visão ecumênica, resultante da influência muçulmana e do fato de serem muito pequenininhos e quererem se separar [da Espanha]. Até mesmo as navegações só tiveram sucesso porque Portugal foi o único país que, em segredo, acolheu os Templários, que estavam sendo queimados como heréticos na frente da Igreja. Portugal os acolheu com um pequeno truque, que já é uma amálgama: mudou o nome deles para Cavaleiros de Cristo. Com a chegada dos Templários, os portugueses dão um salto, porque toda aquela sabedoria que eles tinham das culturas antigas da Grécia, da cabala judaica, da Babilônia, da China e da África passou para o espírito da Coroa portuguesa.

A formulação desenvolvida pelos jesuítas, de um novo ideal que representasse as terras americanas recém-descobertas, também teve grande importância na composição da amálgama. “Anchieta e Nóbrega chegam e inventam o Brasil já numa atitude linguística. Eles pegam o tupi-guarani e transformam, facilitam, e isso vira a língua geral inhangatu (mistura de tupi e português), que vai ser falada em São Paulo até 1930, quando 70% ou 60% da população falava só essa língua. E com isso eles criam o Brasil, pelo menos na imaginação poética, já com o ideal de que aqui teria que ser a resposta não só aos erros da Igreja Católica até então, mas tentando absorver algo de útil também do protestantismo”, explicava Mautner.

Essa ideia do Brasil como um lugar utópico, de esperança da humanidade, onde nasceria a “Coisa Nova”, referida por Jorge em sua trilogia do Kaos, está presente no pensamento de muitos poetas e filósofos, reunidos e citados por Mautner na música “Outros viram”, gravada por Gil. As referências vão do poeta norte-americano Walt Whitman (“No entanto, o vértice da humanidade será o Brasil”), passando pelos filósofos Rabindranath Tagore (“A civilização do amor nascerá no Brasil”) e Jacques Maritain (“O único lugar onde a justiça e a liberdade poderão aflorar juntas é o Brasil”).

Roosevelt quando chegou aqui caiu pra trás com a nossa amálgama! Comparando com o melting pot, ele ficou desesperado

Ainda nessa música, Mautner menciona o 26º presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, o qual também sustentava um discurso racial assimilacionista, mas derivado da noção de melting pot.[1] Roosevelt, entretanto, vislumbrava uma mistura que se restringia aos judeus e àqueles de origem europeia: irlandeses, italianos etc. Em 1914, quando o ex-mandatário norte-americano veio ao Brasil, cinco anos após ter deixado o poder, Roquete Pinto e Marechal Rondon foram os responsáveis por apresentá-lo ao país. “Roosevelt quando chegou aqui caiu pra trás com a nossa amálgama! Comparando com o melting pot, ele ficou desesperado”, descreveu Mautner, para quem todo o continente americano tem potencial para a miscigenação, ainda que a amálgama de fato tenha aflorado apenas no Brasil. Para ilustrar, ele nos contou que alguns holandeses que faziam parte do grupo expulso do Nordeste brasileiro participaram da fundação de Nova York e levaram para lá características da nossa cultura. Isso explicaria a receptividade expressa em seu lema, “Bem-vindos todos que estejam aqui”. “Eles só não chegaram a fazer a amálgama, que é a grande dificuldade deles. Essa miscigenação que não se limita a misturar pai e mãe é coisa nossa. Aqui, antes mesmo de se misturarem sexualmente, um já incorpora a amálgama do outro, que flutuante vai aceitando… Esse modo de ser é o modo da descoberta do outro”, explicou.

Recentemente, Mautner publicou no jornal O Globo (de 26 de maio de 2009) o “Manifesto Amalgamista”, no qual ressalta as qualidades da mistura de culturas e traz a conclusão: “Somos todos mestiços, graças a Deus!”. Além disso, Mautner é curador de uma série de reportagens feitas para o Canal Brasil que ganhou o nome de Amálgama Brasil. Nessa série, o conceito desenvolvido por José Bonifácio é usado para dar visibilidade aos pontos de cultura espalhados pelo país. Jorge mostra que eles são parte de um projeto, iniciado pelo ministério de Gil, de valorização das expressões artísticas populares. Um lugar onde as pessoas se reúnem com a preocupação de difundir a cultura. “Eu e o Nelson Jacobina percorremos vários pontos de cultura e levamos também outros artistas já consagrados, famosos, como Caetano Veloso e Fernanda Torres, que apoiam esse projeto que em breve também produzirá seus artistas consagrados e famosos. Tem sido um trabalho de interação”, completa o autor da série.

Durante o primeiro mandato de Lula, em um carnaval em Salvador, o presidente e Gil estavam acompanhados por um casal branco muito sisudo, que parecia estar de cara feia o tempo todo. Eram o ministro da cultura da Ucrânia e sua esposa. “Eles, atônitos, se perguntavam, ‘Na Ucrânia nós investimos nos jovens e eles tristes, tristes; aqui, negrinho na bicicleta, assobiando sem dentes, todo feliz. Qual é o mistério?’”, contou Mautner, tentando imitar o sotaque ucraniano. Esse movimento de buscar na América, especificamente no Brasil, respostas para problemas sociais europeus mostra a atualidade de uma das velhas profecias mautnerianas: “Ou o mundo se brasilianiza ou vira nazista”.

Resgatar o humanismo brasileiro, que apazígua e possibilita a convivência de pessoas de origens culturais tão diferentes, e difundi-lo dentro e fora do Brasil é a missão de Jorge Mautner. Para ele, modelos europeus de cultura, tidos sempre como ideais a serem seguidos, mostram-se agora em franca decadência frente à vitalidade do Novo Mundo. Se boa parte da Europa hoje fortalece suas fronteiras e descrimina seus imigrantes, querendo responsabilizá-los por todo mal social do continente, do desemprego ao terrorismo, algumas nações do até então menosprezado terceiro mundo vão na contramão desse raciocínio. Recentemente, países latino-americanos, como o Brasil, a Bolívia e o Equador, se engajaram em oferecer cidadania plena aos imigrantes que têm recebido, regularizando seus documentos e oferecendo a possibilidade de eles elegerem seus próprios representantes nos parlamentos. As tensões, cada vez mais acirradas nas periferias europeias, se contrapõem às políticas de integração e distribuição de renda do hemisfério Sul. E a fama que a receptividade dá ao povo latino-americano se reflete na forma como se tem pensado os excluídos neste continente.

Depois de mais de duas horas de entrevista, Jorge não demonstrava ter perdido o entusiasmo do começo da tarde. Anoitecia e, depois da pujante exposição, já era hora de partirmos. Na saída, entre sorrisos e agradecimentos, ninguém escondia a felicidade. Nós, porque havíamos concluído nosso objetivo: falar com Mautner e esmiuçar os pormenores de seu manifesto. E Jorge, por ter comprovado que ideias sempre fazem eco.

 

Nota

[1] Do inglês, “caldeirão”, em referência ao “caldeirão” de raças que a América se tornou. [N. E.]