mautner

Nossa amálgama

Publicado originalmente na edição #1 da revista FIGAS, em agosto de 2009.

Com a perna engessada e apoiado numa bengala, Jorge Mautner surgia com um largo sorriso na portaria do prédio em que vive, no bairro do Leblon, para nos receber. Era sábado, nosso terceiro dia de visita ao Rio de Janeiro, e a entrevista, que havíamos marcado e remarcado tantas vezes, parecia que finalmente se concretizaria. O sentimento de triunfo, após tantas idas e vindas, era tamanho que o fato de nosso entrevistado ter esquecido a chave no apartamento e ter sido obrigado a refazer o percurso de ida e volta, mancando pelas escadas, pareceu um contratempo menor.

A sala arejada do apartamento de Mautner estava repleta de livros. Livros espalhados pela mesa de centro, nos sofás, dividindo o espaço com os retratos na prateleira. Nas paredes, fotografias em preto e branco disputavam espaço com ilustrações do Rio de Janeiro colonial. Um computador ligado, no canto do cômodo, mostrava que Mautner estava trabalhando. Assim que entramos e nos assentamos, Jorge desligou o computador e nos perguntou: “Vocês acham interessante eu criar um blog?”. Após a resposta positiva, teve início a entrevista.

Jorge nasceu Henrique George Mautner, filho de Anna Illichi, de origem iugoslava e católica, e Paul Mautner, judeu e austríaco. “Eu nasci aqui um mês depois de meus pais chegarem ao Brasil fugindo do Holocausto”, nos contou ele enquanto se sentava numa poltrona sob a janela com vistas para o jardim. No Brasil, seu pai, mesmo tendo flertado com o governo de Getúlio, continuou atuando junto à resistência judaica. Sua mãe passou a sofrer de paralisia após o trauma decorrente da impossibilidade de a irmã de Jorge ter embarcado para o Brasil com a família. Assim, até os sete anos, ele ficou sob os cuidados de Lúcia, sua babá, que era Ialorixá e foi responsável por apresentá-lo aos batuques do candomblé.

Em 1962, Jorge Mautner teve publicado seu primeiro livro, Deus da chuva e da morte, o qual começara a escrever em 1956, aos quinze anos. O livro, que carregávamos para cima e para baixo durante a viagem ao Rio, foi o primeiro volume da trilogia hoje conhecida como Mitologia do Kaos, seguido por Kaos e Narciso em tarde cinza, publicados em 1964 e 1966, respectivamente.

No pós-guerra, as literaturas europeia e norte-americana estavam impregnadas pela crise espiritual de sua juventude, e certas correntes culturais, como o pensamento existencialista de Sartre e o zen-budismo, vieram em seu auxílio

“Ouvir rock, ver a chuva, beijar uns lábios, deitar com uma ou outra carne na cama e sentir o sexo.” Permeada pelo lema juvenil da época, sexo e rock ’n’ roll, a obra trazia os primeiros apontamentos filosóficos do jovem Mautner. No pós-guerra, as literaturas europeia e norte-americana estavam impregnadas pela crise espiritual de sua juventude, e certas correntes culturais, como o pensamento existencialista de Sartre e o zen-budismo, vieram em seu auxílio. É nesse contexto que surge a literatura de Mautner, como já foi constatado pelo crítico Mario Schenberg, para quem a trilogia do Kaos surgiu como um esboço da crença de que as bases do futuro da humanidade estariam na América Latina, na África, na Ásia e na Oceania. Jorge Mautner criou o Kaos – “Kaos com k”, como ele faz questão de frisar.

Na autobiografia Verdade tropical, Caetano Veloso diz que as conversas que tinha com Mautner quando moravam em Londres foram determinantes para os tropicalistas consolidarem sua oposição à esquerda nacionalista dominante na MPB. Se por um lado o movimento ambicionava a experimentação estética, por outro desejava chegar ao nível de difusão e técnica das produções norte-americanas e inglesas, e Mautner exacerbava essa oscilação. Quando ele passou a frequentar o número 16 da rua Redesdale (endereço onde viveram Gil e Caetano no distrito de Chelsea, em Londres), chegou a formar um grupo de estudos – uma “célula gramsciniana, mas brasileira”, como nos contou – em que ele, os tropicalistas e vários outros brasileiros exilados na capital inglesa se dedicavam à discussão de textos filosóficos. Assim surgia, em 1969, um primeiro esboço do projeto Figa Brasil.

Publicado no Jornal da Tarde em 1987, o texto-manifesto “Um caráter para Macunaíma” seria o responsável por dar forma ao movimento. E foi justamente esse texto, que havia surgido para nós quase por acaso no final de 2008, o motivo que havia nos levado até o Rio. Aquelas palavras se afinavam com as intenções do nosso grupo de maneira singular e resultaram numa empatia imediata. Ao propor uma discussão ampla sobre a cultura brasileira, Jorge Mautner convidava as pessoas a se reunirem para refletir e dialogar. E anunciava: “Está na hora do Macunaíma elaborar seu caráter”, o que implicaria reconhecer a presença da pluralidade cultural do Brasil em cada um de nós, de utilizá-la de maneira que contribuísse com toda a sociedade, e não apenas em benefício próprio. “Figa Brasil é o desejo de uma alquimia que faça encontrar os que estão separados. Que faça sambar os que só escrevem, que faça escrever os que só têm sambado!”, proclamava o manifesto.

O projeto ganhou expressão com o show O poeta e o esfomeado. “Eu brincava que o Gil era o poeta e eu era o esfomeado”, nos contou Mautner naquela tarde de sábado, em meio a gargalhadas e expressões de máxima seriedade. Após o show, os músicos convidavam o público a fazer parte do movimento. Mais de 7 mil pessoas se inscreveram, mas o projeto acabou não decolando da maneira prevista, pois Gilberto Gil foi eleito vereador em Salvador em 1988. Jorge ocupou o cargo de chefe de gabinete, ou de “antichefe do antigabinete”, em suas próprias palavras. “Mesmo assim, através de cartas – veja só, de cartas! –, mantivemos contato com os inscritos por algum tempo. Foi uma pena, mas o Gil teve que se distanciar por causa da candidatura. Mas pra mim ele realizou o Figa Brasil quando foi Ministro da Cultura”, explicou. Os princípios desenvolvidos em parceria com Gil – um dos amigos cujo retrato figura em sua estante de livros – deram vazão não só a obras artísticas, mas também tiveram continuidade como embasamento das plataformas do ex-ministro.

A amálgama tem uma qualidade flutuante segundo a qual cada geração de brasileiros e brasileiras tem o dom de reinterpretar tudo num segundo, incluindo pareceres contrários, achando o caminho do meio

O Figa Brasil corroborava uma ideia de cultura brasileira que é fundamentada pela noção de amálgama. Esse termo, que faz alusão ao processo de mistura de metais na formação de ligas, foi utilizado por José Bonifácio de Andrada e Silva para se referir à capacidade de, no Brasil, as diversas culturas terem gerado algo que ia além da miscigenação. “A ideia de ‘amálgama’ vem desde os discursos e sermões do padre Antônio Vieira, passa pelo Álvares de Azevedo, Castro Alves, continua com a antropofagia do Oswald de Andrade, que é a amálgama bem vociferante, com a Tropicália, e vem até os dias hoje. Isso se tornou nossa linguagem, tão complexa e tão incrível, de humanistas totais e sem diferenças apartheideanas”, definiu Jorge. “A amálgama tem uma qualidade flutuante segundo a qual cada geração de brasileiros e brasileiras tem o dom de reinterpretar tudo num segundo, incluindo pareceres contrários, achando o caminho do meio”, filosofou o artista. Essa ideia percorre toda a obra de Mautner e o e entusiasma até hoje. Sentado, mas sem parar de se mexer, ele passava rapidamente de um momento a outro da história, alternando o pensamento sem perder a linha de raciocínio, de quando em quando sorrindo e perguntando retoricamente, “Isso não é fantástico?”.

A amálgama começou no Brasil antes de nos tornarmos Brasil, antes mesmo das terras tropicais americanas serem encontradas pelos portugueses. Segundo Mautner, ela surgiu com os tupi: “Eles já haviam atravessado o Pacífico à procura da Terra sem Males. Vinham atrás de uma misteriosa palmeira azul. A ideia deles era a de que tudo é mistério, e o mistério os criou para que eles o desvendassem. Os tupis já chegavam ao território guerreando e se miscigenando. E os bantos, o primeiro grupo africano que chegou ao Brasil, se misturou logo com os índios e trouxe o zemba, que é o samba. Mas, antes disso, já havia aqui o samba original dos nossos índios, com chocalhos. O Brasil é forjado por esses chocalhos e pelos tambores. Essa é a visão da amálgama”, concluía Mautner com empolgação. Ainda segundo ele, mesmo os portugueses já teriam chegado aqui amalgamados:

Em Portugal, eles já tinham essa visão ecumênica, resultante da influência muçulmana e do fato de serem muito pequenininhos e quererem se separar [da Espanha]. Até mesmo as navegações só tiveram sucesso porque Portugal foi o único país que, em segredo, acolheu os Templários, que estavam sendo queimados como heréticos na frente da Igreja. Portugal os acolheu com um pequeno truque, que já é uma amálgama: mudou o nome deles para Cavaleiros de Cristo. Com a chegada dos Templários, os portugueses dão um salto, porque toda aquela sabedoria que eles tinham das culturas antigas da Grécia, da cabala judaica, da Babilônia, da China e da África passou para o espírito da Coroa portuguesa.

A formulação desenvolvida pelos jesuítas, de um novo ideal que representasse as terras americanas recém-descobertas, também teve grande importância na composição da amálgama. “Anchieta e Nóbrega chegam e inventam o Brasil já numa atitude linguística. Eles pegam o tupi-guarani e transformam, facilitam, e isso vira a língua geral inhangatu (mistura de tupi e português), que vai ser falada em São Paulo até 1930, quando 70% ou 60% da população falava só essa língua. E com isso eles criam o Brasil, pelo menos na imaginação poética, já com o ideal de que aqui teria que ser a resposta não só aos erros da Igreja Católica até então, mas tentando absorver algo de útil também do protestantismo”, explicava Mautner.

Essa ideia do Brasil como um lugar utópico, de esperança da humanidade, onde nasceria a “Coisa Nova”, referida por Jorge em sua trilogia do Kaos, está presente no pensamento de muitos poetas e filósofos, reunidos e citados por Mautner na música “Outros viram”, gravada por Gil. As referências vão do poeta norte-americano Walt Whitman (“No entanto, o vértice da humanidade será o Brasil”), passando pelos filósofos Rabindranath Tagore (“A civilização do amor nascerá no Brasil”) e Jacques Maritain (“O único lugar onde a justiça e a liberdade poderão aflorar juntas é o Brasil”).

Roosevelt quando chegou aqui caiu pra trás com a nossa amálgama! Comparando com o melting pot, ele ficou desesperado

Ainda nessa música, Mautner menciona o 26º presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, o qual também sustentava um discurso racial assimilacionista, mas derivado da noção de melting pot.[1] Roosevelt, entretanto, vislumbrava uma mistura que se restringia aos judeus e àqueles de origem europeia: irlandeses, italianos etc. Em 1914, quando o ex-mandatário norte-americano veio ao Brasil, cinco anos após ter deixado o poder, Roquete Pinto e Marechal Rondon foram os responsáveis por apresentá-lo ao país. “Roosevelt quando chegou aqui caiu pra trás com a nossa amálgama! Comparando com o melting pot, ele ficou desesperado”, descreveu Mautner, para quem todo o continente americano tem potencial para a miscigenação, ainda que a amálgama de fato tenha aflorado apenas no Brasil. Para ilustrar, ele nos contou que alguns holandeses que faziam parte do grupo expulso do Nordeste brasileiro participaram da fundação de Nova York e levaram para lá características da nossa cultura. Isso explicaria a receptividade expressa em seu lema, “Bem-vindos todos que estejam aqui”. “Eles só não chegaram a fazer a amálgama, que é a grande dificuldade deles. Essa miscigenação que não se limita a misturar pai e mãe é coisa nossa. Aqui, antes mesmo de se misturarem sexualmente, um já incorpora a amálgama do outro, que flutuante vai aceitando… Esse modo de ser é o modo da descoberta do outro”, explicou.

Recentemente, Mautner publicou no jornal O Globo (de 26 de maio de 2009) o “Manifesto Amalgamista”, no qual ressalta as qualidades da mistura de culturas e traz a conclusão: “Somos todos mestiços, graças a Deus!”. Além disso, Mautner é curador de uma série de reportagens feitas para o Canal Brasil que ganhou o nome de Amálgama Brasil. Nessa série, o conceito desenvolvido por José Bonifácio é usado para dar visibilidade aos pontos de cultura espalhados pelo país. Jorge mostra que eles são parte de um projeto, iniciado pelo ministério de Gil, de valorização das expressões artísticas populares. Um lugar onde as pessoas se reúnem com a preocupação de difundir a cultura. “Eu e o Nelson Jacobina percorremos vários pontos de cultura e levamos também outros artistas já consagrados, famosos, como Caetano Veloso e Fernanda Torres, que apoiam esse projeto que em breve também produzirá seus artistas consagrados e famosos. Tem sido um trabalho de interação”, completa o autor da série.

Durante o primeiro mandato de Lula, em um carnaval em Salvador, o presidente e Gil estavam acompanhados por um casal branco muito sisudo, que parecia estar de cara feia o tempo todo. Eram o ministro da cultura da Ucrânia e sua esposa. “Eles, atônitos, se perguntavam, ‘Na Ucrânia nós investimos nos jovens e eles tristes, tristes; aqui, negrinho na bicicleta, assobiando sem dentes, todo feliz. Qual é o mistério?’”, contou Mautner, tentando imitar o sotaque ucraniano. Esse movimento de buscar na América, especificamente no Brasil, respostas para problemas sociais europeus mostra a atualidade de uma das velhas profecias mautnerianas: “Ou o mundo se brasilianiza ou vira nazista”.

Resgatar o humanismo brasileiro, que apazígua e possibilita a convivência de pessoas de origens culturais tão diferentes, e difundi-lo dentro e fora do Brasil é a missão de Jorge Mautner. Para ele, modelos europeus de cultura, tidos sempre como ideais a serem seguidos, mostram-se agora em franca decadência frente à vitalidade do Novo Mundo. Se boa parte da Europa hoje fortalece suas fronteiras e descrimina seus imigrantes, querendo responsabilizá-los por todo mal social do continente, do desemprego ao terrorismo, algumas nações do até então menosprezado terceiro mundo vão na contramão desse raciocínio. Recentemente, países latino-americanos, como o Brasil, a Bolívia e o Equador, se engajaram em oferecer cidadania plena aos imigrantes que têm recebido, regularizando seus documentos e oferecendo a possibilidade de eles elegerem seus próprios representantes nos parlamentos. As tensões, cada vez mais acirradas nas periferias europeias, se contrapõem às políticas de integração e distribuição de renda do hemisfério Sul. E a fama que a receptividade dá ao povo latino-americano se reflete na forma como se tem pensado os excluídos neste continente.

Depois de mais de duas horas de entrevista, Jorge não demonstrava ter perdido o entusiasmo do começo da tarde. Anoitecia e, depois da pujante exposição, já era hora de partirmos. Na saída, entre sorrisos e agradecimentos, ninguém escondia a felicidade. Nós, porque havíamos concluído nosso objetivo: falar com Mautner e esmiuçar os pormenores de seu manifesto. E Jorge, por ter comprovado que ideias sempre fazem eco.

 

Nota

[1] Do inglês, “caldeirão”, em referência ao “caldeirão” de raças que a América se tornou. [N. E.]