{"id":1345,"date":"2018-10-15T05:19:06","date_gmt":"2018-10-15T08:19:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=1345"},"modified":"2018-10-15T05:19:06","modified_gmt":"2018-10-15T08:19:06","slug":"o-que-buscamos-e-reformular-criterios-uma-entrevista-com-andrea-giunta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2018\/10\/15\/o-que-buscamos-e-reformular-criterios-uma-entrevista-com-andrea-giunta\/","title":{"rendered":"&#8220;O que buscamos \u00e9 transformar crit\u00e9rios&#8221;: uma entrevista com Andrea Giunta"},"content":{"rendered":"<p><em><span class=\"wpsdc-drop-cap\">H<\/span>istoriadora, curadora, docente e pesquisadora da arte argentina, latino-americana e internacional do per\u00edodo do p\u00f3s-guerra at\u00e9 a atualidade, Andrea Giunta se diferencia de muitos colegas de sua \u00e1rea por pensar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica para al\u00e9m de sua dimens\u00e3o puramente est\u00e9tica. Sempre preocupada com quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais, desde a d\u00e9cada de 1990 ela tem se dedicado ao estudo das rela\u00e7\u00f5es entre arte e feminismo. No Brasil, al\u00e9m da curadoria de <\/em>Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985<em>, realizada em parceria com Cecilia Fajardo-Hill, ela tamb\u00e9m organizou a mostra <\/em>Le\u00f3n Ferrari: retrospectiva, 1954-2004<em>, na mesma Pinacoteca de S\u00e3o Paulo, e recentemente foi escolhida para ser a curadora-chefe da 12\u00aa\u00a0Bienal do Mercosul, a ser realizada em abril de 2020 em Porto Alegre.<\/em><\/p>\n<p><em>Em entrevista \u00e0 <\/em>FIGAS<em>, Andrea fala sobre feminismo, a presen\u00e7a das mulheres no campo das artes, a conjuntura social e pol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina e, claro, sobre a experi\u00eancia de organizar uma mostra t\u00e3o extensa e plural como\u00a0<\/em>Mulheres radicais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Desde a d\u00e9cada de 1990 voc\u00ea investiga a obra de algumas artistas latino-americanas, como Ana Mendieta e Graciela Sacco, para citar dois ensaios publicados no livro <a href=\"http:\/\/www.sigloxxieditores.com.ar\/fichaLibro.php?libro=978-987-629-181-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Escribir las im\u00e1genes: ensayos sobre arte argentino y latinoamericano<\/em><\/a>.\u00a0 Neste ano voc\u00ea lan\u00e7ou a obra <a href=\"http:\/\/www.sigloxxieditores.com.ar\/fichaLibro.php?libro=978-987-629-823-0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Feminismo y arte latinoamericano: <\/em><\/a><\/strong><strong><em>historias de artistas que emanciparon el cuerpo<\/em><\/strong><strong>. E, no ano passado, junto com Cecilia Fajardo-Hill, organizou a mostra <em>Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985<\/em>, que passou por Los Angeles, Brooklyn e atualmente est\u00e1 na Pinacoteca, em S\u00e3o Paulo. Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre sua rela\u00e7\u00e3o com as quest\u00f5es de g\u00eanero e feminismo a partir de uma perspectiva latino-americana?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 verdade. Comecei a trabalhar a partir de uma perspectiva de g\u00eanero nos anos 1990. Segui por esse caminho at\u00e9 2008, quando publiquei na revista espanhola <em>ExitBook<\/em> um artigo sobre arte e feminismo na Am\u00e9rica Latina. Foi precisamente por conta desse artigo que Cecilia Fajardo-Hill chegou a mim em 2010, quando come\u00e7amos, ent\u00e3o, as conversas sobre a exposi\u00e7\u00e3o [<em>Mulheres radicais<\/em>], a qual se materializou sete anos mais tarde. Ao longo das pesquisas, comecei a trabalhar com outros dados que provinham de estat\u00edsticas, n\u00e3o da teoria. As perspectivas de g\u00eanero e a teoria me permitiam resolver problemas que na pr\u00e1tica estavam quase intactos e que se materializaram por essa escassa representa\u00e7\u00e3o das mulheres no mundo da arte. Nesse sentido, comecei a realizar um duplo trabalho. Por um lado, desarmar os ideologemas<a id=\"_ftnref1\" href=\"\/revista\/#_ftn1\">[1]<\/a> que mant\u00eam o <em>status quo <\/em>do mundo da arte \u2013 no\u00e7\u00f5es como \u201cqualidade\u201d ou \u201cgueto\u201d, usadas para se referir a exposi\u00e7\u00f5es que s\u00f3 apresentam artistas mulheres \u2013 a partir do trabalho com estat\u00edsticas. Por outro, focar em casos que possibilitassem uma abordagem, com instrumentos espec\u00edficos, de obras que praticamente n\u00e3o s\u00e3o analisadas ou que sequer s\u00e3o denominadas como obras. Por exemplo, os filmes feministas de Mar\u00eda Luisa Bemberg ou a obra de Nelbia Romero.<\/p>\n<blockquote><p>Chegamos a 2015 com elevados \u00edndices de feminic\u00eddio e de viol\u00eancia contra a mulher, bem como com o status de ilegalidade do aborto. Isso quer dizer que pontos b\u00e1sicos da agenda pensada nos anos 1960 continuam em aberto<\/p><\/blockquote>\n<p>No entanto, \u00e9 claro que tenho consci\u00eancia de que, se ficarmos presos apenas aos n\u00fameros, tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiremos mudar os paradigmas. Isso s\u00f3 vai acontecer, acredito, com o estudo das obras, com hip\u00f3teses espec\u00edficas, com trabalho de [constitui\u00e7\u00e3o de] arquivos, com densidade anal\u00edtica. Esse longo processo de investiga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m me permitiu compreender por que n\u00e3o houve na maior parte da Am\u00e9rica Latina um feminismo compar\u00e1vel com a articula\u00e7\u00e3o que existiu, por exemplo, no M\u00e9xico. Minhas conclus\u00f5es s\u00e3o semelhantes \u00e0quelas apresentadas por Roberta Barros em seu excelente livro <em>Elogio ao toque, ou como falar de arte feminista \u00e0 brasileira<\/em>, que acabo de descobrir e ler. A pol\u00edtica de esquerda n\u00e3o apoiou os movimentos feministas por consider\u00e1-los burgueses e em descompasso com uma milit\u00e2ncia que propunha a transforma\u00e7\u00e3o completa da sociedade. As ditaduras, por sua vez, eliminavam toda possibilidade de associa\u00e7\u00e3o para a luta por qualquer direito. Quando a democracia retornou, a situa\u00e7\u00e3o era outra, j\u00e1 n\u00e3o se falava de feminismo sem se falar de g\u00eanero, e foi por meio dos estudos de g\u00eanero, os quais iam se estabelecendo em diversas universidades, que a problem\u00e1tica da mulher adentrou o debate acad\u00eamico. Esses estudos se institu\u00edam, como se sabe, a partir de perspectivas n\u00e3o essencialistas e abarcavam agendas <em>queer<\/em>, LGBT, intersecionais.<a id=\"_ftnref2\" href=\"\/revista\/#_ftn2\">[2]<\/a> No entanto, chegamos a 2015 com elevados \u00edndices de feminic\u00eddio e de viol\u00eancia contra a mulher, bem como com o status de ilegalidade do aborto. Isso quer dizer que pontos b\u00e1sicos da agenda pensada nos anos 1960 continuam em aberto; por exemplo: os grupos que se manifestavam pela descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto n\u00e3o tinham uma presen\u00e7a massiva. Tudo isso mudou na Argentina desde 2015, e esse movimento vem crescendo. A campanha pela liberdade de interromper a gravidez n\u00e3o teve ader\u00eancia instant\u00e2nea. H\u00e1 hist\u00f3rias de que se baixavam os cartazes verdes das primeiras fileiras de manifesta\u00e7\u00f5es contra o feminic\u00eddio. Hoje todas essas lutas se fundiram. No Brasil, por exemplo, o feminismo negro, intersecional, \u00e9 muito forte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em algumas entrevistas voc\u00ea mencionou que o feminismo n\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica de confronta\u00e7\u00e3o, mas um instrumento pedag\u00f3gico de transforma\u00e7\u00e3o. Como mobilizar esse vi\u00e9s pedag\u00f3gico no sistema da arte? Essa estrat\u00e9gia se aproximaria da do movimento <a href=\"http:\/\/nosotrasproponemos.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Nosotras Proponemos<\/em><\/a>? Poderia falar um pouco sobre essa proposta fundamental que tem sido desenvolvida na Argentina? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 claro que sempre h\u00e1 elementos de confronto. Evidenciar as desigualdades, ou os agentes que se voltam predominantemente contra os corpos das mulheres, envolve uma forma de confronta\u00e7\u00e3o da verdade. Mas aprendemos que o punitivismo n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. Que \u00e9 necess\u00e1rio explicar, argumentar, e que a empatia \u2013 a capacidade de identifica\u00e7\u00e3o com a injusti\u00e7a praticada contra as mulheres, contra os corpos, a desigualdade em termos de sal\u00e1rios e, no campo da arte, a forma excludente como ela funciona \u2013, todas essas possibilidades de identifica\u00e7\u00e3o, de conhecimento podem produzir uma transforma\u00e7\u00e3o mais efetiva que o castigo. Trata-se, por outro lado, de um processo de transforma\u00e7\u00e3o que todos temos de aprender, pois as estruturas patriarcais tamb\u00e9m atravessam as mulheres [tamb\u00e9m se expressam e se reproduzem nas pr\u00e1ticas delas].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1381\" aria-describedby=\"caption-attachment-1381\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1381\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/nosotras-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"467\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1381\" class=\"wp-caption-text\">Andrea em meio a outras integrantes do Nosotras Proponemos durante as manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3-direito ao aborto, na Argentina. Fotografia gentilmente cedida por <a href=\"\/revista\/jaquealarte.com\">Jaque Al Arte<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O <a href=\"http:\/\/nosotrasproponemos.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Nosotras Proponemos<\/em><\/a> levanta pr\u00e1ticas muito concretas de discrimina\u00e7\u00e3o no mundo da arte. Por exemplo: se, por um lado, algo em torno de 60% do corpo discente das escolas de arte, em m\u00e9dia, \u00e9 constitu\u00eddo por mulheres, por outro sua representa\u00e7\u00e3o no mercado da arte \u00e9 de, mais ou menos, 20%. Com o <em>Nosotras<\/em>, trabalhamos pela representa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria nesse meio, e recentemente conseguimos que o regulamento do Sal\u00e3o Nacional de Artes Visuais [da Argentina] passasse a incluir uma cl\u00e1usula de representa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria. Tamb\u00e9m enfocamos estrat\u00e9gias de visibilidade que permitam ao p\u00fablico compreender que as artistas mulheres representam menos de 10% das cole\u00e7\u00f5es que integram museus de arte. E ao mesmo tempo participamos intensamente da campanha pela legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, contra a legisla\u00e7\u00e3o que vem ganhando espa\u00e7o na Argentina \u2013 que imp\u00f5e a repress\u00e3o da express\u00e3o p\u00fablica nas ruas \u2013, contra a redu\u00e7\u00e3o dos minist\u00e9rios, contra os cortes no financiamento da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, da pesquisa cient\u00edfica, contra as demiss\u00f5es e o endividamento p\u00fablicos. Quer dizer, temos ao mesmo tempo uma agenda espec\u00edfica e uma agenda geral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como os crit\u00e9rios de qualidade contribu\u00edram para a exclus\u00e3o e a invisibilidade de artistas mulheres ao longo do s\u00e9culo XX?<\/strong><\/p>\n<p>Os crit\u00e9rios de qualidade n\u00e3o s\u00e3o claros nem regulares, dependem de cada curador, s\u00e3o conjunturais, mudam. A no\u00e7\u00e3o de qualidade \u00e9 um ideologema que se enuncia cada vez que se fala de representa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria: na arte, n\u00e3o importaria o g\u00eanero, mas a \u201cqualidade\u201d. Mas ningu\u00e9m pode definir o que \u00e9 qualidade. Ent\u00e3o o gosto dominante, que est\u00e1 formatado por crit\u00e9rios patriarcais \u2013 as obras que vemos s\u00e3o sempre de artistas homens, s\u00e3o as que conhecemos e que por isso as apreciamos, por isso pensamos que s\u00e3o boas \u2013 que se reproduzem em estere\u00f3tipos e deixam a cidadania sem a possibilidade de expandir seu sentido est\u00e9tico, seu conhecimento, seus afetos. A curadoria de Waltercio Caldas na [33\u00aa] Bienal de S\u00e3o Paulo \u00e9 um bom exemplo de patriarcado est\u00e9tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Muitas artistas da exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se identificaram com a pauta feminista no per\u00edodo demarcado pela mostra (1960-1985); no entanto, o discurso feminista e o ativismo pol\u00edtico conformaram para elas um horizonte cr\u00edtico da maior import\u00e2ncia. Como a pauta feminista contribuiu para a radicaliza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas experimentais? E como a metodologia que voc\u00ea chama de <em>feminismo art\u00edstico<\/em>, ou seja, uma historiografia que abranja a pauta feminista, foi mobilizada na curadoria de <em>Mulheres radicais<\/em>? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o classificamos as artistas [que integram a exposi\u00e7\u00e3o <em>Mulheres radicais<\/em>] como feministas. Partimos das identifica\u00e7\u00f5es delas mesmas. Por isso o que h\u00e1 na exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas um eixo tem\u00e1tico, uma parte da mostra, sobre feminismo. \u00c9 claro que nossa decis\u00e3o de expor apenas mulheres parte de nosso pr\u00f3prio<\/p>\n<figure id=\"attachment_1382\" aria-describedby=\"caption-attachment-1382\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1382\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Mulheres_Radicais_06_SET_2018_IM-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1382\" class=\"wp-caption-text\">Imagem do banner da exposi\u00e7\u00e3o <em>Mulheres radicais<\/em> na fachada da Pinacoteca de S\u00e3o Paulo. Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>feminismo: exibimos obras de 125 mulheres, das quais os especialistas n\u00e3o conhecem mais que trinta, com vistas justamente a expandir sua visibilidade, para que o p\u00fablico pudesse acessar as obras que estavam ocultas. Recentemente me escreveu Luis Camnitzer, que a princ\u00edpio se opunha \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o dessa exposi\u00e7\u00e3o, e agora reconhecia estar gratamente surpreendido. Disse que se fosse reeditar seu livro sobre conceitualismo,<a id=\"_ftnref3\" href=\"\/revista\/#_ftn3\">[3]<\/a> teria de reescrev\u00ea-lo todo, e que lamentava n\u00e3o ter podido ver essa profus\u00e3o de obras. \u00c9 isto o que buscamos: transformar crit\u00e9rios.<\/p>\n<blockquote><p>Nossa perspectiva como curadoras e historiadoras \u00e9 feminista. E, nesse sentido, esta \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o feminista. Mas isso n\u00e3o quer dizer que as artistas sejam feministas<\/p><\/blockquote>\n<p>Creio que a exposi\u00e7\u00e3o se investe de uma grande generosidade, porque est\u00e1 belamente desenhada e fornece ao espectador muitos instrumentos para compreender as diversas obras. A arte \u00e9 experi\u00eancia; em primeiro lugar, por meio do contato com as obras, evidentemente. Mas, \u00e0 medida que se conhece mais sobre o que o artista pensou, sobre as circunst\u00e2ncias nas quais a obra foi realizada, o gozo se expande. Em termos gerais, reconhe\u00e7am-se elas como feministas ou simplesmente como artistas mulheres, essas artistas estiveram imersas em um horizonte hist\u00f3rico que continuamente ativava uma agenda feminista, que punha em relevo a forma como se dava a transforma\u00e7\u00e3o social do lugar da mulher. \u00c9 por isso que as selecionamos. Nossa perspectiva como curadoras e historiadoras \u00e9 feminista. E, nesse sentido, esta \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o feminista. Mas isso n\u00e3o quer dizer que as artistas sejam feministas. Muitas, inclusive, afirmam isso. Por exemplo, muitas artistas brasileiras: no Brasil, arte e feminismo n\u00e3o se vincularam entre os anos 1960 e 1980.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Vivemos um momento de ascens\u00e3o das pautas moralistas e conservadoras conduzidas pela direita e extrema direita latino-americanas, que buscam regular cada vez mais o corpo das mulheres. No Brasil, h\u00e1 fatos reais alarmantes, como o crescimento do feminic\u00eddio e, mais recentemente, a execu\u00e7\u00e3o da vereadora e ativista pol\u00edtica Marielle Franco. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o <em>Mulheres radicais<\/em>, o enfoque conceitual da curadoria se ampara na ideia de que o corpo pol\u00edtico deflagrou uma virada iconogr\u00e1fica radical nas representa\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o existentes, potencializando uma nova sensibilidade para al\u00e9m do corpo social e moralmente estabelecido. Nesse sentido, qual a import\u00e2ncia de uma proposta curatorial como a desta exposi\u00e7\u00e3o para ampliar o debate sobre o corpo da mulher na atualidade?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s pensamos a no\u00e7\u00e3o de corpo pol\u00edtico, que \u00e9 um conceito muito rico e muito complexo, de diferentes maneiras. Em primeiro lugar, porque muitas dessas obras foram realizadas em situa\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia extrema, durante a ditadura. Outras foram realizadas em rela\u00e7\u00e3o com a milit\u00e2ncia e o compromisso pol\u00edtico, acreditando que fosse poss\u00edvel uma transforma\u00e7\u00e3o da sociedade (Margarita Paksa ou Gracia Barrios, por exemplo). E tamb\u00e9m nos referimos ao corpo pol\u00edtico porque muitas das artistas estiveram presas ou exiladas. E \u00e9 igualmente pol\u00edtico porque elas atuaram sobre os acordos est\u00e9ticos estabelecidos: as iconografias do feminino estavam predominantemente nas m\u00e3os dos artistas homens, que foram os que realizaram 99% dos nus que conhecemos na hist\u00f3ria da arte. Trata-se de um olhar externo, patriarcal, guiado pelo desejo<\/p>\n<figure id=\"attachment_1383\" aria-describedby=\"caption-attachment-1383\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1383\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/marielle-300x296.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"394\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1383\" class=\"wp-caption-text\">Placa da rua que homenageia Marielle Franco no Rio de Janeiro, quebrada por partid\u00e1rios da extrema direita durante a campanha presidencial de 2018 e substitu\u00edda por iniciativa dos progressistas. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>masculino. O que a exposi\u00e7\u00e3o faz \u00e9 evidenciar que o corpo \u00e9 observado, experimentado, conceitualizado a partir de um olhar interno, que navega o corpo, que o representa de uma maneira nova, quase sem precedentes. Por isso, no meu ensaio no cat\u00e1logo me refiro a um giro iconogr\u00e1fico radical: temas que nunca haviam sido representados come\u00e7am a s\u00ea-lo. Sob essa perspectiva, considero que essas artistas produziram a maior contribui\u00e7\u00e3o da arte do p\u00f3s-guerra at\u00e9 o presente. Por fim, o sentido pol\u00edtico do corpo tamb\u00e9m reside no fato de que utilizaram seus pr\u00f3prios corpos como ponto de partida e objeto de explora\u00e7\u00e3o e de investiga\u00e7\u00e3o, levando-os a extremos in\u00e9ditos, e recorreram, ademais, \u00e0s linguagens mais experimentais: a performance, o v\u00eddeo, a fotografia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><h8>Notas<\/h8><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn1\" href=\"\/revista\/#_ftnref1\">[1]<\/a> Crit\u00e9rios ou princ\u00edpios que garantem a coes\u00e3o e a coer\u00eancia de um discurso social. [N. E.]<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn2\" href=\"\/revista\/#_ftnref2\">[2]<\/a> Intersecionalidade \u00e9 um termo que busca expressar que a luta feminista n\u00e3o \u00e9 nem pode ser uniforme porque mulheres em diferentes condi\u00e7\u00f5es vivenciam sua experi\u00eancia feminina de formas diferentes, estando, portanto, submetidas a outras formas de sujei\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aquelas experimentadas por mulheres brancas, heterossexuais, cisg\u00eaneras e sem defici\u00eancias. Ainda que essa no\u00e7\u00e3o j\u00e1 circulasse nas discuss\u00f5es do movimento feminista, associa-se a cunhagem do termo \u00e0 advogada e defensora de direitos civis Kimberl\u00e9 Williams Crenshaw, que o teria formulado em um trabalho apresentado no F\u00f3rum de Direito de 1989 da Universidade de Chicago com o t\u00edtulo <a href=\"https:\/\/chicagounbound.uchicago.edu\/cgi\/viewcontent.cgi?article=1052&amp;context=uclf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cDemarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics\u201d<\/a> [Desmarginalizando a interse\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e sexo: uma cr\u00edtica feminista negra da doutrina antidiscrimina\u00e7\u00e3o, da teoria feminista e da pol\u00edtica antirracista]. Nas palavras da autora, intersecionalidade expressa \u201cA vis\u00e3o de que as mulheres experimentam a opress\u00e3o em configura\u00e7\u00f5es variadas e em diferentes graus de intensidade. Padr\u00f5es culturais de opress\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 est\u00e3o interligados, mas tamb\u00e9m est\u00e3o unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade. Exemplos disso incluem: ra\u00e7a, g\u00eanero, classe, capacidades e etnia\u201d. [N. E.]<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn3\" href=\"\/revista\/#_ftnref3\">[3]<\/a> Camnitzer, <em>Conceptualism in Latin American Art:<\/em> <em>Didactics of Liberation<\/em>. Austin: University of Texas Press, 2007.<\/h7><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Historiadora, curadora, docente e pesquisadora da arte argentina, latino-americana e internacional do per\u00edodo do p\u00f3s-guerra at\u00e9 a atualidade, Andrea Giunta se diferencia de muitos colegas de sua \u00e1rea por pensar a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica para al\u00e9m de sua dimens\u00e3o puramente est\u00e9tica. Sempre preocupada com quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais, desde a d\u00e9cada de 1990 ela tem se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1346,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[38,39,30,40,34,41,37],"class_list":["post-1345","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cores-quentes","tag-america-latina","tag-andrea-giunta","tag-arte","tag-entrevista","tag-feminismo","tag-mulheres-radicais","tag-politica"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1345"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1345\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}