{"id":1807,"date":"2020-04-30T13:37:28","date_gmt":"2020-04-30T16:37:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=1807"},"modified":"2020-04-30T13:37:28","modified_gmt":"2020-04-30T16:37:28","slug":"progressismo-a-varejo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/04\/30\/progressismo-a-varejo\/","title":{"rendered":"Progressismo a varejo"},"content":{"rendered":"<span class=\"wpsdc-drop-cap\">Q<\/span>uando eu era menino, me disseram que quem n\u00e3o escolhe lado algum j\u00e1 escolheu um dos lados. Ouvi isso muitas outras vezes mais tarde, de v\u00e1rias outras bocas \u2014 e, olhando em retrospecto, percebo agora que, em todas as ocasi\u00f5es, essa posi\u00e7\u00e3o era uma varia\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o oprimido-opressor, que dizia: quem n\u00e3o escolhe um lado resvala necessariamente para o do opressor. Ali\u00e1s, isso estava em estrita conson\u00e2ncia com o modo correto de definir o espectro pol\u00edtico: do lado de l\u00e1 os opressores, os burgueses, os ricos e defensores dos ricos, os inimigos dos trabalhadores, os apologetas do capitalismo e devotos da m\u00e3o invis\u00edvel; do lado de c\u00e1 os oprimidos (e seus simpatizantes), os pobres (e seus simpatizantes), os trabalhadores (e seus simpatizantes), os anticapitalistas e os crentes no poder equitativo do Estado.<\/p>\n<p>Agora que sou mais velho, essa caracteriza\u00e7\u00e3o dos dois lados me parece menos convincente. Os pap\u00e9is de opressor e de oprimido por vezes s\u00e3o claros, mas nem sempre, e o conceito de \u201cclasse\u201d que d\u00e1 suporte a essa oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fatil, mas n\u00e3o tem a aplicabilidade universal que eu costumava esperar dele. O que aquela frase de efeito faz \u2014 \u201cquem n\u00e3o escolhe lado algum j\u00e1 escolheu um dos lados\u201d \u2014 \u00e9 conferir dimens\u00f5es desproporcionais para tra\u00e7os reais do objeto que ela representa. Assim, se marcamos uma risca no nosso campinho e dizemos: \u201cdaqui pra c\u00e1, os vermelhos, daqui pra l\u00e1, os amarelos\u201d, \u00e9 \u00f3bvio que n\u00e3o esgotamos o espectro das cores \u2014 mas talvez a divis\u00e3o nos mostre algo a respeito de como essas cores se op\u00f5em e, com isso, nos ensine algo a respeito do espectro ele mesmo. Colocando um gr\u00e3o de sal naquela palavra de ordem, talvez a coisa fique mais ou menos assim: n\u00e3o \u00e9 que quem n\u00e3o escolhe lado algum j\u00e1 escolheu um dos lados; o fato \u00e9 que quando falamos de futebol, pol\u00edtica ou religi\u00e3o, quando decidimos em qual supermercado faremos nossas compras, qual o nosso servi\u00e7o de <em>streaming<\/em>, se iremos de \u00f4nibus, uber, 99 ou t\u00e1xi, se milho ou puro malte, se fazemos um bate-volta para Praia Grande ou se achamos essa ideia repugnante, se vamos ou n\u00e3o postar um coment\u00e1rio mordaz em uma rede social \u2014 em cada um desses casos n\u00f3s nos colocamos ao lado de algu\u00e9m. Nem sempre estaremos ombro a ombro com as mesmas pessoas, mas em cada um desses casos tendemos a nos situar num mesmo campo, com o mesmo time. E, ainda que o mundo n\u00e3o seja t\u00e3o simples, isso n\u00e3o muda o fato de que cada uma de nossas a\u00e7\u00f5es \u00e9 animada por valores \u2014 que podem, com alguma imprecis\u00e3o, ser colocados em uma destas duas caixinhas: ou apostamos na nossa capacidade de construir um futuro diferente do passado, ou brigamos contra quem quer um futuro diferente do passado; ou somos progressistas ou conservadores.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o \u00e9 como se argumentos, esclarecimentos ou boa vontade bastassem para inverter posi\u00e7\u00f5es. [&#8230;] E se, do alto de nossa intelectualidade esquerdista, julgamos que podemos \u201cdesconstruir\u201d a posi\u00e7\u00e3o do nosso interlocutor, rapidamente percebemos que nossas chaves Philips n\u00e3o entram nas fendas dos parafusos com os quais os conservadores constroem o seu mundo<\/p><\/blockquote>\n<p>Esse desenho do espectro pol\u00edtico em dois campos valorativos deve nos ajudar a entender algo que est\u00e1 cada vez mais claro em nossas conversas sobre pol\u00edtica nos \u00faltimos anos. Quando os conservadores se op\u00f5em aos progressistas, ou vice-versa, o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o s\u00e3o discord\u00e2ncias. N\u00e3o \u00e9 como se argumentos, esclarecimentos ou boa vontade bastassem para inverter posi\u00e7\u00f5es. E quando pensamos \u201cn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que ela n\u00e3o perceba que&#8230;\u201d, ou \u201cele n\u00e3o pode ser t\u00e3o est\u00fapido a ponto de realmente achar que&#8230;\u201d, incorremos no erro de imaginar que o mundo do lado de c\u00e1 do campinho \u00e9 formado da mesma mat\u00e9ria que o mundo do lado de l\u00e1. N\u00e3o \u00e9. E se, do alto de nossa intelectualidade esquerdista, julgamos que podemos \u201cdesconstruir\u201d a posi\u00e7\u00e3o do nosso interlocutor, rapidamente percebemos que nossas chaves Philips n\u00e3o entram nas fendas dos parafusos com os quais os conservadores constroem o seu mundo. Se, por exemplo, nos parece absurdo o encarceramento em massa, a eles parece absurdo cuidar de bandido; se os oligop\u00f3lios de comunica\u00e7\u00e3o nos parecem um desservi\u00e7o ao jornalismo e \u00e0 liberdade de express\u00e3o, eles lutariam at\u00e9 mesmo ao lado da Rede Globo, esse antro gayzista de <em>fake news<\/em>, para defender&#8230; a liberdade de express\u00e3o; se para n\u00f3s a escola laica deve educar os jovens, para eles a fam\u00edlia \u00e9 inviol\u00e1vel em seu direito de passar adiante suas cren\u00e7as. N\u00e3o h\u00e1 conversa poss\u00edvel aqui, porque cada lado monta o problema com pe\u00e7as inacess\u00edveis \u00e0s ferramentas de que o outro lado disp\u00f5e. De uns anos para c\u00e1, \u00e9 excesso de credulidade pensar que \u00e9 poss\u00edvel um \u201ctrabalho de esclarecimento\u201d; estamos em p\u00e9 de guerra, e o trabalho a ser feito \u00e9 o da disputa. De um lado, os valores de quem acha que bom mesmo \u00e9 aquilo que os nossos av\u00f3s j\u00e1 sabiam e faziam, e que veem em Trump e Bolsonaro a promessa da retomada de um mundo perdido, mas recuper\u00e1vel; de outro, os valores de quem v\u00ea a humanidade como destinada a se transformar indefinidamente, e que usar\u00e1 e abusar\u00e1 da tradi\u00e7\u00e3o apenas como um meio de autossupera\u00e7\u00e3o e ininterrupto melhoramento. Os amarelinhos e os vermelhinhos, se voc\u00eas quiserem.<\/p>\n<p>Agora, se nos convencemos de que a briga \u00e9 por valores, precisamos ent\u00e3o explor\u00e1-los e examin\u00e1-los meticulosamente; precisamos auscultar onde nos doem mais os avan\u00e7os do lado de l\u00e1; precisamos achar o calcanhar de Aquiles deles, e lan\u00e7ar ali as nossas flechas. Se, em algumas situa\u00e7\u00f5es, o brasileiro exibe os apetites mais regressivos, em outras ele levanta sua cabe\u00e7a acima do nevoeiro espesso que \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o e mira objetivos mais distantes \u2014 precisamos entender essas situa\u00e7\u00f5es uma a uma. Como a guerra aqui n\u00e3o se faz por aniquila\u00e7\u00e3o, mas por ganho de terreno, precisamos buscar as estrat\u00e9gias para, por vezes, tirar a for\u00e7a e o peso dos valores regressivos, e, por vezes, colocar toda a for\u00e7a e o peso nos valores progressistas \u2014 e, com isso, trazer aliados \u00e0s nossas fileiras. Qualquer que seja a estrat\u00e9gia, devemos antes organizar nossa casa e entender o opositor. Isso implica entender quais valores nos unem e, talvez mais importante que isso, entender profundamente como operam os valores que se op\u00f5em \u00e0s nossas formas de vida e \u00e0s formas de vida que queremos, e iremos, implementar.<\/p>\n<p>Trata-se, acima de tudo, de um trabalho lento e diligente, de pequenos avan\u00e7os de compreens\u00e3o e pequenas tomadas de territ\u00f3rio. Os progressos que fizermos em nossa disputa de valores ser\u00e3o muito gradativos. Por isso nossas reflex\u00f5es ter\u00e3o de ser vendidas de porta em porta, \u00e0 boca pequena. Nosso progressismo, a partir de agora, ser\u00e1 assim: a varejo \u2014 pois passou o tempo em que pens\u00e1vamos por atacado, em grandes temas, com esperan\u00e7as de conquistas grandiosas e largos avan\u00e7os. Com um passo de cada vez \u2014 \u00e9 assim que, como progressistas, avan\u00e7aremos.<\/p>\n<p><em>Giovanni Rossi \u00e9 doutor em filosofia, com pesquisas em l\u00f3gica, \u00e9tica e filosofia da linguagem. Hoje atua como professor no ensino m\u00e9dio e em universidades.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu era menino, me disseram que quem n\u00e3o escolhe lado algum j\u00e1 escolheu um dos lados. 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