{"id":1815,"date":"2020-05-11T21:47:05","date_gmt":"2020-05-12T00:47:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=1815"},"modified":"2020-05-11T21:47:05","modified_gmt":"2020-05-12T00:47:05","slug":"a-invencao-de-um-feriado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/05\/11\/a-invencao-de-um-feriado\/","title":{"rendered":"A inven\u00e7\u00e3o de um feriado"},"content":{"rendered":"<span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>marrados \u00e0s cadeiras confort\u00e1veis da empresa, os funcion\u00e1rios sofriam os a\u00e7oites Sexta-feira. No correr do dia os ponteiros do rel\u00f3gio central lhes martelavam a nuca a cada segundo. <em>TAC. TAC.<\/em> N\u00e3o havia tics, s\u00f3 tacs mesmo, com toda a for\u00e7a.<\/p>\n<p>M\u00e3os na cabe\u00e7a, olhos lacrimejantes, cansa\u00e7o f\u00edsico e mental, limite da resist\u00eancia; era como uma derrota no futebol ou o sentimento de impot\u00eancia ao ter o carro roubado&#8230; era preciso  aquele \u00faltimo esfor\u00e7o&#8230; Mas ningu\u00e9m estava interessado. E era ainda o meio do dia, acabavam de voltar do almo\u00e7o: essa meia hora med\u00edocre que mais parece o banho de sol dos prisioneiros ou o recreio das crian\u00e7as. Alguns realmente tinham coisas importantes para fazer, c\u00f3pias para tirar, documentos para ordenar, mensagens para responder, e mais uma s\u00e9rie de afazeres est\u00fapidos que qualquer m\u00e1quina bem treinada poderia fazer.<\/p>\n<p>Sentado no fundo do corredor estava o Senhor de Engenho, o chefe. Todos o chamavam Adolf pelas costas. Sentado sempre muito confortavelmente, tinha sido flagrado diversas vezes dormindo. Sua sala estava sempre fechada, escura. Nela havia uma verdadeira constela\u00e7\u00e3o mobili\u00e1ria, com largos sof\u00e1s, frigobar e uma bela vista para a cidade, que, no entanto, era feia. Sempre sentava com o corpo ligeiramente inclinado para tr\u00e1s, com a barriga ao sol, como se fosse uma esp\u00e9cie bem distinta de animal de sangue frio, um lagarto ou qualquer outro r\u00e9ptil. Ele era verdadeiramente odiado pelos funcion\u00e1rios, como todo chefe deve ser. N\u00e3o havia d\u00favida de que sua presen\u00e7a embrulhava os est\u00f4magos alheios, desde a mo\u00e7a da limpeza at\u00e9 seu vice-presidente, que n\u00e3o por acaso era seu filho. Este, ali\u00e1s, mal aparecia na empresa. Vivia \u201cviajando a trabalho\u201d. Ningu\u00e9m se importava. Os funcion\u00e1rios apenas queriam o sal\u00e1rio no final do m\u00eas, bem depositado nas respectivas contas banc\u00e1rias, al\u00e9m de uns poucos dias de f\u00e9rias no final do ano para torrar as economias num parque tem\u00e1tico qualquer.<\/p>\n<p><em>TAC. TAC.<\/em> O rel\u00f3gio trai\u00e7oeiro ainda n\u00e3o havia virado uma hora. Melinda, a secret\u00e1ria, olhava para o computador, olhava para a parede. Depois voltava a olhar o computador. Abria uma agenda e folheava&#8230; folheava&#8230; Folheava como se fosse uma revista s\u00f3 de imagens, ou um cat\u00e1logo de cosm\u00e9ticos \u2014 os dias, os meses. Pensou como seria terr\u00edvel uma agenda com horas \u2014 <em>6h da manh\u00e3, acordar. 8h da manh\u00e3, cumprimentar os colegas de trabalho.<\/em> E deu um leve sorriso. Fechou a agenda suspirando de t\u00e9dio e olhou para o lado, exatamente para a mesa do assistente-geral do escrit\u00f3rio, Crispin, um senhor bem in\u00fatil. Dificilmente se notava algum gesto de ser vivo naquele sujeito. O sono neste homem era praticamente o mesmo do efeito de uma arma qu\u00edmica, capaz de liquid\u00e1-lo em qualquer situa\u00e7\u00e3o. Havia hist\u00f3rias de que ele dormira diversas vezes, em reuni\u00f5es importantes, no elevador, no estacionamento, banheiro. Uma vez um dos funcion\u00e1rios o viu dormir numa partida de futebol, durante o churrasco de fim de ano da empresa. Era motivo de piadas no <em>happy hour<\/em> e tamb\u00e9m nos coment\u00e1rios com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Melinda ao notar os olhos cerrados do colega, resolveu se divertir&#8230; Foi at\u00e9 a mesa de Crispin e come\u00e7ou a trocar todos os objetos de lugar. Do lado de Crispin, o gerente-geral de vendas, Od\u00edlio, n\u00e3o conteve o riso. A mo\u00e7a n\u00e3o somente mudava a posi\u00e7\u00e3o dos objetos como tamb\u00e9m executava bel\u00edssimos passos de dan\u00e7a enquanto o fazia, girando e rodopiando com um grampeador em uma das m\u00e3os, colocando um porta-canetas em cima do computador, jogando objetos para cima, enfiando o teclado na gaveta, os pap\u00e9is debaixo da mesa etc. Era mais um desses passatempos de trabalho, brincadeiras que os funcion\u00e1rios fazem entre si para vencerem o t\u00e9dio do escrit\u00f3rio, como as crian\u00e7as fazem na escola, escondidos da professora.<\/p>\n<p>Mas era uma sexta-feira diferente. O que sobressa\u00eda era o sil\u00eancio. O tempo era maci\u00e7o, denso. Arrastava-se como uma enorme lesma cega e paral\u00edtica por cima do desespero mudo de cada funcion\u00e1rio. Um leve desejo de simplesmente berrar e sair correndo, se jogando contra portas e janelas, passava sorrateiro por cada um dos trabalhadores. O t\u00e9dio era de rachar a cabe\u00e7a na mesa. Cada um derretia em sua cadeira, apodrecia cabisbaixo na entrada do banheiro. Escoravam-se nas paredes do corredor e buscavam assuntos para manter a vig\u00edlia. Alguns fu\u00e7avam na internet, outros simplesmente ficavam est\u00e1ticos, como pedras.<\/p>\n<blockquote><p>Ele caminha lentamente pelo corredor; talvez, depois de tanto tempo na empresa, ele tenha confundido a si mesmo com o tempo do rel\u00f3gio<\/p><\/blockquote>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">D<\/span>e repente o chefe sai da sala. Todos se ajeitam de pronto, se fazem de ocupados, Melinda corre \u00e0 sua base de comando, onde mant\u00e9m todos os compromissos do chefe agendados. Ele caminha lentamente pelo corredor; talvez, depois de tanto tempo na empresa, ele tenha confundido a si mesmo com o tempo do rel\u00f3gio. Parecia estar em cad\u00eancia com os segundos-lama do tempo, arrastando-se por uma areia movedi\u00e7a ou uma banheira de gelatina. Todos est\u00e3o em seus lugares. O a\u00e7oite do tempo arde, mas \u00e9 melhor do que uma bronca do chefe. Ele passa por todos, sem notar nada. \u00c0s vezes parecia simplesmente andar dormindo, pairando por entre os mortais, sem nem ver o que estavam fazendo: o del\u00edrio do milion\u00e1rio. O chefe pega uns pap\u00e9is com Melina, olha o enorme rel\u00f3gio central, e volta para sua sala. A porta fecha. Al\u00edvio. Quando a porta fecha, a respira\u00e7\u00e3o volta. A mera presen\u00e7a daquele sujeito causa apreens\u00e3o profunda, a suspens\u00e3o dos filmes de suspense. N\u00e3o raro uma decep\u00e7\u00e3o qualquer na vida \u201cpessoal\u201d (o que restava de vida al\u00e9m do trabalho) deixava o chefe sens\u00edvel, pronto para descontar, como podia, os aborrecimentos particulares no primeiro funcion\u00e1rio que cruzasse sua frente. Gritaria, obscenidades, xingamentos, apelidos aleat\u00f3rios \u00e0s vezes surgiam apenas porque algu\u00e9m usou, sem a devida autoriza\u00e7\u00e3o, a impressora da chefia. E, veja s\u00f3, algu\u00e9m estava usando a impressora naquele exato momento&#8230; Nessas situa\u00e7\u00f5es somente Melinda conseguia falar com ele, acalmando-o. <em>Est\u00e1 tranquilo hoje<\/em>, comentou como uma especialista em humor patronal.<\/p>\n<p>Mas era uma sexta feira estranha. N\u00e3o s\u00f3 pelo tempo gordo, mas pelo estranho clima na empresa. Andavam todos sedentos por alguma emo\u00e7\u00e3o, uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de que alguma coisa ia acontecer a qualquer momento habitava cada funcion\u00e1rio, e dissimuladamente os levava a conversar com tons c\u00famplices, a sorrirem esperan\u00e7osos, disfar\u00e7ando tal sensa\u00e7\u00e3o em assuntos como futebol, hoje \u00e9 sexta, cerveja e tal. As idas ao caf\u00e9, combust\u00edvel para enfrentar o t\u00e9dio, eram cada vez mais frequentes. E eram todos profundamente gratos por n\u00e3o terem de pagar pelos dez copos di\u00e1rios de caf\u00e9, de onde Melinda retornara at\u00e9 a mesa de Od\u00edlio; alguns coment\u00e1rios internos da empresa, curiosidades do andar de cima, ass\u00e9dio sexual, desvio de verba&#8230; Ambos caminharam juntos at\u00e9 a mesa de Gaito, o t\u00e9cnico de informa\u00e7\u00e3o, que empunhava cara de espanto enquanto lia algo no computador. <em>Que houve? Assaltaram uma loja no centro da cidade, mas entraram com carro e tudo pela vitrine! Que isso! Olha essas imagens!<\/em><\/p>\n<p>Ficaram algum tempo ali, vendo as mesmas fotos, em sil\u00eancio de olhar ausente, um tanto para passar o tempo, outro tanto pensando no quanto o mundo parecia de fato estar ficando cada vez mais absurdo. Nas imagens, via-se um certo desespero dos assaltantes, tudo feito com not\u00f3rio improviso, na correria. O tumulto como estrat\u00e9gia. Os funcion\u00e1rios ao redor da mesa riam com aquela cena. Nesse instante, o celular de Gaito recebeu uma mensagem. Maior que o espanto com as imagens do assalto foi o de sua rea\u00e7\u00e3o \u00e0 not\u00edcia que recebera. Um amigo que cumpria expediente em sua respectiva empresa informava o que acabara de ocorrer por l\u00e1. Todos os funcion\u00e1rios tinham se rebelado e destru\u00eddo tudo no escrit\u00f3rio, renderam o chefe e sa\u00edram gargalhando a valer, num \u00eaxtase que s\u00f3 se compreende vivendo. <\/p>\n<p>Gaito ficou um tempo paralisado, estupefato com a not\u00edcia. Sentia ao mesmo tempo uma for\u00e7a tremenda, uma impot\u00eancia cretina, um medo terr\u00edvel e um desejo de intransig\u00eancia tentador. Quando contou aos colegas, todos arregalaram os olhos. A sensa\u00e7\u00e3o de que algo estava para acontecer encontrou uma express\u00e3o, a sexta-feira tinha se tornado um desafio; misturava-se \u00e0 solidariedade pelos irm\u00e3os do escrit\u00f3rio-irm\u00e3o um desejo ego\u00edsta de sair daquele antro. A not\u00edcia correu r\u00e1pido pelos corredores da empresa. O chefe, no entanto, n\u00e3o notou a movimenta\u00e7\u00e3o estranha, os coment\u00e1rios de canto de mesa, os olhares assumidamente c\u00famplices. <\/p>\n<p>Aos poucos, o plano era tra\u00e7ado. Alguns propunham tentar estabelecer uma alian\u00e7a com os seguran\u00e7as, enquanto outros j\u00e1 defendiam a tese da rendi\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a dos capangas do capital. Os corpos tremiam e os sorrisos de medo e coragem pela grande batalha que em breve travariam faziam suar seus ternos e gravatas. Um grupo deliberava algumas fun\u00e7\u00f5es: uma parte deles imprimiria as tr\u00eas etapas do plano para distribuir a todos, quando um dos rebeldes indagou sobre o perigo de demiss\u00e3o. Foi o suficiente! Aquela palavra de tr\u00eas s\u00edlabas e oito letras bastou para paralisar todas as fantasias e esperan\u00e7as de um mundo novo. Ningu\u00e9m queria p\u00f4r a perder seu ganha-p\u00e3o por causa de uma brincadeira que parecia sair de controle. Era natural, ent\u00e3o, que todos recuassem a seus postos antigos e debandassem da vanguarda revolucion\u00e1ria; o sonho de um escrit\u00f3rio mais justo e igualit\u00e1rio, com o acesso de todos \u00e0 impressora da chefia, estava fadado a se tornar uma imagem desbotada em suas mem\u00f3rias, antes mesmo de ter se concretizado. <\/p>\n<p>Foi nesse momento que Gaito teve uma ideia. Ele comentou com Melinda que seu amigo tinha mandado aquela mensagem n\u00e3o apenas para ele, mas tamb\u00e9m para v\u00e1rios amigos de diversos escrit\u00f3rios, que, por sua vez, certamente estariam desejosos de a\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas contra a acovardada chefia universal. <em>Imagine, Melinda, se mais de quatro escrit\u00f3rios fizerem essa mesma a\u00e7\u00e3o, seria como o Dia da Pendura dos advogados, seria como um feriado nacional dos funcion\u00e1rios de escrit\u00f3rio&#8230; um dia em que todos os trabalhadores de colarinho branco simplesmente correm feito malucos empresa afora, e ningu\u00e9m pode perder o emprego por isso, j\u00e1 que se trata de uma nova tradi\u00e7\u00e3o, sei l\u00e1&#8230; Que voc\u00ea acha?<\/em><\/p>\n<p>Melinda imediatamente correu para o computador e avisou todas suas amigas secret\u00e1rias, pois eram como um motoclube. A not\u00edcia correu rapidamente por todo o setor terci\u00e1rio da cidade, sem que nenhum \u201csuperior\u201d notasse a conspira\u00e7\u00e3o. O Dia Da Fuga estava fadado a se perpetuar. Em alguns minutos j\u00e1 estava tudo acertado, os tr\u00eas pontos centrais haviam sido estabelecidos: (1) \u00e0s 15h em ponto todos os funcion\u00e1rios come\u00e7ariam a berrar e a correr para fora do pr\u00e9dio; (2) gritariam bem alto que aquela sexta-feira tinha sido declarada o Dia da Fuga; e (3) na segunda-feira todos fingiriam que nada tinha acontecido, enquanto aguardavam com ansiedade e discri\u00e7\u00e3o o Dia da Fuga do ano seguinte.<\/p>\n<p>A coisa precisava ter um m\u00ednimo de organiza\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o parecer um carnaval fora de hora e impor um ar de tradi\u00e7\u00e3o estabelecida havia muito. O rel\u00f3gio adquiria uma fisionomia inteiramente nova: a contagem regressiva era, agora, intensa e verdadeira; marcava o aguardado momento em que o corpo se rebelaria, em que todos estariam autorizados a gritar, correr, espernear, derrubar outras pessoas e <em>roubar uma coisinha ou outra do escrit\u00f3rio&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Como assim Gaito? U\u00e9, porque n\u00e3o? Vai ser um caos! E riam, descontraindo o nervosismo. Ainda bem que o chefe \u00e9 mais ausente que dinheiro no fim do m\u00eas, sen\u00e3o o Dia da Fuga n\u00e3o ia poder virar realidade. Viva a tradi\u00e7\u00e3o!<\/em><\/p>\n<p>Faltavam ainda vinte minutos, e Gaito e Melinda imaginavam como estariam os amigos nas outras <em>firmas<\/em>, tamb\u00e9m ansiosos, tamb\u00e9m nervosos? Od\u00edlio aproveitava para marcar algum bar com amigos, enquanto alguns contavam piadas e se divertiam com aquecimentos e alongamentos, como se fossem correr uma maratona. De repente o chefe sai da sala. <em>Meu Deus!<\/em> Todos correram desesperadamente para seus lugares, o chefe nota e estranha o movimento, <em>o que est\u00e1 acontecendo?<\/em>, n\u00e3o se pode dizer. Todos se sentam confusos, n\u00e3o h\u00e1 como disfar\u00e7ar. O chefe olha a todos, sente-se estranhamente amea\u00e7ado e chama Melinda. Gaito, temendo uma trai\u00e7\u00e3o da colega, murmura com o canto da boca <em>n\u00e3o v\u00e1, n\u00e3o v\u00e1<\/em>, mas ela caminha at\u00e9 a sala do chefe. Todos est\u00e3o apreensivos, j\u00e1 s\u00e3o cinco para as 15h, e n\u00e3o podiam deixar os companheiros dos outros escrit\u00f3rios na m\u00e3o, a grande rebeli\u00e3o requeria simultaneidade das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<blockquote><p>Todos os outros est\u00e3o paralisados. O chefe e Gaito olham-se fixamente um para o outro, o grampeador na m\u00e3o de Gaito est\u00e1 aberto, \u201cno gatilho\u201d<\/p><\/blockquote>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">E<\/span>nt\u00e3o, antes que Melinda desse mais um passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s instala\u00e7\u00f5es patronais, Gaito rapidamente pega um grampeador e, com a arma em punho, salta para a dianteira e fica face a face com o chefe. Todos os outros est\u00e3o paralisados. O chefe e Gaito olham-se fixamente um para o outro, o grampeador na m\u00e3o de Gaito est\u00e1 aberto, \u201cno gatilho\u201d. O chefe olha ora para a arma, ora para Gaito, ora para Melinda, sem ter a menor ideia do que estaria por vir. Soltou uma risada falsa, um riso amarelo, como um general tra\u00eddo que ainda acredita ter aliados. <em>Chefe, acho melhor o senhor voltar a dormir em sua sala! Como assim fedelho!? Que est\u00e1 querendo provocar? J\u00e1 est\u00e1 provocado, senhor, n\u00e3o podemos mais recuar! Melinda, que aconteceu? Senhor, n\u00e3o sei. Gaito parece estar confundindo as coisas<\/em> (disse enfaticamente olhando para Gaito de modo a comunicar que teria ido longe demais).<\/p>\n<p>O duelo de olhares entre o chefe e Gaito permanecia. Melinda tomava dist\u00e2ncia, no limite entre o riso nervoso e a fuga. O chefe olha para a mesa e v\u00ea outro grampeador, mas quando Gaito pressente o movimento, j\u00e1 \u00e9 tarde, seu antagonista tamb\u00e9m empunhava uma arma: <em>agora \u00e9 de igual pra igual.<\/em> A atmosfera se enche de tens\u00e3o; suor escorre em gotas gra\u00fadas pelo rosto de ambos. O rel\u00f3gio marca um minuto para as tr\u00eas. Basta! J\u00e1 \u00e9 hora, pensa Gaito. <em>Pan\u00e7udo, vou te furar inteiro.<\/em> O chefe ri. <em>Esse grampeador \u00e9 de segunda m\u00e3o, meu filho! Veja esse<\/em>, e atira um grampo, prendendo uma s\u00e9rie de memorandos na mesa. Ambos est\u00e3o nervosos, o grampeador treme, as pernas lentamente se revezam no apoio do corpo, o chefe d\u00e1 um passo&#8230; <em>Tr\u00eas horas!<\/em>, grita um dos funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m j\u00e1 disse que a agita\u00e7\u00e3o das multid\u00f5es vem geralmente como uma onda no mar, que se prepara, ganha for\u00e7a e desaba fortemente. Mas n\u00e3o foi esse o caso. Ao bater das 15h horas, foi como se um acidente nuclear despejasse gente pelas portas dos pr\u00e9dios. Imediatamente todos ali se puseram a correr, inclusive Melinda. Crispin ainda dormia, mesmo com todo o alvoro\u00e7o, e s\u00f3 fez movimento de abrir os olhos quando pularam por sobre sua mesa, para logo em seguida cerr\u00e1-los de novo. O chefe ficou paralisado, aturdido em meio \u00e0 turba, enquanto Gaito olhava radiante para o caos que ajudara a promover; pessoas subindo nas mesas, derrubando m\u00e1quinas, computadores, ou o que encontrassem pela frente.<\/p>\n<p>Enquanto muitos se aglomeravam nas escadas, outros, mais pregui\u00e7osos amontoavam-se na frente do elevador e promoviam a escapada em doses homeop\u00e1ticas, empa\u00e7ocando-se entre um abre-fecha da porta autom\u00e1tica, como estavam habituados a fazer no metr\u00f4.<\/p>\n<p>Gaito ainda estava em posi\u00e7\u00e3o de duelo. Quando o chefe baixou a guarda, Gaito aproveitou para dar-lhe uma grampeada no bra\u00e7o! Movimento r\u00e1pido, \u00e1gil, mas, ao que parecia&#8230; ineficaz. O chefe n\u00e3o reagiu nem com um olhar; apenas contemplava com um ar de incompreens\u00e3o a cena surreal a sua frente: todos os funcion\u00e1rios se debatendo para entrar no elevador, tentando ir embora desesperadamente, e Crispin roncando e babando em sua cadeira.<\/p>\n<p><em>V\u00ea agora! Voc\u00ea n\u00e3o tem mais o controle! Saiba que hoje \u00e9 o dia da escapat\u00f3ria, senhor<\/em>, disse Gaito, que enquanto proferia essas palavras parecia retomar a lucidez, percebendo que havia grampeado o chefe. Largou sua arma no ch\u00e3o, arregalou os olhos e correu para o tumulto gritando <em>Dia da Fuga! Dia Nacional da Fuga!<\/em> E todos repetiam desordenadamente, entupindo-se no elevador, <em>Dia da Fuga! Fuga!<\/em>, enquanto vez por outra surgia uma voz organizadora, <em>Calma! Vamos por vez!<\/em> O chefe, com passos vagarosos, se aproximou do empurra-empurra \u00e0 porta do elevador e, como de costume, ficou ali parado, com os bra\u00e7os cruzados, a alguns metros de dist\u00e2ncia, observando o tumulto.<\/p>\n<p>O elevador descia lotado, os demais agitados esperavam que voltasse, e gritavam gloriosa vit\u00f3ria. De quando em quando tocava o celular do chefe. Ele atendia, e eram sempre relatos de outros patr\u00f5es sobre o que havia acontecido em suas respectivas empresas, o tal dia da di\u00e1spora empresarial. Ent\u00e3o teve a estranha sensa\u00e7\u00e3o de que a situa\u00e7\u00e3o era normal; come\u00e7ou a notar como alguns dos funcion\u00e1rios riam muito tentando escapar pelo elevador e come\u00e7ou a rir tamb\u00e9m. Cada funcion\u00e1rio com um rosto mais c\u00f4mico que o outro, vermelhos, euf\u00f3ricos, esmagados uns pelos outros na porta de um elevador lento. Pareciam minhocas engalfinhando-se em um balde ou crian\u00e7as euf\u00f3ricas diante de um novo brinquedo. Notou como os olhinhos de Gaito brilhavam com a correria da fuga, como Melinda empurrava o chin\u00eas da inform\u00e1tica para entrar logo no elevador, enquanto este abria espa\u00e7o com suas muletas, lutando por sobreviv\u00eancia. Estavam muito felizes esses funcion\u00e1rios. O chefe ent\u00e3o assimilou o feriado, fez de conta que j\u00e1 sabia do evento, comentou com o colega chefe que no ano passado havia assistido a uma balburdia dessas nos Estados Unidos e que era bom para a descontra\u00e7\u00e3o do pessoal, depois eles produziam mais e melhor. Ele se compadecia da mis\u00e9ria dos escravos; diversas not\u00edcias ao vivo j\u00e1 corriam pela internet, comemorando mais um Dia da Fuga.<\/p>\n<p>O chefe caminhou risonho at\u00e9 sua sala, pensando soberanamente em como o mundo vai mudando com o tempo, e que n\u00e3o se trabalhava mais como antigamente. Enquanto o \u00faltimo grupo entrava no elevador, Gaito correu at\u00e9 a mesa, e pegou algumas folhas, canetas e at\u00e9 o grampeador que jazia ao solo \u2014 como recorda\u00e7\u00e3o. Desceu com o \u00faltimo grupo que o esperava, rindo como crian\u00e7as que fogem do guarda noturno do parque, um riso farto, de doer a barrida, de tirar a for\u00e7a para continuar correndo.<\/p>\n<p>O chefe caminha pelo corredor, passa por Crispin e d\u00e1 um forte tapa na mesa, que enfim desperta o funcion\u00e1rio. <em>Perdeu um enorme circo, meu velho!<\/em> Entra em sua sala e come\u00e7a a ler as not\u00edcias. O Dia da Fuga havia sido um sucesso, e os chefes encamparam o feriado, que se tornou n\u00e3o apenas habitual, mas tamb\u00e9m leg\u00edtimo. O chefe co\u00e7ou o bra\u00e7o, e arrancou, at\u00f4nito, um grampo. Preocupou-se com o t\u00e9tano, depois com o saldo geral da empresa, que n\u00e3o ia nada bem. <em>Dia da Fuga, era s\u00f3 o que faltava&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Na segunda-feira todos estavam presentes no trabalho.<\/p>\n<p><em>Thiago Zuza \u00e9 psic\u00f3logo cl\u00ednico e doutorando em filosofia com pesquisa sobre Henri Bergson. Publicou pela editora Urutau o livro de poesias<\/em> Resili\u00eancia <em>(2015).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amarrados \u00e0s cadeiras confort\u00e1veis da empresa, os funcion\u00e1rios sofriam os a\u00e7oites Sexta-feira. No correr do dia os ponteiros do rel\u00f3gio central lhes martelavam a nuca a cada segundo. TAC. TAC. N\u00e3o havia tics, s\u00f3 tacs mesmo, com toda a for\u00e7a. M\u00e3os na cabe\u00e7a, olhos lacrimejantes, cansa\u00e7o f\u00edsico e mental, limite da resist\u00eancia; era como uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1848,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[46,48,49,50,51],"class_list":["post-1815","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dedo-de-prosa","tag-conto","tag-escritorio","tag-feriado","tag-ficcao","tag-zuza"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1815","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1815"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1815\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1815"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1815"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1815"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}