{"id":1851,"date":"2020-06-07T19:58:43","date_gmt":"2020-06-07T22:58:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=1851"},"modified":"2020-06-07T19:58:43","modified_gmt":"2020-06-07T22:58:43","slug":"nossa-amalgama","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/06\/07\/nossa-amalgama\/","title":{"rendered":"Nossa am\u00e1lgama"},"content":{"rendered":"<p><em>Publicado originalmente na edi\u00e7\u00e3o #1 da revista FIGAS, em agosto de 2009.<\/em><\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">C<\/span>om a perna engessada e apoiado numa bengala, Jorge Mautner surgia com um largo sorriso na portaria do pr\u00e9dio em que vive, no bairro do Leblon, para nos receber.<a href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/06\/07\/alo-jorge-mautner\/\"> Era s\u00e1bado, nosso terceiro dia de visita ao Rio de Janeiro<\/a>, e a entrevista, que hav\u00edamos marcado e remarcado tantas vezes, parecia que finalmente se concretizaria. O sentimento de triunfo, ap\u00f3s tantas idas e vindas, era tamanho que o fato de nosso entrevistado ter esquecido a chave no apartamento e ter sido obrigado a refazer o percurso de ida e volta, mancando pelas escadas, pareceu um contratempo menor.<\/p>\n<p>A sala arejada do apartamento de Mautner estava repleta de livros. Livros espalhados pela mesa de centro, nos sof\u00e1s, dividindo o espa\u00e7o com os retratos na prateleira. Nas paredes, fotografias em preto e branco disputavam espa\u00e7o com ilustra\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro colonial. Um computador ligado, no canto do c\u00f4modo, mostrava que Mautner estava trabalhando. Assim que entramos e nos assentamos, Jorge desligou o computador e nos perguntou: \u201cVoc\u00eas acham interessante eu criar um blog?\u201d. Ap\u00f3s a resposta positiva, teve in\u00edcio a entrevista.<\/p>\n<p>Jorge nasceu Henrique George Mautner, filho de Anna Illichi, de origem iugoslava e cat\u00f3lica, e Paul Mautner, judeu e austr\u00edaco. \u201cEu nasci aqui um m\u00eas depois de meus pais chegarem ao Brasil fugindo do Holocausto\u201d, nos contou ele enquanto se sentava numa poltrona sob a janela com vistas para o jardim. No Brasil, seu pai, mesmo tendo flertado com o governo de Get\u00falio, continuou atuando junto \u00e0 resist\u00eancia judaica. Sua m\u00e3e passou a sofrer de paralisia ap\u00f3s o trauma decorrente da impossibilidade de a irm\u00e3 de Jorge ter embarcado para o Brasil com a fam\u00edlia. Assim, at\u00e9 os sete anos, ele ficou sob os cuidados de L\u00facia, sua bab\u00e1, que era Ialorix\u00e1 e foi respons\u00e1vel por apresent\u00e1-lo aos batuques do candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Em 1962, Jorge Mautner teve publicado seu primeiro livro, <em>Deus da chuva e da morte<\/em>, o qual come\u00e7ara a escrever em 1956, aos quinze anos. O livro, que carreg\u00e1vamos para cima e para baixo durante a viagem ao Rio, foi o primeiro volume da trilogia hoje conhecida como <em>Mitologia do Kaos<\/em>, seguido por <em>Kaos <\/em>e <em>Narciso em tarde cinza<\/em>, publicados em 1964 e 1966, respectivamente.<\/p>\n<blockquote><p>No p\u00f3s-guerra, as literaturas europeia e norte-americana estavam impregnadas pela crise espiritual de sua juventude, e certas correntes culturais, como o pensamento existencialista de Sartre e o zen-budismo, vieram em seu aux\u00edlio<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cOuvir rock, ver a chuva, beijar uns l\u00e1bios, deitar com uma ou outra carne na cama e sentir o sexo.\u201d Permeada pelo lema juvenil da \u00e9poca, sexo e <em>rock \u2019n\u2019 roll<\/em>, a obra trazia os primeiros apontamentos filos\u00f3ficos do jovem Mautner. No p\u00f3s-guerra, as literaturas europeia e norte-americana estavam impregnadas pela crise espiritual de sua juventude, e certas correntes culturais, como o pensamento existencialista de Sartre e o zen-budismo, vieram em seu aux\u00edlio. \u00c9 nesse contexto que surge a literatura de Mautner, como j\u00e1 foi constatado pelo cr\u00edtico Mario Schenberg, para quem a trilogia do Kaos surgiu como um esbo\u00e7o da cren\u00e7a de que as bases do futuro da humanidade estariam na Am\u00e9rica Latina, na \u00c1frica, na \u00c1sia e na Oceania. Jorge Mautner criou o Kaos \u2013 \u201cKaos com <em>k<\/em>\u201d, como ele faz quest\u00e3o de frisar.<\/p>\n<p>Na autobiografia <em>Verdade tropical<\/em>, Caetano Veloso diz que as conversas que tinha com Mautner quando moravam em Londres foram determinantes para os tropicalistas consolidarem sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda nacionalista dominante na MPB. Se por um lado o movimento ambicionava a experimenta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, por outro desejava chegar ao n\u00edvel de difus\u00e3o e t\u00e9cnica das produ\u00e7\u00f5es norte-americanas e inglesas, e Mautner exacerbava essa oscila\u00e7\u00e3o. Quando ele passou a frequentar o n\u00famero 16 da rua Redesdale (endere\u00e7o onde viveram Gil e Caetano no distrito de Chelsea, em Londres), chegou a formar um grupo de estudos \u2013 uma \u201cc\u00e9lula gramsciniana, mas brasileira\u201d, como nos contou \u2013 em que ele, os tropicalistas e v\u00e1rios outros brasileiros exilados na capital inglesa se dedicavam \u00e0 discuss\u00e3o de textos filos\u00f3ficos. Assim surgia, em 1969, um primeiro esbo\u00e7o do projeto Figa Brasil.<\/p>\n<p>Publicado no <em>Jornal da Tarde<\/em> em 1987, o texto-manifesto \u201cUm car\u00e1ter para Macuna\u00edma\u201d seria o respons\u00e1vel por dar forma ao movimento. E foi justamente esse texto, que havia surgido para n\u00f3s quase por acaso no final de 2008, o motivo que havia nos levado at\u00e9 o Rio. <a href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/sobre\/\">Aquelas palavras se afinavam com as inten\u00e7\u00f5es do nosso grupo de maneira singular e resultaram numa empatia imediata.<\/a> Ao propor uma discuss\u00e3o ampla sobre a cultura brasileira, Jorge Mautner convidava as pessoas a se reunirem para refletir e dialogar. E anunciava: \u201cEst\u00e1 na hora do Macuna\u00edma elaborar seu car\u00e1ter\u201d, o que implicaria reconhecer a presen\u00e7a da pluralidade cultural do Brasil em cada um de n\u00f3s, de utiliz\u00e1-la de maneira que contribu\u00edsse com toda a sociedade, e n\u00e3o apenas em benef\u00edcio pr\u00f3prio. \u201cFiga Brasil \u00e9 o desejo de uma alquimia que fa\u00e7a encontrar os que est\u00e3o separados. Que fa\u00e7a sambar os que s\u00f3 escrevem, que fa\u00e7a escrever os que s\u00f3 t\u00eam sambado!\u201d, proclamava o manifesto.<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">O<\/span> projeto ganhou express\u00e3o com o show <em>O poeta e o esfomeado<\/em>. \u201cEu brincava que o Gil era o poeta e eu era o esfomeado\u201d, nos contou Mautner naquela tarde de s\u00e1bado, em meio a gargalhadas e express\u00f5es de m\u00e1xima seriedade. Ap\u00f3s o show, os m\u00fasicos convidavam o p\u00fablico a fazer parte do movimento. Mais de 7 mil pessoas se inscreveram, mas o projeto acabou n\u00e3o decolando da maneira prevista, pois Gilberto Gil foi eleito vereador em Salvador em 1988. Jorge ocupou o cargo de chefe de gabinete, ou de \u201c<em>antichefe <\/em>do <em>antigabinete<\/em>\u201d, em suas pr\u00f3prias palavras. \u201cMesmo assim, atrav\u00e9s de cartas \u2013 veja s\u00f3, de cartas! \u2013, mantivemos contato com os inscritos por algum tempo. Foi uma pena, mas o Gil teve que se distanciar por causa da candidatura. Mas pra mim ele realizou o Figa Brasil quando foi Ministro da Cultura\u201d, explicou. Os princ\u00edpios desenvolvidos em parceria com Gil \u2013 um dos amigos cujo retrato figura em sua estante de livros \u2013 deram vaz\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 a obras art\u00edsticas, mas tamb\u00e9m tiveram continuidade como embasamento das plataformas do ex-ministro.<\/p>\n<blockquote><p>A am\u00e1lgama tem uma qualidade flutuante segundo a qual cada gera\u00e7\u00e3o de brasileiros e brasileiras tem o dom de reinterpretar tudo num segundo, incluindo pareceres contr\u00e1rios, achando o caminho do meio<\/p><\/blockquote>\n<p>O Figa Brasil corroborava uma ideia de cultura brasileira que \u00e9 fundamentada pela no\u00e7\u00e3o de am\u00e1lgama. Esse termo, que faz alus\u00e3o ao processo de mistura de metais na forma\u00e7\u00e3o de ligas, foi utilizado por Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva para se referir \u00e0 capacidade de, no Brasil, as diversas culturas terem gerado algo que ia al\u00e9m da miscigena\u00e7\u00e3o. \u201cA ideia de \u2018am\u00e1lgama\u2019 vem desde os discursos e serm\u00f5es do padre Ant\u00f4nio Vieira, passa pelo \u00c1lvares de Azevedo, Castro Alves, continua com a antropofagia do Oswald de Andrade, que \u00e9 a am\u00e1lgama bem vociferante, com a Tropic\u00e1lia, e vem at\u00e9 os dias hoje. Isso se tornou nossa linguagem, t\u00e3o complexa e t\u00e3o incr\u00edvel, de humanistas totais e sem diferen\u00e7as <em>apartheideanas<\/em>\u201d, definiu Jorge. \u201cA am\u00e1lgama tem uma qualidade flutuante segundo a qual cada gera\u00e7\u00e3o de brasileiros e brasileiras tem o dom de reinterpretar tudo num segundo, incluindo pareceres contr\u00e1rios, achando o caminho do meio\u201d, filosofou o artista. Essa ideia percorre toda a obra de Mautner e o e entusiasma at\u00e9 hoje. Sentado, mas sem parar de se mexer, ele passava rapidamente de um momento a outro da hist\u00f3ria, alternando o pensamento sem perder a linha de racioc\u00ednio, de quando em quando sorrindo e perguntando retoricamente, \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 fant\u00e1stico?\u201d.<\/p>\n<p>A am\u00e1lgama come\u00e7ou no Brasil antes de nos tornarmos Brasil, antes mesmo das terras tropicais americanas serem encontradas pelos portugueses. Segundo Mautner, ela surgiu com os tupi: \u201cEles j\u00e1 haviam atravessado o Pac\u00edfico \u00e0 procura da Terra sem Males. Vinham atr\u00e1s de uma misteriosa palmeira azul. A ideia deles era a de que tudo \u00e9 mist\u00e9rio, e o mist\u00e9rio os criou para que eles o desvendassem. Os tupis j\u00e1 chegavam ao territ\u00f3rio guerreando e se miscigenando. E os bantos, o primeiro grupo africano que chegou ao Brasil, se misturou logo com os \u00edndios e trouxe o <em>zemba<\/em>, que \u00e9 o samba. Mas, antes disso, j\u00e1 havia aqui o samba original dos nossos \u00edndios, com chocalhos. O Brasil \u00e9 forjado por esses chocalhos e pelos tambores. Essa \u00e9 a vis\u00e3o da am\u00e1lgama\u201d, conclu\u00eda Mautner com empolga\u00e7\u00e3o. Ainda segundo ele, mesmo os portugueses j\u00e1 teriam chegado aqui amalgamados:<\/p>\n<p><em>Em Portugal, eles j\u00e1 tinham essa vis\u00e3o ecum\u00eanica, resultante da influ\u00eancia mu\u00e7ulmana e do fato de serem muito pequenininhos e quererem se separar [da Espanha]. At\u00e9 mesmo as navega\u00e7\u00f5es s\u00f3 tiveram sucesso porque Portugal foi o \u00fanico pa\u00eds que, em segredo, acolheu os Templ\u00e1rios, que estavam sendo queimados como her\u00e9ticos na frente da Igreja. Portugal os acolheu com um pequeno truque, que j\u00e1 \u00e9 uma am\u00e1lgama: mudou o nome deles para Cavaleiros de Cristo. Com a chegada dos Templ\u00e1rios, os portugueses d\u00e3o um salto, porque toda aquela sabedoria que eles tinham das culturas antigas da Gr\u00e9cia, da cabala judaica, da Babil\u00f4nia, da China e da \u00c1frica passou para o esp\u00edrito da Coroa portuguesa.<\/em><\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span> formula\u00e7\u00e3o desenvolvida pelos jesu\u00edtas, de um novo ideal que representasse as terras americanas rec\u00e9m-descobertas, tamb\u00e9m teve grande import\u00e2ncia na composi\u00e7\u00e3o da am\u00e1lgama. \u201cAnchieta e N\u00f3brega chegam e inventam o Brasil j\u00e1 numa atitude lingu\u00edstica. Eles pegam o tupi-guarani e transformam, facilitam, e isso vira a l\u00edngua geral inhangatu (mistura de tupi e portugu\u00eas), que vai ser falada em S\u00e3o Paulo at\u00e9 1930, quando 70% ou 60% da popula\u00e7\u00e3o falava s\u00f3 essa l\u00edngua. E com isso eles criam o Brasil, pelo menos na imagina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, j\u00e1 com o ideal de que aqui teria que ser a resposta n\u00e3o s\u00f3 aos erros da Igreja Cat\u00f3lica at\u00e9 ent\u00e3o, mas tentando absorver algo de \u00fatil tamb\u00e9m do protestantismo\u201d, explicava Mautner.<\/p>\n<p>Essa ideia do Brasil como um lugar ut\u00f3pico, de esperan\u00e7a da humanidade, onde nasceria a \u201cCoisa Nova\u201d, referida por Jorge em sua trilogia do Kaos, est\u00e1 presente no pensamento de muitos poetas e fil\u00f3sofos, reunidos e citados por Mautner na m\u00fasica \u201cOutros viram\u201d, gravada por Gil. As refer\u00eancias v\u00e3o do poeta norte-americano Walt Whitman (\u201cNo entanto, o v\u00e9rtice da humanidade ser\u00e1 o Brasil\u201d), passando pelos fil\u00f3sofos Rabindranath Tagore (\u201cA civiliza\u00e7\u00e3o do amor nascer\u00e1 no Brasil\u201d) e Jacques Maritain (\u201cO \u00fanico lugar onde a justi\u00e7a e a liberdade poder\u00e3o aflorar juntas \u00e9 o Brasil\u201d).<\/p>\n<blockquote><p>Roosevelt quando chegou aqui caiu pra tr\u00e1s com a nossa am\u00e1lgama! Comparando com o melting pot, ele ficou desesperado<\/p><\/blockquote>\n<p>Ainda nessa m\u00fasica, Mautner menciona o 26\u00ba presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, o qual tamb\u00e9m sustentava um discurso racial assimilacionista, mas derivado da no\u00e7\u00e3o de <em>melting pot<\/em>.<a id=\"_ftnref1\" href=\"\/revista\/#_ftn1\">[1]<\/a> Roosevelt, entretanto, vislumbrava uma mistura que se restringia aos judeus e \u00e0queles de origem europeia: irlandeses, italianos etc. Em 1914, quando o ex-mandat\u00e1rio norte-americano veio ao Brasil, cinco anos ap\u00f3s ter deixado o poder, Roquete Pinto e Marechal Rondon foram os respons\u00e1veis por apresent\u00e1-lo ao pa\u00eds. \u201cRoosevelt quando chegou aqui caiu pra tr\u00e1s com a nossa am\u00e1lgama! Comparando com o <em>melting pot<\/em>, ele ficou desesperado\u201d, descreveu Mautner, para quem todo o continente americano tem potencial para a miscigena\u00e7\u00e3o, ainda que a am\u00e1lgama de fato tenha aflorado apenas no Brasil. Para ilustrar, ele nos contou que alguns holandeses que faziam parte do grupo expulso do Nordeste brasileiro participaram da funda\u00e7\u00e3o de Nova York e levaram para l\u00e1 caracter\u00edsticas da nossa cultura. Isso explicaria a receptividade expressa em seu lema, \u201cBem-vindos todos que estejam aqui\u201d. \u201cEles s\u00f3 n\u00e3o chegaram a fazer a am\u00e1lgama, que \u00e9 a grande dificuldade deles. Essa miscigena\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se limita a misturar pai e m\u00e3e \u00e9 coisa nossa. Aqui, antes mesmo de se misturarem sexualmente, um j\u00e1 incorpora a am\u00e1lgama do outro, que flutuante vai aceitando&#8230; Esse modo de ser \u00e9 o modo da descoberta do outro\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Recentemente, Mautner publicou no jornal <em>O Globo <\/em>(de 26 de maio de 2009) o \u201cManifesto Amalgamista\u201d, no qual ressalta as qualidades da mistura de culturas e traz a conclus\u00e3o: \u201cSomos todos mesti\u00e7os, gra\u00e7as a Deus!\u201d. Al\u00e9m disso, Mautner \u00e9 curador de uma s\u00e9rie de reportagens feitas para o Canal Brasil que ganhou o nome de <em>Am\u00e1lgama Brasil<\/em>. Nessa s\u00e9rie, o conceito desenvolvido por Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio \u00e9 usado para dar visibilidade aos pontos de cultura espalhados pelo pa\u00eds. Jorge mostra que eles s\u00e3o parte de um projeto, iniciado pelo minist\u00e9rio de Gil, de valoriza\u00e7\u00e3o das express\u00f5es art\u00edsticas populares. Um lugar onde as pessoas se re\u00fanem com a preocupa\u00e7\u00e3o de difundir a cultura. \u201cEu e o Nelson Jacobina percorremos v\u00e1rios pontos de cultura e levamos tamb\u00e9m outros artistas j\u00e1 consagrados, famosos, como Caetano Veloso e Fernanda Torres, que apoiam esse projeto que em breve tamb\u00e9m produzir\u00e1 seus artistas consagrados e famosos. Tem sido um trabalho de intera\u00e7\u00e3o\u201d, completa o autor da s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Durante o primeiro mandato de Lula, em um carnaval em Salvador, o presidente e Gil estavam acompanhados por um casal branco muito sisudo, que parecia estar de cara feia o tempo todo. Eram o ministro da cultura da Ucr\u00e2nia e sua esposa. \u201cEles, at\u00f4nitos, se perguntavam, \u2018Na Ucr\u00e2nia n\u00f3s investimos nos jovens e eles tristes, tristes; aqui, negrinho na bicicleta, assobiando sem dentes, todo feliz. Qual \u00e9 o mist\u00e9rio?\u2019\u201d, contou Mautner, tentando imitar o sotaque ucraniano. Esse movimento de buscar na Am\u00e9rica, especificamente no Brasil, respostas para problemas sociais europeus mostra a atualidade de uma das velhas profecias mautnerianas: \u201cOu o mundo se brasilianiza ou vira nazista\u201d.<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">R<\/span>esgatar o humanismo brasileiro, que apaz\u00edgua e possibilita a conviv\u00eancia de pessoas de origens culturais t\u00e3o diferentes, e difundi-lo dentro e fora do Brasil \u00e9 a miss\u00e3o de Jorge Mautner. Para ele, modelos europeus de cultura, tidos sempre como ideais a serem seguidos, mostram-se agora em franca decad\u00eancia frente \u00e0 vitalidade do Novo Mundo. Se boa parte da Europa hoje fortalece suas fronteiras e descrimina seus imigrantes, querendo responsabiliz\u00e1-los por todo mal social do continente, do desemprego ao terrorismo, algumas na\u00e7\u00f5es do at\u00e9 ent\u00e3o menosprezado terceiro mundo v\u00e3o na contram\u00e3o desse racioc\u00ednio. Recentemente, pa\u00edses latino-americanos, como o Brasil, a Bol\u00edvia e o Equador, se engajaram em oferecer cidadania plena aos imigrantes que t\u00eam recebido, regularizando seus documentos e oferecendo a possibilidade de eles elegerem seus pr\u00f3prios representantes nos parlamentos. As tens\u00f5es, cada vez mais acirradas nas periferias europeias, se contrap\u00f5em \u00e0s pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de renda do hemisf\u00e9rio Sul. E a fama que a receptividade d\u00e1 ao povo latino-americano se reflete na forma como se tem pensado os exclu\u00eddos neste continente.<\/p>\n<p>Depois de mais de duas horas de entrevista, Jorge n\u00e3o demonstrava ter perdido o entusiasmo do come\u00e7o da tarde. Anoitecia e, depois da pujante exposi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 era hora de partirmos. Na sa\u00edda, entre sorrisos e agradecimentos, ningu\u00e9m escondia a felicidade. N\u00f3s, porque hav\u00edamos conclu\u00eddo nosso objetivo: falar com Mautner e esmiu\u00e7ar os pormenores de seu manifesto. E Jorge, por ter comprovado que ideias sempre fazem eco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><h8>Nota<\/h8><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn1\" href=\"\/revista\/#_ftnref1\">[1]<\/a> Do ingl\u00eas, \u201ccaldeir\u00e3o\u201d, em refer\u00eancia ao \u201ccaldeir\u00e3o\u201d de ra\u00e7as que a Am\u00e9rica se tornou. [N. E.]<\/h7><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente na edi\u00e7\u00e3o #1 da revista FIGAS, em agosto de 2009. Com a perna engessada e apoiado numa bengala, Jorge Mautner surgia com um largo sorriso na portaria do pr\u00e9dio em que vive, no bairro do Leblon, para nos receber. 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