{"id":1947,"date":"2020-06-21T18:02:56","date_gmt":"2020-06-21T21:02:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=1947"},"modified":"2020-06-21T18:02:56","modified_gmt":"2020-06-21T21:02:56","slug":"jojo-rabbit-e-seus-inimigos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/06\/21\/jojo-rabbit-e-seus-inimigos\/","title":{"rendered":"<em>Jojo Rabbit<\/em> e seus inimigos"},"content":{"rendered":"<span class=\"wpsdc-drop-cap\">V<\/span>olto para cumprir a promessa, leitor. <a href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/06\/08\/entre-o-faz-de-conta-e-a-realidade\/\">Da \u00faltima vez que nos encontramos nesta coluna<\/a>, afirmei que as fic\u00e7\u00f5es s\u00e3o um modo de dar alguma materialidade aos nossos valores. E disse que h\u00e1 crit\u00e9rios para distinguir boa e m\u00e1 fic\u00e7\u00e3o (assim como h\u00e1 crit\u00e9rios para distinguir bons e maus valores). Se n\u00e3o estiver convencido, volte uns dias e encontrar\u00e1 a humilde argumenta\u00e7\u00e3o deste escrevinhador. Mas, para sumarizar: h\u00e1 as fic\u00e7\u00f5es que nos fazem ver melhor o mundo, ao mesmo tempo que embelezam a realidade. H\u00e1 outras que simplesmente nos alienam do mundo, num escapismo pueril e trivial. Este tipo de ilus\u00e3o, digo agora, tem grande potencial para nos lan\u00e7ar em labirintos, para nos turvar a realidade diante de nossos olhos, para nos levar a comprar gatos por lebres. E h\u00e1, \u00e9 claro, muita coisa que fica entre esses dois extremos.<\/p>\n<p>Veja, ent\u00e3o, o caso em pauta: o \u00f3timo filme de Taika Waititi (que, ali\u00e1s, ganhou h\u00e1 uns meses o Oscar de roteiro adaptado) parece corroborar a tese da semana passada: a de que nossas fic\u00e7\u00f5es moldam nosso mundo. Ele ilustra, na verdade, um caso particular dessa tese geral. As fic\u00e7\u00f5es infantis moldam os mundos das crian\u00e7as: os pequenos realmente veem os monstros, fadas, castelos e mundos perdidos que inventamos para elas. Seu pr\u00f3prio poder de ficcionalizar parece ilimitado: Hitler realmente vivia ao lado de Jojo, assim como Haroldo vive ao lado de Calvin \u2014 que ambos sejam imagin\u00e1rios n\u00e3o faz nenhuma diferen\u00e7a; o efeito que eles causam \u00e9 igualmente real. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Plat\u00e3o inicia a funda\u00e7\u00e3o de sua cidade ideal (nos livros II e III de sua obra-prima) triando cautelosamente o tipo de fic\u00e7\u00e3o a que as crian\u00e7as seriam submetidas. Plat\u00e3o sabia que as virtudes (n\u00f3s dir\u00edamos \u201cvalores\u201d) incorporadas por her\u00f3is e deuses nas epopeias iriam moldar a alma dos cidad\u00e3os, a constitui\u00e7\u00e3o da cidade, todo o seu aparato ps\u00edquico e epistemol\u00f3gico, seu modo de ver o mundo. O Hitler de Jojo molda seu mundo, ao mesmo tempo que materializa seus valores.<\/p>\n<p>O filme tem mais momentos altos: linda fotografia, atua\u00e7\u00f5es tocantes dos protagonistas; uma composi\u00e7\u00e3o que funciona \u2014 identificamo-nos com o her\u00f3i, que tem sua cegueira, seus percal\u00e7os, sua epifania, sua transforma\u00e7\u00e3o; os pequenos detalhes dos planos que mostram o fasc\u00ednio do menino pelos p\u00e9s da m\u00e3e, at\u00e9 que eles estejam fatalmente suspensos; e os contagiantes al\u00edvios c\u00f4micos com que somos agraciados a cada tr\u00eas minutos (um cr\u00edtico mais severo talvez dissesse que o filme todo \u00e9 um grande al\u00edvio c\u00f4mico). <\/p>\n<p>No entanto, todo o cuidado com a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o impede o filme de comunicar para seus espectadores um mundo tipicamente simplificado, potencialmente desencaminhador. Digo \u201ctipicamente\u201d porque <em>Jojo Rabbit<\/em> \u00e9 um filme do seu tempo, que navega calmamente nas expectativas e demandas de um p\u00fablico que leva embotado o seu sentido para as rela\u00e7\u00f5es entre fic\u00e7\u00e3o e realidade de que tenho falado, semana passada e agora. <\/p>\n<blockquote><p>Nossos inimigos nunca s\u00e3o enfrentados como o que s\u00e3o, mas como est\u00fapidos ou mal-intencionados \u2014 esse falso dilema que nos aprisiona sempre que temos falado de pol\u00edtica<\/p><\/blockquote>\n<p>Veja, ent\u00e3o, um modo muito espec\u00edfico de ficcionalizar a realidade. Corte para os anos 1940: os nazistas s\u00e3o maus; eles lavam c\u00e9rebros infantis, e treinam meninos de dez anos para a guerra; eles veem mulheres como m\u00e1quinas de parir; eles s\u00e3o insens\u00edveis \u00e0 dor e ao sofrimento dos seus \u2014 at\u00e9 mesmo das suas crian\u00e7as; eles cultuam a ignor\u00e2ncia e \u2014 ignom\u00ednia! \u2014 oferecem cigarros aos seus pobres aprendizes. Voc\u00eas veem, eu posso continuar indefinidamente; o filme d\u00e1 livre vaz\u00e3o \u00e0s suas caricaturas. \u00c9 claro que na fic\u00e7\u00e3o e nessas com\u00e9dias leves pouco importa o que seja verdadeiro ou falso \u2014 e n\u00e3o estou acusando um <em>blockbuster <\/em>de espalhar <em>fake news<\/em> sobre o nazismo. Nem se trata de responsabilizar os artistas pelos efeitos nocivos de suas obras. (N\u00e3o queremos repetir Plat\u00e3o, que em sua <em>Rep\u00fablica <\/em>fez S\u00f3crates defender a censura e o controle estatal da produ\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o \u2014 para o bem maior da polis.) Nem se trata de avaliar esse filme como um evento isolado, mas de examinar a mentalidade de que ele compartilha. Nossos inimigos nunca s\u00e3o enfrentados como o que s\u00e3o, mas como est\u00fapidos ou mal-intencionados \u2014 esse falso dilema que nos aprisiona sempre que temos falado de pol\u00edtica.<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">N<\/span>\u00e3o saberemos lidar com o nazismo, um dos momentos mais desprez\u00edveis da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, se n\u00e3o entendermos suas motiva\u00e7\u00f5es profundamente humanas \u2014 e, portanto, cheias de zonas cinzentas, frequentemente a meio caminho entre o total desrespeito pela diferen\u00e7a e as melhores inten\u00e7\u00f5es de eleva\u00e7\u00e3o da humanidade. Os pr\u00f3prios nazistas viam a si mesmos desta \u00faltima maneira, e suas fic\u00e7\u00f5es (algumas das quais produzidas com maestria) os representavam precisamente assim. <\/p>\n<p>Entender as zonas cinzas \u00e9 o primeiro passo, mas h\u00e1 um segundo, ainda mais dif\u00edcil: buscar mapear o terreno pantanoso dos valores que animam esse outro inaceit\u00e1vel \u2014 o fascista \u2014 antes de nos deixarmos nausear, antes que nossa repugn\u00e2ncia nos turve a vista e o intelecto, antes que nossos ju\u00edzos de valor afastem para al\u00e9m de qualquer compreens\u00e3o o fato de que tantos homens e mulheres tenham sucumbido a promessas genocidas, acreditando com isso purificar o mundo. Se conseguirmos essa proeza do discernimento nesse caso extremo, o nazismo, estaremos escolados para casos menos graves, mas que, 75 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, nos causam repulsa semelhante, guardadas as propor\u00e7\u00f5es. Veja, ent\u00e3o: n\u00e3o se trata de relativizar os males do nazismo, como diriam alguns de est\u00f4mago mais sens\u00edvel, mas de um exerc\u00edcio de compreens\u00e3o, para nos prepararmos para resistir ao fascismo sem fazer dele uma caricatura. <\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>gora, ao Brasil dos anos 2020. N\u00e3o estamos, ainda, diante do fascismo. Mas seria autoengano julgar que desse mato n\u00e3o sai um Mussolini, e que do matagal n\u00e3o sair\u00e3o camisas negras. Hoje podemos rir \u00e0 vontade do <em>Duce<\/em>, ou do <em>F\u00fchrer <\/em>\u2014 desde que saibamos levar a s\u00e9rio as situa\u00e7\u00f5es s\u00e9rias; e isso implica n\u00e3o cair no engano de que apenas a estupidez ou a pura maldade podem produzir isso que nos toca como monstruosidades. E o que vale para o passado vale ainda mais para o presente: rir de Bolsonaro ou Trump \u00e9 um al\u00edvio, mas \u00e9 tamb\u00e9m escapismo. Trat\u00e1-los como caricaturas antes de saber de onde eles v\u00eam, e quais valores profundos eles representam, \u00e9 erro de principiante; enquanto surramos espantalhos, baixamos a guarda para golpes reais, que vir\u00e3o!<\/p>\n<p>Da\u00ed porque o excelente <em>Jojo Rabbit<\/em> n\u00e3o nos serve. Ele \u00e9 de um escapismo estranho, tenso, novo, que vale a pena ver, mas ainda assim escapismo. E, sim, ele \u00e9 um manifesto contra a guerra \u2014 e precisamos lutar contra a guerra e sua moral da viol\u00eancia. Mas n\u00e3o \u00e9 fugindo dela que a venceremos. N\u00e3o foi fazendo de conta que os advers\u00e1rios eram parvos, inaptos ou ignorantes que as melhores a\u00e7\u00f5es da resist\u00eancia tiveram \u00eaxito. Foi preciso compreender sua estrat\u00e9gia, entender as causas de suas vit\u00f3rias, conhecer o inimigo. <\/p>\n<p>Somos feitos tamb\u00e9m de nossas fic\u00e7\u00f5es \u2014 e fazemos mal quando tentamos separ\u00e1-las de nossa realidade, assim como quando tentamos separar nossos valores da verdade que vemos atrav\u00e9s deles. \u00c9 esse o tipo de animal que somos. Pode, um dia, haver outros tipos, que vejam o mundo em suas cores reais e n\u00e3o estejam condenados, como n\u00f3s, a enfeit\u00e1-lo com as paletas que nos foram dadas. Mas eis o subjetivismo a que estamos presos: nossa verdade \u00e9 o reflexo do que somos. Agora, precisamos cuidar de nos elevar, para desse modo criar um mundo mais elevado, a despeito daqueles que querem rebaix\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\t\t\tDo mesmo autor:\t\t<\/p>\n<ul>\n<li>\n<h3><a href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/04\/30\/progressismo-a-varejo\/\" title=\"Progressismo a varejo\">Progressismo a varejo<\/a><\/h3>\n<\/li>\n<li>\n<h3><a href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/06\/08\/entre-o-faz-de-conta-e-a-realidade\/\" title=\"Entre o faz de conta e a realidade\">Entre o faz de conta e a realidade<\/a><\/h3>\n<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Volto para cumprir a promessa, leitor. Da \u00faltima vez que nos encontramos nesta coluna, afirmei que as fic\u00e7\u00f5es s\u00e3o um modo de dar alguma materialidade aos nossos valores. E disse que h\u00e1 crit\u00e9rios para distinguir boa e m\u00e1 fic\u00e7\u00e3o (assim como h\u00e1 crit\u00e9rios para distinguir bons e maus valores). 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