{"id":2008,"date":"2020-06-08T10:00:38","date_gmt":"2020-06-08T13:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=1873"},"modified":"2020-06-08T10:00:38","modified_gmt":"2020-06-08T13:00:38","slug":"entre-o-faz-de-conta-e-a-realidade-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/06\/08\/entre-o-faz-de-conta-e-a-realidade-2\/","title":{"rendered":"Entre o faz de conta e a realidade"},"content":{"rendered":"<span class=\"wpsdc-drop-cap\">E<\/span>xiste um mist\u00e9rio cotidiano que me intriga j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. Que o leitor diga se n\u00e3o \u00e9 mesmo intrigante: onde h\u00e1 homens, h\u00e1 conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias. N\u00e3o poucas hist\u00f3rias, e n\u00e3o h\u00e1 pouco tempo. Pequenos sum\u00e9rios eram embalados, h\u00e1 quase quatro mil anos, pelas hist\u00f3rias de Gilgamesh e sua busca pela gl\u00f3ria imortal; na mesma \u00e9poca, eg\u00edpcios ouviam, maravilhados, hist\u00f3rias como a do \u201cCampon\u00eas Eloquente\u201d e sua busca por justi\u00e7a; mais tarde, h\u00e1 tr\u00eas mil anos, rapsodos viajavam pelas cidades j\u00f4nicas, d\u00f3ricas, e\u00f3licas e da Magna Gr\u00e9cia, contando eventos m\u00e1gicos e b\u00e9licos que em breve se tornariam <em>Il\u00edada <\/em>e <em>Odisseia<\/em>; por volta desse mesmo tempo, os hebreus atribu\u00edam a Mois\u00e9s seus mitos de origem; os indianos contam e recontam h\u00e1 mil\u00eanios os seus purana; h\u00e1 dezenas de s\u00e9culos os chineses repetem suas anedotas, como as reunidas nos <em>Shishuo xinyu<\/em>. Toda mitologia e todo folclore se assenta sobre narrativas \u2014 que contam e recortam a realidade, sem se confundir com ela. Por que t\u00e3o presentes essas formas de fic\u00e7\u00e3o? De que elas nos servem, de que elas t\u00eam nos servido nesse processo milenar \u2014 que segue, ininterrupto, desde os testes b\u00edblicos, epopeicos, imemoriais, at\u00e9 os tempos de iPhone, Bolsonaro, covid-19 e Trump?<\/p>\n<p>Poucas coisas s\u00e3o t\u00e3o nossas, t\u00e3o humanas, quanto nossa capacidade e \u00edmpeto de criar hist\u00f3rias. Entregamo-nos com prazer e serena obsess\u00e3o a elas; na fic\u00e7\u00e3o estamos em nosso elemento. Nada mais natural, portanto, que nos deixemos levar por essas inven\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito \u2014 o diabo, e quem nele cr\u00ea, as chama de mentiras \u2014 e deixemos de lado a inc\u00f4moda, desleal, fatal realidade. Por que a realidade, quando o mundo paralelo com que lhe podemos recobrir nos \u00e9 t\u00e3o mais grato? E como esta \u00faltima pergunta n\u00e3o \u00e9 meramente ret\u00f3rica, conv\u00e9m lhe dar uma tentativa de resposta: Talvez por uma exig\u00eancia evolutiva. A realidade est\u00e1 sempre \u00e0 espreita, esperando, a malvada, que baixemos nossa guarda; e quem se entrega a ilus\u00f5es estar\u00e1 menos preparado para enfrent\u00e1-la quando vem o seu bote.<\/p>\n<blockquote><p>A fic\u00e7\u00e3o nos obseda com feiti\u00e7os, nos tira o ju\u00edzo, nos engana \u2014 e n\u00e3o contra nossa vontade, que fique claro<\/p><\/blockquote>\n<p>Entretanto, entregamo-nos aos prazeres da ilus\u00e3o; alguns se nutrem de sua gorda ra\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de faz de conta diante da TV; outros, mais frugais, diante de densas p\u00e1ginas impressas; houve tempos em que ouv\u00edamos hist\u00f3rias em volta de fogueiras; j\u00e1 existiu uma era do r\u00e1dio; consta que antes da quarentena pessoas se reuniam e se sentavam nas confort\u00e1veis poltronas de amplas salas para ouvir mentiras projetadas ou encenadas \u00e0 sua frente. Mas, ao fim, essas formas de frui\u00e7\u00e3o se assemelham no seguinte ponto: ao fruir, somos todos c\u00famplices desse crime contra a evolu\u00e7\u00e3o (supondo correta nossa hip\u00f3tese), quando deliberadamente damos as costas \u00e0 verdade \u2014 ela nos cansa e enfastia! \u2014 e imergimos na fantasia, que tem como \u00fanico fim simular outros mundos, qualquer outro mundo que n\u00e3o o real.<\/p>\n<p>Lancei, acima, a palavra \u201cencanto\u201d \u2014 pois me parece ser justamente esse o efeito da fic\u00e7\u00e3o sobre n\u00f3s. Ela nos obseda com feiti\u00e7os, nos tira o ju\u00edzo, nos engana \u2014 e n\u00e3o contra nossa vontade, que fique claro. Quando corremos \u00e0s salas de cinema e teatro, \u00e0s prateleiras das se\u00e7\u00f5es de fic\u00e7\u00e3o, ao Netflix, AmazonPrime, AppleTV e PopcornTime corremos voluntariamente a encantadores que nos inebriar\u00e3o com as doces po\u00e7\u00f5es da mentira e do engano. Eis o mist\u00e9rio, que, de t\u00e3o batido, mal chega a ser formulado.<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">P<\/span>ermita-me agora, leitor, que eu volte ao \u00fanico tema que deveria nos ocupar nestas conversas peri\u00f3dicas: qual o valor da fic\u00e7\u00e3o para n\u00f3s, obcecados por essas belas mentiras que t\u00eam entrada franqueada em todos os lares do mundo h\u00e1 n\u00e3o sei quantos mil\u00eanios, ainda que todas as morais fa\u00e7am da proibi\u00e7\u00e3o da mentira sua li\u00e7\u00e3o primeira? Apresento, em resposta, uma mera perspectiva, uma s\u00f3 pe\u00e7a do quebra-cabe\u00e7a. Por que a fic\u00e7\u00e3o? Porque s\u00e3o as nossas fic\u00e7\u00f5es que determinam os contornos do nosso mundo. Por meio de nossas \u201cfic\u00e7\u00f5es norteadoras\u201d damos forma e imagem aos nossos valores, representamo-los, visualizamo-los, para que eles estejam integrados em nossas vidas e incorporados \u00e0 nossa carne, para bem us\u00e1-los nos momentos em que formos chamados a us\u00e1-los. <\/p>\n<p>Mas eis um tema em que ainda insistirei muito nesta modesta coluna: os valores n\u00e3o se equivalem, alguns valem mais que outros. O valor dos valores! Problema dif\u00edcil. Volto \u00e0 fic\u00e7\u00e3o para efeitos de compara\u00e7\u00e3o. O leitor consciencioso, se vasculhar seu rico repert\u00f3rio de fic\u00e7\u00f5es, ir\u00e1 facilmente concordar que certos contos s\u00e3o melhores que outros, que algumas hist\u00f3rias, imagens, montagens valem mais do que outras. H\u00e1, \u00e9 claro, aqueles que dizem, sem medo da puni\u00e7\u00e3o divina, \u201c<em>Eu sei o que voc\u00eas fizeram no ver\u00e3o passado<\/em> \u00e9 t\u00e3o bom quanto <em>O iluminado<\/em>, e Romero Brito vale tanto quanto Portinari; \u00e9 uma quest\u00e3o de gosto\u201d. Mas nem mesmo esse relativismo pueril consegue disfar\u00e7ar o fato de que n\u00f3s naturalmente hierarquizamos o que nos cai sobre o colo, fazemos ju\u00edzos de valor, escolhemos algumas coisas em detrimento de outras, e de prefer\u00eancia as melhores. Para cada um h\u00e1 o melhor e o pior, e isso \u00e9 determinado por nossos valores. Mas, para al\u00e9m disso \u2014 e agora confesso esperar menos assentimento do generoso leitor \u2014, h\u00e1 um crit\u00e9rio para julgar esses crit\u00e9rios, h\u00e1 um modo de dizer qual o valor dos valores que usamos para distinguir o melhor e o pior. Outra vez, a fic\u00e7\u00e3o nos ajuda: Algumas delas nos tornam mais afiados para ver a realidade, mais atentos, perspicazes, escolados nas coisas da realidade; e, se temos a rara sorte de encontrar uma obra de arte digna desse nome, veremos que, al\u00e9m de potentes, elas s\u00e3o belas \u2014 fic\u00e7\u00f5es que, enquanto cultivam nossos sentidos para a realidade, ainda por cima tornam bela a realidade. (E percebam: o que digo a respeito da fic\u00e7\u00e3o, eu poderia dizer a respeito de valores; mas deixo para outra ocasi\u00e3o a reflex\u00e3o sobre essa assombrosa semelhan\u00e7a.) H\u00e1, por outro lado, fic\u00e7\u00f5es que embotam nossos sentidos, seja porque elas nos tornam alheios \u00e0 realidade (e isso n\u00e3o \u00e9 nenhuma defesa do \u201crealismo\u201d!), seja porque fazem ver menos claramente o mundo da vida.<\/p>\n<p>Essas considera\u00e7\u00f5es s\u00e3o program\u00e1ticas, metodol\u00f3gicas. Com elas no bolso, poderemos olhar para uma ou outra pe\u00e7a de fic\u00e7\u00e3o e julg\u00e1-la a partir de um crit\u00e9rio mais objetivo que o gosto, o nosso prazer pessoal ou a capacidade que ele tem de nos entreter. Procure-me de novo em uma semana, leitor, e ent\u00e3o poderemos, juntos, aplicar esse \u201cm\u00e9todo axiol\u00f3gico\u201d e coloc\u00e1-lo \u00e0 prova.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um mist\u00e9rio cotidiano que me intriga j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. Que o leitor diga se n\u00e3o \u00e9 mesmo intrigante: onde h\u00e1 homens, h\u00e1 conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias. N\u00e3o poucas hist\u00f3rias, e n\u00e3o h\u00e1 pouco tempo. 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