{"id":2011,"date":"2020-07-21T21:57:33","date_gmt":"2020-07-22T00:57:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=2011"},"modified":"2020-07-21T21:57:33","modified_gmt":"2020-07-22T00:57:33","slug":"os-decadentes-avancam","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/07\/21\/os-decadentes-avancam\/","title":{"rendered":"Os decadentes avan\u00e7am"},"content":{"rendered":"<span class=\"wpsdc-drop-cap\">S<\/span>im, \u00e9 verdade: n\u00f3s vivemos numa \u00e9poca de profunda decad\u00eancia moral. E \u00e9 verdade que isso desestrutura profundamente as formas antigas de vida, e desorienta os homens do presente: n\u00e3o sabemos bem o que fazemos, ou o que devemos fazer. Como os cegos de Goya, n\u00e3o conhecemos o caminho. Vivemos imersos na d\u00favida, sempre tendendo \u00e0 desordem, a um passo do caos, e sentimos nosso ch\u00e3o vacilar. Pois quando os valores, antes firmes como alicerces, vacilam e decaem, sentimos tremer nosso edif\u00edcio \u2014 e como os japoneses, que, dia sim, dia n\u00e3o, veem seus m\u00f3veis sacolejando pelos c\u00f4modos gra\u00e7as \u00e0s intemp\u00e9ries tect\u00f4nicas, tamb\u00e9m n\u00f3s podemos ver valores dan\u00e7arem estranhamente \u00e0 nossa frente, em plena luz do dia. \u00c9 nossa civiliza\u00e7\u00e3o, com sua j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o s\u00f3lida moral e suas j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o firmes certezas, o que vacila, submetida a pequenos, renitentes, cotidianos cataclismos. <\/p>\n<p>Assim, \u00e9 verdade: de nossa perspectiva inevitavelmente presente e, por isso, inevitavelmente deca\u00edda, o futuro se mostra nebuloso. N\u00e3o conseguimos ver t\u00e3o distintamente o que se mostra aos nossos olhos como os nossos av\u00f3s conseguiam \u2014 era Gil quem dizia, quando eu pr\u00f3prio era pequeno, que antes o mundo era pequeno, porque a Terra era grande, e hoje ele \u00e9 grande, porque a Terra \u00e9 pequena. O mundo mudou, e com ele nossa imagem do futuro; e o que se desenha para l\u00e1 da n\u00e9voa que hoje nos embota os olhos pode bem ser monstros. Sim, \u00e9 verdade. E nesse ponto talvez todos os conservadores estejam certos. <\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o \u00e9 que simplesmente n\u00e3o sabemos \u2014 n\u00e3o \u00e9 verdade, meus caros conservadores? De modo que, mais para l\u00e1 da cerra\u00e7\u00e3o, pode muito bem haver anjos. E ainda que nossa visibilidade seja baix\u00edssima \u2014 e que o futuro se mostre muito mais incerto do que se mostrava para os nossos av\u00f3s \u2014, \u00e9 verdade tamb\u00e9m que alguns de n\u00f3s caminham com passos firmes atrav\u00e9s da n\u00e9voa, e com uma velocidade (suicida, alguns dir\u00e3o) nunca antes vista. Por isso n\u00e3o me surpreendo quando, vez ou outra, ou\u00e7o algum incauto, uns bons passos \u00e0 minha frente (\u00e0 nossa frente, leitor), dizer, de l\u00e1 da vanguarda, que apalpa anjos; era s\u00f3 medo o que nos fazia interpretar como monstruosos os vultos alados que nos esperavam al\u00e9m da bruma. (N\u00e3o que eu creia neles cegamente, ouvindo deles sem os ver; e, de toda forma, parece-me natural supor que h\u00e1 algo de monstruoso em eunucos alados.) Seja como for, insisto, mais na retaguarda: nossos valores decaem, o mundo se expande, nossas formas de orienta\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais seguras. E assim a d\u00favida, a desordem e o caos s\u00e3o a \u00fanica realidade de nosso s\u00e9culo. <\/p>\n<blockquote><p>Mas, quando voltamos nossas cabe\u00e7as para a turba e sua gritaria, percebemos que tamb\u00e9m eles est\u00e3o envoltos na mesma n\u00e9voa que nos turva as vistas<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c0s minhas costas, no entanto, ou\u00e7o uma turba de cautelosos agitados gritar: que n\u00e3o avancemos! Que o caminho j\u00e1 trilhado \u00e9 o \u00fanico seguro, que era por conhec\u00ea-lo que nossos av\u00f3s sabiam o caminho: que retrocedamos! Mas, quando voltamos nossas cabe\u00e7as para a turba e sua gritaria, percebemos que tamb\u00e9m eles est\u00e3o envoltos na mesma n\u00e9voa que nos turva as vistas. E, talvez ensurdecidos por sua gritaria, eles n\u00e3o ouvem os tremores da terra, que abrem crateras \u00e0s suas costas, que destroem e inviabilizam os caminhos antigos. Os poucos entre eles que, em compensa\u00e7\u00e3o, sentem tremer a terra sob seus p\u00e9s se enganam t\u00e3o grotescamente ao buscar por suas causas que por vezes n\u00e3o conseguimos conter o riso diante de suas hip\u00f3teses. Sabemos que s\u00e3o for\u00e7as hist\u00f3ricas de enorme magnitude o que nos tira o ch\u00e3o e os valores antes firmes (a hist\u00f3ria, por vezes, tem uma densidade geol\u00f3gica); mas para os conservadores a causa somos sempre n\u00f3s, meus amigos progressistas: nos chamam globalistas, marxistas, esquerdistas, e sup\u00f5em que, se f\u00f4ssemos convertidos ou eliminados, teriam de volta seu antigo ch\u00e3o, seu antigo mundo. <\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">V<\/span>eja ent\u00e3o que (e talvez isso sirva de consolo a n\u00f3s que nos assumimos perdidos) h\u00e1 aqueles que nem sequer notam que se encontram \u00e0 deriva. O problema \u00e9 que, se antes bastava rir dos pobres coitados que negam as evid\u00eancias de que est\u00e3o perdidos, e n\u00e3o notam que a causa disso vai muito al\u00e9m de mim, hoje s\u00e3o eles, os cegos, os que nos conduzem. E a gravidade dessa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tanto sua cegueira, mas, em primeiro lugar, o fato de que julgam ver claramente e saber para onde v\u00e3o; e, em segundo, o de que se guiam por seu faro mais animal que racional ao nos levar para os escombros do caminho que se fechou \u00e0s nossas costas, n\u00e3o para qualquer lugar real, mas para vis\u00f5es fantasistas de um passado para sempre perdido. N\u00f3s os ouvimos, e sentimos vibrar em nossos ossos e nossas mentes a convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 retorno poss\u00edvel \u2014 que somos nativos da desordem e do caos, que a seguran\u00e7a uma vez vivida \u00e9 s\u00f3 uma lembran\u00e7a remota e provavelmente falsa, que o passado n\u00e3o \u00e9 mais caminho algum. <\/p>\n<p>Sim, \u00e9 verdade, n\u00f3s nascemos nos estertores do segundo mil\u00eanio, e ao nascer fomos lan\u00e7ados \u00e0 decad\u00eancia: mas justamente por isso este \u00e9 o nosso lar. E nosso dilema existencial \u00e9 este: ou tentamos nos sentir em casa em meio ao caos, \u00e0 luta e \u00e0 desordem, ou seremos para sempre estrangeiros em nosso pa\u00eds, deslocados do presente, amantes de um passado enterrado e incr\u00e9dulos em qualquer promessa de futuro. Ou choramos pelos valores derramados, fazendo de nossas vidas um perp\u00e9tuo pesar pela palp\u00e1vel decad\u00eancia, ou nos assumimos decadentes, e extra\u00edmos da dissolu\u00e7\u00e3o dos valores, da incerteza e da d\u00favida, a coragem para seguir adiante sem saber o que nos espera. Sim, \u00e9 verdade, j\u00e1 n\u00e3o temos aqueles valores robustos e vistosos de nossos av\u00f3s. Mas, se tivermos de tirar deles uma li\u00e7\u00e3o, que seja o desprezo pelo medo e pela covardia que porventura nos brota no peito quando enfrentamos o desconhecido. Que a n\u00f3s, decadentes, reste a virtude da coragem para <em>atravessar <\/em>a decad\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, \u00e9 verdade: n\u00f3s vivemos numa \u00e9poca de profunda decad\u00eancia moral. E \u00e9 verdade que isso desestrutura profundamente as formas antigas de vida, e desorienta os homens do presente: n\u00e3o sabemos bem o que fazemos, ou o que devemos fazer. 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