{"id":2020,"date":"2020-07-21T23:25:52","date_gmt":"2020-07-22T02:25:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=2020"},"modified":"2020-07-21T23:25:52","modified_gmt":"2020-07-22T02:25:52","slug":"celso-furtado-o-economista-e-o-subdesenvolvimento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/07\/21\/celso-furtado-o-economista-e-o-subdesenvolvimento\/","title":{"rendered":"Celso Furtado: o economista e o subdesenvolvimento"},"content":{"rendered":"<span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span> cidade de Pombal, na Para\u00edba, foi assim nomeada em homenagem ao nobre portugu\u00eas \u2013 Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 de Carvalho e Melo, o marqu\u00eas de Pombal \u2013, cuja parte da linha de ascend\u00eancia remete aos \u00edndios Tabajaras, habitantes dessa regi\u00e3o. Mas, se o rei d. Jos\u00e9 I, ao criar a Vila de Pombal no Brasil, homenageou um dos grandes homens com ra\u00edzes profundas naquela terra, a mesma cidade paraibana, em uma dessas surpreendentes coincid\u00eancias da hist\u00f3ria, generosamente agraciou nosso pa\u00eds, h\u00e1 cem anos, com um dos mais ilustres cidad\u00e3os que o Brasil moderno produziu.<\/p>\n<p>Celso Monteiro Furtado come\u00e7ava, em 26 de julho de 1920, uma vida que seria profundamente dedicada ao pa\u00eds. Quando jovem, sonhava em ser um literato, mas acabou por reconhecer-se em uma miss\u00e3o: \u201ccaptar o essencial da realidade atrav\u00e9s da an\u00e1lise [&#8230;], transformar o mundo real em exerc\u00edcio mental\u201d, como ficou registrado no document\u00e1rio <em>O longo amanhecer<\/em> (2004). Seus companheiros da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para Am\u00e9rica Latina (Cepal) \u2013 \u00f3rg\u00e3o da ONU que ajudou a estruturar \u2013 o reconhecem tamb\u00e9m como um contribuidor essencial, no sentido estreito da palavra, por ancorar as bases desse pensamento cepalino, de emancipa\u00e7\u00e3o do continente. Ao contrapor uma vis\u00e3o absoluta de desenvolvimento, a Cepal destravou o progresso econ\u00f4mico de muitos pa\u00edses da regi\u00e3o e estabeleceu um novo paradigma de desenvolvimento a partir de meados do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<blockquote><p>Com rela\u00e7\u00e3o ao papel de Celso em seu governo, Juscelino teria dito simplesmente: \u201cS\u00f3 me arrependo de n\u00e3o t\u00ea-lo chamado mais cedo\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Se sua contribui\u00e7\u00e3o para o pensamento econ\u00f4mico mundial \u00e9 not\u00f3ria, seu interesse pelo Brasil \u00e9 prim\u00e1rio e absoluto. Ao lado de S\u00e9rgio Buarque, Gilberto Freyre e Caio Prado, Celso conseguiu sintetizar grandes quest\u00f5es sociais brasileiras, com uma abordagem economicista que ia muito al\u00e9m da pura aloca\u00e7\u00e3o de recursos escassos: ele se preocupou com toda a organiza\u00e7\u00e3o socioinstitucional que se ancorava nessa problem\u00e1tica. Em sua obra mais difundida, <em>Forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil<\/em> \u2013 ou simplesmente <em>FEB<\/em>, como \u00e9 chamado nos cursos de ci\u00eancias sociais pa\u00eds afora, onde continua a ser leitura obrigat\u00f3ria \u2013, Furtado faz uma an\u00e1lise estrutural dos ciclos econ\u00f4micos do pa\u00eds. Fortemente influenciada pela leitura que o economista fez de Karl Mannheim, a obra visa capturar os caminhos para uma teoria desenvolvimentista genuinamente brasileira. Para Fernand Braudel, o grande historiador franc\u00eas \u00e0 frente da escola de Annales, a for\u00e7a criativa do <em>FEB <\/em>o coloca entre as grandes obras do pensamento econ\u00f4mico moderno, para al\u00e9m das fronteiras brasileiras.<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>ssim como Mannheim, Furtado tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica com a constru\u00e7\u00e3o da intelligentsia, e desse modo rejeitava de pronto tanto uma solu\u00e7\u00e3o liberal cl\u00e1ssica de desenvolvimento quanto a proposta revolucion\u00e1ria do marxismo para o Brasil \u2013 falsos dilemas que, sessenta anos depois, ainda pautam a discuss\u00e3o pol\u00edtica em nosso pa\u00eds. Celso faleceu em um momento em que o planejamento econ\u00f4mico come\u00e7ava a perder for\u00e7a e, assim, o economista que fora duas vezes ministro n\u00e3o p\u00f4de testemunhar que, no ano do seu centen\u00e1rio, uma pandemia seria respons\u00e1vel por mostrar ao mundo a import\u00e2ncia do protagonismo do Estado para destravar o desenvolvimento. Foi Celso, por exemplo, o respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o da Superintend\u00eancia do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), em 1959, com a inten\u00e7\u00e3o de pensar uma nova forma de desenvolvimento para a regi\u00e3o. Ali, ele pensou formas de industrializa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento que buscavam conviver com a seca, em vez se tentar acabar com ela, como vinha sendo feito, infrutiferamente, at\u00e9 ent\u00e3o. Com rela\u00e7\u00e3o ao papel de Celso em seu governo, Juscelino teria dito simplesmente: \u201cS\u00f3 me arrependo de n\u00e3o t\u00ea-lo chamado mais cedo\u201d.<\/p>\n<p>Em um momento do document\u00e1rio sobre Celso, a economista Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares diz: \u201cEle sabia que a situa\u00e7\u00e3o continuava muito ruim socialmente, que o subdesenvolvimento se reproduzia&#8230; Ele n\u00e3o estava abrindo m\u00e3o daquela ideia, pelo contr\u00e1rio. Ele continuava com o diagn\u00f3stico estrutural pessimista sobre a reprodu\u00e7\u00e3o interna do subdesenvolvimento\u201d. Se ainda estivesse por aqui, talvez ele pudesse, mais uma vez, nos estender a m\u00e3o, como o fez antes \u2013 seja como o iluminado pensador que foi, seja como homem de Estado, formulador de pol\u00edticas p\u00fablicas \u2013, porque provavelmente constataria, como registrou no livro de mem\u00f3rias <em>O longo amanhecer<\/em>, \u201cem nenhum momento de nossa hist\u00f3ria foi t\u00e3o grande a dist\u00e2ncia entre o que somos e o que esper\u00e1vamos ser\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cidade de Pombal, na Para\u00edba, foi assim nomeada em homenagem ao nobre portugu\u00eas \u2013 Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 de Carvalho e Melo, o marqu\u00eas de Pombal \u2013, cuja parte da linha de ascend\u00eancia remete aos \u00edndios Tabajaras, habitantes dessa regi\u00e3o. Mas, se o rei d. 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