{"id":2099,"date":"2020-08-12T11:15:35","date_gmt":"2020-08-12T14:15:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=2099"},"modified":"2020-08-12T11:15:35","modified_gmt":"2020-08-12T14:15:35","slug":"ser-muculmana-e-feminista-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2020\/08\/12\/ser-muculmana-e-feminista-no-brasil\/","title":{"rendered":"Ser mu\u00e7ulmana e feminista no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em><span class=\"wpsdc-drop-cap\">G<\/span>illiam Melanie Moreira Ur Rehman \u00e9 brasileira, tem 38 anos e mora em S\u00e3o Lu\u00eds, capital do Maranh\u00e3o, cidade em que nasceu. Ela fez sua revers\u00e3o<\/em><a id=\"_ftnref1\" href=\"\/revista\/#_ftn1\">[1]<\/a> <em>ao Islam<\/em><a id=\"_ftnref2\" href=\"\/revista\/#_ftn2\">[2]<\/a> <em>seis anos atr\u00e1s, em 2014. \u00c9 graduada em Hist\u00f3ria pela Universidade Estadual do Maranh\u00e3o, al\u00e9m de ter se especializado em antropologia e sociologia.<\/em><\/p>\n<p><em>Entrei em contato com ela em no come\u00e7o de julho, depois de t\u00ea-la encontrado em uma rede social, em um grupo de mu\u00e7ulmanos progressistas. Ela de pronto me chamou a aten\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a exemplar de suas falas libert\u00e1rias. Como tenho me dedicado a estudar as representa\u00e7\u00f5es sobre mu\u00e7ulmanos em redes sociais, logo notei que o depoimento de Gilliam seria uma grande contribui\u00e7\u00e3o para essa reflex\u00e3o, pois traria elementos sobre o feminismo e sobre o que significa se tornar uma mu\u00e7ulmana no Brasil contempor\u00e2neo. Desse modo, o caso de Gilliam contrastaria com o que tenho abordado com mais profundidade em minha pesquisa, a islamofobia. Assim, Gilliam p\u00f4de apresentar um tanto da realidade das pessoas cujas vidas e cujos pensamentos vejo amea\u00e7ados pelo preconceito.<\/em><\/p>\n<p><em>Depois de algumas conversas, tive a certeza de que eu e outras pessoas dever\u00edamos conhec\u00ea-la melhor. Naquele come\u00e7o de julho, ainda ofegante enquanto convalescia da covid-19, ela foi gentil o suficiente para me conceder a entrevista que se segue.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Assalam alaikum.<\/em><a id=\"_ftnref3\" href=\"\/revista\/#_ftn3\">[3]<\/a> Agrade\u00e7o a sua disposi\u00e7\u00e3o pra gente conversar, para nos ensinar algumas coisas acerca do que \u00e9 ser mu\u00e7ulmana no Brasil. Primeiramente, quando come\u00e7ou sua rela\u00e7\u00e3o com o Islam e como ela se manifesta hoje?<\/strong><\/p>\n<p><em>Wa alaikum salam<\/em>.<a id=\"_ftnref4\" href=\"\/revista\/#_ftn4\">[4]<\/a> \u00c9 um prazer, Felipe. Estou no Islam desde 2014, tem seis anos j\u00e1. H\u00e1 seis anos fiz minha revers\u00e3o. Sou formada em hist\u00f3ria pela Universidade Estadual do Maranh\u00e3o, sou especialista em antropologia e sociologia e estou aqui, representando o Islam em S\u00e3o Lu\u00eds, porque a gente n\u00e3o tem uma comunidade t\u00e3o expressiva aqui. Ent\u00e3o eu sou quase uma refer\u00eancia, vamos dizer assim. Muitos me procuram pra tentar entender, pra tentar desconstruir, por curiosidade. E assim a gente vai, de certa forma, fazendo <em>dawah<\/em>,<a id=\"_ftnref5\" href=\"\/revista\/#_ftn5\">[5]<\/a> de certa forma levando o Islam \u00e0queles que n\u00e3o conhecem e do jeito mais positivo, uma vez que a gente sabe que a m\u00eddia n\u00e3o contribui muito pra isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Isso \u00e9 fato, a m\u00eddia acaba mostrando muitos estere\u00f3tipos. E, apesar desses estere\u00f3tipos, voc\u00ea se tornou mu\u00e7ulmana. Por que voc\u00ea escolheu essa religi\u00e3o, o que a motivou a se tornar mu\u00e7ulmana?<\/strong><\/p>\n<p>Como eu sou formada em hist\u00f3ria, eu trabalhava no Arquivo P\u00fablico e na Superintend\u00eancia de Patrim\u00f4nio do Estado do Maranh\u00e3o e nesse meio conheci muitos pesquisadores. Vale dizer que aqui em S\u00e3o Lu\u00eds n\u00f3s temos uma concentra\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias de origem s\u00edrio-libanesa. Por isso, na \u00e9poca, o presidente da Academia Maranhense, que era o Benedito Buzar, que tem essa ascend\u00eancia, me pediu pra fazer uma pesquisa, no caso, pra rascunhar uma genealogia e tentar tatear a vinda dessas fam\u00edlias pra c\u00e1. Mas ele queria fazer algo mais complexo, mais completo. Queria falar um pouquinho da sociedade, da religi\u00e3o, dos costumes, e a\u00ed eu tive que, pra al\u00e9m das fontes prim\u00e1rias \u2013 ir at\u00e9 o arquivo, fazer a transcri\u00e7\u00e3o dos documentos e tudo o mais \u2013, partir tamb\u00e9m pras fontes secund\u00e1rias, que me dariam base pra poder fornecer esse material pra ele. E foi assim que eu fui tateando at\u00e9 chegar \u00e0 religi\u00e3o. <\/p>\n<p>Quando cheguei \u00e0 religi\u00e3o, eu tamb\u00e9m desconstru\u00ed muitas coisas. Muito embora eu venha da \u00e1rea da hist\u00f3ria, e tenha todo um olhar mais sens\u00edvel pra determinadas quest\u00f5es, o Islam n\u00e3o \u00e9 um contexto de estudo real nas universidades. Ent\u00e3o eu tive que fazer tamb\u00e9m esse trabalho de desconstruir na minha mente v\u00e1rias coisas, e dessa forma eu fui adentrando, fui gostando, fui me identificando, porque eu sempre fui uma jovem muito inquieta no sentido espiritual, eu venho de uma fam\u00edlia que tem tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, s\u00e3o crist\u00e3os. A fam\u00edlia da minha m\u00e3e \u00e9 de origem portuguesa, meu av\u00f4, Manuel Moreira, \u00e9 portugu\u00eas. A fam\u00edlia do meu pai tamb\u00e9m vem da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e s\u00e3o pessoas mais conservadoras, pessoas que v\u00eam dessa tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 mesmo, mas eu nunca me convenci muito dos rituais do catolicismo \u2013 batizar, fazer a crisma, a primeira comunh\u00e3o. Enfim, o Islam come\u00e7ou a me abrir possibilidades de reflex\u00e3o sobre v\u00e1rias coisas, sobretudo a quest\u00e3o de g\u00eanero, sobretudo me entender como mulher nesse mundo. Ent\u00e3o foi a partir disso que eu fui me aprofundando no Islam at\u00e9 chegar \u00e0 revers\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea disse que deparou com quest\u00f5es que mexeram com voc\u00ea, com sua intimidade, com seu pensamento, enquanto realizava uma pesquisa hist\u00f3rica. Isso me parece algo essencial, que acaba motivando verdadeiramente a pesquisa. Eu gostaria que voc\u00ea falasse mais sobre como foi essa pesquisa, saber um pouco mais dela, pois de certa forma \u00e9 saber um pouco mais de voc\u00ea tamb\u00e9m.<\/strong><\/p>\n<p>Essa pesquisa foi crucial para mim. Digamos que ela foi o ponto de partida para que eu chegasse \u00e0 minha espiritualidade, \u00e0 f\u00e9 que hoje eu professo. Muito embora a pesquisa que eu tenha feito n\u00e3o tenha me dado instrumentos pra trilhar o caminho espiritual, ela me deu mesmo foi a base hist\u00f3rica, de algumas coisas que ocorreram aqui no meu estado. <em>Alhamdulillah<\/em><a id=\"_ftnref6\" href=\"\/revista\/#_ftn6\">[6]<\/a> eu agrade\u00e7o muito ter sido chamada pelo Benedito Buzar pra fazer isso, porque foi a partir dessa atividade profissional que eu fui caminhando, caminhando, tateando o Islam, ainda que \u00e0s escuras, at\u00e9 chegar aonde estou. <\/p>\n<blockquote><p>O Islam est\u00e1 aqui, est\u00e1 presente h\u00e1 muito tempo<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas foi com essa pesquisa que descobri o fluxo migrat\u00f3rio dessas fam\u00edlias aqui no estado do Maranh\u00e3o, que se deu ali, por volta de 1880 at\u00e9 1900. Essas fam\u00edlias vieram pra c\u00e1 a convite do Imperador [d. Pedro II], que mantinha rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com o Oriente M\u00e9dio, e vinham fugindo da persegui\u00e7\u00e3o movida pelos turcos. Depois, tivemos outro momento de fluxo migrat\u00f3rio dessas fam\u00edlias, j\u00e1 entre 1920 e 1940, quando houve todo aquele processo de industrializa\u00e7\u00e3o do Sudeste brasileiro, mas que de alguma forma algumas fam\u00edlias vieram parar aqui no estado do Maranh\u00e3o, tanto que h\u00e1 v\u00e1rios aspectos culturais e arquitet\u00f4nicos aqui no estado em que voc\u00ea consegue identificar uma presen\u00e7a \u00e1rabe muito forte, a presen\u00e7a moura. E a gente tamb\u00e9m tem que considerar que Portugal sofreu influ\u00eancia moura. Querendo ou n\u00e3o, \u00e0s vezes as pessoas acham que o contexto do Oriente, que o pr\u00f3prio Islam \u00e9 algo t\u00e3o apartado da nossa realidade, mas n\u00e3o \u00e9. O brasileiro tem essa quest\u00e3o do desconhecimento da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Portugal teve muita influ\u00eancia moura. O Islam est\u00e1 aqui, est\u00e1 presente h\u00e1 muito tempo. A gente sabe sobre toda a quest\u00e3o dos Mal\u00eas,<a id=\"_ftnref7\" href=\"\/revista\/#_ftn7\">[7]<\/a> dos escravos, as pr\u00f3prias investidas no per\u00edodo das navega\u00e7\u00f5es tinham a presen\u00e7a de mu\u00e7ulmanos nas tripula\u00e7\u00f5es, enfim&#8230; <\/p>\n<p>Pude tamb\u00e9m perceber a influ\u00eancia que essas pessoas que vinham dessas fam\u00edlias de origem \u00e1rabe, s\u00edrio-libanesa, tiveram na pol\u00edtica local quando chegaram aqui. A gente teve alguns governadores aqui no estado do Maranh\u00e3o que eram descendentes de \u00e1rabes. Teve o Jos\u00e9 Murad, o Ant\u00f4nio Dino, o Ribamar Fiquene, todos eles s\u00e3o de origem \u00e1rabe, e se voc\u00ea for buscar mais a fundo, certamente a f\u00e9 ancestral dessas pessoas era o Islam. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, dando um salto dessa fase acad\u00eamica, essa fase mais cient\u00edfica, quando eu comecei de fato a fazer a minha pesquisa, a minha busca pessoal, a\u00ed eu tive que realmente fazer um trabalho solit\u00e1rio, porque aqui eu n\u00e3o tinha a quem recorrer, eu fui ainda atr\u00e1s de algumas pessoas que faziam parte do meu c\u00edrculo de amizades, eu tinha Sadat, Sauaia, que s\u00e3o amigos de adolesc\u00eancia, que s\u00e3o de fam\u00edlias de origem \u00e1rabe, mas todos j\u00e1 perdidos nesses costumes, ningu\u00e9m isl\u00e2mico, todo mundo j\u00e1 com os costumes ocidentalizados porque nasceram aqui, viveram aqui, se criaram aqui. Eu tive que realmente buscar fora do estado esse meu alimento espiritual pra poder entender o motivo de querer tanto saber sobre o Islam para al\u00e9m desse contexto pol\u00edtico que a gente acompanha na TV, al\u00e9m dessas not\u00edcias que nos s\u00e3o colocadas todos os dias, nos bombardeando, fazendo que a gente crie uma vis\u00e3o completamente deturpada do que \u00e9 o Islam, sem separar a pol\u00edtica e os interesses por tr\u00e1s de tantos eventos que marcaram a humanidade do s\u00e9culo XX pra c\u00e1. <\/p>\n<p>Assim, eu tive que fazer uma busca nas redes sociais, procurar lideran\u00e7as, procurar pessoas, um amigo de um amigo de um amigo que \u00e9 mu\u00e7ulmano. E dessa forma comecei a angariar informa\u00e7\u00f5es pra eu poder entender que de fato era aquilo que eu queria. E a partir disso eu tamb\u00e9m comecei a buscar contatos aqui em S\u00e3o Lu\u00eds, porque eu parti do seguinte princ\u00edpio: assim como eu tenho essa inquieta\u00e7\u00e3o, alguma outra pessoa aqui tamb\u00e9m deve ter, deve haver algu\u00e9m aqui que tamb\u00e9m esteja na mesma <em>vibe <\/em>que eu estou. E assim eu comecei a procurar, cheguei a uma determinada pessoa, que estava aqui no Brasil, morando aqui em S\u00e3o Lu\u00eds, e \u00e9 mu\u00e7ulmano, e foi com ele que eu comecei a pegar as primeiras informa\u00e7\u00f5es, as primeiras bases, at\u00e9 chegar a fazer a <em>shahada<\/em>.<a id=\"_ftnref8\" href=\"\/revista\/#_ftn8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ouvindo voc\u00ea falar sobre essa pesquisa hist\u00f3rica transbordar para uma busca espiritual, a gente percebe como o Islam \u00e9 algo muito pr\u00f3ximo, uma vez que \u00e9 parte da hist\u00f3ria, da pr\u00f3pria sociabilidade das pessoas, da hist\u00f3ria do pa\u00eds. E ao mesmo tempo \u00e9 algo de que as pessoas se distanciam por conta desses fatores tamb\u00e9m colocados por voc\u00ea, que fazem com que muita gente mistifique e se recuse a tentar entender a religi\u00e3o, uma vez que \u00e9 mais f\u00e1cil resumir toda a quest\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 pol\u00edtica, e ignorar o lado da espiritualidade, o qual voc\u00ea perseguiu. Depois que voc\u00ea se tornou mu\u00e7ulmana, o que mudou pra voc\u00ea? Como \u00e9 ser uma mulher mu\u00e7ulmana? Como a Gilliam mu\u00e7ulmana se aproxima ou se distancia da Gilliam de antes da revers\u00e3o? Voc\u00ea disse que notou mudan\u00e7as particulares, internas, mas e quanto \u00e0s pessoas \u00e0 sua volta? Elas lidaram tranquilamente, a fam\u00edlias, os amigos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>A minha busca pelo Islam, desde o princ\u00edpio, foi compartilhada com a minha fam\u00edlia e com os amigos mais pr\u00f3ximos. Ent\u00e3o essas pessoas acompanharam toda a minha trajet\u00f3ria, toda minha curiosidade, toda minha inquieta\u00e7\u00e3o, toda minha fome e sede desde o in\u00edcio. Quando eu parti pra essa pesquisa, quando eu fui contratada pelo Buzar pra fazer essa pesquisa, eu acabei tamb\u00e9m deparando com algumas informa\u00e7\u00f5es da minha fam\u00edlia. Ent\u00e3o, como eu disse, acho que grande parte dos brasileiros tem um p\u00e9, de uma certa forma, no Oriente, em virtude dessa domina\u00e7\u00e3o moura que tivemos em Portugal. Tateando essas fam\u00edlias, eu consegui chegar a v\u00e1rios nomes de pessoas da minha pr\u00f3pria fam\u00edlia. Querendo ou n\u00e3o, foi uma busca pela minha ancestralidade tamb\u00e9m. Incr\u00edvel, Allah \u00e9 um facilitador, e como Ele facilitou minha vida nesse sentido! Porque desde o princ\u00edpio eu nunca encontrei resist\u00eancias, obst\u00e1culos, cr\u00edticas por parte das pessoas que mais importavam na minha vida no que se referia ao fato de eu querer aprender e querer adentrar esse mundo. Ainda mais da minha av\u00f3, que \u00e9 uma senhora hoje que tem 84 anos, cat\u00f3lica fervorosa, ela nunca me criticou, nunca tomou aquilo por espanto. Teve, sim, um gesto bel\u00edssimo, h\u00e1 dois anos, que foi ela fazer um <em>hijab<\/em><a id=\"_ftnref9\" href=\"\/revista\/#_ftn9\">[9]<\/a> pra mim. Isso me tocou profundamente, me emocionou muito, e todas as vezes que lembro me emociono muito. Porque ela \u00e9 idosa, j\u00e1 com toda a dificuldade de ir pra m\u00e1quina de costura, e ela comprou um tecido muito bonito, costurou e me presenteou. Isso realmente foi a prova de como \u00e9 poss\u00edvel voc\u00ea amar aquilo que \u00e9 diferente de voc\u00ea. E o Islam tem sido muito isso tamb\u00e9m. <\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1381\" aria-describedby=\"caption-attachment-1381\" style=\"width: 511px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/gillian2_hijab_ok.jpg\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"574\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2113\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1381\" class=\"wp-caption-text\">Com o <em>hijab<\/em> feito pela av\u00f3<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>o maior impacto foi quando eu compreendi o que era usar o hijab<\/p><\/blockquote>\n<p>Eu conhe\u00e7o hist\u00f3rias e mais hist\u00f3rias, contextos e mais contextos, de v\u00e1rias mulheres, das mais variadas realidades, das mais variadas origens sociais, que tiveram contato com o Islam. Muitas tiveram milhares de dificuldades, de incompreens\u00f5es, e eu, com toda a estrutura familiar que tive, apoio e amor, pude ser solid\u00e1ria a essas pessoas e oferecer algum tipo de conforto, algum tipo de amparo, de for\u00e7a. Acho que o maior impacto foi quando eu compreendi o que era usar o <em>hijab<\/em>\u00b8 pois eu n\u00e3o usei logo de in\u00edcio, eu n\u00e3o conseguia at\u00e9 ent\u00e3o, sendo bem honesta, e acho que \u00e9 uma coisa que precisa ser falada, com coragem, que mesmo tendo feito a <em>shahada<\/em>, mesmo estando feliz com minha escolha espiritual, eu me questionava quanto ao uso do <em>hijab<\/em>. Eu ficava me perguntando que sentido havia colocar aquele tecido na minha cabe\u00e7a. E eu jamais colocaria se eu n\u00e3o conseguisse compreender o significado de us\u00e1-lo. No dia que eu compreendi, que eu senti, que eu coloquei e fui a p\u00fablico, foi o dia que minha m\u00e3e mais se impactou. Mas ela n\u00e3o teve uma rea\u00e7\u00e3o negativa, ela n\u00e3o teve uma rea\u00e7\u00e3o que me desmotivasse. Muito pelo contr\u00e1rio. N\u00e3o foi um impacto para as pessoas tamb\u00e9m, pois elas j\u00e1 sabiam da escolha que eu havia feito, os amigos, a fam\u00edlia, tios, primos, enfim, pessoas do meu trabalho j\u00e1 acompanhavam tudo, ent\u00e3o n\u00e3o foi um impacto t\u00e3o cruel pra essas pessoas. At\u00e9 porque eu sempre conversava, eu sempre compartilhava o meu conhecimento com elas. \u201cOlha, as mu\u00e7ulmanas, muitas usam o <em>hijab<\/em>\u201d, a\u00ed alguns iam perguntar se era burca, e eu tinha que fazer toda aquela explana\u00e7\u00e3o e ser muito did\u00e1tica em tudo, de uma forma muito simples, para que as pessoas entendessem, para que elas pudessem compreender. Ent\u00e3o, quando decidi usar, foi muito tranquilo, bem como foi muito tranquilo tamb\u00e9m a minha revers\u00e3o. Como eu falei, por parte das pessoas que de fato interessavam. <\/p>\n<p>Se em algum momento de minha trajet\u00f3ria existiu algu\u00e9m que se impactou, que criticou, n\u00e3o chegou at\u00e9 a mim, n\u00e3o me afetou tamb\u00e9m, porque, n\u00e9, o que importa \u00e9 pai, m\u00e3e, irm\u00e3, as pessoas ali mais pr\u00f3ximas. Talvez, Felipe, o que mais tenha me preocupado nessa minha caminhada e no momento em que eu resolvi assumir essa vestimenta que ela traz, ela \u00e9 bem carregada de um simbolismo, a gente sabe disso, e esse simbolismo, dependendo do conhecimento de cada um, ele pode ser negativo, o que mais me preocupou mesmo foi a quest\u00e3o profissional, a quest\u00e3o do mercado de trabalho. E a\u00ed \u00e9 uma coisa que eu posso relatar mais adiante e que, mais uma vez, <em>Allah subhanna wa ta\u2019ala<\/em><a id=\"_ftnref10\" href=\"\/revista\/#_ftn10\">[10]<\/a> facilitou muito pra mim. Infelizmente eu tive que abrir m\u00e3o da carreira que eu escolhi e hoje eu me sinto at\u00e9 covarde por isso, porque hoje percebo que eu n\u00e3o deveria ter feito isso. De todo modo, nos trabalhos que eu tive j\u00e1 usando <em>hijab<\/em>, n\u00e3o tive problemas, n\u00e3o tive retalia\u00e7\u00f5es, eu n\u00e3o sofri discrimina\u00e7\u00e3o, nem por parte dos empregadores, nem por parte dos colegas de trabalho. Por isso, eu sempre procuro pensar que, se eu n\u00e3o passei por situa\u00e7\u00f5es desse tipo, \u00e9 porque Allah me prepara para que eu seja forte e para que eu possa estar nas lutas de g\u00eanero pra ajudar as mulheres a assumirem suas bandeiras, a assumirem suas identidades, assumirem suas cren\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sua hist\u00f3ria, nesse sentido, \u00e9 at\u00edpica mesmo. A gente sabe que muitas vezes as mulheres mu\u00e7ulmanas acabam sofrendo todo tipo de preconceito, e as pessoas se colocam de uma forma muito negativa perante essas mulheres. Eu venho pesquisando a islamofobia e encontro muita coisa contra as mulheres. Como voc\u00ea mesma disse, \u00e9 um simbolismo negativo que muitas vezes se associa. Mas voc\u00ea me deixou uma quest\u00e3o. Quando voc\u00ea disse que procurou pessoas pra conversar sobre o Islam e falou sobre a quest\u00e3o de g\u00eanero, como \u00e9 essa quest\u00e3o da sororidade entre as mulheres mu\u00e7ulmanas? Como foi a rela\u00e7\u00e3o com elas? Voc\u00eas t\u00eam alguma forma de apoio m\u00fatuo? A gente sabe que, na religi\u00e3o, existe isso, um pouco de um mu\u00e7ulmano ajudar outro mu\u00e7ulmano, mas como foi isso com voc\u00ea, com essa comunidade que voc\u00ea acessou?<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas que est\u00e3o fora do Islam sempre criam a d\u00favida em torno da mulher. A mulher \u00e9 uma figura muito central em tudo isso. Sempre v\u00eam aquelas perguntas: \u201cvoc\u00ea usa esse tecido na sua cabe\u00e7a porque voc\u00ea \u00e9 obrigada pelo seu pai, pelo seu marido?\u201d, \u201cvoc\u00ea vai escolher o marido?\u201d, \u201cvoc\u00ea pode estudar?\u201d, \u201cvoc\u00ea pode trabalhar?\u201d. Isso pras pessoas que n\u00e3o me conhecem, l\u00f3gico. As pessoas que me conhecem sabem da minha trajet\u00f3ria enquanto profissional na \u00e1rea de hist\u00f3ria, a minha trajet\u00f3ria profissional na outra \u00e1rea que atuo hoje. Eu tive que descobrir compet\u00eancias e habilidades pra retornar ao mercado de trabalho ap\u00f3s uma fase de depress\u00e3o, e que me deixou fora do contexto de sala de aula e hoje \u00e9 uma coisa que estou tentando amadurecer na minha cabe\u00e7a pra retornar, porque eu sinto que a educa\u00e7\u00e3o precisa de mim tamb\u00e9m, e precisa de mim enquanto educadora mu\u00e7ulmana, inclusive. Eu preciso, mais do que nunca, ocupar espa\u00e7os. <\/p>\n<p>Mas as perguntas s\u00e3o sempre em torno da mulher: \u201cpode isso?\u201d, \u201cpode aquilo?\u201d, \u201cpode ter amiga?\u201d, \u201cpode sair?\u201d, \u201cpode ir no shopping\u201d, \u201cpode trabalhar?\u201d, \u201cpode dirigir?\u201d, \u201cpode ter um neg\u00f3cio?\u201d, s\u00e3o sempre essas perguntas. E eu estou sempre dispon\u00edvel e acess\u00edvel pra responder a quem recorrer a mim. J\u00e1 aconteceu at\u00e9 de eu ir ao shopping e estar sentada, comendo algo, esperando uma amiga, e chegar algu\u00e9m e perguntar se eu falo portugu\u00eas, se eu sou brasileira, e a\u00ed eu digo que sou brasileira, que sou daqui inclusive, e a\u00ed come\u00e7am a querer saber mais coisas, e eu estou ali disposta a esclarecer e a desconstruir. <\/p>\n<blockquote><p>Algumas feministas n\u00e3o aceitam&#8230; sempre veem a religi\u00e3o, o hijab, como algo opressor<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando eu precisei de acolhimento, assim que eu cheguei ao Islam, eu recorri \u00e0s pessoas certas, que s\u00e3o pessoas com quem eu tenho v\u00ednculos, com quem eu tenho la\u00e7os at\u00e9 hoje. Algumas dessas pessoas, ali\u00e1s, est\u00e3o no CIS,<a id=\"_ftnref11\" href=\"\/revista\/#_ftn11\">[11]<\/a> a Jada da Bahia, a Nahid, a Cl\u00e1udia. Eu n\u00e3o tenho nem palavras pra expressar o carinho, pra expressar o cuidado que essas pessoas, que essas mulheres tiveram pra me acolher, pra me orientar, pra me amar, pra ter esse amor por mim em Allah. E tantas outras mulheres que, meu Deus, eu tenho um orgulho imenso de estar na vida dessas pessoas, como \u00e9 o caso da Fab\u00edola Oliveira,<a id=\"_ftnref12\" href=\"\/revista\/#_ftn12\">[12]<\/a> sempre que a Fab\u00edola precisa fazer algum tipo de trabalho, algum tipo de projeto, uma <em>live<\/em>, em que a gente possa cada vez mais, sabe, ir contra a mar\u00e9, ir contra esse sistema e desconstruir essa imagem que eles t\u00eam da nossa f\u00e9, e desconstruir essa coisa do machismo, do sistema machista patriarcal que imp\u00f5e isso e aquilo pra gente&#8230; Porque a religi\u00e3o \u00e9 assim e a gente tem toda uma garra e sede de dizer mil vezes que n\u00e3o \u00e9 isso. A Francirosy,<a id=\"_ftnref13\" href=\"\/revista\/#_ftn13\">[13]<\/a> que pra mim \u00e9 uma refer\u00eancia de intelectual mu\u00e7ulmana. A Karine Garc\u00eaz.<a id=\"_ftnref14\" href=\"\/revista\/#_ftn14\">[14]<\/a> Eu tenho aqui uma gama imensa de mulheres pra citar, que s\u00e3o mulheres solid\u00e1rias, que impulsionam as outras, que jogam a outra pra cima, que se doem, que levantam suas bandeiras de luta tamb\u00e9m e, <em>Alhamdulillah<\/em>, que o Islam tem mulheres assim, tem mulheres que me representam, que me orgulham. Eu percebo que, do ano de 2019 pra c\u00e1, esses la\u00e7os entre as mu\u00e7ulmanas se fortificaram muito mais. Ent\u00e3o existe uma preocupa\u00e7\u00e3o de voc\u00ea saber que tal irm\u00e3 est\u00e1 no empreendedorismo, colocou uma loja de produtos isl\u00e2micos, est\u00e1 fazendo <em>hijab<\/em>, est\u00e1 trabalhando com tal coisa. A gente t\u00e1 sempre buscando fortalecer o neg\u00f3cio da outra, divulgar o trabalho da outra, a produ\u00e7\u00e3o intelectual da outra, compartilhando nas redes sociais, repostando, lendo o que a outra escreve. Eu acho isso muito bonito. Acho que isso \u00e9 feminismo, inclusive. <\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1381\" aria-describedby=\"caption-attachment-1381\" style=\"width: 511px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/gillian2_mst_ok.jpg\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"574\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2120\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1381\" class=\"wp-caption-text\">Fotografia do Instagram<\/figcaption><\/figure>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>Eu fa\u00e7o parte do movimento feminista aqui, tenho lutas partid\u00e1rias, lutas sociais, eu sou integrante da UJS [Uni\u00e3o da Juventude Socialista], sou presidente da Alian\u00e7a Palestina no Maranh\u00e3o, e a gente tem uma parceria com o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], tenho v\u00e1rios engajamentos, v\u00e1rias bandeiras e ativismos e algumas coisas que me machucam, que me ressentem, que \u00e9 a quest\u00e3o do movimento feminista, que algumas integrantes n\u00e3o aceitam, algumas sempre veem a religi\u00e3o, o <em>hijab<\/em>, como algo opressor, e a\u00ed a gente t\u00e1 sempre nessa luta incessante de tamb\u00e9m p\u00f4r por terra essa feminismo de n\u00e3o abra\u00e7ar a outra, de barrar a outra e de perceber que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o machismo, o sistema patriarcal, que oprime uma mulher, mas tem outros crit\u00e9rios, outras quest\u00f5es que tamb\u00e9m oprimem e que infelizmente as mulheres agenciam esses mecanismos de opress\u00e3o. Essas mulheres todas que eu citei pra voc\u00ea est\u00e3o a\u00ed, nessa luta pra desconstruir isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Interessante sua fala a respeito da rela\u00e7\u00e3o com outras mulheres. Como mu\u00e7ulmano, aprendi no Alcor\u00e3o, e voc\u00ea me corrija se eu estiver errado, que devemos submiss\u00e3o a Allah, e n\u00e3o a nenhum ser humano, e isso inclui n\u00e3o submiss\u00e3o a homens, de forma que o Islam n\u00e3o \u00e9, necessariamente, uma religi\u00e3o patriarcal, no sentido de fortalecer um patriarcado, fortalecer um sistema de domina\u00e7\u00e3o masculina. Mas eu tenho a impress\u00e3o, e voc\u00ea citou alguns movimentos sociais, alguns espa\u00e7os com os quais voc\u00ea se envolve, de que muitas vezes a pessoa religiosa, e principalmente a mu\u00e7ulmana, acaba sofrendo alguma estrat\u00e9gia de exclus\u00e3o, de preconceito. Nesses espa\u00e7os, como tem sido sua viv\u00eancia? Digo, fora do Islam, as pessoas est\u00e3o lidando, est\u00e3o aprendendo com voc\u00ea? Por mais que voc\u00ea n\u00e3o seja uma educadora de sala de aula, voc\u00ea \u00e9 com certeza uma educadora na vida de muita gente.<\/strong><\/p>\n<p>Por ocupar v\u00e1rios espa\u00e7os, eu tenho uma rede de amigos n\u00e3o mu\u00e7ulmanos, de mulheres n\u00e3o mu\u00e7ulmanas. Nessa minha rede de amigos, as mulheres respeitam muito a minha condi\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o s\u00f3 respeitam como tamb\u00e9m tentam absorver conhecimento. Est\u00e3o sempre perguntando coisas e pedindo orienta\u00e7\u00f5es bibliogr\u00e1ficas, inclusive, de onde elas podem extrair informa\u00e7\u00f5es mais precisas. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m aquelas pessoas com quem eu tenho um conv\u00edvio <em>en passant<\/em>, que n\u00e3o me conhecem t\u00e3o bem e de quem, de algum modo, voc\u00ea sente um pouco de resist\u00eancia, um pouco de preconceito, e que \u00e0s vezes n\u00e3o te d\u00e3o tanto espa\u00e7o pra que voc\u00ea se mostre, pra que voc\u00ea mostre a sua f\u00e9, pra que voc\u00ea mostre a que veio. Mas aqui na minha cidade, S\u00e3o Lu\u00eds, \u00e9 diferente do eixo Sul e Sudeste, e eu sei disso porque tenho amigas que vivem nesse espa\u00e7o geogr\u00e1fico do pa\u00eds e que sentem de forma muito ferrenha o preconceito em rela\u00e7\u00e3o ao Islam. Aqui em S\u00e3o Lu\u00eds, as pessoas \u2013 n\u00e3o me pergunte o exato motivo \u2013 s\u00e3o extremamente receptivas. As pessoas se aproximam de mim muito mais por curiosidade. <\/p>\n<p>Eu n\u00e3o me lembro, sendo bem honesta com voc\u00ea, de ter sofrido uma abordagem violenta, uma abordagem preconceituosa. Isso j\u00e1 aconteceu comigo virtualmente, e vindo de pessoas que n\u00e3o eram daqui. Mas aqui de S\u00e3o Lu\u00eds, n\u00e3o. As pessoas aqui s\u00e3o tranquil\u00edssimas, n\u00e3o existe uma postura de n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o. Tem, sim, uma curiosidade, que eu sinto \u00e0s vezes. Eu vou para o trabalho ou a qualquer outro lugar e percebo isso. \u00c0s vezes tiram fotos. Eu n\u00e3o sei como essas fotos correm depois, mas, ao me abordarem de forma direta, n\u00e3o existiu uma situa\u00e7\u00e3o de preconceito. Nem de viol\u00eancia, nada disso. Eu pego Uber, eu saio e nunca vivi isso na pele. Diariamente eu me preparo para viver uma situa\u00e7\u00e3o assim, levando-se em considera\u00e7\u00e3o o contexto que n\u00f3s vivemos hoje, que \u00e9 do conhecimento de todos, a gente v\u00ea que a caixa de Pandora se abriu e todo racismo, preconceito, opress\u00e3o sa\u00edram do arm\u00e1rio de uma forma abrupta, de vez. Quem era, quem se escondia, j\u00e1 n\u00e3o se esconde mais, mostra a cara e n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed. Mas comigo, <em>Alhamdulillah<\/em>, n\u00e3o aconteceu. No campo virtual, sim. Geralmente as pessoas se escondem dessa forma, elas s\u00e3o bem covardes, sempre se escondem atr\u00e1s de um perfil, de uma p\u00e1gina, da\u00ed come\u00e7a a te atacar, e come\u00e7a a proferir palavras extremamente ofensivas. No campo virtual, acho que n\u00e3o teve quase nenhum mu\u00e7ulmano que n\u00e3o tenha passado por uma situa\u00e7\u00e3o como essa. <\/p>\n<blockquote><p>Ser religiosa e me cobrir n\u00e3o significa que eu tenha o direito de fazer julgamentos segundo os meus crit\u00e9rios religiosos sobre uma outra mulher que est\u00e1 ali lutando por direitos tanto quanto eu<\/p><\/blockquote>\n<p>No movimento feminista, aqui, na minha cidade tamb\u00e9m, n\u00e3o passei por nenhuma situa\u00e7\u00e3o em que eu tivesse que debater a quest\u00e3o do movimento feminista, a quest\u00e3o de abra\u00e7ar a mulher religiosa com seus instrumentos identit\u00e1rios, como \u00e9 o caso do <em>hijab<\/em>, de modo que esse movimento entenda que eu, enquanto mulher mu\u00e7ulmana, tenho o direito de me cobrir e nem por isso tenho o direito de oprimir a minha irm\u00e3 que acha que mostrar os seios \u00e9 uma forma de resist\u00eancia. Parto do princ\u00edpio de que cada mulher, dentro do seu contexto, dentro da sua forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, tem as suas formas de resist\u00eancia. Seja com atos, com palavras, com as vestimentas, seja com o que for. Ent\u00e3o, ser religiosa e me cobrir n\u00e3o significa que eu tenha o direito de fazer julgamentos segundo os meus crit\u00e9rios religiosos sobre uma outra mulher que est\u00e1 ali lutando por direitos tanto quanto eu. N\u00e3o, tenho que abra\u00e7ar. Eu posso n\u00e3o ter os mesmos meios de resist\u00eancia que ela tem, mas a bandeira de luta dela \u00e9 a mesma que a minha, a gente quer respeito. A gente quer igualdade, dignidade, prote\u00e7\u00e3o. A gente quer equidade. E, muito embora o Islam me garanta isso desde sempre, infelizmente eu vivo numa sociedade que me nega. Ent\u00e3o, eu fui pro movimento feminista pra resgatar aquilo que Deus j\u00e1 me deu h\u00e1 muito tempo. A gente sempre t\u00e1 nessa discuss\u00e3o, nesse sentido, de mostrar que coberta ou despida n\u00f3s lutamos pelas mesmas coisas. Mas o confronto direito dentro do movimento, aqui em S\u00e3o Lu\u00eds, ele nunca houve. Eu me ressinto do movimento no geral, sobretudo nos debates virtuais. Como a gente est\u00e1 nessa \u00e9poca de pandemia e as coisas est\u00e3o se dando muito nesse campo virtual, isso aflora muito mais. Os meus embates ainda est\u00e3o nesse campo virtual. E vou ser bem honesta, eu tor\u00e7o pra que esse embate v\u00e1 mesmo para o corpo a corpo, eu quero me encontrar numa situa\u00e7\u00e3o de confrontamento, em que eu possa encontrar uma pessoa que tenha uma ideia e que eu tenha o poder, no sentido positivo, de desconstruir e de mostrar pra ela que ela pode segurar na minha m\u00e3o mesmo ela sento diferente de mim. <\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico que tem algumas situa\u00e7\u00f5es muito sutis em que voc\u00ea sente uma resist\u00eancia. Eu fa\u00e7o parte, por exemplo, de um grupo de poetas aqui da minha cidade. N\u00e3o que eu tenha uma produ\u00e7\u00e3o nessa linha, mas eu arrisco escrever uma coisa ou outra. Eu tenho amigos nesse grupo que t\u00eam uma admira\u00e7\u00e3o imensa pelo Islam, e s\u00e3o pessoas que inclusive fazem parte da Alian\u00e7a Palestina, e eles sempre d\u00e3o muito est\u00edmulo pros meus trabalhos, sempre est\u00e3o ali me impulsionando e, quando eu escrevo algum artigo, quando algum trabalho \u00e9 publicado, eles sempre v\u00e3o e compartilham no grupo. A\u00ed, \u00e9 l\u00f3gico que a gente percebe que n\u00e3o existe aquela receptividade por parte de algumas pessoas, de algumas mulheres, e como \u00e9 um grupo muito diverso, tem pessoas ali que provavelmente s\u00e3o de direita, provavelmente s\u00e3o pessoas muito conservadoras. Eu vejo algumas postagens muito religiosas, de cat\u00f3licas, e algumas postagens que vejo ali nas entrelinhas um qu\u00ea de sionismo tamb\u00e9m, e, nessas situa\u00e7\u00f5es, nesses eventos que tamb\u00e9m j\u00e1 tive a oportunidade de presenciar, eu consigo sentir essa rejei\u00e7\u00e3o, esse n\u00e3o acolhimento, mas de uma forma sutil, de uma forma bem velada, nada explico. Aquela coisa de que \u201cah, n\u00e3o vamos divulgar isso aqui dela, n\u00e3o vamos dar \u00eanfase pra isso aqui dessa pessoa\u201d. Essas coisas acontecem. \u00c0s vezes, fica at\u00e9 meio confuso, at\u00e9 que ponto isso \u00e9 resultado de um preconceito contra a religi\u00e3o ou se \u00e9 uma quest\u00e3o mesmo da n\u00e3o sororidade que existe entre essas mulheres, de n\u00e3o serem solid\u00e1rias com todas, se \u00e9 aquele esp\u00edrito de competitividade. Infelizmente, isso \u00e9 muito alimentado na nossa sociedade, e \u00e9 uma coisa que sinto que n\u00f3s combatemos. N\u00f3s, mulheres mu\u00e7ulmanas, procuramos combater essa coisa da competitividade, essa coisa da n\u00e3o solidariedade uma com a outra, mas infelizmente a gente tem que lidar com isso, tem que conviver e ter jogo de cintura. E tem que ter fortaleza pra poder passar por esses desertos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pois \u00e9, voc\u00ea mencionou isso a respeito do Sudeste, do quanto aqui o preconceito \u00e9 muito diferente. Mesmo que haja espa\u00e7os que s\u00e3o acolhedores, acaba tendo um pouco dessa manifesta\u00e7\u00e3o de distanciamento. Por um lado, fico feliz em saber que n\u00e3o \u00e9 assim em todo o Brasil; por outro, me entristece que nem todas as pessoas estejam dispostas a estar nesse espa\u00e7o de enfrentamento e a dialogar. E uma dessas principais formas de exclus\u00e3o que voc\u00ea abordou, e a gente acaba identificando, \u00e9 essa coisa do espa\u00e7o de trabalho. Voc\u00ea falou que teve quest\u00f5es relativas, que teve tamb\u00e9m espa\u00e7o para continuar desempenhando seu trabalho, mas, no geral, como voc\u00ea enxerga essa quest\u00e3o para as mulheres mu\u00e7ulmanas? Nesse espa\u00e7o, que a gente sabe que \u00e9 disputado, as pessoas entram num pensamento neoliberal de tentar a todo custo ter sucesso, enquanto no Islam a gente tem uma quest\u00e3o de irmandade e de uni\u00e3o que \u00e9 bem diferente dessa l\u00f3gica de competi\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea v\u00ea isso, considerando a sua experi\u00eancia e a das irm\u00e3s que voc\u00ea conhece?<\/strong><\/p>\n<p>Na \u00e1rea de hist\u00f3ria, eu atuei muito fortemente na pesquisa. Eu trabalhei no Arquivo P\u00fablico do estado, na confec\u00e7\u00e3o de instrumentos de pesquisa, na transcri\u00e7\u00e3o de documentos, na cataloga\u00e7\u00e3o e digitaliza\u00e7\u00e3o de documentos. Posteriormente, fui trabalhar na Superintend\u00eancia de Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Cultural do Maranh\u00e3o, onde fui coordenadora do projeto Livros da C\u00e2mara de S\u00e3o Lu\u00eds, em que trabalhei com publica\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XVII, coordenando uma equipe emque n\u00f3s t\u00ednhamos dois pesquisadores e quatro estagi\u00e1rios. Foi um projeto muito importante pra \u00e1rea de patrim\u00f4nio aqui. Infelizmente, ele n\u00e3o teve continuidade porque houve uma transi\u00e7\u00e3o de governo, via golpe. Minha equipe saiu e eu, mesmo n\u00e3o sendo uma indica\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, eu era indica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, eu sa\u00ed tamb\u00e9m. O projeto ficou jogado, infelizmente, muito triste isso, mas vamos deixar essa quest\u00e3o de lado um pouco. <\/p>\n<p>A sala de aula foi uma situa\u00e7\u00e3o, um espa\u00e7o que eu deixei de ocupar por causa de uma depress\u00e3o que eu tive. Culminou com v\u00e1rias coisas, teve a morte do meu pai, enfim&#8230; Isso acabou tirando as minhas for\u00e7as. E tamb\u00e9m porque foi numa \u00e9poca em que eu ensinava numa escola, num bairro de periferia aqui de S\u00e3o Lu\u00eds, a escola Domingos Vieira Filho. \u00c9 uma escola que se situa num munic\u00edpio da capital, da grande S\u00e3o Lu\u00eds, e ela t\u00e1 ali pegando um p\u00fablico de v\u00e1rias periferias desse local, periferias rasgadas mesmo, sabe, de realidades muito duras, de contextos muito sofridos. E eu ia dar aula pro ensino m\u00e9dio e era um misto de medo e tristeza ao mesmo tempo. <\/p>\n<blockquote><p>O hijab \u00e9 s\u00edmbolo da minha conex\u00e3o com Deus. Acima de qualquer outro valor que ele agregue, ele \u00e9 s\u00edmbolo da minha liga\u00e7\u00e3o com Allah&#8230; e tamb\u00e9m \u00e9 s\u00edmbolo da minha resist\u00eancia, porque eu quero ser identificada enquanto mulher mu\u00e7ulmana<\/p><\/blockquote>\n<p>Nessa \u00e9poca eu ainda n\u00e3o tinha adotado o <em>hijab<\/em>. Ent\u00e3o ainda era mais f\u00e1cil transitar no espa\u00e7o da educa\u00e7\u00e3o. Eu tinha medo porque alguns dos meus alunos j\u00e1 estavam envolvidos em um contexto de criminalidade, infelizmente, e me angustiava muito ver aquela situa\u00e7\u00e3o e ver a mim mesma, enquanto educadora, internalizar a ideia de que n\u00e3o poderia fazer muita coisa, pois eu estava t\u00e3o desacreditada que eu achava que o meu trabalho n\u00e3o ia mudar a vida de nenhuma daquelas pessoas. Isso porque elas j\u00e1 estavam t\u00e3o submersas nesse contexto de criminalidade, de drogas, de fam\u00edlias em que o pai estava preso, a m\u00e3e no alcoolismo e na prostitui\u00e7\u00e3o, enfim&#8230; Eu olhava aquilo tudo e era desesperador pra mim. Eu dizia \u201cMeu Deus, o que eu vou fazer? Como eu vou ajudar?\u201d. E tudo isso foi contribuindo, fora as quest\u00f5es pessoais que me arrastaram para esse processo de depress\u00e3o, que me afastou de sala de aula, e que, quando eu me recuperei, eu n\u00e3o tive a coragem, eu me acovardei mesmo pra retornar, pra ocupar novamente esse espa\u00e7o. <\/p>\n<p>Teve uma quest\u00e3o muito crucial na minha decis\u00e3o de n\u00e3o retornar. Eu n\u00e3o sei como \u00e9 o mercado educacional fora do estado do Maranh\u00e3o, mas eu posso falar pelo meu estado, eu posso falar pela realidade desse mercado aqui em S\u00e3o Lu\u00eds e que \u00e9 dominado pelos evang\u00e9licos. O mercado educacional, as escolas particulares e p\u00fablicas vivem essa domina\u00e7\u00e3o. Eu, nesse momento da minha vida, como mulher mu\u00e7ulmana extremamente segura e entendedora daquilo que significa usar o <em>hijab<\/em>, que \u00e9 s\u00edmbolo da minha conex\u00e3o com Deus acima de qualquer outro valor que ele agregue, ele \u00e9 s\u00edmbolo da minha liga\u00e7\u00e3o com Allah, da minha obedi\u00eancia a Deus, ele tamb\u00e9m \u00e9 s\u00edmbolo da minha resist\u00eancia, porque eu quero ser identificada enquanto mulher mu\u00e7ulmana, e isso nem sempre \u00e9 entendido pelas pessoas que est\u00e3o na gest\u00e3o do mercado da educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, \u00e9 uma coisa que me desmotiva a retornar. Ao mesmo tempo, eu me cobro muito de ter que ter coragem pra enfrentar e impor a minha figura, a minha presen\u00e7a. Porque \u00e9 preciso. \u00c9 preciso que n\u00e3o s\u00f3 eu, a Gilliam, professora, mu\u00e7ulmana, esteja presente no espa\u00e7o da educa\u00e7\u00e3o, mas como a umbandista, a judia, a budista, qualquer f\u00e9 que esteja manifestada no indiv\u00edduo que esteja capacitado pra atuar enquanto professor, enquanto educador. \u00c9 necess\u00e1rio que a gente lute por esse espa\u00e7o e eu n\u00e3o tive essa fortaleza pra fazer isso. <\/p>\n<blockquote><p>As mulheres mu\u00e7ulmanas que v\u00eam de uma realidade menos sofrida nesse pa\u00eds t\u00eam oferecido solidariedade, for\u00e7a pra compartilhar com aquelas que vivem nesse contexto de marginaliza\u00e7\u00e3o<\/p><\/blockquote>\n<p>Hoje eu j\u00e1 consigo recuperar o meu f\u00f4lego pra me reconfigurar pra essa luta. Ent\u00e3o, eu tive que descobrir outras habilidades pra voltar ao mercado de trabalho. Hoje eu atuo na gest\u00e3o de estabelecimentos que trabalham com comida. E a\u00ed, claro, eu tive que adquirir conhecimento na \u00e1rea, de padr\u00f5es de manipula\u00e7\u00e3o alimentar, de tudo que \u00e9 pertinente a essa \u00e1rea. \u00c9 uma \u00e1rea que eu gosto, porque \u00e9 uma \u00e1rea que me acolheu tamb\u00e9m. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, as empresas que me contrataram n\u00e3o foram preconceituosas com a minha condi\u00e7\u00e3o de mu\u00e7ulmana. Eu fui fazer entrevista de <em>hijab<\/em>, eu participo de reuni\u00f5es com <em>hijab<\/em>, eu participo de treinamentos com <em>hijab<\/em>. e ent\u00e3o, n\u00e3o tem como n\u00e3o criar amor por isso, sendo que foi um setor que me acolheu. <\/p>\n<p>Claro, tem v\u00e1rios fatores dos quais eu discordo no que se refere \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de trabalho, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o empregado-empregador, mais-valia e explora\u00e7\u00e3o e por a\u00ed vai. Mas, nesse outro aspecto, eu agrade\u00e7o pela possibilidade de ter adentrado esse espa\u00e7o. Devo isso tamb\u00e9m \u00e0 minha coragem de me impor, de chegar, de fazer entrevista, de mostrar que eu tinha compet\u00eancia, que eu estava preparada pra tal fun\u00e7\u00e3o. E a forma como eu me coloquei pra essas empresas foi uma forma t\u00e3o positiva que eu acho que eles n\u00e3o observaram se eu usava <em>hijab<\/em> ou n\u00e3o. Isso pra mim foi muito bom. Mas eu entendo como \u00e9 dif\u00edcil e espinhoso pra uma mulher mu\u00e7ulmana encontrar um espa\u00e7o no mercado de trabalho, e isso implica em v\u00e1rios desdobramentos. \u00c9 desemprego, passar por aperto, e isso mexe com o psicol\u00f3gico, mexe com aquela coisa de que voc\u00ea est\u00e1 improdutiva, se sente muitas vezes incapacitada, imagino, pras mulheres que passam por isso, que ficam \u00e0 margem, muitas s\u00e3o obrigadas a tirar o <em>hijab<\/em> e tiram mesmo, e isso abala at\u00e9 a f\u00e9 da pessoa. S\u00e3o muitas implica\u00e7\u00f5es que esse fechamento, essa negatividade do mercado de trabalho para n\u00f3s, mulheres mu\u00e7ulmanas, traz pras nossas vidas, que vai desde o aspecto econ\u00f4mico, da quest\u00e3o financeira, do sustento familiar, at\u00e9 o psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1381\" aria-describedby=\"caption-attachment-1381\" style=\"width: 511px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/gillian00.jpg\" alt=\"\" width=\"511\" height=\"574\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2116\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1381\" class=\"wp-caption-text\">Em reuni\u00e3o da Alian\u00e7a Maranhense de Solidariedade \u00e0 Palestina. Fotografia do Instagram<\/figcaption><\/figure>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Esses pontos que voc\u00ea abordou s\u00e3o muito impactantes, significativos na vida das pessoas, a quest\u00e3o do trabalho, que tem a ver com a autonomia, com o sentido da nossa vida. Ser docente no Brasil n\u00e3o parece ser tranquilo em lugar nenhum, eu sou professor e imagino. A gente tem muitos educadores que est\u00e3o adoecendo mentalmente, e \u00e9 emotivamente e afetivamente desgastante educar. As pessoas dizem que \u00e9 uma miss\u00e3o, e mas eu n\u00e3o enxergo assim. Tem uma dimens\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o, de a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, ningu\u00e9m tem dom pra dar aula. A gente aprende a dar aula, se forma como profissional. Mas ao mesmo tempo eu fico pensando, voc\u00ea falou que as mu\u00e7ulmanas acabam compartilhando a produ\u00e7\u00e3o umas das outras, os seus trabalhos. Voc\u00ea v\u00ea alguma iniciativa que acha digna de nota nesse sentido, ou voc\u00ea tem algo a sugerir, alguma ideia com rela\u00e7\u00e3o a como mu\u00e7ulmanas e outras pessoas podem agir para que n\u00e3o haja esse tipo de entrave no mercado de trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, os entraves no mercado de trabalho que as mulheres de um modo geral encontram, em particular as mulheres mu\u00e7ulmanas, existem por quest\u00f5es muito profundas. Pelo pr\u00f3prio sistema machista a patriarcal, isso j\u00e1 traz uma s\u00e9rie de fatores, de mecanismos opressores que nos colocam fora do mercado de trabalho ou numa condi\u00e7\u00e3o desigual no mercado de trabalho. Quando a gente parte pra um aspecto mais particularizado, como o aspecto religioso, e a\u00ed, no caso, aquilo que nos toca enquanto mulheres mu\u00e7ulmanas, n\u00f3s ficamos fora do mercado, \u00e9 o preconceito, l\u00f3gico. Pporque as pessoas tentam impor aquela ideia de que voc\u00ea tem que se adequar aos padr\u00f5es que o Ocidente nos imp\u00f5e, que a sociedade nos imp\u00f5e, voc\u00ea tem que andar com tal vestimenta, andar com o cabelo assim, a roupa assado, e isso acaba confrontando com os seus princ\u00edpios e crit\u00e9rios. Ent\u00e3o, isso j\u00e1 nos marginaliza, j\u00e1 nos coloca \u00e0 margem dos processos. <\/p>\n<p>E tem a quest\u00e3o da qualifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Eu tenho consci\u00eancia daquilo que eu sou, do meu lugar de fala, dos espa\u00e7os que eu consigo ocupar, ent\u00e3o, quando falo de preconceito, eu falo de um preconceito brando. Porque eu sou branca. Eu tenho uma forma\u00e7\u00e3o superior, eu tive oportunidade que minha fam\u00edlia p\u00f4de me proporcionar. O preconceito que eu sofro \u00e9 infinitamente mais brando do que o preconceito que aquela minha irm\u00e3 que \u00e9 mu\u00e7ulmana e \u00e9 negra sofre, e que aquela que tamb\u00e9m n\u00e3o teve oportunidade de avan\u00e7ar nos estudos sofre, porque veio de uma condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica e sofre bem mais do que eu. Isto acho muito bonito no Islam: as mulheres mu\u00e7ulmanas que v\u00eam de uma realidade menos sofrida nesse pa\u00eds t\u00eam oferecido solidariedade, for\u00e7a pra compartilhar com aquelas que vivem nesse contexto de marginaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 pela religi\u00e3o, mas por todas as demais implica\u00e7\u00f5es que ela traz na vida, que \u00e9 a cor, que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o social, a escolaridade, enfim. Tudo isso coloca essas mulheres \u00e0 margem do mercado de trabalho. Como tratar isso, como tratar essa ferida? \u00c9 muito complicado. <\/p>\n<p>\u00c9 um processo complexo, \u00e9 um processo longo que a sociedade ainda n\u00e3o est\u00e1 disposta a sanar. E quando eu falo sociedade eu falo tanto de poder p\u00fablico quanto de sociedade civil, as pessoas n\u00e3o est\u00e3o preparadas e n\u00e3o querem sanar diferen\u00e7as sociais, n\u00e3o querem sanar os preconceitos, as fobias. Esses processos de desconstru\u00e7\u00e3o s\u00e3o bem vagarosos, bem morosos, e t\u00eam que partir de n\u00f3s enquanto pot\u00eancia individual. Inclusive fiz um <em>storie<\/em> no meu Instagram quanto a isso, a gente tem que se ver enquanto pot\u00eancia individual, de cobrar determinadas coisas nos lugares que a gente ocupa. Se voc\u00ea usa um produto x, se eu sou cliente de uma empresa que fabrica, sei l\u00e1, um perfume, um hidratante, e eu gosto muito daquele produto, por que que eu n\u00e3o posso mandar uma mensagem, por que que eu n\u00e3o posso cobrar dessa empresa uma representatividade? \u201cOlha, eu sou a Gilliam, sou mu\u00e7ulmana, eu sou cliente de voc\u00eas h\u00e1 tantos anos, eu utilizo tal produto, eu gosto da empresa de voc\u00eas por isso e por isso e por isso, ser\u00e1 que voc\u00eas n\u00e3o poderiam pensar numa campanha publicit\u00e1ria que me contemplasse, que me representasse enquanto mulher mu\u00e7ulmana? N\u00e3o sou s\u00f3 eu que uso, tenho v\u00e1rias amigas que usam.\u201d Sabe, se cada pessoa fizesse isso&#8230; \u201cEu vou num restaurante assiduamente, eu gosto muito da comida daqui, eu nunca vi nenhum mu\u00e7ulmano trabalhando aqui, ser\u00e1 que existe alguma pol\u00edtica da empresa que barra as pessoas nos processos seletivos por quest\u00f5es religiosas? Ah, eu estou na universidade, eu estou aqui ha tantos per\u00edodos, eu n\u00e3o vi nenhum professor mu\u00e7ulmano aqui, por qu\u00ea?\u201d <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quer dizer, o nosso dinheiro circula nesses locais, nesses espa\u00e7os, mas a gente n\u00e3o tem essa postura de cobrar que os nossos irm\u00e3os estejam inseridos nesses processos. Se cada um, individualmente, come\u00e7ar a fazer essas cobran\u00e7as, isso se torna uma pot\u00eancia coletiva. Essas press\u00f5es que talvez a gente ache que n\u00e3o adiantam muito, elas podem surtir um efeito no longo prazo. Posso, de repente, de tanto cobrar, de estar pentelhando ali com outras pessoas, de tanto reivindicar a presen\u00e7a de uma representatividade na qual eu me veja, isso pode come\u00e7ar a abrir espa\u00e7os no mercado de trabalho, na sala de aula, nas campanhas publicit\u00e1rias etc. e ent\u00e3o, talvez comece a partir da\u00ed. A gente n\u00e3o pode esperar s\u00f3 diretrizes e pol\u00edticas que venham de cima para baixo, porque isso \u00e9 bem dif\u00edcil de acontecer, sobretudo no contexto que a gente vive hoje. A gente tem que come\u00e7ar a ter posicionamentos individuais tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Insh\u2019Allah<\/em> essas mudan\u00e7as ocorram e que nossa conversa seja um passo nesse sentido. Espero que as pessoas que estejam lendo essa entrevista possam aprender um pouco, meditar melhor sobre como encaram a mulher mu\u00e7ulmana, como que convivem com ela dentro de suas pr\u00f3prias consci\u00eancias e, mais do que isso, como convivem com essas pessoas na sociedade em que est\u00e3o inseridas. Agrade\u00e7o muito que voc\u00ea aceitou compartilhar conosco a sua hist\u00f3ria, que Allah lhe retribua muito.<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m queria agradecer a oportunidade de expor a minha experi\u00eancia no Islam, a minha experi\u00eancia enquanto mulher, enquanto algu\u00e9m que \u00e9 ativa socialmente, \u00e9 militante, trabalha, ajuda nos contextos sociais no que \u00e9 poss\u00edvel, que est\u00e1 sempre tentando combater todos os tipos de preconceito. N\u00e3o s\u00f3 o nosso quadrado, n\u00e9? Porque, quando voc\u00ea se concebe como uma pessoa humanista, voc\u00ea tem que ter uma vis\u00e3o de trezentos e sessenta graus, de olhar pro mundo, e a\u00ed tem muita, muita quest\u00e3o, muita coisa pra ser combatida, e eu acho que o Islam traz essa consci\u00eancia. O contexto de luta social ficou muito mais agu\u00e7ado depois que eu me reverti, porque \u00e9 uma <em>jihad<\/em> constante voc\u00ea lutar por justi\u00e7a social. Eu fico imensamente feliz pela oportunidade, <em>Alhamdulillah<\/em> por ter a oportunidade de mostrar, de falar para as pessoas. Eu espero que realmente que aqueles que tiverem a possibilidade de acessar esse material, que possam desconstruir seus preconceitos e ter uma outra vis\u00e3o de n\u00f3s mulheres mu\u00e7ulmanas, do Islam como um todo. \u00c9 isso. <em>Assalam alaikum.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Wa alaikum salam.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Felipe Souza \u00e9 doutorando em Ci\u00eancias Socias pela Unesp, campus de Araraquara. Formado pelo Instituto Latino-Americano de Estudos Isl\u00e2micos, \u00e9 tamb\u00e9m membro do Grupo de Antropologia em Contextos Isl\u00e2micos e \u00c1rabes (Gracias), da USP de Ribeir\u00e3o Preto, e do N\u00facleo de Antropologia da Imagem e Performance (Naip) da Unesp, al\u00e9m de professor da rede municipal de Araraquara. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><h8>Notas<\/h8><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn1\" href=\"\/revista\/#_ftnref1\">[1]<\/a> No Islam, costuma-se usar a express\u00e3o <em>revers\u00e3o<\/em>, e n\u00e3o <em>convers\u00e3o<\/em>, para identificar o momento em que uma pessoa se torna mu\u00e7ulmana. Isso porque todos nascem mu\u00e7ulmanos. Tornar-se mu\u00e7ulmano \u00e9, ent\u00e3o, um retorno \u00e0quilo que se \u00e9 originalmente.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn2\" href=\"\/revista\/#_ftnref2\">[2]<\/a> Mantivemos a grafia da palavra \u201cIslam\u201d com \u201cm\u201d, como proposto pelo autor, por ser a forma transliterada mais pr\u00f3xima da grafia \u00e1rabe (\u0627\u0644\u0633\u0644\u0627\u0645). [N. E.]<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn3\" href=\"\/revista\/#_ftnref3\">[3]<\/a> Cumprimento usual entre mu\u00e7ulmanos, significa \u201cque a Paz esteja convosco\u201d.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn4\" href=\"\/revista\/#_ftnref4\">[4]<\/a> Resposta ao cumprimento <em>Assalam alaikum<\/em>. Significa \u201ce a paz esteja convosco\u201d.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn5\" href=\"\/revista\/#_ftnref5\">[5]<\/a> A <em>dawah<\/em> \u00e9 compreendida como a \u201cdivulga\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o\u201d. N\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de proselitismo, uma vez que o objetivo final n\u00e3o \u00e9 arregimentar fi\u00e9is para o Islam, mas esclarecer n\u00e3o mu\u00e7ulmanos e mesmo mu\u00e7ulmanos acerca da religi\u00e3o.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn6\" href=\"\/revista\/#_ftnref6\">[6]<\/a> Express\u00e3o que significa \u201cgra\u00e7as a Deus\u201d.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn7\" href=\"\/revista\/#_ftnref7\">[7]<\/a> A Revolta dos Mal\u00eas \u00e9 o nome dado a um levante de escravos, majoritariamente mu\u00e7ulmanos, ocorrida na Bahia em 1835.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn8\" href=\"\/revista\/#_ftnref8\">[8]<\/a> <em>Shahada<\/em>, nesse contexto, \u00e9 a declara\u00e7\u00e3o de f\u00e9 p\u00fablica que faz com que uma pessoa seja compreendida como mu\u00e7ulmana. Consiste, sinteticamente, em dizer em \u00e1rabe que \u201cN\u00e3o h\u00e1 divindade al\u00e9m de Allah\u201d e que \u201cMuhammad \u00e9 Mensageiro de Allah\u201d.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn9\" href=\"\/revista\/#_ftnref9\">[9]<\/a> O <em>hijab<\/em> \u00e9, bem <em>grosso modo<\/em>, o v\u00e9u. Mas certamente n\u00e3o se resumo ao tecido.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn10\" href=\"\/revista\/#_ftnref10\">[10]<\/a> Express\u00e3o em \u00e1rabe que significa \u201co Mais Glorificado, o Alt\u00edssimo\u201d.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn11\" href=\"\/revista\/#_ftnref11\">[11]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/CISmuslim\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">Comit\u00eas Isl\u00e2micos de Solidariedade<\/a>.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn12\" href=\"\/revista\/#_ftnref12\">[12]<\/a> Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fabiolaoliver\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">@fabiolaoliver<\/a>.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn13\" href=\"\/revista\/#_ftnref13\">[13]<\/a> Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/dra_francirosy_campos\/\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">@dra_francirosy_campos<\/a>.<\/h7><\/p>\n<p><h7><a id=\"_ftn14\" href=\"\/revista\/#_ftnref14\">[14]<\/a> Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/karine.garcez\" rel=\"noopener noreferrer\" target=\"_blank\">@karine.garcez<\/a>.<\/h7><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilliam Melanie Moreira Ur Rehman \u00e9 brasileira, tem 38 anos e mora em S\u00e3o Lu\u00eds, capital do Maranh\u00e3o, cidade em que nasceu. 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