{"id":2161,"date":"2022-09-13T19:15:20","date_gmt":"2022-09-13T22:15:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=2161"},"modified":"2025-11-07T17:37:35","modified_gmt":"2025-11-07T20:37:35","slug":"tiroteio-audiovisual","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2022\/09\/13\/tiroteio-audiovisual\/","title":{"rendered":"Tiroteio audiovisual"},"content":{"rendered":"<p><em>Publicado originalmente na edi\u00e7\u00e3o #1 da revista FIGAS, em agosto de 2009.<\/em><\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>lameda Gl\u00f3ria, S\u00e3o Paulo, agosto de 2007. Noite fria de garoa. Um sujeito de \u00f3culos desce a rua, tenso. Olha furtivamente para os lados, entre uma tragada e outra de cigarro. Dois homens se aproximam. Cada um vindo de uma dire\u00e7\u00e3o. Antes que ele possa fazer qualquer movimento, um deles, o mais alto, saca a arma e dispara \u00e0 queima roupa. Literalmente \u201cfecham\u201d o sujeito, que cai e permanece estirado na cal\u00e7ada. O menor dos comparsas se agacha junto ao corpo para confirmar se ele est\u00e1 realmente morto. O outro, autor do disparo, fita a v\u00edtima de p\u00e9 enquanto blasfema algo. Em seguida ambos partem como se nada tivesse acontecido. H\u00e1 uma delegacia nas proximidades, mas os policiais nem tomam conhecimento do fato.<\/p>\n<p>Mais uma cena de viol\u00eancia urbana. Por\u00e9m, esta se passa diante da Bolex 16mm de Nilson Primitivo e faz parte de <em>Su\u00edte oriental<\/em> (2008), seu quinto curta-metragem filmado em S\u00e3o Paulo. A \u201cv\u00edtima\u201d do disparo \u00e9 Rodrigo Andriotto, os dois homens que o abordaram s\u00e3o Paulo Abra\u00e3o e Nick Farewell, e a arma utilizada \u00e9 apenas uma r\u00e9plica. A encena\u00e7\u00e3o \u00e9 repetida pela quarta vez, iluminada pelos far\u00f3is do carro de Nick e uma lanterna de m\u00e3o, enquanto Nilson gira a manivela de seu equipamento e fotografa o \u201cassassinato\u201d de diferentes \u00e2ngulos.<\/p>\n<blockquote><p>Ainda em VHS, Primitivo fez diversos trabalhos, com os quais concorreu e participou de algumas mostras entre 1994 e 1995<\/p><\/blockquote>\n<p>Nilson Primitivo, o Nils\u00e3o, nasceu em Santos, mas isso n\u00e3o diz muita coisa a seu respeito. Ele \u00e9 mesmo carioca, torcedor do botafogo, do bairro da Tijuca, zona norte do Rio. O sotaque n\u00e3o nega. Entrou para a faculdade de jornalismo, j\u00e1 com 30 anos, quando as coisas come\u00e7aram a melhorar. Passou por um per\u00edodo dif\u00edcil ap\u00f3s a morte de seu pai e por dez anos teve de encarar a contragosto profiss\u00f5es como gar\u00e7om e taxista para levantar alguma grana.<\/p>\n<p>Foi nessa \u00e9poca, enquanto ainda trabalhava como motorista de t\u00e1xi, que realizou seus primeiros trabalhos na linha experimental de colagem audiovisual que o caracteriza. \u201cEntrei para a faculdade de comunica\u00e7\u00e3o e comecei a trabalhar com v\u00eddeo por acaso. Fiz algumas colagens em VHS que deram mais ou menos certo, peguei tes\u00e3o pela coisa e n\u00e3o parei mais.\u201d Isso foi no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1990, \u00e9poca do governo Collor, per\u00edodo de pen\u00faria do cinema nacional. A produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica no pa\u00eds quase se extinguiu ap\u00f3s o fechamento da Embrafilme. \u201cS\u00f3 quem conseguiu fazer um filme na \u00e9poca foi o filho do banqueiro [Walter Salles filmou <em>A grande arte<\/em> em 1991]. Na \u00e9poca saiu uma mat\u00e9ria na capa do Jornal do Brasil em que ele alegava que o filme tinha sido financiado com capital estrangeiro.\u201d Ainda em VHS, Primitivo fez diversos trabalhos, com os quais concorreu e participou de algumas mostras entre 1994 e 1995.<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">P<\/span>assada a fase de abandono institucional do cinema brasileiro, veio uma nova gera\u00e7\u00e3o que queria fazer cinema, mas de uma maneira que Primitivo considera muito careta. Ele chegou a participar como ator em um curta-metragem feito pelo pessoal da UFF (Universidade Federal Fluminense), rodado em 16mm. A \u00fanica cena que ele gostou do filme foi considerada um erro pelo restante da equipe. Algu\u00e9m esqueceu a luz da cozinha acesa enquanto era rodado o take e a cena ficou com uma colora\u00e7\u00e3o diferente. \u201cA luz da cozinha deixou a fotografia esverdeada, ficou linda. Foi a \u00fanica cena que eu gostei do filme e eles cortaram.\u201d Resolveu ent\u00e3o seguir a linha de experimenta\u00e7\u00e3o que j\u00e1 fazia, mas agora em pel\u00edcula, 16mm. \u201cTem uma textura de giz de cera que eu gosto e \u00e9 uma coisa de mem\u00f3ria tamb\u00e9m, da imagem de televis\u00e3o que eu assistia quando crian\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Foi nesse suporte que realizou seu primeiro curta-metragem, intitulado <em>Mais velho<\/em> (1999). Nesse filme ele caricaturou um ladr\u00e3o que roubava pontos de venda do jogo do bicho no Rio nos anos 1980, biografado atrav\u00e9s de not\u00edcias de jornal. Neste trabalho j\u00e1 est\u00e3o presentes as caracter\u00edsticas peculiares de seus filmes: uso de negativos vencidos para filmar, \u00e1udio desencontrado das imagens, ru\u00eddos. Rodrigo Amarante, ex-integrante do Los Hermanos atualmente no Little Joy, participa deste curta fazendo as vozes dos personagens, j\u00e1 que a capta\u00e7\u00e3o do som foi feita de forma indireta. Em uma cena, faz a voz de quatro deles. Amarante \u00e9 amigo de Nilson da \u00e9poca em que ambos faziam teatro com o poeta Ericson Pires no Rio de Janeiro. Ele atua na maior parte de seus filmes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2165\" aria-describedby=\"caption-attachment-2165\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2165\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/3595223540_fbc8b33a85_o.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"669\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2165\" class=\"wp-caption-text\">Fotografia de Tay Nascimento, mar\u00e7o de 2009<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mais velho<\/em> n\u00e3o foi exibido em mostras, poucos o viram na \u00e9poca. \u201cN\u00e3o teve repercuss\u00e3o, mas o pessoal que participou achou legal e botou pilha de fazer mais.\u201d Foi o que fez. Primitivo teve oito curtas de sua autoria exibidos em uma retrospectiva na MFL (Mostra do Filme Livre) do Rio de Janeiro em 2006, dentro do panorama \u201cCinema em Transe \u2013 Sess\u00e3o Impr\u00f3pria\u201d, dedicado a experimentos radicais de linguagem, ao lado de produ\u00e7\u00f5es de Jean Genet e John Lennon\/Yoko Ono. A partir de ent\u00e3o, seu trabalho come\u00e7ou a ganhar visibilidade e ele passou ser chamado para exibir seus filmes em outras mostras, como a que ocorreu em 2007 na Cinemateca Brasileira, com onze filmes, tr\u00eas deles feitos em SP.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Desconstru\u00e7\u00e3o do filme<\/b><\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">\u201c<\/span>\u00d3 o oper\u00e1rio, o oper\u00e1rio, o aristocrata, o aristocrata, onde que t\u00e1 o aristocrata e o burgu\u00eas e o oper\u00e1rio?\u201d<a href=\"\/revista\/#noti\">*<\/a><\/p>\n<p>Impress\u00e3o de deteriora\u00e7\u00e3o do filme. Imagem e som em linhas diferentes, desconexas. Frases atravessam as imagens, praticamente se chocam com elas, di\u00e1logos? Recortes feitos por uma c\u00e2mera insana, voc\u00ea n\u00e3o consegue prestar aten\u00e7\u00e3o no rosto dos&#8230; personagens? Fragmentos de m\u00fasicas, rabiscos na tela, ru\u00eddos sonoros, m\u00fasica experimental, polifonia, tiroteio audiovisual e voc\u00ea&#8230;n\u00e3o consegue acompanhar? Mas&#8230; voc\u00ea queria entender o enredo? Achou que ia assistir a uma sess\u00e3o de cinema? Perdeu merm\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>Primitivo utiliza negativos usados para fazer as filmagens. Os pap\u00e9is s\u00e3o representados em sua maioria por amigos e a montagem dos filmes \u00e9 feita na pr\u00f3pria c\u00e2mera<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cTriunfou perdeu, a vida n\u00e3o \u00e9 metaf\u00edsica, \u00e9 dial\u00e9tica, todo mundo, todo mundo, compreende, compreende meu camarada? Todo mundo que \u00e9 classe m\u00e9dia qu\u00e9 bej\u00e1 o c\u00fa da princesa, t\u00e1 compreendendo a situa\u00e7\u00e3o, todo mundo que \u00e9 classe m\u00e9dia quer ser aristocratra.\u201d<\/p>\n<p>Primitivo utiliza negativos usados para fazer as filmagens. Os pap\u00e9is s\u00e3o representados em sua maioria por amigos e a montagem dos filmes \u00e9 feita na pr\u00f3pria c\u00e2mera. \u00c9 ele mesmo quem faz a revela\u00e7\u00e3o dos negativos, utilizando banheiras ou potes tupperware. Os efeitos gerados nas imagens s\u00e3o em grande parte resultado de acidentes ocorridos durante esse processo.<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span> banda sonora \u00e9 composta de recortes de diversos trechos de m\u00fasicas, faixas de improvisa\u00e7\u00e3o experimental de projetos dos selos independentes Fronha Records e LSDiscos, al\u00e9m das falas dos personagens que s\u00e3o captadas de forma indireta. Tudo propositadamente misturado e desencontrado com as imagens. Esse desencontro vem de uma mania de inf\u00e2ncia: \u201cP\u00f4, eu fa\u00e7o essa porra desde crian\u00e7a, essa dem\u00eancia de botar a imagem da televis\u00e3o com o r\u00e1dio falando e alguma outra m\u00fasica tocando ao mesmo tempo. No fundo j\u00e1 estava fazendo colagem\u201d.<\/p>\n<p>Quanto aos di\u00e1logos, Primitivo utiliza trechos da obra de autores como Lewis Carroll e Michel Foucault, lidos pelos atores de forma extremamente coloquial, al\u00e9m de frases soltas que ouve de transeuntes ou de internos do IPUB (Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde trabalhou. \u201cEu n\u00e3o invento nada, s\u00f3 recorto e colo, tenho o maior orgulho de falar. \u00c9 claro que isso acaba criando um discurso, nem que seja apenas na minha cabe\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Diferentemente da gera\u00e7\u00e3o de 1968, Nilson n\u00e3o v\u00ea nenhum problema no r\u00f3tulo de marginal. \u201cMarginal tamb\u00e9m \u00e9 gente, \u00e9 marginal mesmo, porque n\u00e3o?\u201d Por\u00e9m faz quest\u00e3o de deixar bem claro que n\u00e3o tem nada com a discuss\u00e3o em torno de Cinema Novo x Cinema Marginal. \u201cIsso \u00e9 briga intestina deles que s\u00e3o da elite. N\u00e3o tenho absolutamente nada a ver com Glauber Rocha e Rog\u00e9rio Sganzerla. Eu gosto de Sady Baby, Mario Vaz Filho e Z\u00e9 Adauto Cardoso, os tr\u00eas maiores cineastas e seres humanos que o pa\u00eds j\u00e1 teve.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Aterrissagem em S\u00e3o Paulo<\/b><\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>mbiente escuro, imagens cruas projetadas nas paredes. Ora em branco e preto, ora com uma camada de cor sobreposta. Batidas eletr\u00f4nicas aumentam o clima apocal\u00edptico do lugar ao se fundirem e confundirem com as imagens em uma profus\u00e3o desordenada de signos imag\u00e9ticos e sonoros. Cenas filmadas na rua, uma garota se maquia com batom, um cara picha o muro com spray. Os dois conversam qualquer coisa enquanto a c\u00e2mera passeia e faz recortes nada convencionais sobre eles, apenas imagens. T\u00e3o incomum quanto os filmes \u00e9 o figura que opera o projetor e faz a sele\u00e7\u00e3o da trilha sonora. Alto, com cerca de 40 anos e os bra\u00e7os repletos de tatuagens, algumas de sua autoria. \u00c9 o Nils\u00e3o, que projeta nas paredes do Sarajevo, na rua Augusta, algumas das cenas de seu primeiro curta-metragem feito em S\u00e3o Paulo, <em>Gru<\/em> (2006). No recinto as pessoas circulam, bebem, fumam e conversam enquanto acompanham a sucess\u00e3o de imagens. Em seguida s\u00e3o exibidos tamb\u00e9m por Nilson, alguns filmes de William Burroughs, expoente da gera\u00e7\u00e3o beatnik que utiliza em suas experimenta\u00e7\u00f5es audiovisuais, feitas entre 1963 e 1972, a t\u00e9cnica de cut-up, forma de colagem desenvolvida em textos pelo dada\u00edsta Tristan Tzara. P\u00e9rolas do cinema underground norte-americano. A m\u00fasica eletr\u00f4nica aumenta a distor\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio j\u00e1 fragmentado pelas imagens.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, final de 2006, Nilson havia chegado recentemente a S\u00e3o Paulo, para morar. Fixara resid\u00eancia entre as ruas Aurora, Vit\u00f3ria e Guaianazes, o \u201ctri\u00e2ngulo das bermudas\u201d, como ele define, onde \u201ca boca, a zona e a delegacia convivem harm\u00f4nica e inteligentemente, com eleg\u00e2ncia\u201d. \u00c9 nessa regi\u00e3o que ele filma boa parte de <em>Gru<\/em>, como as cenas em que registra os ciganos da regi\u00e3o. \u201cAs pessoas que vivem ali n\u00e3o leem livros, eles s\u00e3o livros, s\u00e3o todos personagens, os ciganos, aquele pessoal todo.\u201d<\/p>\n<blockquote><p>Em 31 de maio de 2007 seus filmes s\u00e3o exibidos em uma sess\u00e3o \u00fanica na Cinemateca Brasileira. Ainda naquele ano, volta ao Rio a fim de dar andamento a outros projetos, como a filmagem da turn\u00ea de despedida do grupo Los Hermanos<\/p><\/blockquote>\n<p>Entre o final de 2006 e in\u00edcio de 2007, fez quatro filmes na cidade. Al\u00e9m de <em>Gru<\/em> \u2013 inspirado no personagem hom\u00f4nimo do livro <em>A frente fria que a chuva traz<\/em>, de M\u00e1rio Bortolloto \u2013, foram filmados <em>Carta aos cegos \u2013 para aqueles que sabem ouvir e falar<\/em>, constru\u00eddo a partir de uma poesia de Paulo de Tharso, o \u201cPicanha\u201d, <em>Alerta aos carcereiros<\/em>, com participa\u00e7\u00e3o de Marcelo Colai\u00e1covo, que trabalhava com Jos\u00e9 Mojica Marins, o Z\u00e9 do Caix\u00e3o, e <em>Os sete cabeludos<\/em>, filmado na Pra\u00e7a Roosevelt. Em 31 de maio de 2007, seus filmes foram exibidos em uma sess\u00e3o \u00fanica na Cinemateca Brasileira. Ainda naquele ano, retornou ao Rio a fim de dar andamento a outros projetos, como a filmagem da turn\u00ea de despedida do grupo Los Hermanos. Primitivo \u00e9 o autor dos clipes de \u201cSentimental\u201d (2002) e \u201cO vento\u201d (2004), ambos recusados pela MTV, mas dispon\u00edveis no Youtube, al\u00e9m do document\u00e1rio <em>Ventura<\/em>, feito em 2004 em parceria com Sergio Lutz Barbosa. Foi para Curitiba trabalhar como t\u00e9cnico em uma filmagem sobre Paulo Leminski e aproveitou para fazer uma visita a Petter Baiestorf, autor catarinense de filmes gore.<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">N<\/span>ovamente em S\u00e3o Paulo, ainda em 2007, filmou <em>Su\u00edte oriental<\/em>. Colaborou na montagem da retrospectiva dos cinquenta anos de carreira de Z\u00e9 do Caix\u00e3o organizada pelo CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) em parceria com a Cinemateca Brasileira e com curadoria de Eug\u00eanio Puppo. Conhece Dennison Ramalho (<em>Amor s\u00f3 de m\u00e3e<\/em>, 2003) e Paulo Sacramento (<em>O prisioneiro da grade de ferro<\/em>, 2004), respons\u00e1veis respectivamente pelo roteiro e pela produ\u00e7\u00e3o de <em>Encarna\u00e7\u00e3o do dem\u00f4nio<\/em>, filme de Mojica finalizado em 2007 e que fechou a trilogia iniciada com <em>\u00c0 meia-noite levarei sua alma<\/em> (1964). Ramalho adaptou o roteiro original de 1966 e o transp\u00f4s do espa\u00e7o rural para o urbano, e Sacramento, da produtora Olhos de C\u00e3o, produziu a pel\u00edcula em parceria com a Gullane Filmes, dos irm\u00e3os Caio e Fabiano. O restante da verba veio atrav\u00e9s do Concurso de Baixo Or\u00e7amento do Minist\u00e9rio da Cultura. Primitivo foi informado de que o or\u00e7amento da produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava fechado e n\u00e3o teria como participar do filme, mas conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o para realizar imagens dos bastidores, em 16mm, e com as quais fez o curta <em>Hell No Honey<\/em>, projetado no in\u00edcio de 2008 nas paredes da galeria Cinesol, na livraria Arquip\u00e9lago, bairro da Liberdade, em uma de suas in\u00fameras passagens rel\u00e2mpago por S\u00e3o Paulo. De quebra, ainda foi convidado a fazer um papel de zumbi no filme, devido \u00e0 impossibilidade de o ator escalado comparecer \u00e0s filmagens no dia. Em uma de suas incurs\u00f5es no set de <em>Encarna\u00e7\u00e3o do dem\u00f4nio<\/em>, colocou o filme do lado errado na c\u00e2mera e, ao contar para Mojica do acidente, ouviu o seguinte: \u201cJ\u00e1 fiz muito isso, a imagem fica \u00f3tima\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2164\" aria-describedby=\"caption-attachment-2164\" style=\"width: 1000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2164\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/3595223402_a1f93288ea_o.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"669\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2164\" class=\"wp-caption-text\">Fotografia de Tay Nascimento, mar\u00e7o de 2009<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De volta ao Rio fez o curta <em>Constantinopla<\/em> (2008), uma vis\u00e3o do tr\u00e1fico isenta de qualquer moralismo e longe dos estere\u00f3tipos encontrados nas produ\u00e7\u00f5es nacionais que abordam o tema. Logo no in\u00edcio da pel\u00edcula, uma moradora do morro anuncia: \u201co diabo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feio quanto eles pintam\u201d. Tamb\u00e9m no Rio trabalhou na montagem de uma mostra sobre o diretor Ozualdo Candeias &#8211; pioneiro do cinema marginal paulistano com seu filme <em>A margem<\/em>, de 1966. A mostra foi organizada atrav\u00e9s de uma parceria da Caixa Cultural do Rio de Janeiro com a Cinemateca Brasileira. Primitivo voltou a residir em S\u00e3o Paulo ainda em 2008. Filmou os bastidores da grava\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum Sou de Marcelo Camelo com a banda Hurtmold e captou imagens do <em>Autoengano<\/em>, projeto do selo LSDiscos. Foi a Salvador, onde fez a filmagem do DVD oficial de Camelo em uma apresenta\u00e7\u00e3o do m\u00fasico na Concha Ac\u00fastica do Teatro Castro Alves, com a participa\u00e7\u00e3o de Mallu Magalh\u00e3es e Dominguinhos, acompanhados pela banda Hurtmold. A apresenta\u00e7\u00e3o aconteceu dentro do projeto \u201cSua nota \u00e9 um show\u201d, promovido pelas secretarias de Cultura e Fazenda do Estado da Bahia. Atualmente, Primitivo trabalha nos clipes de \u201cEl hueco\u201d, de Juliana R, e \u201cSeringa\u201d, dos Trovadores de Bordel.<\/p>\n<p><em>Su\u00edte oriental<\/em> e <em>Maldito ciclo lunar<\/em>, s\u00e3o os trabalhos autorais mais recentes de Primitivo. Ambos foram finalizados em 2008 e est\u00e3o dispon\u00edveis no Youtube. <em>Maldito ciclo lunar<\/em> \u00e9 mais um experimento marginal de Primitivo com a presen\u00e7a de Rodrigo Amarante. J\u00e1 <em>Su\u00edte oriental<\/em> \u00e9 uma homenagem \u00e0 Sady Baby, o que pode ser detectado nos di\u00e1logos da pel\u00edcula. A preocupa\u00e7\u00e3o do autor, quando da filmagem da cena do assassinato de <em>Su\u00edte oriental<\/em>, era se, ap\u00f3s a revela\u00e7\u00e3o do negativo, as imagens ficariam minimamente vis\u00edveis. Ficaram, com todos os ru\u00eddos e nuances que um negativo vencido proporciona como resultado desse processo, realmente experimental, que \u00e9 a confec\u00e7\u00e3o de seus filmes. Experimental porque ele joga com todas as variantes do processo f\u00edlmico como quem joga b\u00fazios, e acolhe abertamente os resultados para compor a pel\u00edcula. No caso espec\u00edfico de <em>Su\u00edte oriental<\/em>, a imprevisibilidade do resultado se manteve at\u00e9 o final da edi\u00e7\u00e3o, quando surgiram v\u00e1rias vers\u00f5es, at\u00e9 que uma delas foi dada como definitiva. Na cena espec\u00edfica do assassinato, \u00e9 poss\u00edvel distinguir aquilo que foi visto a olho nu durante a filmagem, mas de forma fragment\u00e1ria e entremeada por clar\u00f5es. A imagem se desfaz, a tela fica branca, surgem algumas abstra\u00e7\u00f5es em tom marrom, frutos de alguma prov\u00e1vel deteriora\u00e7\u00e3o do negativo, e ent\u00e3o ressurge a imagem, sempre com a presen\u00e7a dos rabiscos e chuviscos que perambulam o tempo todo pela tela. Tudo isso somado aos gritos de \u201cPuta que pariu\u201d que emanam da faixa \u201cDNA ou NADA\u201d, do grupo Sat\u00e3 B\u00e1rbara.<\/p>\n<p><a name=noti>*<\/a> As falas foram tiradas do curta-metragem <em>Mais velho<\/em> (1999), de Nilson Primitivo. A forma coloquial e os propositais erros de portugu\u00eas utilizados no filme foram mantidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente na edi\u00e7\u00e3o #1 da revista FIGAS, em agosto de 2009. Alameda Gl\u00f3ria, S\u00e3o Paulo, agosto de 2007. Noite fria de garoa. Um sujeito de \u00f3culos desce a rua, tenso. Olha furtivamente para os lados, entre uma tragada e outra de cigarro. Dois homens se aproximam. Cada um vindo de uma dire\u00e7\u00e3o. Antes que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2163,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[53,60],"tags":[2,3,62,55],"class_list":["post-2161","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquivo-figas","category-perfil-arquivo-figas","tag-brasil","tag-cinema","tag-edicao-1","tag-figas"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2161","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2161"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2161\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2277,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2161\/revisions\/2277"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2163"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2161"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2161"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2161"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}