{"id":605,"date":"2018-10-20T15:05:17","date_gmt":"2018-10-20T18:05:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/?p=605"},"modified":"2018-10-20T15:05:17","modified_gmt":"2018-10-20T18:05:17","slug":"a-atualidade-do-corpo-politico-de-mulheres-radicais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2018\/10\/20\/a-atualidade-do-corpo-politico-de-mulheres-radicais\/","title":{"rendered":"A atualidade do corpo pol\u00edtico de <em>Mulheres radicais<\/em>"},"content":{"rendered":"<p>Paz Err\u00e1zuriz (chilena), <em>La Palmera, Santiago<\/em>, da s\u00e9rie <em>La Manzana de Ad\u00e1n<\/em> [O pomo de Ad\u00e3o], 1982<br \/>\n\t\t\tum especial<br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"170\" height=\"75\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ref_b_bcpq-1.png\" alt=\"\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">Q<\/span>uem visita a exposi\u00e7\u00e3o <em>Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985<\/em>, na Pinacoteca de S\u00e3o Paulo, encontra logo \u00e0 entrada da sala da exibi\u00e7\u00e3o uma linha do tempo com os principais acontecimentos pol\u00edticos e culturais da Am\u00e9rica Latina ao longo do s\u00e9culo XX. Entre eles, o direito ao voto feminino, inaugurado por nosso vizinho progressista Uruguai em 1927. Dos in\u00fameros fatos ocorridos na hist\u00f3ria recente do continente, a imagem de um deles se sobressai naquele painel: Dilma Rousseff sendo interrogada, ap\u00f3s ter sido torturada por agentes da ditadura, em 1970. Na famosa fotografia, a ex-presidenta aparece com um olhar altivo e resiliente, em contraposi\u00e7\u00e3o a seus algozes, que escondem o rosto diante da c\u00e2mera. A fotografia nos exp\u00f5e ao inimagin\u00e1vel quando nos faz pensar, quase de pronto, nas torturas praticadas pelo regime; n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que se trata de um testemunho hist\u00f3rico. Mas sua for\u00e7a assombrosa resulta de algo mais imediato: o contraste expl\u00edcito da cena, em que oficiais escondem o rosto enquanto uma jovem prisioneira pol\u00edtica mant\u00e9m a cabe\u00e7a erguida, um olhar quase sereno, mas imponente. De um lado, a manifesta covardia de um regime; de outro, a surpreendente rijeza de uma mulher de 22 anos, de ideais convictos mesmo ap\u00f3s ter sido presa e torturada. O que vemos ali \u00e9 o vigor do corpo pol\u00edtico encarnado pela figura da mulher durante o regime militar.<\/p>\n<p>Esse corpo que congrega diferentes marcas da viol\u00eancia e da opress\u00e3o, em um per\u00edodo turbulento em todo o continente, se aproxima da po\u00e9tica dos corpos conduzida pelas 120 artistas latino-americanas que integram a exposi\u00e7\u00e3o. O elo entre elas \u00e9 exatamente a ideia do corpo pol\u00edtico e radical, mote estabelecido pelas curadoras da mostra, a venezuelana-brit\u00e2nica Cecilia Fajardo-Hill e a \u00edtalo-argentina Andrea Giunta. \u00a0As artistas de <em>Mulheres radicais <\/em>protagonizaram uma virada iconogr\u00e1fica<a id=\"_ftnref1\" href=\"\/revista\/#_ftn1\">[1]<\/a> da maior relev\u00e2ncia ao capitanearem in\u00fameras investiga\u00e7\u00f5es que possibilitaram uma nova representa\u00e7\u00e3o do corpo, para al\u00e9m de sua fun\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e moral. E para tanto recorreram \u00e0s linguagens mais experimentais, como a performance, o v\u00eddeo e a fotografia. O giro iconogr\u00e1fico operado por essas artistas gerou a maior contribui\u00e7\u00e3o da arte do p\u00f3s-guerra at\u00e9 o presente, de acordo com Giunta.<\/p>\n<p>Vale notar que muitas vozes da cr\u00edtica de arte brasileira, nos lugares de visibilidade que ocupam, n\u00e3o deram a devida aten\u00e7\u00e3o aos m\u00faltiplos sentidos evocados pela exposi\u00e7\u00e3o. As posi\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o de resenhas apressadas \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de textos sem uma leitura mais reflexiva,<a id=\"_ftnref2\" href=\"\/revista\/#_ftn2\">[2]<\/a> levam a supor que a nossa cr\u00edtica n\u00e3o se deu conta da colabora\u00e7\u00e3o crucial dessas artistas para a hist\u00f3ria da arte mais recente.\u00a0 Seria esse sil\u00eancio um sintoma dos resqu\u00edcios patriarcais e machistas ainda incrustados nos meios art\u00edsticos brasileiros? Seria o efeito da inaugura\u00e7\u00e3o da Bienal de S\u00e3o Paulo, cuja m\u00e1quina expositiva hegem\u00f4nica captura todos os holofotes, esvaziando da reflex\u00e3o merecida o circuito paralelo? Ou, ainda, decorreria da falta de interesse de parte da cr\u00edtica em discutir a arte contempor\u00e2nea dentro do prisma latino-americano?<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o inclui nomes consagrados e conhecidos do p\u00fablico brasileiro, como Lygia Clark, Lygia Pape e Anna Maria Maiolino. N\u00e3o obstante, esses trabalhos ganham uma nova camada de significa\u00e7\u00e3o quando vistos sob o argumento curatorial, que aborda o efeito emancipat\u00f3rio suscitado pelas m\u00faltiplas pesquisas realizadas com o corpo. O conjunto de obras n\u00e3o se esgota com uma leitura \u00fanica; talvez por isso, no contexto expositivo, \u00e9 apresentado por meio de eixos tem\u00e1ticos propostos pelas curadoras, as quais, na edi\u00e7\u00e3o brasileira, tiveram a colabora\u00e7\u00e3o de Val\u00e9ria Piccoli. S\u00e3o eles: Autorretrato; Paisagem do Corpo; Performance do Corpo; Mapeando o Corpo; Resist\u00eancia e Medo; O poder das Palavras; Feminismos; Lugares Sociais; O Er\u00f3tico. Diante dessa nova configura\u00e7\u00e3o, essas obras ativam outras interpreta\u00e7\u00f5es e apontam pautas e problemas comuns, reunindo muitas artistas que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o se conheciam.<\/p>\n<p>Segundo as curadoras, essas artistas provocaram uma invers\u00e3o fundamental do ponto de vista representacional. O corpo feminino, historicamente atrelado ao olhar masculino, emancipou-se ao originar novos saberes e outras formas de representa\u00e7\u00e3o. Por meio dos n\u00facleos tem\u00e1ticos, <em>Mulheres radicais<\/em> conduz o p\u00fablico a esse precedente essencial inaugurado pelas artistas, que \u00e9 justamente a mudan\u00e7a da autoria do olhar. As obras expostas evidenciam que o olho externo, guiado pelo desejo masculino, perde o sentido diante da pot\u00eancia do olhar interno que se autodescobre, possibilitando novas experimenta\u00e7\u00f5es com o corpo.<\/p>\n<h2>Por que radicais? Por que corpo pol\u00edtico?<\/h2>\n<figure>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"691\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Andrea_GiuntaP.png\" alt=\"\" srcset=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Andrea_GiuntaP.png 512w, http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Andrea_GiuntaP-222x300.png 222w, http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Andrea_GiuntaP-350x472.png 350w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption>Andrea Giunta, cocuradora da exposi\u00e7\u00e3o \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>&#8220;N\u00f3s pensamos a no\u00e7\u00e3o de corpo pol\u00edtico, que \u00e9 um conceito muito rico e muito complexo, de diferentes maneiras. Em primeiro lugar, porque muitas dessas obras foram realizadas em situa\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia extrema, durante a ditadura. Outras foram realizadas em rela\u00e7\u00e3o com a milit\u00e2ncia e o compromisso pol\u00edtico, acreditando que fosse poss\u00edvel uma transforma\u00e7\u00e3o da sociedade (Margarita Paksa ou Gracia Barrios, por exemplo). E tamb\u00e9m nos referimos ao corpo pol\u00edtico porque muitas das artistas estiveram presas ou exiladas. E \u00e9 igualmente pol\u00edtico porque elas atuaram sobre os acordos est\u00e9ticos estabelecidos: as iconografias do feminino estavam predominantemente nas m\u00e3os dos artistas homens, que foram os que realizaram 99% dos nus que conhecemos na hist\u00f3ria da arte. Trata-se de um olhar externo, patriarcal, guiado pelo desejo masculino. O que a exposi\u00e7\u00e3o faz \u00e9 evidenciar que o corpo \u00e9 observado, experimentado, conceitualizado a partir de um olhar interno, que navega o corpo, que o representa de uma maneira nova, quase sem precedentes. Por isso, no meu ensaio no cat\u00e1logo, me refiro a um giro iconogr\u00e1fico radical: temas que nunca haviam sido representados come\u00e7am a s\u00ea-lo. [&#8230;] Por fim, o sentido pol\u00edtico do corpo tamb\u00e9m reside no fato de que utilizaram seus pr\u00f3prios corpos como ponto de partida e objeto de explora\u00e7\u00e3o e de investiga\u00e7\u00e3o, levando-os a extremos in\u00e9ditos, e recorreram, ademais, \u00e0s linguagens mais experimentais: a performance, o v\u00eddeo, a fotografia.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Trecho da entrevista de Andrea Giunta, cocuradora da exposi\u00e7\u00e3o, \u00e0 <b>FIGAS<\/b>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/2018\/11\/11\/o-que-buscamos-e-reformular-criterios-uma-entrevista-com-andrea-giunta\/\" target=\"_blank\">\u00ab\u00abClique aqui para ler o restante da entrevista, ou na seta abaixo para continuar no ensaio\u00bb\u00bb<\/a><\/p>\n<p>        <a href=\"\/revista\/#contin_rad\"><br \/>\n        <\/a><\/p>\n<h2>continuar a ler o ensaio<\/h2>\n<p>\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"yes\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"0a07ae1\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_07_SET_2018_IM.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_07_SET_2018_IM.jpg\" title=\"Mulheres_Radicais_07_SET_2018_IM\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tFachada da Pinacoteca de S\u00e3o Paulo com o t\u00edtulo da exposi\u00e7\u00e3o em display. Divulga\u00e7\u00e3o Pina_<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"yes\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"0a07ae1\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_24_SET_2018_IM.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_24_SET_2018_IM.jpg\" title=\"Mulheres_Radicais_24_SET_2018_IM\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tVista interior da sala da exposi\u00e7\u00e3o. Divulga\u00e7\u00e3o Pina_<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"yes\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"0a07ae1\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ameliatoledopb.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/ameliatoledopb.jpg\" title=\"amelia+toledo+p+b\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tAm\u00e9lia Toledo (brasileira), <em>Sorriso de menina<\/em>, 1975. Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"yes\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"0a07ae1\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/DkwQlzcWsAAghme.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/DkwQlzcWsAAghme.jpg\" title=\"DkwQlzcWsAAghme\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tSylvia Salazar Simpson (estadunidense), <em>Antes-despu\u00e9s<\/em>, 1981<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"yes\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"0a07ae1\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_29_SET_2018_IM.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_29_SET_2018_IM.jpg\" title=\"Mulheres_Radicais_29_SET_2018_IM\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tVista interior da sala da exposi\u00e7\u00e3o. Divulga\u00e7\u00e3o Pina_<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"yes\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"0a07ae1\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_32_SET_2018_IM.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_32_SET_2018_IM.jpg\" title=\"Mulheres_Radicais_32_SET_2018_IM\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tVista interior da sala da exposi\u00e7\u00e3o. Divulga\u00e7\u00e3o Pina_<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\tMulheres, a experimenta\u00e7\u00e3o na arte e os conceitualismos<br \/>\n\t\t\tMulheres, a experimenta\u00e7\u00e3o na arte e os conceitualismos\t\t<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">D<\/span>urante o marco temporal da mostra, muitas artistas n\u00e3o se autodenominaram feministas, apesar de a crescente pauta do direito das mulheres integrar o horizonte pol\u00edtico e cultural no qual estavam inseridas. Em sintonia com esse dado hist\u00f3rico, a curadoria n\u00e3o aborda o trabalho de todas as artistas sob a \u00e9gide do feminismo, embora parta de uma metodologia feminista ao dar visibilidade a centenas de trabalhos que, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o haviam sido articulados sob essa perspectiva. Sobre o assunto, Giunta falou \u00e0 figas:<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00f3s n\u00e3o classificamos as artistas como feministas, partimos das identifica\u00e7\u00f5es delas mesmas. Por isso, h\u00e1 um tema na exposi\u00e7\u00e3o, uma zona sobre feminismo. Evidentemente, nossa decis\u00e3o de exibir apenas mulheres parte de nosso pr\u00f3prio feminismo. [&#8230;] Nossa perspectiva como curadoras e historiadoras \u00e9 feminista. Mas n\u00e3o quer dizer que as artistas sejam feministas. Muitas delas, inclusive, afirmam isso. Por exemplo, muitas artistas brasileiras: no Brasil, arte e feminismo n\u00e3o se vincularam nos anos 1960 e 1980\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Outro aspecto positivo da mostra \u00e9 a sua disposi\u00e7\u00e3o para reunir trabalhos de m\u00faltiplas linguagens, produzidos em um per\u00edodo fundamental para a sedimenta\u00e7\u00e3o da arte contempor\u00e2nea. Desde a d\u00e9cada de 1960, observam-se os primeiros sinais de esgotamento da ret\u00f3rica modernista, possibilitando a expans\u00e3o do papel da obra de arte como agenciadora de pautas extra-est\u00e9ticas. Se, por um lado, o discurso modernista neutralizou o objeto art\u00edstico, sobretudo o pict\u00f3rico, inserindo-o em uma fic\u00e7\u00e3o linear cujo \u00e1pice foi a descoberta de seu <em>medium<\/em> pr\u00f3prio \u2013 a superf\u00edcie bidimensional \u2013, por outro, uma revis\u00e3o cr\u00edtica dessa conjuntura aut\u00f4noma da arte buscou contaminar seu regime com outros enunciados pol\u00edticos, sociais e est\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A etiqueta historiogr\u00e1fica que deu conta dessa guinada das pr\u00e1ticas experimentais na arte ficou conhecida como arte conceitual. Esse movimento apontou para um problema basal naquele momento: a redefini\u00e7\u00e3o do conceito de arte e do objeto art\u00edstico para al\u00e9m de sua materialidade. \u00c9 sabido, no entanto, que os rumos do conceitualismo na Am\u00e9rica Latina foram distintos daqueles dos centros metropolitanos. Do lado de c\u00e1, a arte conceitual foi assumida como a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para discutir a realidade social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica da regi\u00e3o. A precariedade dos materiais, por exemplo, em sintonia com essa realidade, foi assumida como um conjunto de proposi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas. \u00c9 o caso da artista e poeta chilena Cecilia Vicu\u00f1a, que na d\u00e9cada de 1960 criou obras ef\u00eameras baseadas no que chamou de <em>arte precario<\/em>. A s\u00e9rie <em>Basuritas<\/em> era constitu\u00edda por pequenas esculturas feitas com materiais encontrados no lixo, nas ruas e na natureza, como galhos de \u00e1rvore, fios e tecidos. A sutileza das formas prec\u00e1rias materializadas em constru\u00e7\u00f5es espaciais, produzidas a partir de elementos destinados a desvanecer, evocava a hist\u00f3ria dos povos origin\u00e1rios, especialmente das mulheres ancestrais.<a id=\"_ftnref3\" href=\"\/revista\/#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1990, a arte conceitual latino-americana tem sido objeto de in\u00fameras pesquisas, dentre elas o ensaio da porto-riquenha Mari Carmen Ram\u00edrez, <em>Tactics for Thriving on Adversity: Conceptualism in Latin America, 1960-1980<\/em>, de 1999, e o livro escrito pelo artista uruguaio Luis Camnitzer, <em>Conceptualism in Latin American Art: Didactics of Liberation<\/em>, de 2007. A despeito do m\u00e9rito de elaborarem um corpo te\u00f3rico in\u00e9dito sobre relev\u00e2ncia do movimento fora dos grandes centros, ambos autores, de acordo com Cecilia Fajardo-Hill, demonstraram escasso interesse no papel desempenhado pelas artistas mulheres em seus relatos sobre o conceitualismo. Inclusive, o recorte que definiram para a arte conceitual partia de uma leitura quase macropol\u00edtica que a revestia de uma aura heroica e militante, com pouco espa\u00e7o para \u201cinterjei\u00e7\u00f5es mais subjetivas e lutas pessoais\u201d.<a id=\"_ftnref4\" href=\"\/revista\/#_ftn4\">[4]<\/a> A exposi\u00e7\u00e3o responde \u00e0 emerg\u00eancia de anunciar outras narrativas \u00e0s pr\u00e1ticas experimentais, trazendo \u00e0 tona novas perspectivas que n\u00e3o haviam sido investigadas \u2013 e, do mesmo modo, escapando dos relatos can\u00f4nicos da hist\u00f3ria da arte, que se cristalizaram a sob valores patriarcais, racistas e de classe.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6eef072\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/baca.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/baca.jpg\" title=\"baca\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tJudith Baca (estadunidense), <em>Pachuca<\/em>, 1973. Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6eef072\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_38_SET_2018_IM-1.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_38_SET_2018_IM-1.jpg\" title=\"Mulheres_Radicais_38_SET_2018_IM\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tVista interior da sala da exposi\u00e7\u00e3o. Divulga\u00e7\u00e3o Pina_<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6eef072\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_49_SET_2018_IM.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_49_SET_2018_IM.jpg\" title=\"Mulheres_Radicais_49_SET_2018_IM\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tVista interior da sala da exposi\u00e7\u00e3o. Divulga\u00e7\u00e3o Pina_<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6eef072\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Carvalho_Josely_diptych-a.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Carvalho_Josely_diptych-a.jpg\" title=\"Carvalho_Josely_diptych-a\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tJosely Carvalho (brasileira naturalizada estadunidense), <em>Waiting<\/em>, 1982. Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6eef072\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Araujo-Martha_H%C3%A1bito-Habitante.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Araujo-Martha_H%C3%A1bito-Habitante.jpg\" title=\"Araujo-Martha_H\u00e1bito-Habitante\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tMartha Ara\u00fajo (brasileira), <em>H\u00e1bito\/Habitante<\/em>, 1985. Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\tAs mulheres e as formas de exclus\u00e3o da arte<br \/>\n\t\t\tAs mulheres e as formas de exclus\u00e3o da arte<br \/>\n\t\t<span class=\"wpsdc-drop-cap\">U<\/span>ma das fic\u00e7\u00f5es mais est\u00e1veis da hist\u00f3ria da arte se amparou no valor da qualidade est\u00e9tica como autoridade m\u00e1xima de enuncia\u00e7\u00e3o do que deveria ser uma \u201cboa\u201d arte. Andrea Giunta aponta que o atributo de qualidade acabou esvaziando uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre os mecanismos que sedimentaram as estruturas de poder cultural. Se esses crit\u00e9rios foram refrat\u00e1rios ao funcionamento da engrenagem do sistema art\u00edstico, a \u201cboa\u201d arte seria exatamente aquela que tendeu a neutralizar as disparidades do mundo ao redor, sobretudo as de g\u00eanero. Seguindo essa l\u00f3gica, Giunta constata que a presen\u00e7a masculina continuou majorit\u00e1ria nos grandes relatos, levando-a a pressupor, n\u00e3o sem ironia, que essas hist\u00f3rias n\u00e3o inclu\u00edram obras de mulheres pelo simples fato de n\u00e3o serem t\u00e3o boas quanto as de seus pares homens.<a id=\"_ftnref5\" href=\"\/revista\/#_ftn5\">[5]<\/a><br \/>\nSe a qualidade foi um mecanismo de exclus\u00e3o, <em>Mulheres radicais <\/em>evidencia a enorme contribui\u00e7\u00e3o de artistas latino-americanas, latinas e chicanas sistematicamente apartadas de um v\u00ednculo mais efetivo com a arte moderna e contempor\u00e2nea. No caso das latinas e chicanas, esse apagamento \u00e9 ainda mais complexo, principalmente por conta de uma concep\u00e7\u00e3o preconceituosa que as relegou a um estado de permanente indefini\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o as situava nem na Am\u00e9rica Latina, muito menos nos Estados Unidos, revelando no\u00e7\u00f5es extremamente limitadas de na\u00e7\u00e3o e identidade. Carla Stellweg, docente e curadora, nos mostra como a consci\u00eancia feminista das artistas chicanas foi ampliada, por meio de concep\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias multifacetadas, a partir da d\u00e9cada de 1970. Ao acionarem o corpo feminino a partir de valores sociopol\u00edticos chicanos, elas questionaram, tamb\u00e9m, \u201co simbolismo machista impl\u00edcito no orgulho nacional mexicano\u201d.<a id=\"_ftnref6\" href=\"\/revista\/#_ftn6\">[6]<\/a> \u00cdcones e personagens tradicionais da cultura mexicana eram reinterpretados pelas artistas, como a cultuada Virgem de Guadalupe e a figura m\u00edtica dos <em>pachucos<\/em>.<a id=\"_ftnref7\" href=\"\/revista\/#_ftn7\">[7]<\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6ed0b8f\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/captura-de-tela-2018-08-20-as-19-00-48.png\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/captura-de-tela-2018-08-20-as-19-00-48.png\" title=\"captura-de-tela-2018-08-20-as-19-00-48\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tLenora de Barros (brasileira), <em>Poema<\/em>, 1979. Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6ed0b8f\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_61_SET_2018_IM.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_61_SET_2018_IM.jpg\" title=\"Mulheres_Radicais_61_SET_2018_IM\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tVista interior da sala da exposi\u00e7\u00e3o. Divulga\u00e7\u00e3o Pina_<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6ed0b8f\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_66_SET_2018_IM.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_66_SET_2018_IM.jpg\" title=\"Mulheres_Radicais_66_SET_2018_IM\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tVista interior da sala da exposi\u00e7\u00e3o. Divulga\u00e7\u00e3o Pina_<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6ed0b8f\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_71_SET_2018_IM.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Mulheres_Radicais_71_SET_2018_IM.jpg\" title=\"Mulheres_Radicais_71_SET_2018_IM\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tVista interior da sala da exposi\u00e7\u00e3o. Divulga\u00e7\u00e3o Pina_<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t\t\t\t<a data-elementor-open-lightbox=\"default\" data-elementor-lightbox-slideshow=\"6ed0b8f\" href=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/carnevale.jpg\"><br \/>\n\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/carnevale.jpg\" title=\"carnevale\" \/><figcaption>\n\t\t\t\tGraciela Carnevale (argentina), <em>Encierro #10<\/em> [Confinamento n.10], 1968. Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n\t\t<\/figcaption><\/a><br \/>\n\t\t<iframe loading=\"lazy\" title=\"Cecilia Vicu\u00f1a sobre arte, Am\u00e9rica Latina e a experi\u00eancia feminina\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/300405781?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write; encrypted-media; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\"><\/iframe><br \/>\n\t\t\tCinegrafia e edi\u00e7\u00e3o por Vanessa Nicolav<br \/>\n\t\t\tNovas e velhas ditaduras, a mulher e o corpo radical<br \/>\n\t\t\tNovas e velhas ditaduras, a mulher e o corpo radical\t\t<\/p>\n<span class=\"wpsdc-drop-cap\">N<\/span>a abertura de <em>Mulheres radicais<\/em>, a Pinacoteca de S\u00e3o Paulo organizou um encontro com as curadoras e algumas artistas convidadas. Na ocasi\u00e3o, o p\u00fablico teve a chance de conhecer e ouvir o relato das chilenas Cecilia Vicu\u00f1a e Paz Err\u00e1zuriz, da colombiana Mar\u00eda Evelia Marmolejo, da mexicana Maria Eugenia Chellet, al\u00e9m de acompanhar a apresenta\u00e7\u00e3o das brasileiras Iole de Freitas e Vera Chaves Barcellos. Nas entrelinhas das falas, ficou evidente a atmosfera repressiva onipresente que agiu sobre os corpos e sobre o terreno da cria\u00e7\u00e3o de todas essas artistas.<\/p>\n<p>A obra de Marmolejo, por exemplo, foi diretamente marcada pela tens\u00e3o pol\u00edtica na Col\u00f4mbia. Sua fala revelou o impacto da viol\u00eancia descomedida que torturou amigos pr\u00f3ximos e familiares, simbolizada em alguns de seus trabalhos do come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980. Em homenagem aos desaparecidos, a colombiana realizou uma performance na qual cortava os dedos dos p\u00e9s e depois caminhava por uma longa faixa de papel, deixando as marcas de sangue sobre a superf\u00edcie branca. Al\u00e9m do estado de exce\u00e7\u00e3o, a artista teve de lidar com o conservadorismo das academias de arte, que frequentemente reprovavam proposi\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter experimental.<\/p>\n<p>Durante a palestra, Cecilia Fajardo-Hill assinalou uma dupla forma de repress\u00e3o vivenciada pelas artistas: a incompreens\u00e3o do sistema art\u00edstico e a viol\u00eancia pol\u00edtica. A curadora enxergou uma for\u00e7a vital diretamente ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o das artistas mulheres. O que as faz continuar? O que lhes d\u00e1 for\u00e7a? O relato impactante de Marmolejo revela a dimens\u00e3o da dor como elemento deflagrador da obra de arte, principalmente em um cen\u00e1rio caracterizado pela indiferen\u00e7a de parte da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao ambiente de constante brutalidade.<\/p>\n<p>Na entrevista de Cecilia Vicu\u00f1a \u00e0 FIGAS, a chilena tamb\u00e9m se emocionou ao lembrar a ruptura pol\u00edtica em seu pa\u00eds, ap\u00f3s a abreviada experi\u00eancia socialista do governo Salvador Allende. Curiosamente, o elemento que ativou essa mem\u00f3ria foi a presen\u00e7a do cr\u00edtico brasileiro M\u00e1rio Pedrosa no Chile e as iniciativas culturais da Unidade Popular, das quais participou ativamente. Ap\u00f3s o golpe de 11 de setembro de 1973, Vicu\u00f1a, como tantas outras artistas, buscou ex\u00edlio na Europa.<a id=\"_ftnref8\" href=\"\/revista\/#_ftn8\">[8]<\/a> Os quase mil dias do governo Allende representaram um sopro de esperan\u00e7a para muitos latino-americanos que l\u00e1 buscaram abrigo e uma possibilidade real de renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural em um continente que era gradualmente minado pelos militares com o evidente apoio dos Estados Unidos. O golpe de Augusto Pinochet n\u00e3o s\u00f3 sepultou a promessa de um governo socialista e democr\u00e1tico na regi\u00e3o como tamb\u00e9m produziu uma di\u00e1spora de exilados que tiveram de sair \u00e0s pressas do Chile. A partilha de um projeto coletivo e democr\u00e1tico de integra\u00e7\u00e3o latino-americana foi substitu\u00edda por outra modalidade de uni\u00e3o continental, por\u00e9m, de contornos sinistros: a Opera\u00e7\u00e3o Condor.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia traum\u00e1tica da ruptura, dos golpes, da fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da atmosfera opressiva \u00e9 um elemento que incidiu diretamente sobre o corpo dessas artistas. Suely Rolnik escreveu sobre esse poder transformador da arte que ficou soterrado pelos efeitos do trauma das ditaduras. A psicanalista enxergou nas vias micropol\u00edticas um territ\u00f3rio essencial de cria\u00e7\u00e3o e de \u201ccura\u201d dos eventos traum\u00e1ticos, para \u201cdesentranhar futuros\u201d.<a id=\"_ftnref9\" href=\"\/revista\/#_ftn9\">[9]<\/a> A for\u00e7a da micropol\u00edtica concentrada nesses corpos evoca essa mem\u00f3ria dolorosa, ativando novas pot\u00eancias para lidar com o presente.<\/p>\n<p>Durante o golpe de 2016, mais uma vez o corpo da mulher foi desqualificado simbolicamente e, desde ent\u00e3o, as tentativas de desumaniz\u00e1-lo continuam em curso. \u00c9 por isso que <em>Mulheres radicais<\/em> \u00e9 t\u00e3o atual e imprescind\u00edvel para o nosso momento hist\u00f3rico, em especial no Brasil. Vale lembrar que em outubro completaram-se sete meses do assassinato de Marielle Franco, em uma tentativa de silenciar a veem\u00eancia que o seu corpo pol\u00edtico representava para as mulheres, sobretudo as negras e perif\u00e9ricas. As mil\u00edcias fascistas continuam refor\u00e7ando o exterm\u00ednio de suas ideias e de sua pol\u00edtica, algo evidente no grotesco epis\u00f3dio da quebra da placa de rua em homenagem \u00e0 ativista. \u00a0O grande levante popular #elen\u00e3o levou a diversas cidades do Brasil e do mundo milhares de mulheres que se uniram para barrar o avan\u00e7o do candidato declaradamente machista e a favor da tortura. S\u00e3o os mesmos \u201cprofissionais da viol\u00eancia\u201d que pretendem fazer do corpo da mulher uma moeda de troca no parlamento, aniquilando todos os direitos conquistados ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo. Muitos desses direitos est\u00e3o registrados na linha do tempo da exposi\u00e7\u00e3o, a mesma que mostrava a imagem da ex-presidenta encarando seus algozes. J\u00e1 nos dizia Pedrosa, \u201cNesse momento de crise e de op\u00e7\u00e3o, devemos optar pelos artistas\u201d.<\/p>\n<p>\t\t\tNotas<br \/>\n\t\t\tNotas\t\t<\/p>\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"\/revista\/#_ftnref1\">[1]<\/a> Ver o ensaio \u201cA virada iconogr\u00e1fica: a desnormaliza\u00e7\u00e3o dos corpos e sensibilidades na obra de artistas latino-americanas\u201d, de Andrea Giunta, no cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o <em>Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985<\/em>. S\u00e3o Paulo: Pinacoteca de S\u00e3o Paulo, 2018, p.29.<\/p>\n<p><a id=\"_ftn2\" href=\"\/revista\/#_ftnref2\">[2]<\/a> Entre os ensaios que apresentaram uma leitura mais aprofundada da mostra, podemos citar:<\/p>\n<p><em>Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985.<\/em> S\u00e3o Paulo: Pinacoteca de S\u00e3o Paulo, 2018.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/artebrasileiros.com.br\/arte\/exposicoes\/mulheres-radicais-arte-latino-americana-1960-1985\/\">\u201cTens\u00e3o, subjetividade e feminino na obra de artistas e ativistas\u201d<\/a>, de Leonor Amarante e Patr\u00edcia Rousseaux, para a revista <em>Arte!Brasileiros<\/em>. [Acesso em 25 set. 2018.];<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2018\/09\/exposicao-mulheres-radicais-transforma-corpo-feminino-em-sujeito.shtml\">\u201cExposi\u00e7\u00e3o <em>Mulheres Radicais<\/em> transforma corpo feminino em sujeito\u201d<\/a>, de Gabriela Longman, para a <em>Folha de S.Paulo<\/em>. [Acesso em 25 set. de 2018.];<\/p>\n<p>e o artigo da pr\u00f3pria curadora, Cecilia Fajardo-Hill, com o t\u00edtulo <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/08\/mundo-das-artes-e-sexista-diz-curadora-de-exposicao-sobre-mulheres.shtml\">\u201c&#8217;Mundo das artes \u00e9 sexista&#8217;, diz curadora de exposi\u00e7\u00e3o sobre mulheres\u201d<\/a>, tamb\u00e9m publicado na <em>Folha de S.Paulo<\/em>. [Acesso em 25 set. 2018.]\n<p><a id=\"_ftn3\" href=\"\/revista\/#_ftnref3\">[3]<\/a> Ver o ensaio \u201cCecilia Vicu\u00f1a: la persistencia del gozo\u201d, de Lucy Lippard, no cat\u00e1logo <em>Artists for Democracy: El archivo Cecilia Vicu\u00f1a<\/em>, organizado por Paulina Varas. Santiago: Museo Nacional de Bellas Artes e Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, 2014.<\/p>\n<p><a id=\"_ftn4\" href=\"\/revista\/#_ftnref4\">[4]<\/a> Ver o ensaio \u201cA invisibilidade das artistas latino-americanas\u201d, de Cecilia Fajardo-Hill, no cat\u00e1logo <em>Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985.<\/em>\u00a0Curadoria e textos de Cecilia Fajardo-Hill e Andrea Giunta. S\u00e3o Paulo: Pinacoteca de S\u00e3o Paulo, 2018, p.25.<\/p>\n<p><a id=\"_ftn5\" href=\"\/revista\/#_ftnref5\">[5]<\/a> Ver a introdu\u00e7\u00e3o do livro <em>Escribir las im\u00e1genes: ensayos sobre arte argentino y latinoamericano<\/em>, de Andrea Giunta. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2011, pp. 9-20.<\/p>\n<p><a id=\"_ftn6\" href=\"\/revista\/#_ftnref6\">[6]<\/a> Ver o ensaio \u201cNo son todas las que est\u00e1n ni est\u00e1n todas las que son\u201d, de Carla Stellweg, no cat\u00e1logo <em>Mulheres radicais: arte latino-americana, 1960-1985<\/em>, op. cit., p.295.<\/p>\n<p><a id=\"_ftn7\" href=\"\/revista\/#_ftnref7\">[7]<\/a> Caracterizados pelo uso de trajes extravagantes, os <em>pachucos<\/em> foram descritos pelo escritor mexicano Octavio Paz como \u201crebeldes instintivos\u201d abatidos pelo racismo norte-americano, muito embora n\u00e3o reivindicassem a nacionalidade de seus antepassados. Ver \u201cO pachuco e outros extremos\u201d, no livro <em>O labirinto da solid\u00e3o<\/em>, de Octavio Paz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.<\/p>\n<p><a id=\"_ftn8\" href=\"\/revista\/#_ftnref8\">[8]<\/a> Na \u00e9poca da ditadura, a artista passava uma temporada em Londres, depois de ter ganhado uma bolsa de estudos. Logo ap\u00f3s o golpe de Estado, Vicu\u00f1a organizou campanhas de solidariedade ao Chile, criando com outros artistas o movimento Artists for Democracy, na capital inglesa.<\/p>\n<p><a id=\"_ftn9\" href=\"\/revista\/#_ftnref8\">[9]<\/a> Ver o ensaio \u201cDesentranhando futuros\u201d, de Suely Rolnik, no livro <em>Conceitualismos do Sul<\/em>, organizado por Cristina Freire e Ana Longoni. S\u00e3o Paulo: Annablume, 2009, pp.155-63.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/elementor\/thumbs\/figuinhas-nyaymq1gzyplivqxh3yccchkuzwq2feki4dl473z4g.png\" title=\"figuinhas\" alt=\"figuinhas\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paz Err\u00e1zuriz (chilena), La Palmera, Santiago, da s\u00e9rie La Manzana de Ad\u00e1n [O pomo de Ad\u00e3o], 1982 um especial Quem visita a exposi\u00e7\u00e3o Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985, na Pinacoteca de S\u00e3o Paulo, encontra logo \u00e0 entrada da sala da exibi\u00e7\u00e3o uma linha do tempo com os principais acontecimentos pol\u00edticos e culturais da Am\u00e9rica Latina [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":618,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"elementor_header_footer","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[31],"tags":[30,32,33,34,35,36,37],"class_list":["post-605","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cores-quentes","tag-arte","tag-especial","tag-exposicao","tag-feminismo","tag-mulher","tag-pinacoteca-de-sao-paulo","tag-politica"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/605","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=605"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/605\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.editorafigas.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}