Existem pessoas que observam o mundo.
Existem pessoas que tentam explicá-lo.
E existem aquelas que, antes de qualquer coisa, apontam.
Não é parte de sua profissão. Não recebem treinamento para isso. Tampouco parecem cientes de que integram esse grupo tão peculiar.
Ainda assim, não pensam duas vezes antes de interromper caminhadas, conversas em mesas de bar ou viagens de carro para anunciar, com entusiasmo incontido, a presença de algo que quase todos considerariam trivial.
No fim das contas, essas pessoas merecem algum reconhecimento. Não porque descubram coisas extraordinárias, mas porque nos lembram de que o mundo ainda não foi completamente catalogado — e de que ainda há espaço para pequenas descobertas.

O Apontador de Gatos
O Apontador de Gatos não quer apenas que você veja o animal; quer que você partilhe da ponta de inveja que ele sente.
Enquanto o próprio apontador caminha com os pés presos aos grilhões das convenções sociais, cumprindo o burocrático itinerário de buscar a receita na farmácia, pagar um boleto ou comparecer à reunião de condomínio, o gato se lança pelos telhados com o desdém de quem é dono do ar, do sol e das telhas.
Apontar o felino torna-se, assim, um ato de denúncia poética e uma forma discreta de protesto: um lembrete de que, a poucos metros acima de nossas cabeças, uma criatura goza da liberdade absoluta para explorar sem respeitar fronteiras ou propriedade privada, ir dormir quando o resto do mundo desperta e lamber-se em público sem dever a menor satisfação à civilização.

O Apontador Reciclável
Diante de uma caçamba, o Apontador Reciclável se comporta como alguém que chegou tarde demais à cena de um crime.
— Olha o que jogaram fora!
Pode se tratar de uma cadeira sem uma perna, uma mesa de cabeceira faltando a gaveta, uma bicicleta sem rodas nem guidão ou uma luminária sem cúpula. Ainda assim, sua convicção segue inabalável.
Isso porque, onde qualquer transeunte enxerga o fim da história, ele vê uma interrupção prematura. Não que ele pretenda resgatar de fato o objeto em questão. Ele apenas se sente na obrigação de apontar o desmazelo e o desperdício alheios, na esperança de que o interlocutor compartilhe de sua indignação.

O Apontador Imobiliário
O principal habitat do Apontador Imobiliário são bairros onde ele não mora.
Ele não pretende mudar de endereço, abrir um negócio ou ajudar um amigo em risco de despejo.
Ainda assim, acompanha o mercado com atenção.
Isso porque, onde qualquer transeunte enxerga apenas uma placa de “aluga-se”, ele vê possibilidades. Em poucos segundos, consegue visualizar com nitidez sua vida no quarto do andar superior daquele sobrado silencioso, no meio de um quarteirão arborizado. Imagina como seria lucrativa uma padaria naquele ponto de esquina, em um bairro onde quase não há comércio. Calcula, sem que ninguém tenha pedido, como sua rotina seria mais prática se os pais se mudassem para a casa de vila atrás do supermercado perto de seu apartamento. Depois segue andando, colecionando endereços onde sua vida quase aconteceu.

O Apontador Botânico
O Apontador Botânico raramente se impressiona com jardins.
Uma roseira em um canteiro bem cuidado é apenas uma roseira.
Mas um broto de figueira numa calha, um ramo magro de samambaia na rachadura de um muro ou mesmo um tufo de capim entre as pedras da calçada despertam imediatamente seu interesse.
Quando exclama “Olha onde nasceu uma planta!”, o Apontador Botânico não está apenas chamando atenção para um detalhe da paisagem. Está celebrando uma pequena vitória da natureza sobre o concreto.
Ele sonha com o dia em que, enfim, tudo isso aqui voltará a ser mato.

O Apontador de Ninhos
O Apontador de Ninhos não se interessa especialmente por arquitetura, mas aprecia soluções criativas.
Sua animação aumenta proporcionalmente à singularidade do endereço.
Um ninho em um galho de árvore é qualquer coisa. Em uma caixa de correio, é notável. No alto de um semáforo, sobre uma câmera de segurança ou dentro do “O” de um letreiro comercial é motivo de comemoração.
O Apontador de Ninhos não está apenas chamando atenção para um amontoado de gravetos ou para as aves que o habitam. No fundo, para ele, um ninho improvável é um lembrete de que todos encontram seu lugar no mundo, não importa o tamanho, a localização ou para onde apontam.
Este catálogo foi registrado ao som de…



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