Leonardo Bernardes Mudar de pele

Diferente de mim

por Leonardo Bernardes

Como o comportamento humano poderia ser descrito? Certamente apenas à medida que se mostrassem as ações de uma variedade de humanos, enquanto elas se mesclam. O que determina nosso juízo, nossos conceitos e reações, não é o que alguém faz agora, uma ação individual, mas todo o formigueiro das ações humanas, o pano de fundo contra o qual vemos cada ação.
Wittgenstein,
Zettel, § 567

Os acordos têm um lugar privilegiado num certo modo de entender a linguagem e a lógica. Em alguma medida a busca por acordos mais gerais corresponde à busca pela forma do pensamento, a forma de julgar e pensar. E por que importa encontrar uma forma de julgar e pensar? Porque a forma do pensamento é comum a todos os seres humanos, o que significaria que todo pensamento opera segundo as mesmas regras e leis fundamentais. Quando estivéssemos enredados em discussões, seria confortável imaginar que poderíamos retornar a um solo comum onde os desacordos pudessem ser finalmente dissipados.

Se não pudéssemos entender senão o que está dentro de nós mesmos, então um conflito de opiniões [baseado em] mútuo entendimento seria impossível, porque faltaria um solo comum, e nenhuma ideia em sentido psicológico pode nos oferecer um tal solo. Não haveria uma lógica que pudesse ser apontada como árbitro no conflito de opiniões. (Gottlob Frege. As leis básicas da aritmética)

Mas e se as coisas não fossem exatamente assim e não contássemos com esse árbitro no conflito de opiniões num nível bem fundamental (imaginemos que isso é possível, não importa como)? Para o nosso entendimento na linguagem contribui decisivamente que certas condições necessárias sejam satisfeitas e a partir dessa estrutura quase a priori que então se arma tudo parece que está determinado, lógica e também ontologicamente (por correspondência, claro). São necessários muitos acordos para que a linguagem funcione e chegue a dar lugar a ferramentas científicas; esses acordos são a expressão de identidades, de comunidades de seres humanos acostumados a certas regularidades naturais e simbólicas. Subprodutos tardios mas valiosos do nosso ancestral uso da linguagem, as regras e códigos derivados desses acordos preenchem o mundo, eles parecem criar o próprio mundo e não deixar nada do lado de fora. Pode haver algo do lado de fora? O que então é obscurecido pela luminosidade lógica dos acordos e das normas? Os desacordos, aquilo que de maneira geral só surge nos conflitos e nas situações em que os acordos já não parecem servir. A pluralidade dos tipos humanos é mascarada pela força com que acreditamos na generalidade das regras, especialmente das regras que supomos universais.

Se nos distanciamos dessa atmosfera rarefeita e voltamos ao chão áspero podemos notar que a pluralidade dos tipos humanos não é redutível a nenhuma unidade ou forma, e isso deveria nos levar a pensar naquilo que está mascarado pelos acordos necessários ao uso da linguagem. Os casos desafiadores são em geral apresentados sob o pano de fundo da incomensurabilidade, como nas discussões e investigações etnológicas. Como é o caso da tribo Pirahã, estudada por Daniel Everett, sem conceitos aritméticos e sem palavras pra noções de tempo que nos parecem indispensáveis. Por que precisamos ir tão longe? Por que os casos etnológicos são mais evidentes pra nós? Porque supomos ter acordos fundamentais com as pessoas que pertencem ao domínio de fronteiras imprecisas que designamos como nossa forma de vida, e é por isso que, nesse contraste, é fácil notar os desacordos. O que eu digo é: claro que as diferenças enfatizam os desacordos, assim como a prevalência dos acordos sombreiam os desacordos. Bem, de qualquer forma não é como se estivéssemos em falta de desacordos e tivéssemos que buscar algo fora. Uma sociedade cuja política post-truth é capitaneada pelo presidente dos EUA é uma sociedade orwelleana, mortalmente fraturada. E é também por isso que o tema nos interessa.

Consideremos brevemente dois casos particulares, casos ilustrativos nos quais um mar de acordos pressupostos oculta um sem fim de desacordos fundamentais. Casos de pessoas deliciosamente diferentes de mim. O documentário Maidentrip conta a história de Laura Dekker, uma holandesa que, aos 14 anos, entrou na justiça para poder dar a voltar no mundo sozinha num pequeno veleiro. Cruzou o Atlântico e outras proezas.

Outra história interessante, embora em alguma medida trágica, é a de Dan Osman, alpinista apaixonado por escalar al natural, sem equipamentos de segurança. Dan inspirou dezenas de outros alpinistas a desafios semelhantes aos que lhe custaram a vida (entre eles, Alex Honnold, alpinista que ganhou o Oscar pelo documentário Free Solo, sobre sua escalada ao El Capitán sem equipamentos).

Não é fortuito que estes dois seres humanos sejam diferentes de mim, em particular. Não se pode negar que temos muitos acordos, mas não é como se sobre estes acordos fundamentais estivessem assentadas todas as nossas diferenças. Quando se translada a psicologia a um terreno periférico e se supõe que a arbitrariedade pode ser isolada dos quadros normativos que nos orientam torna-se impossível compreender a variedade de eixos que organizam as visões de mundo. E o efeito que essa variedade provoca nos intercâmbios linguísticos (principalmente na ética e na política). Difícil compreender o tsunami que os desacordos podem provocar. Por consequência, não atinamos para os conflitos que podem ter origem em desacordos camuflados. Nada disso implica negar o lugar dos acordos (ou do principle of charity, por exemplo), mas mudar o modo de ver a estrutura, o sistema, assimilando desacordos e arbitrariedade a sistemas singulares (a despeito dos acordos).

De um ponto de vista ético parece inegável que eixos diferentes dirigem as ações desses meus Outros (a vontade é repetir insistentemente: apesar dos acordos, apesar dos acordos, apesar …), mas isso só se faz notar quando saímos dos ambientes generalizados onde dois (ou três) indivíduos quase não se distinguem por suas semelhanças gerais. Quando os olhamos, um a um, o que vemos — ou melhor, o que podemos ver — é a singularidade do indivíduo, do organismo, desse elo articulado à grande rede ecológica. Só quando os olhamos assim os eixos se mostram, pois os eixos não podem ser formalizados (ou como diria Borges: “qualquer coisa pode ser a semente de um inferno possível”).

A simplicidade de uma mônada, por outro lado, não é fácil de compreender. Mesmo uma substância simples percebe o mundo inteiro do seu ponto de vista, e expressa o mundo. E também subsiste no tempo. Isso significa que um número enorme senão infinito de predicados verdadeiros lhe correspondem. A noção de qualquer substância individual está longe de ser simples. (Hide Ishiguro, Unity without simplicity)

Se não é esse o rumo do pensamento de Wittgenstein no final da sua vida, pelo menos essas são algumas das (férteis) pontas soltas de sua reflexão. Em Zettel e Sobre a Certeza aparecem reiteradamente colapsos das condições do sentido, desacordos engenhosamente fabricados, especialmente em ficções construídas para fazer ver o que em condições normais não poderíamos notar.

As ficções aparecem no pensamento de Wittgenstein para nos fazer ver o que de outro modo não veríamos, para mostrar aquilo que está constantemente diante dos nossos olhos, ainda que invisível para nós. Entretanto, às vezes elas fazem ver mais, como se fossem um objeto de observação inteiramente autônomo. Wittgenstein encena uma dessas situações ficcionais e observa que realistas e idealistas ensinariam igualmente a seus filhos sobre livros, cadeiras, e outros objetos físicos porque eles desejam que seus filhos usem cadeiras e livros. Mas eles lhes ensinariam sobre fadas? Quem não acredita em fadas pode simplesmente não ensinar a seus filhos essa palavra, não precisa dizer “fadas não existem!”. E Wittgenstein conclui: é só nas situações de conflitos e desacordos que muitas vezes nos importa, ou simplesmente nos ocorre, determinar o que existe e não existe, quando encontramos pessoas que pensam diferente de nós.

Ainda que os desacordos não sejam fundamentalmente significativos, eles são suficientes para instaurar uma dinâmica conflitiva. Diante disso, o que se apresenta como necessário não pode ser mais a busca por uma dimensão universal que funcione como árbitro no conflito de opiniões, mas uma atitude diante da variabilidade dos tipos humanos. As diferenças facilmente instanciadas não apenas nos casos etnológicos, mas também no contexto não formal de pessoas reais e suas idiossincrasias, sugerem a necessidade de substituir o apelo a superiores instâncias mediadoras — que em última instância são um apelo ao geral e comum — por uma atitude frente ao particular.

A filosofia documenta a fascinação humana pela generalidade e evidencia a aposta ética e epistêmica de contornar dificuldades de ordens distintas recorrendo a instâncias comuns. No entanto, se os marcos e projetos teóricos onde as mais bem-acabadas aspirações gerais parecem ter encontrado a oposição incontornável de perspectivas nas quais a irredutibilidade (e mesmo a arbitrariedade) prevalece, convém prestar atenção a este caminho errático que talvez possa ser atribuído ao pensamento de Wittgenstein. Um caminho que, enfatizando a particularidade dos juízos na constituição dos nossos quadros normativos, põe em evidência a singularidade dos tipos humanos e nos força a encontrar um olhar que esteja inclinado a considerar caso a caso (a despeito, naturalmente, da inescapável tendência a generalizar). A fim de acolher um diferente cuja radicalidade potencial já não se reduz a nenhuma generalidade, se a estabilidade dos nossos quadros normativos não puder incorporar uma quota de instabilidade sem desintegrar-se, talvez só nos reste mesmo apostar em projetos de universalização e nos sonhos (ou delírios) com a formalidade que ainda embalam as disciplinas científicas (nos nossos dias, especialmente a computação). Mas isso significa que, em nosso paraíso tecnológico, enfrentaremos ainda os mesmos problemas que nos assolam há séculos. Um olhar à singularidade talvez seja a mais valiosa ferramenta. (Essa frase pode soar mecânica e utilitarista, mas é apenas política.)

Foto por Tiago Tranjan