Danilo Ferreira Notas sobre rascunhos

Escrita das memórias familiares: guerra e política

por Danilo Ferreira

A história da família é marcada por um exílio. Aos seis anos de idade minha mãe deixava para trás o mais longevo regime fascista da Europa. Essa fratura foi o ponto de partida para todos os outros desterros que vieram depois. Mas não é de desterro que quero falar aqui. É um pouco sobre a tarefa de escrever memórias familiares, esses fragmentos dispersos, pequenas anedotas que eram contadas por aqueles que agora já estão mortos. Quero falar sobre meu avô sonâmbulo e nosso primo soldado. São algumas notas rascunhadas durante os meses de pandemia. Uma forma de passar o tempo escrevendo sobre o tempo passado.

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Meu avô não foi um bom soldado. Meu avô nem foi para a guerra. Não tinha espírito para isso. Seu mundo era feito de agulhas e tecidos. Costurava ternos, falava sozinho, reclamava de Salazar, trocava o nome das pessoas. Era sonâmbulo. Passava a maior parte do tempo sentado. “Eu antes prefiro não me levantar”, ele dizia quando alguém lhe convidava para qualquer coisa que exigisse o mínimo esforço. Jamais seria aceito pelo exército.

Apesar disso, ele não fugia à briga. Uma vez em Cascais nunca mais. Em nossa família essa frase sempre fez referência ao dia em que meu avô Manoel foi preso. Segundo minha mãe, ele estava na praia com um amigo e desandou falar mal do governo. Quando viu um padre caminhando na orla, acrescentou suas críticas à cumplicidade da Igreja com o regime fascista. Um transeunte ouviu e foi contar ao padre. Alguns minutos depois, o vigário foi até meu avô. A situação ficou tensa e a polícia apareceu. Manoel foi levado à delegacia, mas não ficou detido por muito tempo. Logo perceberam que ele não era uma ameaça ao regime. Era apenas um louco a falar disparates.

Manoel conviveu a vida toda com uma loucura que o desconectava do mundo. O curioso é que ele, apesar de ter muitos descompassos com a realidade, tinha uma lucidez política bastante coerente. Era um anarquista espontâneo que odiava ditaduras. Seu pensamento político era rudimentar, alimentado por muitas imagens que poderiam soar como alucinações. Entre elas, dizia que era perseguido por agentes do PIDE ou do DOPS. “Estás a me perseguir?”, ele dizia, e agarrava meu braço, ao contar pela milionésima vez o dia em que resolveu enfrentar quem o perseguia nas ruas. Nunca entendi direito se essa cena aconteceu numa ladeira de Lisboa ou numa esquina do Largo do Arouche. Nem ele deveria saber. Meu avô não era um bom contador de histórias e na época eu era só um adolescente sem muitas curiosidades para esses delírios. Por que eu daria atenção a um homem que todos consideravam louco?

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Os sobrinhos do meu avô viraram soldados e foram para a guerra. “A guerra em África”, como se dizia na família. Os nossos primos voltaram vivos da guerra. Não viraram heróis. A guerra que travaram era vergonhosa. Um deles sumiu no mundo. O outro, quando veio de Portugal para nos visitar, ainda parecia ver a guerra em todo lugar. “Estou me sentindo em Angola”, ele disse depois de alguns dias em nossa pequena cidade no interior de São Paulo. A vegetação, o calor e a umidade do ar fundamentavam a comparação, ele justificou. A urbanização precária e as ruas sem asfalto também devem ter ajudado nessa sua imagem. Não nos pareceu um grande elogio.

Nosso primo veterano da guerra colonial fumava muito e bebia café até para ir dormir. Gostava de admirar as árvores e falava sempre com lágrimas nos olhos. Mesmo quando sorria, chorava. A melancolia da guerra nunca lhe deu sossego, dizia minha mãe. A melancolia nunca deixou de sentar à nossa mesa, pelo menos aquela da velha casa da Rua das Catiléias, eu penso agora ao atravessar essas imagens rarefeitas que vão brotando no solo rochoso da memória, e imagino a mesma cena: ao lado do meu avô sentavam seu irmão Joaquim, alguns amigos, abria-se o vinho, partia-se o chouriço, então eu ficava por perto, a perceber o sotaque daquelas vozes que em geral falavam de saudades e reclamavam do preço dos tremoços e do bacalhau vendidos no Mercadão; por vezes, também se ria, um riso embriagado, que em muitos casos é só a outra face da mesma melancolia. Depois das piadas vinham os desentendimentos. Política. Ditadura. Guerra. Salazar. Não se entendiam por nada. És parvo? És burro? Era certo que no meio disso o meu avô diria: “Foi a ditadura que matou nosso irmão.”

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Quatro décadas depois do episódio em Cascais, outro acontecimento envolvendo um padre e a figura de Salazar entraria para as histórias familiares. Assim como meu avô, o nosso primo soldado também se chamava Manoel. Entre um cigarro e outro, pigarreava. Tinha grandes olhos azuis e bochechava com força o vinho para dar o veredito sobre a bebida. Eu, com a pouca idade que tinha, mais observava do que interagia com aquele homem curioso. Tinha um pouco de medo. Quantas pessoas o nosso primo soldado matou na guerra? Isso ninguém perguntava.

Numa manhã em que caminhávamos pelo centro da cidade, meu pai avistou o vigário da paróquia, que também era português, e achou que era uma boa ideia apresentá-lo ao conterrâneo. Ao saber que Manoel havia combatido na África, o padre perguntou: “Me diz lá o que achas do Salazar?” Surpreso com a pergunta, nosso primo pronunciou um tímido “Grande…”, e soltou uma pigarra grossa, quase um engasgo.

O padre, afoito, virou para meu pai: “Não te digo que todo português tem orgulho de Salazar!” Só então Manoel terminou a frase que havia deixado tão estrategicamente em suspenso: “Grande filho da puta.” O padre ficou branco, gaguejou, tentou justificar, mas nosso primo não disse mais nada, começou a caminhar para o outro lado da rua, onde sentou num banco da praça e ficou fumando na maior tranquilidade.

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 “Estão a roubar o país e a matar inocentes”, repetia meu avô pelas ruas do pequeno vilarejo. Minha avó Aurora temia que Manoel acabasse preso por falar abertamente contra a ditadura. Mais do que uma pessoa com convicções políticas irreprimíveis, o meu avô era uma pessoa que falava pelos cotovelos e sequer entendia que ele não podia falar mal do governo, muito menos da figura de Salazar.

Cansada de ouvir de amigos e familiares dos perigos que meu avô corria, minha avó resolveu organizar a partida. Juntou-se as roupas num baú de madeira, as poucas fotografias, o endereço dos patrícios que viviam na Zona Norte de São Paulo e seguiram pelo Atlântico rumo ao Porto de Santos.

“Nossa viagem demorou mais do que a de Cabral”, dizia minha mãe ao se lembrar da longa travessia. Não guardava muitas memórias. Um homem mareado foi deixado na Costa africana. Um homem morreu e foi lançado ao mar.

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Quase quinze anos após a visita do nosso primo soldado, minha mãe esteve de novo em Portugal. Ao encontrar com Manoel não conseguiu interagir muito com o ex-combatente. “Acho que nem me reconheceu”, ela disse. Os olhos azuis arregalados eram os mesmos. As lágrimas, também. Seguia carregando a mesma melancolia ainda que num estado catatônico.

Nove anos depois desse encontro, minha mãe morreu e eu nunca mais tive notícias do nosso primo. O que nunca vou esquecer é que no último dia da sua estadia em nossa casa, ele me chamou para o quarto e fechou a porta. Fiquei paralisado. Ele chegou perto de mim e se agachou para uma conversa olho no olho: “Você agora é meu camarada e camaradas servem para guardar segredos.” Então abriu a carteira e pediu para que eu escondesse o dinheiro até o dia em que já estivesse de volta a Portugal. Ele sabia que meus pais não aceitariam qualquer retribuição pela hospedagem. Eu sabia que meus pais brigariam comigo se eu aceitasse. Mas não pude negar o pedido. “Confio em você”, ele falou.

A bronca que levei não foi nada diante da certeza de que eu sabia guardar o segredo de um camarada. Um camarada generoso, que com três palavras diante de um salazarista havia me ensinado muita coisa sobre o nosso lugar na história.