Inquietudes para o homem comum Vinícius de Castro Soares

O vulto e o monumento

Por Vinícius de Castro Soares

            Tem sido difícil sair à rua sem esbarrar em entregadores delivery. Hoje eles são o termostato do ir e vir, abarrotando as cidades nas várias opções de deslocamento: a pé, de patinetes, com a bicicleta alugada, os já consagrados motoboys, as minivans, os caminhões de todos os tamanhos e, para quem pode ostentar, os helicópteros de aluguel. Diante desse cenário, e nos permitindo o exercício da analogia, o vai-e-vem de demandas e entregas parece colocar os entregadores como monumentos dinâmicos da vida urbana. Curiosamente, são uma paisagem figurante, mas também assumem um protagonismo em nosso campo de visão, vultos que monumentalizam a cidade em um curto-circuito estético, nos colocando a contemplar aquilo que não pretende ser contemplado.

            Esse sentimento da experiência urbana enquanto monumento dinâmico nos leva a um modo de vida. Outrora morosa, hoje frenética, temos a impressão de que no mundo da cidade as coisas confluem ao espírito célere. Nela nos pomos a batalhar pela vida a todo instante, fazemos a nossa correria, ainda que perdure a sensação de que as coisas continuam na mesma. E a cidade e seus habitantes se comutam em um jogo de criador e criação, alternando autorias: ora os artífices estão prenhes da cidade; por vezes, é a cidade que parece nos imputar a batalha pela subsistência urgente. Derivamos disso, aos nossos olhos, os entregadores como homem-vulto, amostragem visual da lógica do sujeito em trânsito, do sujeito delivery, a ornamentar a ideia do urbano enquanto registro histórico da pressa. Percurso inevitável?

            Por amor às cidades, o apego à ideia de urbanidade moderna parece chegar a nós enquanto contraste entre os nossos objetivos particulares – plurais e por vezes meramente egoístas –, e a experiência de uma cidade sem fim. Em Por amor às cidades, Jacques Le Goff nos ensina a respeito das duas dimensões impulsivas da experiência urbana: sua teia subterrânea e seu instinto aos céus. Entre esses desejos celestes e o subsolo dos sonhos reais, organiza-se a rotina, entre demandas e serviços, entre as entregas e o recebimento, permitindo-nos, assim, multiplicar as dimensões, ainda que em grande parte nos limitemos ao zig-zag horizontal de ruas e avenidas. Mergulhamos, assim, na estreiteza dos pontos cardeais, afirmando uma condição demasiado mundana diante do que a cidade pode nos oferecer. Dito de outro modo: nos aferramos à condição desse monumento-passagem que é o homem-vulto, a ziguezaguear e fazer disso a sua obra, sua memória. Nesse modo de vida, seríamos essa coisa média que nunca visita o inferno por debaixo da terra, tampouco adensa o que está para além das demandas práticas do dia a dia.

            Mas se falamos de um monumento-passagem, talvez falemos aqui de um antimonumento. Em seus momentos de formação, as cidades preconizaram a estabilidade como trunfo diante da insegurança da vida nômade, e nisso residiu a ideia de monumentalizar os grandes marcos da vida urbana. No entanto, ao fomentar e expandir seus domínios, e ao lado de seus monumentos, não houve outra alternativa senão urbanizar a incerteza, alocando o colapso do mundo do trabalho e da crise ambiental em todos os poros da atmosfera urbana. E assim a correria, ao pulverizar a cidade em facetas da pressa, parece nos impedir a fruição dos acontecimentos pelo sabor do encanto sereno. Como se tivéssemos sido deslocados do princípio de celebração, porque, ora centrípeta, ora centrífuga, simplesmente caótica ou repetitiva, na coreografia variada do delivery nada se concentra em um, ainda que todos estejam a fazer o mesmo. O tempo é curto. A cidade se faz  hostil. Vivemos à parte, ainda que estejamos por todos os lados.

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            Essa sensação constante de estranhamento pode ser uma crise de reconhecimento. Apressados e sonâmbulos, nossa vivência passa a ser uma perplexidade rotineira, sendo os entregadores delivery o símbolo desse fenômeno. Uniformizados a caráter, enquanto suposta categoria, no crachá identificamos o seu nome e o anonimato de sua obra. É o sujeito hipersolicitado, que, na obrigação de ser solícito, tem ensaiada a relação de afeto ao cliente, com o cumprimento protocolador na ida e o pedido de lembrança na volta: “- Se der, não esquece de avaliar lá pra gente!”. Quase que composto majoritariamente de homens, as tão debatidas questões de gênero não chegaram a esse estrato artístico da cidade. E os pequenos grupos de paradas, aglomerando motoqueiros e ciclistas entregadores, quase sempre é composto de homens sentados nas arestas da cidade, a olharem com rudeza a tela do smartphone, evidenciando a rotina precária desses pássaros do asfalto. Embrutecidos, gozam da flexibilidade sem folga, um jeito de colocar a vida em ordem a cada ordem de entrega.

            Não nos enganemos. No espaço das mercadorias, tempo é dinheiro, e a própria ideia de categoria quiçá fique em suspenso. No Brasil, em 2003 a categoria dos motoboys foi a primeira entre entregadores a ser reconhecida como profissão pelo Ministério do Trabalho e Emprego, ainda que a atividade já existisse anteriormente. Desde então, apesar das atualizações jurídicas, a descrição das atividades dos motoboys ainda não menciona a velocidade com que elas devam ser executadas. E não só a agilidade da entrega deve indexar o sentido do trabalho do entregador, porque nela jaz ainda uma hierarquia. A ideia de gestão, imperativo nosso e contínuo, sem trégua impõe ao entregadores a figura do gestor do grupo, responsável pelas próprias entregas e pelo controle das entregas dos colegas. O mundo cool dos escritórios está a percorrer as ruas, tendo no fiscal de assiduidade e dos cuidados da ética laboral o pequeno capataz, sem os quais as cidades parecem não existir. Por assim dizer, nas veredas das desigualdades, entre ruas e avenidas, escritórios e espaço digital, germina-se o pequeno chefe e fiscal dos demais, avesso à liberdade de si, dos seus, e dos outros.

            O genuíno sentido de solidariedade da categoria talvez ocorra mesmo só diante do ressentimento com os outros agentes da cidade. É o momento em que os homens-vulto e o sujeito delivery das classes médias se estranham, como se houvesse uma diferença substancial em seus modos de vida. Neste momento de viver as cidades contemporâneas, repleta de artesãos hábeis e eficazes, poucos são aqueles que parecem levitar entre as faixas dos carros, ao serem capazes de transcender o trato bruto, tão comum ao trânsito. E assim, por amor à cidade, vivemos como se não pudéssemos ficar parados, porque temos contas a pagar. A cidade, a nós, não para, ao ser luta constante por sobrevivência. Ela está entre o céu e a terra, em que, por cima de ti, é cada um por si.

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            Todos os caminhos levam à Avenida Niévski. Ao menos para Petersburgo, ela é a beldade da então capital russa, assim nos disse Gógol, no seu romance em homenagem à rua que representa tudo. Não haveria, segundo o autor, outro lugar com o aroma do passeio, pois naquela cidade a Avenida Niévski parece ser um ímã para a ideia de desobrigação. Limpas e varridas as suas calçadas, quantos pés não deixaram nelas os seus rastros! As muitas ofertas, as lojas, os serviços, as moçoilas e seus gracejos, os oficiais e os funcionários públicos, o bom gosto das roupas bem escolhidas, a ostentação em seu lugar, a seriedade charmosa e o bom humor decoroso. Niésvki é a avenida pedagógica Niévski, conformando os afetos e os objetivos. Uma espécie de decência única, unívoco encontro entre os céus e a natureza subterrânea.

            Por amor à cidade, a Avenida Niévski atesta a capacidade humana de se desembaraçar da vida dura e precária do mundo rural. Abarrotados que estamos em nossas metrópoles e cidades mal inventadas, pode parecer um contrassenso, hoje, o elogio ao processo de urbanização. Nessa desavença entre o sonho e a existência real, não nos esqueçamos de que a vida urbana é uma potência, uma espécie de sorriso sob a forma dos fluxos, nesse ir e vir de olhares desejosos de si e dos outros. Por isso, falamos da Niévski de Gógol enquanto Niésvki do mundo.

            Enquanto lugar para se estar, singularizando pessoas e concentrando solidões, Niévski não é mero lugar de passagem. Perpassá-la não é permitido, e pode ser considerado uma infração diante da beleza espiritual da cidade. Aqui, é preciso estar para que as coisas aconteçam, é preciso que as coisas permaneçam como estão para que tudo possa ser diferente. Niévski é um monumento, uma celebração dos construtos da metrópole, e nela se faz todo o sentido de pertencimento elegante, sem o sentido de urgência. Dentre essas duas potências inconciliáveis, ela fez sua escolha, quis o vagar contínuo, confluindo as potências elevadas da rotina ao substrato dos sonhos.

            A cidade seria como um sonho e um projeto, talvez um ideograma para a amplitude dos nossos movimentos, respondendo a necessidades concretas: sem que precisemos caminhar como nômades à procura de água e comida, em geral fincamos a nossa estadia nos perímetros de um rio, permitindo-nos ser um erradio do espírito, por vezes caprichoso. Do movimento pelo sustento ao substrato de nós, chegamos ao espírito citadino no que ele tem de mais elevado – pois não falo aqui de exercício de cidadania como nomenclatura ética: mais que o estatuto jurídico, sobretudo se trata da disputa pelo melhor ócio nesta vida. Ruas. Luz. Transporte. Água encanada. Parque. Biblioteca. Centro de compras. Supermercado. Empregos. Pessoas. Todos os confortos promovidos desde a chamada revolução industrial confluem ao leque da condição feliz, ainda que uma eudaimonia pareça a muitos uma misteriosa adequação de prazeres e afazeres.

            Aos iniciados, Niévski é um monumento ao Bem, dedicatória ao fim último de tudo. E empurrar esses bálsamos para fora da cidade levaria ao ostracismo da fruição, gesto elegante à ideia de cultura, palavra tão estimada pelo sentido de urbanidade. A ideia de cidade parece exigir, antes de tudo, a atitude de pertencimento, não como correria desgovernada, mas como serenidade perene. E entre o ponto mais elevado e o subterrâneo, desfrutamos de todas as potencialidades do espírito, ao apagarmos os fatos do futuro e sonharmos o passado, ainda que nosso presente esteja em desvario.

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            O tempo lento dos abonados vive à custa do tempo contado dos entregadores. Estranho fenômeno o da cidade, velando os bem-aventurados ao deixar descobertos os batalhadores do cotidiano. Aos nossos olhos, a cidade hoje é luta, e se é luta, se faz com pressa. É a vitória da desigualdade, colocando todas as classes sociais em sentido de urgência e luta, muita luta a cada dia. É o ritmo de todos aqueles que só perpassam Niévski ao nomeá-la como “mais um dia de labuta”. Os entregadores são só a amostragem mais imediata e bronca de todos nós mesmos a correr, para onde não sabemos – ao menos até o final do mês, quando as contas deverão estar pagas, se o conseguirmos. Sendo a cidade também os possíveis múltiplos, em nosso desatino chegamos a vislumbrar o estatuto do estático, questionando-nos acerca de um possível repouso elevado ao movimento dos vultos. A Niévski dos sonhos. A propósito: que velocidade teria a cidade das bonanças?

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