Sempre preferi quem fala groselha.
Quem fala abobrinha costuma dizer coisas sem fundamento, quase sempre com uma seriedade descabida, como quem escutou apenas as duas últimas palavras da conversa, mas já tem uma opinião pronta para apresentar. Já quem fala groselha não tem pretensão nenhuma. Conta uma história mal apurada, aumenta um detalhe aqui e ali, e segue em frente sem exigir crédito.
Essa deve mesmo ser a sina da groselha.
Até porque, se o nome é o destino, como dizem, então ela foi batizada para expressar uma crise de identidade. A alcunha popular vem do neologismo latino Grossularia, pomposo demais para uma frutinha vermelha: uma “pequena uva”, mas “grossa e resistente”.
É verdade que na Europa ela circula com mais dignidade: cresce em bosques discretos e em plantações bem cuidadas. Vira geleia e licor. É a base de molhos que acompanham carnes de caça em jantares nos quais a taxa de juros entra naturalmente na conversa. Mas, no Brasil, não.
Aqui a groselha é uma ficção.
Nossa versão vem em garrafa pet, tem cor de rubi e gosto de infância. Nunca viu um arbusto na vida. É feita de açúcar, corante e uma dose generosa de imaginação. Trata-se de uma mentira bastante funcional, dessas que ninguém faz questão de contestar, sobretudo no calor de trinta e tantos graus, que faz evaporar nosso interesse pela história natural.
Ela cumpre bem seu papel.
E talvez venha daí a expressão “falar groselha”. Um discurso sem polpa, mas repleto de cor, que não pretende sustentar o peso de nada, apenas circular, trazer algum refresco, tornar a vida mais palatável.
De resto, é isso.
Tim-tim.
Este post inaugural foi escrito ao som de…



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