O sol se empinava num céu de azul intenso e poucas nuvens enquanto o Simca Chambord deslizava a oitenta quilômetros por hora pela recém-capeada rodovia Washington Luís. Desde que deixara a Anhanguera, a paisagem diante dos olhos do solitário motorista se repetia quase sem variações: plantações de café, cana-de-açúcar, laranja e milho espalhadas entre extensas campinas. Quebravam a monotonia algumas cabeças de gado que salpicavam de marrom, preto e branco a imensidão verde limitada apenas pela linha do horizonte, para onde também se espichava a estreita faixa de asfalto.
Jorge não enxergou nenhum outro automóvel nem diante nem atrás de si. Aproveitou então para alcançar o maço de cigarros na valise acomodada no banco do passageiro. Mantinha uma mão no volante enquanto a outra revolvia o conteúdo da bagagem: um saco de papel com uma maçã e um sanduíche, uma muda de roupa, uma pistola, uma caixa de munição, a carteira, um canivete, itens de higiene pessoal e fartos maços de notas de dez mil cruzeiros.
Encontrou a carteira de cigarros e acendeu um deles após um pequeno malabarismo com os fósforos.
No rádio, o jingle de um restaurante da região lhe tirou a paciência. Jorge desligou o aparelho. Depois de quase quatro horas ao volante, já tinha se cansado de reclames e anúncios. Baixou o vidro da janela e estendeu o braço para fora para bater as cinzas. O vento entrou mais forte no carro.
Naquela primavera de 1958, os dias eram claros e já bastante quentes no interior paulista, com uma brisa tão breve e ocasional que parecia soprar apenas para deixar saudades. Mas Jorge não podia ter escolhido um dia melhor para a decisão que tomara ainda naquela manhã, ao despertar no pequeno apartamento onde vivia, no centro de São Paulo: naquele dia, compraria a casa.
Ao entrar em Araraquara, tentou reconhecer as ruas por onde circulava. Cruzou com um ou outro Fusca, algumas bicicletas e até uma charrete que levava um homem e duas crianças. Ao passar pela praça Pedro de Toledo, precisou parar no cruzamento para deixar um trólebus seguir adiante. Velhos sentados em banquetas nas calçadas, mulheres puxando os filhos pela mão na saída da escola e até balconistas dos comércios interrompiam o que faziam para observar o carro francês e seu distinto motorista.
Depois de atravessar o centro da cidade e cruzar a linha do trem, Jorge se embrenhou pela Vila Xavier.
Foi ali que a avistou.
A casa não se distinguia muito das demais daquele quarteirão. Parecia espaçosa, mas claramente não era nova. A pintura amarelada da fachada sem recuo apresentava rachaduras e descascados. Num patamar um pouco acima do nível da rua, uma larga janela com venezianas de madeira se impunha acima da calçada, enquanto um portão de grades baixas demarcava o início da garagem que, desprovida de automóvel, servia como varanda, com piso de cacos vermelhos, duas cadeiras de vime e algumas plantas espalhadas ao redor. A do vaso maior estava seca.
Jorge reduziu a velocidade.
Foi então que viu a placa de madeira pendurada ao lado do portão. As belas e espessas letras cursivas, traçadas em tinta preta, anunciavam:
“Propriedade à venda: tratar com Pinheiro — Compra, Venda e Aluguel de Casas, Terrenos e Galpões”.
O coração de Jorge acelerou. E ele dirigiu de volta ao centro da cidade, rumo à imobiliária.

Ao ver o carro forasteiro se aproximando, Seu Pinheiro — um senhor de cabelos brancos, barriga mais que saliente e impecavelmente vestido numa camisa branca ajustada dentro da calça social — abandonou a posição que ocupara durante boa parte da manhã, recostado ao batente da porta enquanto folheava o jornal local, e sussurrou para a moça de óculos e cabelos loiros que lia uma revista de “astros da TV”:
— Regina, bata qualquer coisa nessa máquina. Vamos, já!
— Mas escrever o quê, Seu Pinheiro?
— Qualquer coisa… uma carta para o seu namorado.
Regina riu.
— Mas ele mora aqui na esquina.
— Então inventa alguma briga. Vai!
Jorge não era nenhum rapazote, mas ainda chamava atenção das mulheres — moças ou senhoras. Tinha boa estatura, era esbelto, vestia-se bem, sem exageros, e, embora vários fios brancos trouxessem um tom grisalho aos cabelos, o bigode permanecia todo preto, contrastando com os pequenos olhos azuis.
Ao entrar no estabelecimento, ouviu a voz rouca do velho em meio aos estalidos da máquina de escrever:
— … Por conta da alta na cotação da moeda norte-americana, vemo-nos obrigados a recusar a proposta inicial de vossa senhoria…
— Com licença, boa tarde. O senhor é o Seu Pinheiro? — Jorge interrompeu o pretenso ditado sem qualquer constrangimento.
— O próprio! Em que posso lhe ser útil?
Regina pareceu não perceber de pronto que a encenação exigia agora um pequeno intervalo. Continuou datilografando aleatoriamente por mais alguns segundos, misturando enfado e curiosidade no rosto.
— O senhor pretende alugar, comprar… Regina, está ótimo por ora. Continuamos as correspondências depois.
As teclas silenciaram. Regina assentiu com a cabeça e voltou à revista, embora agora passasse as páginas bem mais devagar.
Seu Pinheiro apontou para a cadeira diante da mesa:
— Sente-se, não faça cerimônia. Diga, como posso ajudá-lo?
Mas antes que Jorge respondesse, o corretor estreitou os olhos e completou:
— O senhor vai me perdoar, mas olhando assim pra sua feição… O senhor não tem cara de quem aluga. Busca alguma coisa pra comprar, acertei?
— Bom, se eu encontrar a casa certa… — respondeu o forasteiro, limpando o suor da testa com um lenço.
— Ah, mas então o senhor veio ao lugar certo e está falando com a pessoa certa, o que já é um excelente começo! Temos algumas ótimas opções que entraram na semana passada. Arrisco dizer que procura uma casa de campo… talvez uma chácara pra trazer a família nos fins de semana, certo? É verdade, faz calor por essas bandas, mas não há nada como o ar puro do interior!
Pinheiro abriu um sorriso satisfeito.
— O senhor não imagina quantos paulistanos aparecem aqui atrás disso.
— Na verdade, Seu Pinheiro, me interessei por uma casa ali depois da linha do trem. Vila Xavier, não é isso? Uma casa creme, bem no miolo do bairro.
— Na Vila Xavier…
— Isso.
O sorriso do corretor diminuiu aos poucos.
— Ah. Claro. A casa da Dona Melânia — disse o velho.
Pinheiro se voltou para Regina, que ergueu os olhos da revista por cima dos óculos. As sobrancelhas dela subiram num movimento breve, quase resignado.
— O que foi? A casa tem algum problema? — perguntou Jorge.
— Não, não… problema nenhum. É só que a propriedade anda meio caída. Tenho outra no mesmo bairro que entrou esses dias, já reformada, muito mais apropriada pro senhor…
Jorge apoiou os braços na cadeira.
— Ah, Seu Pinheiro, não queira me enrolar. Acho que sei melhor do que o senhor qual é a propriedade certa pra mim. Quero comprar aquela casa. Qual é o problema? O senhor não quer vendê-la?
— Não é isso, de maneira nenhuma. Eu adoraria vender aquela propriedade. Afinal, já faz uns cinco anos que ela está encalhada. — O corretor pigarreou antes de continuar. — Deixe eu lhe fazer uma pergunta: quanto o senhor estaria disposto a pagar por ela?
Jorge franziu a testa.
— Mas que conversa é essa, Seu Pinheiro? O senhor costuma fazer negócio desse jeito? Ora, diga logo o preço. Se eu achar justo, pago.
— Não, por favor, o senhor me entendeu mal — apressou-se o velho. — Só quero saber quanto o senhor acha que aquela casa vale.
— Não sei… vinte e cinco mil, talvez trinta mil cruzeiros no máximo.
Pinheiro assentiu.
— O senhor parece entender dos preços daqui — atestou o corretor. — Mas infelizmente está bem longe do que Dona Melânia quer pela casa.
— E quanto ela está pedindo?
— Cento e cinquenta mil.
Jorge soltou uma gargalhada, mas se conteve ao perceber que o corretor permanecia sério.
— O senhor só pode estar brincando. Quem coloca um preço desses numa casa daquelas? Essa mulher perdeu o juízo?
Pinheiro baixou um pouco a voz:
— Bem… o senhor está chegando perto.
Regina interrompeu o folhear da revista.
— Dona Melânia perdeu o único filho faz alguns anos — prosseguiu o velho. — Um rapaz muito direito. Foi tentar a vida na capital… Depois voltou sem muita explicação e passou a morar com a mãe outra vez. Então aconteceu uma tragédia. — O corretor hesitou. — Ele morreu naquela casa.
Por um instante, ouviu-se apenas o ventilador girando lentamente.
— Depois disso, Dona Melânia nunca mais foi a mesma. Quando apareceu aqui querendo vender a casa, pensei que pretendia ir embora da cidade. Recomeçar a vida. Mas com esse preço… — ele fez uma pausa, abrindo os braços. — Acho que, no fundo, ela não quer sair de lá.
— Mas ninguém nunca vai comprar aquela casa desse jeito.
— Ah, isso o senhor não precisa me dizer — rebateu o velho. — Sabe quantas propostas razoáveis ela já me fez recusar? Pelo menos, sete.
Após um breve silêncio, o corretor recuperou parte do entusiasmo:
— Mas não se preocupe! Tenho outras propriedades excelentes que talvez interessem ao senhor…
— Não… Eu me interessei justamente por aquela casa — redarguiu Jorge, levantando-se devagar. — Será que eu poderia falar com ela? Talvez alguém de fora consiga botar um pouco de juízo na cabeça da velha.
Seu Pinheiro suspirou.
— Bom… se o senhor quer tentar, fique à vontade. Pode ir até lá agora mesmo. Vou telefonar avisando que existe um comprador interessado. Mas já adianto que provavelmente a viagem será perdida.
Jorge pegou o chapéu.
— Pois saiba o senhor que eu também não entrego os pontos com facilidade.
Enquanto ele caminhava em direção à porta, Pinheiro falou para Regina:
— Telefone pra Dona Melânia e diga que um cavalheiro interessado na propriedade dela está indo até lá agora mesmo. E diga também que é bom ela receber o homem com um sorriso no rosto e um refresco na bandeja, porque não vamos manter aquela casa nos nossos registros pra sempre.

Quando o Simca Chambord estacionou diante da casa cor de creme, Jorge percebeu uma silhueta pequena e franzina observando a rua por trás da cortina da janela da frente. O forasteiro buzinou duas vezes, fingindo não notá-la, e saiu do carro sorrindo.
Dona Melânia apareceu na varanda e foi logo dizendo:
— Seu Pinheiro avisou que vinha um interessado na casa. Mas não falou seu nome.
— Jorge — respondeu ele, tirando o chapéu. — Vim porque gostei muito da propriedade.
A velha estudou seu rosto por alguns segundos antes de responder:
— O senhor é bem-vindo. Mas imagino que o Pinheiro já tenha lhe falado do preço.
— Falou.
— E mesmo assim veio.
— Gosto de conversar antes de fechar negócio.
Ela abriu o portão sem demonstrar surpresa.
— A conversa é de graça. Mas saiba que no preço eu não mexo.
Jorge deu um sorriso ainda maior enquanto cruzava o portão.

Por dentro, a casa era mais escura do que parecia da rua. E abafada. Os móveis antigos ocupavam os cômodos com uma solenidade silenciosa. Havia cheiro de madeira, pano guardado e chão encerado.
Ao passar pelo pequeno vestíbulo, Jorge pousou a valise sobre um banco. Tirou o chapéu, pendurou-o no mancebo e, quase sem perceber, ajeitou o cabelo diante do espelho.
Então notou o crucifixo refletido atrás de si. Ficou olhando por um instante mais longo do que deveria, até que um breve e inesperado calafrio lhe subiu pela espinha, e ele se voltou para a proprietária, que o observava.
— Pode se sentar — disse Dona Melânia, já seguindo em direção à sala.
Jorge acomodou-se num sofá de madeira e estofado bege. A velha tomou lugar na cadeira de balanço no canto do cômodo.
A cadeira rangeu uma vez.
— É uma bela casa — disse ele, olhando ao redor.
— Sempre foi.
Silêncio.
— O senhor tem família em Araraquara? — continuou ela.
— Não. Na verdade, não tenho família em lugar nenhum.
Ela assentiu, como se aquilo confirmasse a impressão que o interlocutor lhe passava.
— E o que trouxe o senhor até aqui?
Jorge demorou um pouco antes de responder:
— Passei anos viajando pelo interior a trabalho. Conheci muita cidade nesse país. Mas algumas casas… a gente reconhece na hora.
Dona Melânia parou o balanço da cadeira.
— Reconhece? — ela questionou.
— A senhora nunca sentiu isso? Sabe do que estou falando?
Ela não respondeu de imediato.
— Sei — atestou, por fim.
Após um instante, Jorge esboçou um sorriso antes de declarar:
— Quando vi esta casa, pensei: é ela.
A velha sustentou o olhar dele por tempo suficiente para tornar o silêncio desconfortável.
— O senhor fala como se a casa fosse uma pessoa.
Jorge não sabia o que responder.
Então a cadeira voltou a ranger, e Dona Melânia continuou:
— Eu entendo o senhor, também gosto muito dessa casa. É por isso que peço um valor justo…
— Mas, ora, Dona Melânia, convenhamos… Uma casa dessas, a senhora não pode…
Dona Melânia se levantou abruptamente.
— Imagino que o senhor não pretenda pagar o valor que estou pedindo, então não há por que…
— Pretendo! — declarou ele, antes que ela lhe desse as costas.
Ela ficou imóvel.
— Os cento e cinquenta mil?
— Sim.
Agora foi Dona Melânia quem demorou a responder. Mas um sorriso lento apareceu em seu rosto pela primeira vez.
— Talvez o senhor seja mesmo a pessoa certa para esta casa! — decretou ela. — Bom, então não faça cerimônia, pode usar o telefone e dar a boa notícia ao Seu Pinheiro. Sei que ele vai gostar. O número está anotado do lado do aparelho. Vou buscar uma limonada geladinha para celebrarmos. E aproveito e lhe conto a história desta casa.
Jorge se levantou e assentiu com a cabeça.
Do outro lado da linha, Seu Pinheiro estava incrédulo:
— O senhor está falando sério? Vai mesmo pagar os cento e cinquenta mil?

Quando Dona Melânia voltou da cozinha, Jorge já estava outra vez sentado no sofá, enxugando o suor da testa com seu lenço. Ela lhe entregou o copo de limonada, retomou o lugar na cadeira de balanço e ficou alguns instantes observando o homem à sua frente antes de falar:
— Esta casa sempre foi muito especial pra mim. Foi meu pai quem construiu. Cresci aqui, me casei aqui… e aqui criei meu filho, Fernando.
A cadeira rangeu suavemente. Dona Melânia prosseguiu:
— Quando meu marido morreu, ficamos só eu e Fernando. Ah, como eu gostava daquele menino…
Jorge tomou um gole da limonada.
— Seu Pinheiro comentou alguma coisa sobre ele — murmurou o forasteiro. — Sinto muito.
Dona Melânia ergueu os olhos.
— E o que foi que ele lhe contou?
— Muito pouco. Só disse que houve uma tragédia.
Ela assentiu.
— Imagino que não seja possível guardar segredo numa cidade pequena dessas. Então prefiro que o senhor ouça a história de mim.
Jorge acomodou-se melhor no sofá.
— Fernando sempre foi cheio de ambições — ela começou. — Ainda moço, resolveu ir pra São Paulo tentar a vida. Arranjou emprego em banco, me escrevia todo mês, mandava dinheiro… Eu tinha orgulho dele. — O sorriso breve desapareceu do rosto da velha. — Mas, depois de quase três anos sem aparecer, voltou de repente numa noite. Trazia só uma pequena valise preta.
Jorge permaneceu imóvel, observando enquanto a velha seguia com a história.
— Meu filho estava diferente. Nervoso. Quase não saía de casa. Passava os dias lendo, ouvindo rádio… sempre assustado com alguma coisa.
A cadeira tornou a ranger.
— Até que, certa madrugada, ouvi Fernando discutindo com um homem na sala. Ele gritava: “Já disse que não está comigo!”. Então ouvi o tiro.
Dona Melânia passou os olhos pelo cômodo com uma paciência demorada antes de continuar:
— Quando cheguei aqui, o corpo dele estava caído bem diante desse sofá onde o senhor está sentado agora.
Jorge voltou os olhos para o chão.
— No dia seguinte, apareceu um inspetor vindo da capital. Disse que Fernando tinha se metido com gente errada. Que havia participado de um assalto a banco e fugido com mais de quinhentos mil cruzeiros numa valise preta. — Ela fez uma pausa antes de prosseguir. — O inspetor perguntou se eu sabia do dinheiro. Se tinha visto a tal valise.
Silêncio.
— E o que a senhora respondeu?
— Ora, que não!
Jorge ergueu os olhos pela primeira vez desde o começo do relato. Dona Melânia alcançou um leque na mesa de canto e começou a se abanar com calma.
— Enterrei meu filho… e botei a casa à venda.
Jorge terminou o último gole da limonada.
— É uma história e tanto…
— É. — Ela cruzou as mãos no colo. — Mas sempre tive uma curiosidade.
Jorge esperou.
— O senhor acha que cento e cinquenta mil cruzeiros bastariam pro banco esquecer essa história?
Ele deu um pequeno sorriso.
— A essa altura, o banco já deve ter dado o dinheiro por perdido.
— Foi o que imaginei — ela respondeu, abanando o leque um pouco mais rápido. — Isso me tranquiliza.
Jorge apoiou o copo vazio sobre a mesa de centro.
— E a polícia nunca voltou? — ele quis saber.
— Não.
— Nem desconfiaram da senhora?
Dona Melânia pareceu sinceramente surpresa.
— De mim? Por quê?
— Porque a senhora disse ao inspetor que nunca tinha visto a valise.
Ela fez uma pequena pausa. Pôs o leque de lado e voltou a se balançar na cadeira.
— E nunca vi.
— Mas Fernando chegou aqui com ela. A senhora mesma disse quando contou a história agora há pouco.
A velha abriu um pequeno sorriso.
— É verdade. Ela deve continuar em algum canto desta casa. Eu não tinha interesse nisso… — Ela deu um suspiro. — Preferi deixar a valise para o homem que matou meu filho.
Jorge observou a cadeira de balanço se mover com lentidão.
— A senhora é mais esperta do que parece — declarou ele, pigarreando.
— Não precisei ser esperta. Só paciente.
Pela primeira vez desde que entrara na casa, Jorge pareceu desconfortável.
Dona Melânia continuou:
— Eu tinha certeza de que, cedo ou tarde, ele apareceria. Um dinheiro desses não fica abandonado para sempre.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Só não imaginei que demoraria tantos anos.
O sorriso desapareceu do rosto de Jorge. Sua garganta estava áspera. O ambiente agora lhe parecia ainda mais abafado, e o pequeno lenço já não conseguia mais absorver seu suor.
— E o que a senhora pretende fazer agora? — Jorge interrompeu a frase para tossir. — Chamar a polícia?
— Não.
A resposta veio calma demais.
Então Dona Melânia, com um gesto discreto, apontou para a bandeja sobre a mesa.
Jorge olhou para o copo. Seu rosto perdeu de vez a cor.
— Veneno? — perguntou ele.
— O suficiente.
Ele tentou se levantar, mas as pernas vacilaram antes mesmo que ficasse em pé por completo. Cambaleou até o centro da sala e caiu de joelhos diante da velha.
A respiração saía curta.
Dona Melânia levantou-se sem pressa, foi até o telefone e discou um número.
— Seu Pinheiro? É Melânia.
Ela observou Jorge erguer o braço, num derradeiro pedido mudo por ajuda, antes de baixá-lo de vez.
— Pode manter o anúncio da casa — continuou ela. — Sim, o comprador desistiu.
Dona Melânia desligou o telefone e se sentou outra vez.
A cadeira voltou a ranger.
Conto adaptado a partir do episódio “The Right Kind of House”, da série de TV Alfred Hitchcock Presents.
Este conto foi escrito ao som de…



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